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sábado, 6 de outubro de 2012

Professores e Startups: zona de conforto deslocada


O breve artigo do Prof. Michael Stonebraker na ACM Communications deste mês trouxe uma mensagem que merece compartilhamento. Stonebraker é professor e pesquisador do MIT e um dos pioneiros nas pesquisas em banco de dados relacionais. Atualmente faz pesquisas sobre como explorar eficientemente “big data”. Com o aumento exponencial dos dispositivos de coleta de dados nas nossas vidas, já produzimos mais de 1.8 zetabytes de dados por ano. Isso preencheria 57.5 bilhões de iPads de 32 Gigabytes.

Mas não é a pesquisa de Prof. Stonebraker que me chamou mais atenção, foi sua atuação como empreendedor. Já fundou e vendeu várias startups e continua investindo seu tempo em criar novas empresas e novas ideias. Abaixo segue sua mensagem:

“ Se um professor/cientista só publica papers na universidade, tem pouca chance de ver suas ideias se tornarem realidade, pois é difícil haver transferência tecnológica. Se ele procura uma grande empresa para vender suas ideias, muito dificilmente as terá comprada. A saída é fazer uma startup e tentar por si". 

Ter a coragem de deslocar a zona de conforto que se forma na carreira tradicional de pesquisa acadêmica não é nada fácil.


domingo, 16 de outubro de 2011

Compreender o Empreender



Essa semana li uma matéria no jornal O Povo sobre o evento de empreendedorismo que ocorreu em Fortaleza que me chamou atenção. O evento chamado Empreender 2011 foi promovido pelo próprio jornal e que abordou em particular estratégias inovadoras para as micro e pequena empresas. Sou extremamente cético quanto à eficácia deste tipo de evento, mas reconheço que há pelo menos um aspecto positivo envolto neles. Precisamos falar muito de empreender para criar uma cultura diferente da nossa. Já refleti como nossos jovens são mais voltados a buscar um emprego público do que abrir uma empresa aqui.

Mas foi somente ao ver a matéria sobre o que ocorreu no evento é que decidi expor minhas reflexões neste espaço. A “palestra técnica” do evento foi ministrada por Ciro Gomes. Isso mesmo, palestra técnica (por isso em aspas). Não consegui perceber o que Ciro Gomes tem de conhecimento técnico sobre empreendedorismo, mas tudo bem, pensei, tem larga experiência e deve ter algo a dizer relevante.  

Ao acompanhar a matéria sobre a sua palestra, palestra esta de título “Políticas Inovadoras para o Desenvolvimento do Empreendedorismo no Ceará, (você pode acessá-la aqui), reforcei meu ceticismo. A matéria era confusa de uma forma que só me dei duas possibilidades. Havia um problema de compreensão da audiência (no caso o jornalista) ou problemas na mensagem emitida pelo palestrante. Bem, é verdade, há uma terceira possibilidade, a de que as duas anteriores estejam corretas.

O título da matéria é “Ciro Gomes defende mudanças no modelo pedagógico”. Já me causou espanto porque não guarda relação direta com o título de sua palestra. 

Tudo bem, dá para ligar emprendedorismo com educação. Até porque se liga educação com tudo ! Continuemos. O Segundo parágrafo da matéria começa com “Para ele, é falsa a “verdade” de que tudo é culpa da educação.” É falsa a verdade? Soa estranho! Ainda por cima, para quem vai defender mudanças no modelo pedagógico, essa não é exatamente a frase ideal. Seguindo, não inovou muito quando citou o exemplo coreano e do investimento em educação que eles fizeram.

Para finalizar, o ultimo parágrafo começa com outra frase atribuída a Ciro Gomes: “é mentirosa a ideologia neoliberal que diz que a economia mundial está globalizada”. Não satisfeito com o cliché, emenda que “a humanidade está sendo induzida a acreditar que a felicidade é consumir elementos de um padrão internacional de consume”. Assim também é demais! Fico me perguntando o que os micro-empresários e os jovens potenciais empreendedores devem ter extraído em termos de empreendedorismo com essa palestra. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Inovação: A Plataforma de Jogos Sifteo

Um exemplo interessante de como as inovações no mundo digital estão ocorrendo é esse da plataforma de jogos Sifteo. Estudantes de pós-graduação do MIT (Massachussets Institute of Technology) em Boston nos EUA criaram uma empresa para comercializar o produto que desenvolveram.
Trata-se de uma plataforma de jogos que se baseia em pequenos cubos que possuem um processador, se comunicam entre si e com outros computadores. Os cubos podem ser usados em diversos jogos desde que conectados a um computador que os controla. Para conhecer mais sobre Sifteo veja o vídeo abaixo.

O que quero ressaltar aqui é o perfil dos empreendedores. Dois jovens profissionais de informática. David Merril é especialista em interação humano-computador, teve seu mestrado em Stanford e doutorado no MIT, ambos em computação. O sócio de David é Jeevan Kalanithi. Você pode ver algumas das palestras de ambos nos vídeos do TED.

Os dois são exemplos do espírito empreendedor que domina os alunos de pós-graduação e professores das universidades americanas. Evidente que o ecossistema favorece (como já comentei aqui). A empresa tem financiamento do NSF (National Sciense Foundation), que equivale ao CNPq aqui no Brasil, e de fundos de capital de risco. Esse é o modelo que precisamos fomentar. Em se tratando de indústria de alta tecnologia, não há outro.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Crowdsoucing Brasileiro: Faça sua moda

Um site para venda de camisetas estampadas pela Web. Nada mais simples e comum nos dias de hoje, não? Seria possível inovar nesse contexto? Brasileiros empreendedores do projeto Camiseteria mostram que isso é perfeitamente possível. Trata-se de um bom exemplo de como o conceito de crowdsourcing (produção colaborativa) pode ser usado comercialmente. O Camiseteria tem um site de venda de camisetas estampadas, mas as estampas, por sua vez, são produzidas pelos próprios internautas.

