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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

De Carbonos, Educação, Pais e Filhos


Recentemente, experimentei o quanto a realidade das propagandas das escolas privadas está distante do que acontece nas salas de aula.  Apresentei-me para estudar Química Orgânica a minha filha (uma atitude a la fois nostálgica e prazerosa). Ao começarmos veio o sentimento de que, a despeito de ser uma excelente aluna com notas invejáveis, ela talvez não estivesse percebendo o porque de tanta ênfase no Carbono como objeto de estudo. Mas afinal de contas,  porque essa celebridade toda para um só elemento?

Percebi que ela se apressava em memorizar as inúmeras propriedades do Carbono, com seus nomes nada elementares, mas lhe escapava a essência, a intuição, a motivação que estava por trás daquilo tudo. É essa essência, no entanto, que quando se captura não se esquece jamais. Ela que motiva o aprendizado. É ela que dá sentido e nos aproxima dos fenômenos físicos, químicos e biológicos, mais complexos que permeiam nossas vidas. Isso é que faz a ciência bela.

Esse fato já me deu uma indicação de que poderia haver uma deficiência no ensino e assim, convidei-a a descobrir comigo qual a intuição que estava por trás da preponderante posição do Carbono. Tinha certeza que haveria material didático destinado a isso. Estava enganado. O material didático curricular era de uma pobreza sem tamanho. Apostilas anônimas continham textos simplórios com várias categorizações das propriedades do Carbono e só. Nem um livro havia.

Vai Vestibular, vem ENEM, e nosso sistema educacional continua voltado à memorização de fatos, nomes, fórmulas, etc. As escolas, ditas melhores, são as que melhor se adaptam a esse contexto. Fica difícil gostar de estudar. O apelo que as surpresas trazidas pelas descobertas científicas e pela abertura de horizontes que provoca não podem deixar de ser conhecidas. Têm um poder fantástico de entusiasmar a todos e aos jovens em particular.

E  quanto ao Carbono? Se sentirem-se curiosos, busquem descobrir com seus filhos, netos ou jovens que os rodeiam na Internet. Foi o que fizemos e, garanto-lhes, é  fascinante. 

* P.S Artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de hoje

terça-feira, 4 de outubro de 2011

“Escolas: menos empresa, mais educação!”

O título deste artigo reproduz um apelo feito no Twitter e que me chamou a atenção pela pertinência. Numa época em que abundam pela cidade propagandas patrocinadas pelas escolas privadas de Fortaleza sobre suas (discutíveis) façanhas em exames disto e daquilo, refleti sobre o que se espera que nossas escolas eduquem. Lembrei-me imediatamente do festival de falta de educação que se vê no trânsito frente às escolas, diariamente, nos horários em que pais vão transportar seus filhos. Há desde o desrespeito ao trânsito até agressões e discussões entre pais. Justamente o local onde deveria se aprender o certo, pratica-se diariamente o errado.   

Permitam-me compartilhar algumas experiências que tive quando de minha estada em outros países. Na Califórnia, no primeiro dia que fui transportar minha filha à escola, vi um senhor organizando o trânsito com um grupo de crianças (alunos da escola) de 6 a 9 anos que usavam coletes de trânsito e indicavam onde as pessoas deveriam parar. Na reunião de pais e mestres descobri que se tratava do diretor da escola. Na França, minha experiência foi similar. A escola tinha um local de estacionamento distante da entrada e todos tinham que deixar os carros lá e caminhar com a criança até a entrada. Nada de querer parar na porta da escola como é hábito aqui. A diretora da escola também participava do controle do trânsito.

Isso não é óbvio? Não há melhor momento e local para aprender a como se comportar no trânsito do que na chegada e saída da escola. E ainda por cima, há alguém com mais moral para fazer o controle do que o responsável máximo pela escola e as próprias crianças? O fato é que nesses países está muito claro de que a missão da escola é também educar cidadania, e isso deve envolver os pais, que devem ser responsáveis pelos bons exemplos. Esperar que a criança entre na sala de aula para só então ser educada, dissociada do contexto e da sociedade em que vive, é totalmente imbecil.

Querer que isso faça parte do rol de atividades de nossas escolas, em especial das privadas, é demais? Embora isso não seja cobrado no ENEM, no ITA, no vestibular ou seja lá no concurso que for, como acho que deveria ser cobrado pela sociedade, faço meu, o apelo feito no título.  


* Artigo escrito no Jornal O Povo de hoje

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Educação Cidadã pelo Exemplo

Segui por meio de matérias jornalísticas a iniciativa da Prefeitura de Fortaleza que, através de funcionários da AMC, busca ensinar aos Fortalezenses a fazer fila nos terminais de ônibus.

Uma medida inovadora que gerou reações diversas. Alguns, dentre os quais me incluo, acham-na salutar. Outros são contra, pois consideram-na improdutiva e  que esse nível de comportamento básico deve ser atingido com a punição dos que desrespeitam.  

O conceito de cultura cidadã está fundamentado na capacidade do Estado em mudar uma cultura que muitas vezes está permeada de vícios e que se formou, quase sempre, por falta de educação. Ou seja, cabe sim ao Estado a tarefa de educar e aqui refiro-me ao sentido amplo que certamente envolve a postura das pessoas nos lugares públicos como nos terminais de ônibus.
Evidente que o Estado não precisa e nem deve abdicar do direito de punir, o que também lhe é dado pela sociedade.  

Adiciono, no entanto, que um desafio tão grande quanto o de decidir “educar” o povo é escolher a forma certa de fazê-lo. E parece-me que aqui é se encontra a grande deficiência da Prefeitura de Fortaleza.

Primeiramente, deve-se compreender que as ações de disseminação da cultura cidadã devem ser intensivas, integradas e planejadas. É preciso criar um movimento, uma onda, quase uma moda. Isso não se consegue com ações isoladas.

Além disso, nos lugares onde a cultura cidadã foi implantada, o Estado tomou precauções para que as ações educativas persistissem e fossem devidamente apropriadas pelas pessoas. A forma básica do Estado fazer isso é dando o exemplo. Fazendo bem aquilo que deve fazer.

