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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Os Fundamentos da Qualificação Policial

Os recentes tristes acontecimentos em Fortaleza com a desastrosa operação de abordagem da Polícia Militar que metralhou um veículo com cidadãos inocentes traz a tona novamente a questão da qualificação policial. Muito se fala da necessidade de investir em qualificação de policiais, mas infelizmente muito pouco tem sido feito para que isso seja feito de forma efetiva. Algumas iniciativas na direção de uma melhor formação teórica têm surgido principalmente por indução do governo federal que destina recurso para os Estados com esse fim. A parceria com universidades para que as mesmas passem a colaborar mais ativamente do processo de formação dos policiais é outra boa iniciativa. Mesmo assim tratam-se de iniciativas quase que inócuas em face das carências existentes atualmente. Primeiramente, vale lembrar que os conhecimentos necessários a formação de um policial são de natureza formal, mas também de natureza tácita. O conhecimento formal ou declarativo refere-se aos conceitos que envolvem as disciplinas estudadas como as questões legais e as diferentes estratégias de policiamento. O conhecimento tácito refere-se à praxe, às ações e procedimentos sejam de confronto ou simplesmente de conduta, ao manuseio de equipamentos como armas, às reações a situações intempestivas e de crise, etc. Esse caráter bivalente requer uma estratégia metodológica bem particular. De uma forma geral, quer estejamos nos referindo a conhecimento formal ou tácito, as modernas teorias educacionais sugerem que o processo de aprendizado seja feito de forma construtivista e contextualizada. O estudante deve ser levado a, sempre que possível, a construir seus conceitos em situações cotidianas, através da resolução de problemas. No entanto, quando estamos falando de conhecimento tácito, mais do que sugestões, isso passa a ser uma obrigação. O conhecimento tácito requer repetição contínua, simulações, experimentações que permitam a criação de reflexos condicionados. Gosto sempre de fazer uma analogia com os esportes. Ao se aprender a jogar basquete, por exemplo, os fundamentos do jogo como o passe, o arremesso, a bandeja, bem como as regras são apresentados ao atleta. No entanto esses conceitos só são internalizados com muita prática e repetição. Com muito treinamento os movimentos acabam por acontecer de forma totalmente natural e mesmo imperceptível a quem os faz. Ao ser questionado sobre como ele conseguiu fazer uma determinada jogada valiosa em um jogo, é comum escutar do atleta a resposta: não sei, saiu! A qualificação policial possui essa mesma natureza. Impossível querer que os conceitos aprendidos em classe sejam internalizados sem sua aplicação prática através de um contínuo processo de aprendizado. Infelizmente, as ações dos governos são cada vez mais imediatistas, pressionados que são pela sociedade que clama por soluções para a situação de violência nas grandes cidades. Os cursos de formação são reduzidos e o treinamento contínuo é por vezes totalmente esquecido. É comum encontrar policiais que só realizaram treinamento quando da admissão nas instituições policiais. Por outro lado as academias de Polícia também precisam de reformulação, com a renovação de seus professores e com uma maior aproximação com as Universidades. Aqui vale novamente o discurso que tenho repetido em textos anteriores (clique aqui e aqui par ver dois textos sobre o assunto), de que qualquer plano de segurança tem que prever ações estruturadoras focadas nos recursos humanos. Os resultados virão, mas de forma lenta e se somente se houver continuidade.

2 comentários:

Beto disse...

É triste ver a violência só aumentar em Fortaleza. Estou lendo o livro "Elite da Tropa" e vejo que os tipos de problema é muito variado e a solução passa até por um longo processo de renovação onde o treinamento é um grande passo nesta direção. O salário também é outra grande questão. O livro fala do problema da segurança pelo ponto de vista do policial.

O senhor Lúcio Alcântara comenta sobre a questão do treinamento em seu blog:
http://lucioalc.blogspot.com/2007/10/coerncia.html

Matheus Gondim disse...

[e...
vlw pelo blog..
fiz meu trabalho de redacao baseado em seu conteudo..
parabens pra quem escreveu..
abraco..