A ideia mantem a simplicidade como linha mestra. As pessoas são convocadas para mostrar seus talentos na produção artística como bem diz o slogan: “faça sua moda” . Os interessados participam de concursos nos quais são chamados a enviar desenhos de estampas. As mais votadas são escolhidas para entrarem na linha de fabricação. Os vencedores do concurso ganham um prêmio em dinheiro e crédito para compra na loja (atualmente, R$ 800,00 em dinheiro e R$ 500,00 em créditos de compras). A cada nova reedição da estampa ganha-se R$ 300,00.

Vejam que não se trata somente de ganhos financeiros que são prometidos aos vencedores. Eles veiculam seus nomes aos produtos. Vejam na foto abaixo. O lançamento das novidades está associado ao nome dos designers. Ou seja, há uma ótima oportunidade de divulgação de talentos. Decididamente uma idéia que captura a essência da participação ad hoc que caracteriza a sabedoria das massas. Vejam também o vídeo abaixo onde o empreendedor Fábio Seixas descreve o projeto (o vídeo foi patrocinado pela Microsoft, não se espantem com a propaganda). Para aqueles que acham que as coisas são fáceis e que tudo na web acontece de repente, percebam que o projeto começou em 2005.





quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Excessiva Qualificação e Crowdsourcing

Esse texto é uma continuação dos dois anteriormente escritos quando falei de excessiva qualificação (aqui) e quando falei de um exemplo de Crowdsourcing com o projeto Innocentive (aqui). Sabem onde as duas coisas se conectam? É que muitas pessoas que estão em situação de qualificação excessiva tendem a encontrar trabalhos alternativos às suas tarefas profissionais. O mais interessante é que elas buscam, nesses trabalhos alternativos, fazer aquilo que as agradam. São movidas por motivações como o reconhecimento da comunidade, obtenção de reputação ou simplesmente o prazer de fazer o que gostam. Vejam o exemplo da pesquisadora que mais teve prêmios na solução de problemas do Innocentive, Giorgia Scargetta. Essa italiana fez seu doutorado em química orgânica em 1997. Trabalhou com projetos de criação de bio-catalisadores, mas não tendo muitas opções para se tornar pesquisadora na sua pequena cidade de Cannara, preferiu ficar com a família a se mudar para centros mais avançados. Conseguiu um cargo de professora de Química em escola de segundo grau e continuou a realizar suas pesquisas “nas horas vagas”. Já ganhou duas vezes prêmios do Innocentive e com o dinheiro foi incrementando seu laboratório de pesquisa bem como sua residência. O livro Crowdsourcing de Jeff Howe fornece vários exemplos de pessoas que participam de atividades de produção de conhecimento em massa. Em vários deles, identificou que as pessoas que mais participam desses projetos já tem um emprego e estão em condições de excessiva-qualificação. Se essa correlação é significativamente relevante e se o mesmo fenômeneno ocorrerá aqui no Brasil, o futuro dirá.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Excessiva-qualificação

Vou chamar aqui de excessiva-qualificação quando uma pessoa tem uma qualificação acima daquela necessária para realizar suas atividades profissionais. Mas será que isso ocorre com frequencia? Não temos sempre ouvido falar de que o que ocorre é a falta mão de obra qualificada para ocupar cargos vagos no mercado? Claro que dependendo do País e do contexto, isso ocorre em diferentes proporções. Durante meu doutorado na França, há dez anos atrás, já convivi com esse fenômeno. Meus colegas franceses recém doutores não encontravam trabalho em universidades ou em empresas que faziam pesquisa e aí acabavam por se ocupar em atividades que exigiam minimamente de sua qualificação. Na Europa, havia (e ainda há) muito PhD disponível e o contexto de recessão que sempre rondou o Velho Mundo torna o processo de excessiva-qualificação um problema real. Evidente que, como já disse em textos anteriores (acesse aqui), a capacitação para pesquisa traz, além da qualificação técnica, uma formação adjacente que é ampla e útil para a resolução de problemas em geral, o que, sem sobra de dúvidas, pode ser aproveitada pelo mercado de diversas formas. Não há dúvida, no entanto, que isso nem sempre é simples de ser conseguido. Vale ressaltar que excessiva-qualificação não se refere somente a PhDs ou pessoas que estudaram muito. É algo bem mais abrangente. Semana passada estive conversando com algumas pessoas da Polícia Militar e da Guarda Municipal e vi claramente esse fenômeno presente. A febre de concursos públicos para cargos com salários atraentes e a estabilidade inerentes ao Serviço Público leva uma legião cada vez maior de pessoas com qualificação acima da necessária para o cargo a assumir cargos que lhes exigem bem menos daquilo que podem dar. Conversei com soldados e patrulheiros municipais que estavam extremamente desmotivados porque se achavam mal aproveitados nos seus trabalhos. Tinham que fazer nada motivadoras rondas de patrulha em prédios públicos ou em ruas e avenidas e só. Eles achavam que podiam render muito mais em outros setores e em outras atividades e que não eram percebidos. Tinham mágoas de suas Instituições. Quando lhes alertei que suas Instituições talvez necessitassem de gente para fazer exatamente o que lhes eram solicitados, percebi que passaram a compreender claramente que estavam em situação de excessiva-qualificação. Alguma receita? Não por mim. Os gerentes e as próprias pessoas que se encontram em situação de excessiva-qualificação devem buscar trilhar seus caminhos. E ainda, por favor, me entendam. Não estou querendo dizer que qualificações podem ser excessivas e que não devemos buscar tê-las. Na verdade, minha intenção foi só de introduzir o problema porque quero refletir sobre a relação entre Excessiva-qualificação e Crowdsourcing em um próximo texto. Confiram!