Por exemplo, pode-se fazer uma campanha educativa para não jogar lixo numa praça, se a própria praça não tem lixeiros? Pode-se querer que os motoristas dirijam corretamente se as ruas não têm suas vias devidamente pintadas? Pode-se querer que motoristas parem antes da faixa de segurança bem como querer que os pedestres as usem, se elas não estão marcadas ? Assim por diante.

A Prefeitura até pode continuar a fazer um trabalho educativo da sociedade, mas para que o mesmo seja efetivo, terá que fazer sua parte exemplarmente.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Uma Visão do Investimento em Educação dos Municípios Cearenses

Na quinta-feira 9 de dezembro, dia Internacional Contra  a Corrupção, fizemos, no Laboratório de Engenharia do Conhecimento, uma atividade simbólica para marcar nossa participação nesse dia. Juntamente com técnicos do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) e alguns jornalistas interessados, exploramos alguns dados abertos pelo TCM sobre prestação de contas dos municípios cearenses.

Além do aspecto simbólico, por ser uma atividade que dá apoio ao controle social, trata-se de uma metodologia inovadora, mas que tem tudo para ser de mais em mais usada. A tendência dos governos abrirem seus dados vai requer, cada vez mais, ferramentas para que a exploração desses dados seja feita por profissionais não especialistas. Mas enquanto essas ferramentas não estiverem popularizadas, a formação de equipes multidisciplinares em que profissionais de informática estejam envolvidos será necessária.

Vejam abaixo dois gráficos de resultados que obtivemos ao explorar os dados de empenho dos municípios na função educação. Calculamos o gasto em educação per capita, a partir da população de cada município divulgada pelo IBGE. O primeiro gráfico mostra os dez municípios que mais investiram per capita em educação no ano de 2010. O segundo mostra os que menos investiram. O curioso é que Fortaleza é a segunda pior. Só perde para Santana do Cariri. Menos de R$ 250,00 por habitante é investido em educação. Será que não podemos ir além?




segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Excessiva-qualificação

Vou chamar aqui de excessiva-qualificação quando uma pessoa tem uma qualificação acima daquela necessária para realizar suas atividades profissionais. Mas será que isso ocorre com frequencia? Não temos sempre ouvido falar de que o que ocorre é a falta mão de obra qualificada para ocupar cargos vagos no mercado? Claro que dependendo do País e do contexto, isso ocorre em diferentes proporções. Durante meu doutorado na França, há dez anos atrás, já convivi com esse fenômeno. Meus colegas franceses recém doutores não encontravam trabalho em universidades ou em empresas que faziam pesquisa e aí acabavam por se ocupar em atividades que exigiam minimamente de sua qualificação. Na Europa, havia (e ainda há) muito PhD disponível e o contexto de recessão que sempre rondou o Velho Mundo torna o processo de excessiva-qualificação um problema real. Evidente que, como já disse em textos anteriores (acesse aqui), a capacitação para pesquisa traz, além da qualificação técnica, uma formação adjacente que é ampla e útil para a resolução de problemas em geral, o que, sem sobra de dúvidas, pode ser aproveitada pelo mercado de diversas formas. Não há dúvida, no entanto, que isso nem sempre é simples de ser conseguido. Vale ressaltar que excessiva-qualificação não se refere somente a PhDs ou pessoas que estudaram muito. É algo bem mais abrangente. Semana passada estive conversando com algumas pessoas da Polícia Militar e da Guarda Municipal e vi claramente esse fenômeno presente. A febre de concursos públicos para cargos com salários atraentes e a estabilidade inerentes ao Serviço Público leva uma legião cada vez maior de pessoas com qualificação acima da necessária para o cargo a assumir cargos que lhes exigem bem menos daquilo que podem dar. Conversei com soldados e patrulheiros municipais que estavam extremamente desmotivados porque se achavam mal aproveitados nos seus trabalhos. Tinham que fazer nada motivadoras rondas de patrulha em prédios públicos ou em ruas e avenidas e só. Eles achavam que podiam render muito mais em outros setores e em outras atividades e que não eram percebidos. Tinham mágoas de suas Instituições. Quando lhes alertei que suas Instituições talvez necessitassem de gente para fazer exatamente o que lhes eram solicitados, percebi que passaram a compreender claramente que estavam em situação de excessiva-qualificação. Alguma receita? Não por mim. Os gerentes e as próprias pessoas que se encontram em situação de excessiva-qualificação devem buscar trilhar seus caminhos. E ainda, por favor, me entendam. Não estou querendo dizer que qualificações podem ser excessivas e que não devemos buscar tê-las. Na verdade, minha intenção foi só de introduzir o problema porque quero refletir sobre a relação entre Excessiva-qualificação e Crowdsourcing em um próximo texto. Confiram!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Exigência de Educação e Cultura Cidadã