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Ser Empregado ou Empregador, Não Há nem a Questão

Em Abril de 2007, tinha recém chegado da Califórnia e saltou-me aos olhos a postura dos jovens universitários excessivamente interessados em fazer concursos públicos. Escrevi o texto “profissão concursado” (clique aqui para acessar o texto) descrevendo esse meu espanto. Semana passada, voltei a pensar no assunto quando tive a grata satisfação de assistir a uma palestra do ex-ministro e presidente da Embraer Ozires Silva que agora está presidente do Fórum de Líderes Empresariais. Fez uma apresentação bem informal alicerçada na sua enorme experiência. Duas historietas que contou foram bem interessantes. Na primeira, ele contou que ao dar uma palestra para jovens em uma universidade americana perguntou “quem quer um emprego?” Pouquíssimos alunos disseram que sim. Enquanto que ao serem perguntados se queriam ser empreendedores a maioria respondeu positivamente. Disse que fez a mesma pergunta no Brasil e quase ninguém respondeu que queria ser empresário. Ele enfatizou que acredita que a cultura de empreendedorismo passa por uma mudança de postura das universidades, mas também por um maior espírito patriótico. É preciso acreditar que o País pode dar certo e que para que isso aconteça é preciso ter gente com espírito desbravador. O comodismo da juventude em busca de concursos não pode ser a regra. A outra estória enfatiza esse segundo aspecto meio que patriótico. Contou à platéia que um dia teve a oportunidade de perguntar a um avaliador do Nobel, porque nunca houve um cientista brasileiro vencedor do prêmio. Teve como resposta que quando Cesar Lattes foi indicado, recebeu tantas críticas dos próprios brasileiros que teve sua candidatura retirada. Voltou a cobrar um espírito nacionalista que estivesse acima de querelas pessoais e que congregasse a nação em torno daquilo que nos orgulha. Disse que sente isso ainda hoje em relação a Embraer. Ainda não existem aviões da Empresa voando no espaço aéreo brasileiro embora eles estejam em toda parte do mundo. Diante um depoimento tão contundente de quem tem respaldo, bem que os jovens poderiam pelo menos começar a a se questionar do que vale mais a pena (e nem precisa de crise existencial).

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Ela é quente ou não?!

O mundo da Web 2.0 está produzindo milionários a partir de idéias as mais simples e inusitadas. Recentemente descobri no blog de Joe McCarty, um pesquisador da Nokia dos Estados Unidos que conheci ao dar uma palestra lá, o site www.hotornot.com. O site nasceu numa mesa de bar quando dois amigos estavam conversando e um disse a outro que tinha saído na noite anterior com uma garota nota 10. O outro teve a iniciativa de ver uma foto da garota e dar-lhe uma nota. A partir de então eles decidiram fazer um site onde as pessoas colocariam fotos e perguntariam para os outros votarem se “hot or not” (em inglês a expressão she´s hot seria ao pé da letra ela é quente!). Enviaram emails para uma dezena de amigos para realizar a divulgação e solicitar votos. Ao final de uma semana, o site já tinha tido 40.000 visitantes. Hoje já obteve mais de 12 milhões de votos! Os amigos já têm mais de 10 milhões de dólares de faturamento somente com publicidade. Idéias simples, não? Mas é bem verdade que em se tratando de uma idéia ligada a sexo o vento sopra fortemente a favor. Afinal 12% dos sites em Maio de 2007 eram pornográficos. Abaixo esses números são descritos de uma forma nada, nada convencional.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A Indústria Criativa e a Economia da Cultura

Neste dia do professor, quero voltar a refletir sobre um aspecto que tenho reiterada vezes abordado nesse blog: a cultura de empreendedorismo, da inovação e da criatividade. Em particular vou me concentrar em um assunto que descobri após uma dica do Presidente da Fundação Cearense de Pesquisa do Estado do Ceará, Prof. Tarcísio Pequeno, sobre um site que congrega várias organizações que se dedicam a questão da criatividade como instrumento de produção de riqueza(clique aqui para acessar o site). Um dos conceitos básicos dessa iniciativa chama-se Indústria Criativa. Não se trata aqui de simplesmente dar um adjetivo às indústrias tradicionais. Estou me referindo a toda atividade que foi originada por uma idéia criativa, em função de um talento próprio, que pode gerar renda, bem-estar e emprego através da geração e exploração de propriedade intelectual. Essa é uma definição dada pelo departamento de cultura, mídia e esporte do governo do Reino Unido que, aliás, investe fortemente em iniciativas do tipo e por isso mesmo boa por parte das iniciativas da creative industries vêm de lá. O congresso de indústrias criativas reunirá expositores de todo o mundo e será em Londres em Novembro. Dentre os diversos setores que compõem iniciativas criativas pode-se elencar o audiovisual, a música digital, a publicidade e propaganda, artes de uma forma geral, designer e arquitetura, enfim, atividades que o Brasil tem um portfólio considerável e que pode ser explorado continuamente. A operacionalização de uma indústria criativa se dá normalmente com suporte da tecnologia e métodos modernos de gestão. Ressalte-se que o valor econômico do "produto" é baseado nas suas propriedades intelectuais ou culturais. Aqui entra um outro aspecto importante nessa nova economia, o valor cultural. Hoje em dia, as iniciativas específicas de uma cultura estão sendo cada vez mais difundidas globalmente. Por envolverem peculiaridades próprias de seu contexto de origem, são quase sempre inéditas e inovadoras à luz de boa parte do mercado global consumidor. Desta forma podem agregar valor e se tornam um excelente produto comercial. Vale aqui a máxima típica do mundo globalizado: produza local e comercialize global. Interesso-me particularmente por essas idéias por dois motivos. Primeiramente, deve-se perceber que todo esse contexto de indústrias criativas é convergente com a web2.0 e com o mundo digital. A web é a infra-estrutura comum e disponível a todas essas atividades criativas. Quer seja somente como veículo de disseminação, quer seja como próprio componente da solução criativa, a grande teia mundial potencializa as idéias criativas e apresenta-se como forma natural para abrigá-las. Acrescente-se a isso o fato de que os meios analógicos de armazenagem de mídia estão sendo radicalmente mudados para meios digitais. O segundo aspecto que me atrai deve-se ao fato de que o conceito de indústria criativa pode e deve ser aplicado às atividades governamentais, principalmente, à de transformação de cidades em espaços agradáveis e que promovam o bem-estar da população. Boa parte das iniciativas criativas a serem apresentadas no congresso mundial de indústrias criativas que se desenrolará em novembro em Londres, destinam-se a esse fim. Enquanto professores cabe-nos não somente apresentar esses conceitos aos alunos universitários mas, principalmente, fomentar a aplicação dos mesmos. Isso certamente será o vetor de transformação econômico e social com capacidade de transformação radical da realidade que vivemos hoje.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Inovação Tecnológica na FIEC

Essa semana a Federação das Indústrias do Estado do Ceará promoveu um evento centrado na temática da inovação. Uma louvável iniciativa que deveria deixar-nos esperançosos de que um futuro melhor se apresente na difícil tarefa de se conseguir mais produtividade na economia cearense. Na abertura do evento ocorreu uma apresentação do presidente da Caloi, o Sr. Edson Musa. Antes da apresentação do palestrante convidado para falar sobre inovação tecnológica, ouvi do presidente da FIEC seu diagnóstico de porque a indústria não investe em pesquisa: alta carga tributaria(sic). Lembrei-me de um dos primeiros textos que escrevi neste blog (clique aqui para acessá-lo ) que admitia mea culpa, de nós professores, por não termos sido hábeis suficientes para formar nossos empresários com uma visão de que pesquisa científica é investimento. Felizmente o palestrante convidado, durante sua apresentação, fez um diagnóstico bem mais elaborado para a pergunta: Porque a indústria não investe em pesquisa? Basicamente os seguintes fatores foram enumerados: i) o desenvolvimento de produtos foi historicamente destinado ao para mercado interno o que não levou a muita competição; ii) um mercado protegido ou pelo governo ou por situações de monopólios e oligopólios que também reduzem a competição; iii) Instabilidade econômica do País que favoreceu a visão de curto prazo; iv) Altos custos e baixa disponibilidade de recursos; v) Excesso de Burocracia; vi) Cultura de cópia de produtos americanos e, vii) baixa interação Universidade-Empresa. Eu adicionaria a esses fatores o puro desconhecimento dos empresários do que vem a ser a pesquisa, o que favorece a aceitação de clichês pejorativos da atividade e dos pesquisadores. Gostei especialmente de uma opinião do palestrante com a qual concordo fortemente: a competitividade microeconômica é um índice muito mais confiável para medir a riqueza de um país. Ou seja, a relação número de pequenos negócios em relação ao total de negócios dá um tom de quão dinâmica e emergente é a economia. Veja que essas observações vão ao encontro às minhas observações em textos anteriores de que a formação de doutores empreendedores, as incubadoras e o incentivo a criação de empresas com capital de risco, tipo modelo Vale do Silício, devem ser perseguidas para dinamizar a economia (veja texto sobre assunto aqui). Outra grande notícia trazida pelo palestrante foi a de que Empresas, como a Natura, estão criando um conselho de ciência e tecnologia e colocando professores universitários para participar do mesmo. Desta forma se consegue um processo de aproximação com a abertura das portas da Empresa o que facilita a identificação de oportunidades. Resta-nos esperar que as Empresas cearenses sigam a mesma idéia (e que não esperem os impostos baixarem para fazerem isso!).

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Tecnologia da Informação: Em Busca do Sonhado Salto de Qualidade