“IBOPE: 70% dos brasileiros aprovam qualidade do ensino”. Esse é o título da matéria veiculada no Diário do Nordeste via Agência Estado sobre uma pesquisa feita pelo IBOPE em nove capitais brasileiras (Fortaleza, inclusive). Essa pesquisa (veja a matéria aqui) per si deveria nos obrigar a uma reflexão. Adicione-se a essa pesquisa, outra feita no ano passado com patrocínio da UNICEF chamada "Redes de Aprendizagem - Boas Práticas de Municípios que Garantem o Direito de Aprender". Esta pesquisa destacou cidades no País onde a rede municipal de ensino público funcionava bem. No entanto, um outro levantamento, feito há poucos dias, mostrou que do universo das 37 cidades premiadas, 21 não reconduziram os prefeitos ou seus candidatos para um novo mandato. Creio que as duas pesquisas se entrelaçam através de uma constatação trágica: nosso nível de exigência em matéria de educação é muito baixo e isso é um reflexo de nosso baixo nível de educação. Surpreenderia se fosse diferente. Educação não é algo absoluto que se pode facilmente dizer que se tem ou não tem. A própria percepção do que se tem por direito como cidadão é parte da educação. Vê-se aqui um ciclo vicioso que precisa ser quebrado. Vou voltar a bater na mesma tecla que tenho batido nesse blog quando falo da cultura cidadã (veja alguns textos aqui, aqui e aqui). Temos que ter uma visão mais abrangente de educação da população. Sempre que falamos de educação pensamos na escola e na sala de aula. É claro que essa educação formal é importante, mas há muita coisa que pode ser feita no dia-a-dia das pessoas e que poderia fazê-las mudar de comportamento e que passassem a agir de forma educada (mais civilizadas diriam alguns). O problema é que isso implica em uma mudança na nossa forma de governar também. É preciso sair da reatividade e passar a pró-atividade. É preciso considerar toda e qualquer oportunidade de contato com o cidadão como uma oportunidade de ensino e aprendizagem. É preciso transformar todos os agentes públicos em educadores em potencial. É preciso propor parcerias com a sociedade organizada numa cruzada pela ética, civilidade e comportamento coletivo. Isso evidentemente é muito difícil e os mais céticos diriam que com nossos políticos de hoje em dia isso fica impossível. A boa notícia é que um movimento desse tipo acaba ficando mais fácil nesse momento em que o País começa a conhecer um pouco de fartura. Uma economia estabilizada (que a crise internacional não me desminta) que gera melhor nível de renda, que oferece mais possibilidade de empregos e que permite ascensão social, é o momento ideal para que as pessoas se dediquem um pouco para o social. Não somente no sentido de ajudar os outros, mas também no sentido de perceber que é preciso fazer um pouquinho pela coletividade para que a sua própria vida seja melhor. Sem as condições mínimas, fica mais difícil qualquer discurso visando o coletivo, pois as necessidades individuais egoístas prevalecem. Se comerçarmos a fazer algo nessa direção, teremos melhor educação, até porque seremos mais exigentes.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Esporte e Sociedade

Instigado por um comentário de um leitor que me dá honra por sua presença neste blog, vou voltar a falar sobre esporte e educação. O comentário foi feito pelo mestre Roberto Bastos um estudioso do basquete mundial e acima de tudo com compreensão, como poucos, do papel do esporte em uma sociedade. Roberto em seus comentários ao texto em que falo de Internet e educação (clique aqui para acessá-lo e ao comentário completo de Roberto) pergunta
“Na sua recente viagem a Europa não viste nada relacionado ao esporte? que tenha ajudado o ser humano a ser melhor através do esporte?”, “Será que esse jogo(o basquete) não melhora o homem em todos os sentidos? Não seria bem mais fácil de aprender dividir, multiplicar, somar,diminuir?”.
É claro que sei que ele já sabe minha resposta, mas não custa nada reiterá-la. Não há menor dúvida que o esporte é capaz sim de tornar as pessoas melhores. Os esportes coletivos, como o basquete, então, são particularmente relevantes para desenvolvimento de aptidões essenciais nos dias de hoje a qualquer profissional: trabalho em equipe, relacionamento interpessoal, liderança, controle emocional e competitividade. Não é novidade para Roberto, como também para grande parte da população, de que precisamos dar uma nova dimensão ao esporte através da educação como já tinha mencionado nesse texto aqui escrito logo após os jogos olímpicos. Agora, é ainda mais relevante entender que é preciso que o esporte tenha uma dimensão maior na sociedade como um todo. Algo muito na linha do que tenho escrito sobre a cultura cidadã (veja textos que escrevi sobre isso escrevendo "cultura cidadã"no espaço de pesquisa no canto superior esquerdo) em que a sociedade passa a participar mais ativamente da resolução de seus problemas em comum. Quando se fala de esporte tem-se uma grande vantagem porque ele tem a capacidade de entusiasmar, fazer sonhar, criar ídolos, enfim, mexe com o imaginário popular. Sentimentos que, quando bem trabalhados, podem fazer as pessoas melhores. Evidentemente, que há outro lado da moeda. Todo esse discurso é muito próximo de argumentos fascistas de preponderância de alguns sobre os outros, de uma classe ou de um tipo de gente sobre alguém. Algo do tipo “ é preciso vencer sempre”e “deve-se levar vantagem em tudo”. Aqui mora o perigo e de novo vem a lembrança de que esporte e educação devem andar juntos, para que o sentimento de respeito e admiração pela excelência prepondere sob a frustração de não ter sido o melhor. Isso não é fácil de jeito nenhum. Aliás, a própria sociedade americana, a qual constantemente está em meus comentários com exemplos positivos devido a seu nível de participação, solidariedade e educação, tem nos demonstrado com freqüência o quanto uma educação competitiva pode ter efeitos colaterais negativos como as matanças de jovens em escolas por colegas desequilibrados. De resto, seria muito bom que nossos prefeitos entrantes ou reentrantes começassem a pensar, e sobretudo, agir mais sobre tudo isso.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Informática! Eca!