Tenho participado de grupos de trabalho e acompanhado outros, em diferentes contextos, que visam discutir políticas e definir ações a serem tomadas no Estado do Ceará para transformar nosso perfil na área de Tecnologia da Informação (TI). Há um sentimento de que temos um potencial que precisa ser incentivado e que podemos dar um salto de qualidade nesta área. Como acabei de chegar do Vale do Silício e tive a oportunidade de conviver um ano neste ambiente que, em minha opinião, é o mais dinâmico e rico no mundo em se tratando de inovação e criatividade em TI, não pude me furtar a participar das iniciativas nesta direção. O processo de interação que tenho tido com os diferentes setores que representam o setor tem sido muito gratificante. Vejo uma preocupação e um interesse geral em contribuir. No entanto, pude perceber também como esse debate consegue ficar desfocado e excluir o ponto, que na minha concepção, é o mais relevante para que se consiga dar o tal salto. Em qualquer lugar do mundo em que se criou um ambiente de criatividade, inovação e empreendedorismo, pode-se claramente identificar Universidades que foram a base para tal. Para começar exemplificando com o Vale do Silício, as Universidades de Stanford e Berkeley são os dois grandes motores deste processo na Califórnia. Berkeley ao norte e Stanford ao sul de San Francisco congregam um pólo de indústrias de todos os portes ao seu redor. Há de se perguntar, se há alguma política fiscal de incentivo a essas empresas nessas áreas. Absolutamente. Aliás, a região de Palo Alto, nos arredores de Stanford, é um dos metros quadrados mais caros do mundo. O que existe lá, é o que é de mais precioso para quem almeja conseguir inovação: gente qualificada. Todos os anos essas universidades despejam no mercado doutores qualificados não somente na teoria e prática de suas áreas de atuação, mas, sobretudo, impregnados de uma visão empreendedora que lhes leva naturalmente a ousar, arriscar, competir, enfim, cheios de fome e loucura como diz a expressão sempre usada naquelas bandas por Steve Jobs (stay hungry, stay foolish, clique aqui para ver o discurso de Jobs na formatura em Stanford). Os mais céticos poderiam dizer que a realidade americana é outra e que ainda não estamos em condições de agir da mesma forma. Voltemos nosso olhar para o Brasil e veremos que aqui também não é tão diferente. O pólo tecnológico de Campinas é suportado pela UNICAMP com um dos melhores cursos de doutorado em Computação do Brasil, sem contar os outros cursos de doutorado em áreas afins. O Rio de Janeiro com a UFRJ e a PUC , Santa Catarina, com a UFSC, para ficar por aqui, também formam anualmente dezenas de doutores e mestres que alavancam o mercado de produção de software nessas regiões. Chegando ao Nordeste, em Pernambuco, a UFPE forma mais do que o dobro de mestres e doutores que todas as nossas Universidades juntas. Eles são o combustível que propulsiona o CESAR e o Porto Digital. Somente este ano a UFC conseguiu formar o nosso primeiro doutor em computação! Ressalto que quando estou falando de formação de mestres e doutores não estou me referindo a formação de pessoas com perfil exclusivamente acadêmico para pesquisa e docência (embora seja uma grande lacuna a ser preenchida). Minha visão de um doutor perpassa a capacitação na sua especialidade. Ela envolve uma capacidade crítica de análise e síntese, uma capacidade de identificar oportunidades da aplicação do estado da arte em benefício da sociedade, o que o credencia na atividade de saber identificar problemas não resolvidos e buscar formas inovadoras de resolvê-los. Obviamente, essas características não são exclusivas de quem consegue uma titulação academia, mas elas são potencializadas em quem passa por essas experiências, pois é o tipo de efeito colateral positivo que naturalmente se obtém durante essa formação. Enfim, é essa a realidade que temos que mudar urgente e prioritariamente. É esse o nosso real gargalo de formação de pessoal que temos. Como agir? Governos! Fortaleçam nossas instituições de ensino e pesquisa. Criem um ambiente de incentivo a inovação, a competitividade, a criação de pequenas empresas. Empresários! Estabeleçam mecanismos de cooperação com as Universidades que identifiquem possibilidades de utilização de seus recursos privados, dos recursos de lei de informática, dos recursos advindos de financiamentos de subvenção econômica e todas as outras oportunidades que hoje surgem abundantemente. Essas cooperações servem tanto para financiar geração de pessoal qualificado como para a produção de inovações. Afinal, não era essa a real intenção do legislador quando propôs as leis de incentivo hoje existentes? Professores! Saiamos de nossas salas de aulas para conhecer os problemas do “mundo real” e formemos doutores e mestres que sejam empreendedores. Esse é o tripé de base de uma política de TI consistente e que poderá nos levar ao tão sonhado salto de qualidade.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

O Estereótipo Informático Que Afugenta as Mulheres

Como já mencionei em textos anteriores, boa parte dos países ocidentais passa atualmente por um fenômeno de falta de profissionais em informática. Em particular, quero focar em um aspecto que considero ser um dos fatores indicativos dessa carência: o pouco interesse das mulheres em seguir a carreira de informática. Recentemente li um artigo no Jornal francês mensal Le Monde Diplomatique que discorria exatamente sobre esse assunto no contexto francês. Os sintomas e diagnósticos por aquelas terras são bem similares ao que passamos aqui. O artigo foi escrito pela pesquisadora em educação da Universidade de Paris-X (Nanterre), Isabelle Collet, que escreveu o livro “L´informatique a-t-elle um sexe? Hackers, Myths et Realités – A informática tem um sexo? Hackers, Mitos e realidades”. A autora rejeita uma explicação superficial de que as mulheres gostam de humanas e os homes de exatas e assim busca compreender mais profundamente os porquês desta realidade. Ela decidiu olhar para o problema pela ótica das razões que fizeram, depois dos anos 80, os homens ficarem muito mais apaixonados pela informática. Em resumo, ela observou que a microinformática e depois a internet ajudaram a criar um estereótipo do hacker, não somente no sentido de pirata de software, mas daquele profissional que se encastela no computador desenvolvendo programas e fica meio alienado. Essa imagem não casa com o perfil feminino o que as leva a ignorar a possibilidade de seguir a profissão. Ela observa ainda que o mais surpreendente é que mesmo com o uso das ferramentas da web 2.0 que privilegiam interação e redes sociais, com as quais as mulheres se identificam fortemente, este estereótipo persistiu. No entanto, ele não é representativo da realidade da profissão. Estima-se que somente trinta por cento dos profissionais de informática sejam programadores e ainda assim programadores, tipo hackers, não são a maioria e tão pouco privilegiados pelo mercado de trabalho. Trata-se de uma imagem mística, meio heróica e que seduz a alguns (mas não as mulheres). Em uma pesquisa realizada entre estudantes franceses universitários dois terços das mulheres disseram não saber o que é o trabalho de um informático(a). Perguntado sobre se escolheriam Informática por profissão, responderam em grande parte que “ ... não me vejo passar toda a jornada de trabalho falando de RAM, circuitos e de máquinas. Prefiro me ocupar com gente”. E o que é pior, muitas disseram que a informática não lhes interessa de forma alguma, sem nem mesmo saber precisar a razão (Isabelle Coiret acredita que elas não se interessam por uma profissão em que as pessoas que lá estão não são parecidas com elas. Já seria assim o efeito de uma conseqüência). Na verdade a Informática está longe de ser uma profissão onde as tarefas individuais e repetitivas prevalecem. Há muito espaço para trabalho em equipe, multidisciplinar e que impõe desafios e renovações constantes. A solução seria buscar reduzir os efeitos deletérios do estereotipo do hacker e fornecer maiores informações da variedade de atividades que pode ter um profissional de informática. Há inclusive ainda outras características que poderiam ser atrativas às mulheres. O trabalho é desenvolvido em ambientes agradáveis, limpos, não exige força física e pode, de mais em mais, ser realizado em casa. Acredito que as análises no contexto francês podem servir de insumo para o governo brasileiro em todos os seus níveis. A questão da falta de profissionais em um setor tão dinâmico como a Informática é estratégico para o País. Não se pode imaginar que há como participar desta batalha sem a contribuição feminina.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Empreendedorismo na USP

Estive esta semana participando do encontro brasileiro de Inteligência Artificial no Rio de Janeiro. O evento aconteceu no Instituto Militar de Engenharia (IME) na Praia Vermelha juntamente com outros seminários e com a conferência geral da Sociedade Brasileira de Computação (SBC). Tive oportunidades de fazer contatos com colegas sobre diversos assuntos de pesquisa, tecnológicos e acadêmicos de uma forma geral. Coincidentemente, a USP esteve presente ativamente nas minhas conversas em dois momentos diferentes (e por razões diferentes). Com alguns colegas professores daquela Universidade tive a oportunidade de discutir sobre a questão da invasão da reitoria pelos alunos e sobre a crise que momentaneamente eclodiu naquela Universidade. As conversas não me ajudaram muito a entender o porquê da reação tão virulenta dos alunos. Acredito que a questão político-partidária teve fator determinante, mas ainda não tenho condições de fazer uma análise mais criteriosa sobre o assunto. O outro momento em que a USP fez parte de minhas conversas, foi em um agradável almoço que tive com alguns colegas e em que tive a oportunidade de conhecer o Prof. Imre Simon. Ele é um renomado pesquisador na área de computação e matemática e uma referência para diversos alunos que já orientou e ensinou. Tive a oportunidade de tomar conhecimento de um projeto que ele empreende na Fundação de Pesquisa de São Paulo (FAPESP) que criou uma incubadora virtual com o objetivo de “ promover e facilitar o desenvolvimento cooperativo de conteúdo digital aberto de qualidade, de viés acadêmico, tecnológico ou social. Ela proporciona, através da internet, uma infra-estrutura computacional e técnica para produção de conteúdo”. Pude conhecer ainda a paixão do Prof. Imre pelos temas relacionadas à sociedade de produção de conhecimento que tenho tanto mencionado neste blog e que está tão popular depois do surgimento da web 2.0. Em particular, Imre mencionou a admiração que tem pelo livro “The Wealth of Networks” de Yochai Benker (que também é minha), e que tinha sugerido neste blog em Maio (clique aqui para ver o texto ). Ele tem promovido um ciclo de debates em torno de cada capítulo do livro, onde especialistas em diversas áreas dissecam os temas sob a perspectiva de suas especialidades. As sessões são transmitidas ao vivo pela Internet e a próxima delas será no dia 23 de Agosto as 14:30. Clique aqui para acessar o site das transmissões. Na verdade, Imre já tem discutido a questão da produção social desde 1999 com a disciplina “Informação, Comunicação e Sociedade do Conhecimento”. O material que ele usa nas suas aulas está disponível no seguinte endereço pode se acessado aqui. O contato com Imre me deixou mais motivado ainda a continuar minha cruzada de divulgar e ensinar (dentro de minhas possibilidades) a cultura do empreendimento na web. Foi extremamente recompensador saber que alguém de sua estatura como profissional tenha adotado esta bandeira. Até mesmo as dificuldades que soube que ele enfrenta me serviram de motivação, pois se até mesmo ele no contexto de uma grande Universidade brasileira e no Estado mais rico da federação as têm, não teria porque ser diferente comigo.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Steve Jobs em Stanford

Steve Jobs é o fundador da Apple (a companhia do Macintosh e do Ipod, somente para mencionar alguns de seus produtos). Ele personifica exemplarmente o espírito empreendedor do Vale do Silício. A Apple tem se demarcado pela capacidade de inovar e de se superar quando enfrenta momentos difíceis. O que é interessante é que a competição entre Apple e Microsoft, é muitas vezes representada como uma competição entre Jobs e Bill Gates. Recebi recentemente de meu aluno Carlos Gustavo um discurso de Jobs numa cerimônia de colação de grau em Stanford. Postarei o discurso em dois vídeos. Achei o discurso um pouco melodramático e demasiadamente eclético. Mas é impossível reconhecer o valor de Jobs e suas palavras têm o peso de quem fez e tem feito acontecer. Em seu discurso, ele apela sempre que possível para o sentimento empreendedor que é a marca de Stanford e do Vale do Silício. Não deixa de dar uma alfinetada na concorrência dizendo que sem as idéias da Apple poderíamos não ter tido os computadores de hoje. O que mais gostei no discurso é quando admite que não conseguia ver razão em algumas coisas que precisava estudar quando estava na Universidade, mas, depois, com experiência, foi conseguindo “ligar os pontos”. Vejam os vídeos legendados abaixo e cheguem a sua conclusão.

Parte 1


Parte 2

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Mestrado e Doutorado como Potencializadores do Empreendedorismo