Dado o momento de tanta euforia sobre a necessidade de se ensinar informática aos jovens e principalmente com a chegada da Internet nas escolas públicas, venho novamente refletir sobre o tema. Já tinha comentado da necessária cautela que devemos ter quando se fala sobre a questão no texto “Não alimentemos expectativas com o mito da internet nas escolas” (clique aqui para acessá-lo). Vou revisitar o tema de uma forma diferente, mesmo que em essência seguindo a mesma linha da crítica e cautela. Decidi fazer uma pesquisa empírica (nada, nada científica) e com uma amostragem bem reduzida com alguns doutores em informática. A pesquisa foi bem simples. Fiz duas perguntas (só duas! A hora de um doutor é cara!!!), baseado no caderno de informática que minha filha de dez anos usa nas aulas em uma escola particular em Fortaleza. A primeira pergunta era sobre o software Paint (instalado em qualquer microcomputador que tenha o Sistema Operacional Windows): “ Qual (is) tecla(s) devemos pressionar para aumentar a ferramenta apagador?”. A outra pergunta era sobre o Microsoft Word (também proprietário da Microsoft e que funciona sob Windows). “Descreva os passos que devem ser seguidos para a inserção de uma figura em um texto”. As respostas dos doutores foram diversas, mas em um ponto coincidiram: não sabiam responder ou erraram a resposta. A diversidade da resposta deu-se ao fato de que me perguntavam se eu estava brincando ou se estava doido. Sabem por quê? Simplesmente pelo fato de que não tem o menor sentido estudar informática dessa forma. Absolutamente emburrecedor e imbecilizante. Pobre de minha filha (tenho o maior trabalho em não desmotivá-la). Não é a toa que cada vez mais temos menos jovens querendo fazer informática. Voltando a questão de porque essa é uma forma errada de ensinar informática. Há várias razões. A primeira é que ensinar o uso desses softwares é totalmente irrelevante. Eles nunca devem ser o fim de um estudo. Eles são o meio. Era como se quiséssemos fazer um curso sobre o pincel, a caneta, o projetor, etc. Trata-se de ferramentas. A melhor forma de aprender a usá-los é, simplesmente, usando-os. Poucos são os softwares que valem a pena o estudo de per se. E mesmo desses, cobrar a memorização de seus comandos e ainda mais a sequência desses é impensável. A segunda pergunta sobre os passos que devem ser seguido no Word é facilmente respondida por qualquer um que use o Word ao fazê-lo. Isso é naturalmente recuperado da memória na hora de fazer. E mesmo os que não têm o hábito de usar um determinado software, acabam por conseguir realizar as tarefas por tentativa e erro. Isso é ainda mais comum em se tratando de jovens que são curiosos e não têm medo de tentar. Para finalizar, vale pena registrar a declaração de minha filha: “a única aula legal em informática é quando a “tia” deixa livre para fazer o que a gente quer!”. Temos ainda muito o que fazer no âmbito educacional para termos efetividade no ensino da informática. Caso contrário, atrapalha mais do que ajuda.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Falta de Estrutura no Esporte

Os resultados obtidos pelos atletas brasileiros nas olimpíadas de Pequim são bem emblemáticos de nossa maior deficiência como nação: fraco sistema educação. A pouquíssima estrutura no esporte é só mais uma face dessa deficiência. Os países que têm bom rendimento nas competições esportivas, o fazem porque aliam o apoio ao desenvolvimento esportivo à estrutura educacional tanto no ensino médio, como no ensino universitário. Nós nunca conseguimos ter essa visão. Quando conseguimos nos sobressair em alguma competição é sempre fato isolado de uma dedicação pessoal. Nada de induzido ou esperado em função de um trabalho ordenado. Tomemos natação e atletismo, dois exemplos diferentes de onde conseguimos ouro e que nos remetem sempre a mesma conclusão da falta de estrutura do esporte na escola. A natação e mesmo os esportes aquáticos em geral sempre foram de elite no Brasil por motivos óbvios: falta de infra-estrutura para uma popularização. Não há piscinas em escolas e o esporte vive de uma classe média alta que pode freqüentar clubes esportivos e comprar materiais sofisticados para competição. Já no atletismo, em minha opinião o mais nobre de todos os esportes, o problema maior nem é a infra-estrutura. Não se precisa de muita para fazer jovens praticar a grande maioria das modalidades como correr e saltar. É só falta de apoio. Não há mágica! Só se descobre muitos talentos quando há uma forte oferta de candidatos a tal. Isso só se consegue com programas fortes de popularização e é exatamente essa a fórmula do sucesso do futebol. Como todo brasileiro joga futebol, se descobre talentos a todo o momento. Mas não se pode esperar que isso aconteça a torto e a direito para todo e qualquer esporte. É aí que entra a escola como fator de disseminação de esportes menos conhecidos, popularização dos mesmos e, assim, descoberta de novos talentos. Nos esportes coletivos, a mesma regra se aplica. O vôlei é uma exceção que confirma a regra. Um movimento de popularização se criou pela admiração de jogadores de uma geração vencedora e pelo vôlei de praia que encontrou um ambiente propício(inclusive pela questão climática e geográfica) para crescimento no País. Não creio estar falando nenhuma novidade como aliás é fato para boa porte dos nossos problemas. Os diagnósticos já são conhecidos. A questão é que é preciso fazer acontecer. Nõa vejo nenhuma indicação de que isso está a acontecer. Bem que poderíamos vincular isso a Olimpíada de 2016 que queremos abrigar.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Learnissimo: Professor de Língua na Web

Esse site de iniciativa de um francês é outro bom exemplo de inovação na web. Trata-se de um ambiente de aprendizado de línguas pela web baseado em vídeo-conferência. Cinco línguas são ensinadas por meio de conversações entre professores e alunos. Com learnissimo (www.learnissimo.com) é possível ter um aluno no Brasil estudando alemão com um professor na Polônia ou estudando espanhol com um aposentado na Argentina. O preço, para padrão brasileiro é bem salgado. Cada meia hora de aula varia de 5 a 15 euros. Mas quando se sabe que o investimento inicial do site por fundos de capital de risco foi de 200 mil euros, até que não dá para achar tão caro. O português ainda não está entre o rol de línguas ensinadas. Vejam na figura abaixo que mesmo a previsão de novas línguas não inclui o português(clique na figura se quiser aumentá-la). Seria falta de professores ou de alunos interessados?

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Não Alimentemos Expectativas com o Mito da Internet nas Escolas