Em textos anteriores discorri sobre os cursos de mestrado e doutorado e de como os mesmos visavam uma formação científica e qualificavam o pesquisador. Como boa parte da pesquisa científica mundial é feita em Universidades e os pesquisadores são também professores, se associa naturalmente o aspecto acadêmico e docente à pesquisa. No entanto, quero enfatizar outra possibilidade que um estudante pode explorar ao realizar os cursos de mestrado e doutorado: a qualificação para o empreendedorismo. Vejo uma forte relação entre o empreendedorismo e a capacidade de inovação. Pude vivenciar isto neste último ano em que estive na Califórnia. Ele é exemplarmente presente no vale do silício e em particular na Universidade de Stanford. Há uma atmosfera de inovação que contagia e que se perpetua onde o tom principal é dado pela sinergia entre as descobertas científicas e seu uso prático em empreendimentos inovadores. Neste sentido, transparece que a qualificação dos estudantes que realizam mestrado e doutorado é um fator determinante para que se consiga produzir tanta inovação. A formação científica traz algumas características ao estudante (e profissional) que são fundamentais para a formação de um perfil empreendedor. Vou me concentrar em dois aspectos. O primeiro refere-se ao inerente estilo crítico e analítico que se requer de um pesquisador. Uma característica sine qua non é aprender a aprender e principalmente a identificar problemas a serem resolvidos. Costumo mencionar aos alunos que a parte mais difícil de um trabalho de pesquisa é a fase de identificação de um problema. Aqui vale a pena esclarecer o que considero ser um problema de pesquisa. Um problema de pesquisa tem uma escala global. Ou seja, ele ainda não foi resolvido por ninguém no mundo. É bem verdade ainda que existem problemas que já estão identificados e que o desafio maior é encontrar a solução para os mesmos ( a vacina contra a AIDS, por exemplo). No entanto, em muitas ocasiões encontrar problemas de pesquisa implica na identificação de carências e limitações na forma de viver e nos instrumentos que usamos em nosso cotidiano. Gosto sempre de mencionar a web 2.0 e sua faceta colaborativa como exemplos disso (veja um dos textos que escrevi sobre isso clicando aqui). Dá para perceber que fazer mestrado e doutorado não se trata de uma tarefa fácil. Há a necessidade de se estudar muito para se conhecer o estado da arte na área de sua especialização. Esse é o passo essencial para a identificação de um problema. Mas o que a identificação de um problema tem mesmo a ver com o empreendedorismo? É que a identificação pioneira de um problema é o primeiro passo para criar uma inovação. É o primeiro passo para se criar algo diferente, que ninguém tinha pensado antes, pois não tinham visto que aquele problema existia. Evidente que se necessita ainda encontrar uma solução para o problema identificado. Trata-se aqui da segunda fase do processo científico e aqui novamente o domínio da matéria que se está estudando é essencial na obtenção de sucesso. Trata-se da fase mais tradicionalmente conhecida pela sociedade onde o domínio de um conhecimento específico favorece a proposta de uma solução para o problema. Enfim, acho que devemos quebrar este estereotipo de que fazer mestrado e doutorado só serve para quem quer ser professor. Afinal de contas o que estes cursos promovem acima de tudo é a produção e aquisição de conhecimento. Querer prever todos os efeitos que isso pode trazer em uma pessoa é prepotente e de pouca amplitude. Aos alunos que querem empreender: pensem nesta alternativa sem medo de ser feliz.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

O Profissional e a Profissão de Informática

Recentemente, quando estive participando de uma reunião com professores do curso de Informática da UNIFOR, um assunto muito interessante emergiu das discussões. Qual deve ser o perfil do profissional de informática do futuro? Os programas dos cursos universitários de computação são adequados às novas demandas do mercado? Essas questões não estão dissociadas de um contexto maior. Primeiramente, foi observado algo paradoxal. O mercado de informática está extremamente carente de pessoal, o que poderia ser bom e atrativo para os jovens. No entanto, vê-se exatamente o contrário. A procura por cursos de informática e mesmo por cursos tecnológicos de uma forma geral continua caindo assustadoramente. Vale ressaltar que este fato não é especifico da realidade brasileira, mas também de países desenvolvidos como os EUA e os países europeus. Já tinha mencionado em textos anteriores desse blog que a computação tem uma enorme dificuldade para definir suas bases. Isto se dá em grande parte pela forma rápida com que ocorrem as mudanças tecnológicas que por sua vez provocam o surgimento de novas ocupações e mesmo o desaparecimento de outras. Com o passar do tempo as tarefas que eram realizadas por profissionais de nível superior vão gradativamente sendo vulgarizadas e, ou desaparecem ou passam a ser exercidas por profissionais de nível médio. Creio que o que está ocorrendo com os programadores é um bom exemplo disso. O mercado mundial de software tem necessitado de programadores em grande quantidade. Em função disso, diversos países têm incrementado o ensino de programação de computadores para alunos de nível médio. A idéia com isso é lançar uma maior quantidade de profissionais, o mais cedo possível, no mercado. Obviamente, que acompanhado disto vem uma redução do nível salarial, o que acaba afetando muitos profissionais de nível superior, principalmente aqueles que em sua vida profissional se concentraram na tarefa de desenvolvimento de software. Outra conseqüência disso, é que o curso de Informática nas Universidades acaba perdendo seu poder de atratividade. Cursos de faculdades e outros de menor duração passam a ser uma opção mais barata e que levam os profissionais ao mercado mais rapidamente. Assim, a questão adjacente que se coloca nesse contexto é: “ qual o perfil do profissional de Informática de nível superior?”. O que as Universidades devem enfatizar para que este profissional se diferencie da grande massa de programadores que tende a se formar a partir de cursos tecnológicos de curta duração? Certamente esta é uma pergunta difícil de ser respondida somente por um prisma e queria oferecer este espaço para abrigar reflexões sobre o tema. Deixo somente algumas palavras chaves que me parecem relevantes a este novo perfil e que visam iniciar uma reflexão coletiva: empreendorismo, multi-disciplinaridade, gestão e liderança, capacidade de análise e síntese.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Profissão: Concursado!