A minha recente viagem a Itália, mais especificamente a Natz, uma pequena cidade meio italiana meio alemã, me fez refletir novamente sobre a questão da Internet nas escolas. Em Natz, visitei uma escola primária (não sei muito bem se é essa a categorização oficial de hoje em dia, mas enfim, escola para crianças de até 12 anos). Lá percebi que eles não têm nenhuma estrutura especial de acesso a Internet. Têm um link que é usado esporadicamente quando a ocasião requer, mas não podemos dizer que usam a Internet com fins educacionais. É o final dessa frase anterior que me dá o mote à reflexão. Vejo hoje em dia no Brasil um discurso excessivamente entusiasmado, eufórico e quase alienado (e talvez alienante) do “levar a Internet às escolas”. Quase que unanimemente escuto de políticos, gestores públicos, mídia, até mesmo professores, enfim a sociedade em geral, clamar por esse objetivo, alçando-o a condição importante para a melhoria da educação nacional. Mas não consigo parar de me perguntar: será que devemos alimentar essa expectativa? Onde está o plano educacional para o uso da Internet nas escolas? Temos um projeto que articule o uso do computador para ensino e onde os professores saibam tirar proveito das potencialidades que o mesmo, ligado a Internet, pode aportar? Temos condição de dar às escolas infra-estrutura em termos de equipamentos e obras físicas para que todos os alunos usem o computador com a freqüência que seria suficiente para fins educacionais? Nossos professores são capacitados para o uso do computador como ferramenta educacional? Temo que a resposta para essas questões não nos permitam ficar tão eufóricos. Percebam que não estou querendo dizer que não devamos perseguir o objetivo de levar Internet às escolas. Só que quero esclarecer que sempre que penso no “levar a Internet para as escolas” gosto de adicionar o “com fins educacionais”. Usar a Internet de per si não me parece uma atividade que requer ensino e deva estar em currículos escolares. Os jovens aprenderão a fazer isso em casa, em cyber cafés, clubes, na casa de amigos ou seja aonde for pela simples razão de que a web, principalmente através das redes sociais, se tornou uma nova forma de se comunicar (Orkut que o diga). Gosto sempre de dar exemplo de como seria interessante ter uma aula de geografia usando o Google Maps e o Google Earth. Fazer zooms em países, cidades, capitais, montanhas, calcular distâncias, verificar quem é vizinho de quem. Todos esses conceitos podem ser explorados de forma dinâmica e interativa. No entanto, um exemplo simples como esse seria dificílimo de ser implementado na maioria de nossas escolas com acesso a Internet (mesmo nas escolas privadas). Os professores não têm o domínio do computador, muitos não sabem nem o que é Google Earth, não há computadores suficientes para todos os alunos de todas as turmas de Geografia das escolas (e olhe que estou só na geografia), não há infra-estrutura de aterramento elétrico para instalar os computadores, a banda de transmissão de dados não é suficiente para ter vários acessos do Google Earth ao mesmo tempo, ufa! Vou parar por aqui. O fato é que esses problemas vão sempre ficando para depois e continuamos bradando que estamos batendo recordes de escolas ligadas a Internet. O presidente da FUNCAP (Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico), prof. Tarcísio Pequeno, tem mencionado que recentes avaliações sobre a qualidade dos alunos públicos, mostram que alunos de escolas com acesso a Internet não apresentaram rendimento superior aos que estudam em locais onde o acesso não existe (aliás, os rendimentos foram muitas vezes piores!). Em resumo, não quero ser muito amargo sobre a questão (mais do que já fui?!), mas talvez se tivéssemos uma campanha do tipo: "levemos o acesso garantido do aprendizado da tabuada e da redação às escolas", aí sim, me sentiria mais confortável em alimentar expectativas de bons resultados educacionais.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Pinturas Vivas

Tomei conhecimento de uma exposição super interessante na Coréia do Sul de pinturas famosas que interagem com o visitante. É uma experiência inovadora que está sendo usada para fins educacionais. A idéia é ensinar sobre as obras de arte, o contexto de seu aparecimento, seus criadores e mesmo curiosidades sobre a obra. A Mona Lisa, por exemplo, responde por que sua sobrancelha foi retirada. Ela “diz” que, na época da renascença, testas grandes eram consideradas padrão de beleza. Retirar as sobrancelhas era uma forma de dar uma impressão de aumento da testa. Acho a iniciativa genial. Aliás, toda iniciativa pedagógica que visa dar dinamismo e interatividade ao processo de aprendizagem é bem vinda. Veja a matéria original da CBS sobre a exposição clicando aqui.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uso de Preservativo e Valores Morais

Creio que a opinião pública brasileira, de uma forma geral, não tem dúvida de que os governos federal e estaduais têm obrigação de construir campanhas de esclarecimento à população quanto aos males que sexo sem proteção pode trazer, em particular com a transmissão do HIV. Em se tratando de um País laico, ou seja, onde não há intervenção da religião na estrutura legal e de poder político, não se pode esperar que o governo seja influenciado em sua política de saúde por questões religiosas. Mas será que essa questão é assim tão simples? Dado o calor do debate recorrente, pode-se perceber claramente que não. Embora algumas declarações intempestivas de uns e outros possam passar a impressão de que há radicalismos e intransigências (como declarações de religiosos pondo em dúvida a qualidade da camisinha como protetor), creio que o cerne da questão é que, neste debate está embutido um outro que versa sobre o quão um governo é responsável por disseminação de valores morais. O habitat tradicional de divulgação dos valores morais defendidos pelos religiosos é a igreja (ou templos), local onde os cultos ocorrem. Evidentemente que o trânsito da mensagem religiosa não se restringe a esses espaços. Os religiosos buscam a interação direta com a sociedade e há uma luta diária pela conquista do “fiel”. Nessa busca de disseminação dos valores morais que defende a igreja, os meios de comunicação de massa são um componente fundamental. Fica assim mais simples de entender o porquê das críticas veementes e recorrentes da igreja a forma como a mensagem governamental tem sido veiculada. As campanhas publicitárias dos governos ignoram totalmente o fato de que um comportamento sexual restrito a um parceiro ou mesmo a abstinência são igualmente formas de proteção contra transmissões de doenças. Tome, por exemplo, o slogan básico usado nas recentes campanhas: “Use camisinha!”. A igreja se queixa de que haveria aqui uma tendência a se desvincular toda e qualquer responsabilidade de se passar uma mensagem que comporte apoio a algum valor moral que possa ser considerado conservador. Afinal, o Estado tem ou não uma responsabilidade dessa natureza? Esse é o debate que me parece mais importante para o País e que temos obrigação a suscitá-lo. Os países ocidentais com sociedades mais amadurecidas encontraram seus caminhos. Em países laicos os valores morais são transmitidos nas escolas e se baseiam nos direitos fundamentais do ser humano. No entanto, quando se fala de um país que não consegue prover uma educação de qualidade para a maioria da polução, fica evidente de que existe um vácuo de educação moral e que contribui para incrementar as crises sociais que vivemos hoje. Precisamos encontrar o nosso caminho.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Cultura Cidadã às Avessas

Tenho recorrentemente mencionado a necessidade de políticas educativas para criação de uma cultura cidadã. A forma mais óbvia para se fazer isso é usar a enorme verba de propaganda dos governos para informar e educar. Infelizmente, isso não é a regra e quando se busca fazer algo, a mensagem passada é equivocada. O Governo do Estado do Ceará, por exemplo, lançou uma campanha de divulgação das empresas que mais pagam ICMS para mostrar que são as mesmas que pagam um determinado serviço público. Como já disse aqui neste blog anteriormente, o ICMS não é um imposto pago pela Empresa. Ele é pago pelo cidadão. A Empresa funciona apenas como repassadora do valor ao Estado. Ao invés de realizar um trabalho educativo nessa direção, o Estado acaba por induzir o cidadão a uma compreensão errada da questão, pois mostra a Empresa como responsável pela qualidade do serviço público. A mensagem é totalmente equivocada. Temos é que educar o cidadão a pedir a nota fiscal. Devemos informá-lo de que o dinheiro dele está sendo “emprestado” à empresa para repassar ao governo. No final das contas, o serviço público possui ou não recurso financeiro, dependendo da colaboração do cidadão que realiza as compras. Em se tratando de ICMS, ao pagá-lo, as Empresas só fazem a obrigação.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Moral, Cultura e Lei

Estava lendo um texto sobre a cultura cidadã no site do ex-prefeito de Bogotá por duas vezes Antanas Mockus (clique aqui para acessá-lo, em espanhol) e achei interessante revisitar alguns exemplos e conceitos. Antes, no entanto, lembro que já venho escrevendo sobre a cultura cidadã nesse blog (para saber mais, digite “cultura cidadã” no campo de pesquisa deste blog no canto superior esquerdo). Leis são normas criadas por uma sociedade com o objetivo de organizar a vida comunitária. Outros dois aspectos que andam pari passu com a lei são a moral e a cultura. Esses conceitos são bem conhecidos para quem estuda ética, mas no contexto da cultura cidadã de Mockus ganham um pragmatismo surpreendente. Vejam, por exemplo, quais foram as ações desenvolvidas no programa de educação no trânsito. Mímicos contratados para ensinar às pessoas a importância das faixas de pedestre explicavam teatralmente que o correto era atravessar na faixa e, aos motoristas, que aquele território pertencia aos pedestres. Com o passar do tempo, a própria população passava a repreender os transgressores com apitos e vaias. Se uma pessoa não era convencida a respeitar a faixa pelos mímicos, o povo nas calçadas a repreendia e, se ainda assim não funcionasse, vinha o guarda de trânsito para aplicar a multa. Essa seqüência representa os três mecanismos reguladores: a moral (representada pelos mímicos), a cultura (manifestada pela população vaiando) e a lei (personificada no guarda). Muito difícil conseguir emplacar leis e fazê-las obedecidas se não são suportadas pelos outros dois fatores. Em outro exemplo, o prefeito Peñalosa, que sucedeu Antanas Mockus e deu continuidade a política de seu predecessor, ao se referir sobre a recuperação de espaços públicos e suas formas urbanas, disse “em ambientes desordenados, as pessoas de boa índole (moral) se sentem minoria e não agem solidariamente. Por outro lado, um lugar bem-conservado dá a impressão de uma comunidade alerta(cultura), com cidadãos atuando em conjunto. Como a comunidade se conhece e interage nos parques, quadras esportivas e espaços públicos em geral, acaba ganhando uma cidade mais segura”. É claramente uma visão transversal e multi-disciplinar. Creio que não é preciso gastar muito argumento para convencer sobre o quanto essas idéias são interessantes. O grande desafio é ter capacidade de implantá-las.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Cultura Cidadã: É Preciso Conquistar as Escolas

Não é muito difícil achar exemplos no cotidiano de nossa falta de cultura cidadã. Não vou ficar enumerando-os a todo o momento, mas queria me deter a um exemplo que considero ilustrativo e excessivamente relevante da falta da cultura cidadã em um local que tem por obrigação ensiná-la: as escolas. Trata-se da postura da escola face à forma deseducada como os pais de estudantes se comportam no trânsito quando vão deixar seus filhos na escola. Vê-se um festival de maus exemplos. Como esperar que as crianças cresçam educadas? O pior é que nesse caso estamos falando exatamente de escolas que têm por objetivo ensinar. Vem-me sempre a mente os modelos dos países mais desenvolvidos. Quando cheguei na Califórnia, no primeiro dia que fui deixar minha filha de nove anos na escola, vi um senhor organizando o trânsito e logo pensei que fosse um servidor da escola como os que costumo deparar-me aqui (que por sua humildade, são incapazes de impor respeito e não servem de forma alguma para controlar o trânsito). Ele coordenava um grupo de crianças (alunos da escola) de 6 a 9 anos que estavam com coletes de trânsito e indicavam onde as pessoas deviam parar. Alguns minutos depois fui recebido por este Sr. e só então pude perceber que ele era o diretor da escola. Isso mesmo. O trânsito nos arredores da entrada da escola é controlado pelo diretor da escola com a ajuda das crianças. Isso não é óbvio? Claro que sim! Não há melhor momento e local para aprender a como se comportar no trânsito do que na chegada e saída do estacionamento da escola. E ainda por cima, há alguém com mais moral para fazer isso do que as próprias crianças? Ou será que os pais das crianças seriam tão mal educados que desrespeitariam até mesmo os(as) colegas de seu(sua) filho(a)? Creio que não. Até porque os pais saberiam que seus filhos também passariam por aquela atividade. Na França, minha experiência foi similar. A escola tinha um local de estacionamento distante da entrada e todos tinham que deixar os carros lá e se encaminhar com a criança até a entrada. Nada de querer parar na porta da escola como é hábito aqui. A diretora da escola também participava do controle do trânsito (embora menos ativamente que o diretor americano. Creio que só por uma questão de estilo). O fato é que nesses países está muito claro de que a missão da escola é também educar cidadania. Os muros da escola não podem ser limites para isso. Esperar que a criança entre na sala de aula para que ela possa começar a ser educada é totalmente imbecil. O que é mais lamentável é que nossas escolas privadas, que se vangloriam de ter qualidade de ensino, são as que mais se isentam de assumir um papel mais ativo nesta educação integral que, talvez, seja a que mais faça falta ao nosso país.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Material Didático e Ideologia