Todos sabemos que um emprego em um órgão publico comporta uma série de vantagens como a segurança e salários bons ou mesmo muito bons (principalmente para cargos do judiciário ou ministério publico). Ter um bom emprego público sempre foi sonho legítimo de muitos e principalmente de jovens em busca de algo que lhes assegure um futuro tranqüilo para toda sua vida profissional. No entanto, tenho percebido recentemente que algo estranho está acontecendo no Brasil. Os jovens estão escolhendo suas profissões já pensando em fazer concursos. Ou seja, ao invés de escolher uma profissão por achar que ela vai satisfazer sua vocação e lhes realizar (até talvez ingressando no serviço público, em função da oportunidade) o objetivo de passar em um concurso tem se tornado a meta principal de vida. Esta situação explica um pouco porque tantos jovens hoje em dia optam por fazer Direito, pois abre a possibilidade de tentar um maior número de concursos possíveis. Pode-se tentar o Judiciário, o Ministério Público, as Polícias, além dos locais que não requerem uma formação específica como o fisco e os bancos. Isto não faz bem ao País. A competição para concursos fica absurdamente alta, o que de certo eleva a qualidade dos servidores públicos, mas o que vão fazer aqueles que não conseguiram lograr êxito? Perseguirão até conseguir passar? Não estariam, nossos jovens, perdendo a capacidade de sonhar, de inovar, enfim de empreender. Se assim for, isso é grave. Gravíssimo. Os jovens são por natureza sonhadores, ousados e inovadores. Buscam quebrar os paradigmas. Discordam deles. Entristece-me vê-los acomodados e buscando segurança tão cedo. Se eles não vão arriscar, quem vai? Não estou querendo desmerecer o serviço público. Até porque sou um servidor público e sei de sua importância. Mas mesmos nós servidores, sabemos que nosso trabalho não é suficientemente preponderante para gerar o desenvolvimento e aumentar a riqueza de uma nação. A riqueza de um país depende da capacidade de seu povo de empreender, expandir horizontes, ganhando espaço em diferentes mercados e criando empresas para gerar riquezas e empregos. Isto deveria prioritariamente estar entre as metas e objetivos dos jovens. Devemos motivá-los a tomar esses rumos mostrando que ao abraçarem com afinco uma profissão específica, poderão ter renda maior do que o teriam em um cargo público e que teriam ainda motivos de sobra de se sentir realizados. Novamente, não estou querendo dizer que as pessoas que tem por vocação seguir carreiras públicas estejam erradas. Só acho que esta havendo uma inversão de valores (e a quantidade de inscritos em concursos públicos é um indicador disto). Refletir sobre as causas que levam a essa realidade requer um outro texto. Parece-me claro que uma das razões está no fato de que temos ainda a cultura de ser empregado e como tal, nada como ter o governo como patrão. Isso precisa ser mudado. O mundo tem mudado (eu diria mesmo que já mudou). A escolha de uma profissão, qualquer que seja ela, exige de mais em mais do profissional um senso de criatividade e de empreendedorismo. Há muito a fazer para mudar essa mentalidade e principalmente dentro da própria Universidade, que tem por obrigação liderar esse processo.

terça-feira, 27 de março de 2007

Interagindo com o Computador Somente com o Olhar

Na semana passada assisti uma defesa de tese de doutorado em Stanford que vale a pena comentar. O aluno Manu Kumar do Professor Terry Winograd (que também foi orientador de Larry Page antes dele deixar o doutorado para fundar a Google) apresentou um trabalho muito interessante e que certamente será algo muito utilizado no futuro. Ele estudou o comportamento do ser humano ao interagir com o computador apenas com os olhos. A tecnologia de rastreamento da visão consiste do uso de uma câmera que foca nos movimentos da pupila e em um infravermelho que reflete a córnea da pessoa que está usando o computador e assim consegue descobrir para onde ele está olhando na tela. Ainda há algum trabalho a ser feito para que a tecnologia fique totalmente confiável e acessível (o hardware de rastreamento da visão custa em torno de U$ 25.000,00), mas algumas soluções simplificadas estarão no mercado em breve. Na sua tese, Manu desenvolveu algumas aplicações interessantes em que a tecnologia de rastreamento da visão é usada em conjunto com outros dispositivos de interface. Uma das aplicações usa, conjuntamente, o rastreamento da visão e o teclado. Ele mostrou que quando se está lendo um texto e se tecla page down (tecla de rolagem da página para baixo) normalmente as últimas linhas do texto que se está lendo são perdidas, pois saem da visão do usuário. Com o uso conjunto das duas tecnologias isso não acontecerá mais. O computador identifica para onde o usuário está olhando e quando ele tecla page down a página só rola até a linha que ele estava olhando. Outra aplicação interessante é o teclado visual , onde o usuário ao invés de digitar uma senha no teclado, escolheria os caracteres somente através de seu olhar. A aplicação já está sendo negociada com bancos. Além do aspecto inovador da pesquisa, outra coisa me chamou muita atenção. A tese de doutorado foi defendida em quatro anos e nove meses e durante este tempo além de publicações científicas, dois pedidos de patentes foram feitos. A preocupação de se gerar uma inovação e colocá-la no mercado é algo comum aqui em Stanford. Não é a toa que HP, Google, Yahoo, Sun, só para citar alguns, nasceram aqui.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Empreendedores Sociais

O editorial de Nicholas Kristof no New York Times de 30 de Janeiro descreve alguns exemplos de um novo tipo de empresário na mesma linha de Muhammad Yunus, o vencedor do Nobel da paz por sua iniciativa de financiamento aos pobres em Bangladesh. Kristof chamou estes empresários de Empreendedores Sociais. Na África onde as crianças morrem de diarréia por falta de saneamento básico, Isaac Durojaiye abriu uma franquia de banheiros públicos. Ele fornece os banheiros para área menos favorecidas e desempregados se tornam os franquiados com a tarefa de educar o povo e coletar uma pequena taxa pelo uso do banheiro. Sessenta por cento do ganho fica com o franquiado e o restante financia a compra de mais banheiros. Na Austrália, um empreendedor social criou a Easy Being Green que distribui gratuitamente luzes e chuveiros elétricos de baixo uso de energia em troca de parte dos créditos na economia que os donos da casa têm em conseqüência do uso desses equipamentos menos gastadores. De posse dos créditos, a Easy Being Green os vende para a indústria que normalmente está no débito (usa mais energia do que tem direito). No final a Empresa ganha dinheiro e ainda ajuda a economizar energia. Kristof cita outros exemplos e conclui que estas iniciativas ilustram que mudanças positivas podem vir muito mais com criatividade do que com poder ou dinheiro. Ajudem-me a relacionar iniciativas de empreendedores sociais no Brasil.