“O projeto de modernização do “Governo das Mudanças” não beneficiou a maioria da população. Muitos reclamavam da fome, da falta de moradia, desemprego, carência de assistência médica, aumento da violência, falta de escola pública de qualidade e alimentação básica. Apesar das mudanças, o governo centralizou o poder político e favoreceu a concentração de renda A quantidade de pessoas morando e trabalhando nas ruas cresceu. O número de crianças trabalhando aumentou e, mesmo com a ampliação das vagas nas escolas públicas, a qualidade do ensino não melhorou”. Você sabe de onde vem esse texto? Do livro didático de história Construindo o Ceará que é usado no Colégio Christus para alunos que em média têm nove anos de idade (dentro os quais minha filha mais nova faz parte). Esse texto levou-me a duas reflexões. O primeiro ponto a se refletir é, obviamente, sobre o conteúdo da informação veiculada no livro. Não quero entrar no mérito pontual de cada afirmação, mas não creio que seja difícil concordar que elas são no mínimo discutíveis. Apresentá-las de uma forma tão afirmativa para uma audiência com baixo poder de crítica, acho por demais cruel e injusto. Baseado em que estudo pode-se dizer que o projeto de mudanças não beneficiou a maioria da população? Sob que ponto de vista? A qualidade da educação piorou em relação a que época? Ora, se havia um contingente enorme de jovens que nem freqüentavam a escola e que passaram a fazê-lo, principalmente a partir de 1997, como se pode dizer que a qualidade diminuiu? Somente em relação ao ensino médio, o incremento em dez anos foi de 179%! Esses alunos tinham nível melhor quando estavam fora da escola? No próprio período do governo das mudanças verificou-se mudança nos índices de qualidade da educação. Tive acesso a alguns dados do Sistema de Educação Básico coordenado pela Secretaria de Educação que mostram índices bem contraditórios com a afirmação feita no livro. A taxa de abandono, por exemplo, reduziu 4% em 10 anos. O índice de reprovação também diminuiu cerca de 20%. Poderia discordar de todas as afirmações feitas no texto. Não se trata aqui de dizer que não tenha havido deficiências do governo das mudanças. É claro ainda que o nível de nossa escola pública está longe de ser aquela que queremos. Só acho que a forma como as informações foram colocadas é claramente tendenciosa. Caberia uma linguagem que tivesse o objetivo de gerar reflexões nos alunos. Colocar as coisas de forma mais contextualizada, apresentando mais informações e que as mesmas pudessem levá-los a tirar as próprias conclusões, se não agora, no futuro. Deve-se mostrar as crianças que as carências de nosso Estado são muito grandes e se acumularam com o tempo. Mesmo se algumas melhorias são feitas elas não são suficientes para erradicá-las. Mostrar que se cada governo der sua contribuição, teremos certamente um futuro melhor. É essa a mensagem que tenho tentado passar a minha filha. Infelizmente, tenho ainda outra mensagem a passar que não achei que seria necessário: sou obrigado a alertá-la que o material didático que usa não é tão confiável e que procurar diversas fontes e perspectivas sempre vai auxiliar na sua formação. A segunda reflexão que o texto me levou refere-se à falência de nossas instituições públicas como já mencionei em alguns textos passados neste blog. Seria responsabilidade do Conselho Estadual de Educação avaliar e validar o uso do material didático a ser usado pelas escolas. Será que isso é feito a contento?

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os Fundamentos da Qualificação Policial

Os recentes tristes acontecimentos em Fortaleza com a desastrosa operação de abordagem da Polícia Militar que metralhou um veículo com cidadãos inocentes traz a tona novamente a questão da qualificação policial. Muito se fala da necessidade de investir em qualificação de policiais, mas infelizmente muito pouco tem sido feito para que isso seja feito de forma efetiva. Algumas iniciativas na direção de uma melhor formação teórica têm surgido principalmente por indução do governo federal que destina recurso para os Estados com esse fim. A parceria com universidades para que as mesmas passem a colaborar mais ativamente do processo de formação dos policiais é outra boa iniciativa. Mesmo assim tratam-se de iniciativas quase que inócuas em face das carências existentes atualmente. Primeiramente, vale lembrar que os conhecimentos necessários a formação de um policial são de natureza formal, mas também de natureza tácita. O conhecimento formal ou declarativo refere-se aos conceitos que envolvem as disciplinas estudadas como as questões legais e as diferentes estratégias de policiamento. O conhecimento tácito refere-se à praxe, às ações e procedimentos sejam de confronto ou simplesmente de conduta, ao manuseio de equipamentos como armas, às reações a situações intempestivas e de crise, etc. Esse caráter bivalente requer uma estratégia metodológica bem particular. De uma forma geral, quer estejamos nos referindo a conhecimento formal ou tácito, as modernas teorias educacionais sugerem que o processo de aprendizado seja feito de forma construtivista e contextualizada. O estudante deve ser levado a, sempre que possível, a construir seus conceitos em situações cotidianas, através da resolução de problemas. No entanto, quando estamos falando de conhecimento tácito, mais do que sugestões, isso passa a ser uma obrigação. O conhecimento tácito requer repetição contínua, simulações, experimentações que permitam a criação de reflexos condicionados. Gosto sempre de fazer uma analogia com os esportes. Ao se aprender a jogar basquete, por exemplo, os fundamentos do jogo como o passe, o arremesso, a bandeja, bem como as regras são apresentados ao atleta. No entanto esses conceitos só são internalizados com muita prática e repetição. Com muito treinamento os movimentos acabam por acontecer de forma totalmente natural e mesmo imperceptível a quem os faz. Ao ser questionado sobre como ele conseguiu fazer uma determinada jogada valiosa em um jogo, é comum escutar do atleta a resposta: não sei, saiu! A qualificação policial possui essa mesma natureza. Impossível querer que os conceitos aprendidos em classe sejam internalizados sem sua aplicação prática através de um contínuo processo de aprendizado. Infelizmente, as ações dos governos são cada vez mais imediatistas, pressionados que são pela sociedade que clama por soluções para a situação de violência nas grandes cidades. Os cursos de formação são reduzidos e o treinamento contínuo é por vezes totalmente esquecido. É comum encontrar policiais que só realizaram treinamento quando da admissão nas instituições policiais. Por outro lado as academias de Polícia também precisam de reformulação, com a renovação de seus professores e com uma maior aproximação com as Universidades. Aqui vale novamente o discurso que tenho repetido em textos anteriores (clique aqui e aqui par ver dois textos sobre o assunto), de que qualquer plano de segurança tem que prever ações estruturadoras focadas nos recursos humanos. Os resultados virão, mas de forma lenta e se somente se houver continuidade.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Gestão, Prática e Treinamento

Continuando o tema da gestão que iniciei no recente texto sobre gestão pública, queria relatar um equívoco que tenho observado em grande parte das iniciativas de capacitação de pessoal em Empresas públicas e mesmos nas privadas. Há uma idéia de que qualificação de pessoas é uma mera volta aos bancos escolares. De certo que o ensino tradicional é um dos meios para aumentar a qualificação profissional, mas não pode ser considerada como o único. É importante lembrar que a qualificação (ou re-qualificação) normalmente envolve mudança comportamental e cultural. Quando um gestor decide capacitar para mudar uma cultura organizacional, ele não pode acreditar que a simples participação dos funcionários na sala da aula vai ser capaz disso. O plano de capacitação deve envolver a integração do teórico das salas de aulas com a praxe cotidiana e, principalmente, deve estabelecer mecanismos gerenciais de acompanhamento do desenvolvimento do funcionário. Deixe-me exemplificar o que quero dizer. Suponha que se deseje que uma secretária passe a fazer ofícios por computador usando um processador de textos no lugar da sua forma habitual através de uma máquina datilográfica. Ela pode e deve participar de um treinamento convencional onde teoria e prática lhes seriam mostradas, mas concomitantemente ela deveria ser induzida a realizar uma mudança comportamental que poderia começar com a alteração em seu ambiente de trabalho. O gestor poderia definir que gradativamente vai exigir ofícios feitos por computador até uma data previamente negociada, quando então a máquina seria retirada totalmente. Ele deveria ainda definir métricas de acompanhamento da qualidade dos textos produzidos pela secretaria como agilidade e/ou custo do ofício digitado. Desta forma poderá verificar o quão útil e efetivo o treinamento foi para a organização. Esta conversa parece muito óbvia e simples de ser feita, não? Infelizmente, muitas situações não se apresentam assim de forma tão simplória. A mudança do contexto de trabalho do funcionário, por exemplo, pode ser bem mais complexa do que no exemplo da secretária. Tomemos o contexto da segurança pública para exemplificar. Ao colocarmos um policial para fazer um curso de direitos humanos, que tipo de mudança contextual seria desejável para que o treinamento fosse efetivo. Exigiria ainda a mudança da postura dos outros colegas que não fizeram o curso ou que já não se lembram de quando o fizeram. Exigiria ainda fornecer recursos para o policial para que ele trabalhasse dentro dos conceitos da nova doutrina que ele aprendeu na teoria (armas não letais, por exemplo). Por outro lado, seria recomendável um sistema gerencial de acompanhamento dos resultados do policial sob o prisma do novo treinamento ministrado (diminuição de violência, de arbitrariedades, de denúncias de abuso, etc.). O pior de tudo é que ele ainda terá que conviver com um contexto social desfavorável, pois muitas vezes é a própria sociedade(quando lhe convem) que lhe impõe uma postura anit-direitos humanosFazer isso não é fácil. Eu diria que colocar o policial na sala de aula é a tarefa mais fácil de todas. Não me surpreende que tanto curso seja dado e tão pouca efetividade tenha se conseguido com os mesmos. Volto assim à questão original da qualidade gerencial. Considero que a qualificação de pessoas requer uma visão ampla voltada a criação de mecanismos que facilitem a internalização dos conceitos obtidos nos treinamentos. Isso não é fácil. Requer abandonar a idéia simplória de simplesmente mandar o “pessoal” para o curso e substituí-la por uma visão estratégica e sistêmica dos objetivos da instituição para que com criatividade se consiga realmente mudar comportamento. Por fim, quero dizer que reconheço que o raciocínio que acabei de elaborar nesse texto não se aplica a todo e qualquer tipo de qualificação. A formação acadêmica, por exemplo, nem sempre se presta a uma aplicação imediata, mas é vetor importantíssimo no desenvolvimento pessoal. Ela permite a formação de opinião crítica além de incremento na capacidade de aprendizagem da pessoa. De qualquer forma, acredito que, em via de regra, concretização de conceitos no cotidiano e acompanhamento gerencial do desenvolvimento pessoal são atividades fundamentais para a efetividade dos programas de treinamento.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Marketing Viral Chegou na Academia

O conceito de marketing viral é mais um daqueles que está pegando forte carona na Internet. A idéia é de lançar publicidade em redes sociais que facilitam um efeito de contágio normalmente através de trocas de mensagens entre internautas. Este conceito não tem se restringido as empresas comerciais ávidas por venderem seus produtos. Mesmo a academia está se beneficiando deste tipo de marketing para divulgar suas idéias e projetos. Uma grande variedade de projetos universitários são lançados diariamente na rede em sites como YouTube. Já tinha mencionado há alguns meses atrás sobre o projeto de etnografia digital de um professor da Universidade de Kansas (clique aqui para acessar o texto) que por efeito contágio foi visto por mais de 1,7 milhões de pessoas. Outro exemplo de projeto acadêmico é o programa de computador que estou publicando abaixo. Trata-se um exemplo de simulação para uso educativo. O programa tem outra característica interessante que é a mistura entre objetos físicos estáticos e animados. Ao permitir identificar que tipo de objetos está sendo desenhado o sistema os cria de forma dinâmica e permite a realização de experimentos. Evidentemente que não posso deixar de lembra que ExpertCOP também esta no YouTube como mostrado no texto de ontem.