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terça-feira, 23 de abril de 2013

Um Sonho de País


Há vinte anos desembarcava com a família na França para cursar meu doutorado. Uma oportunidade única que me foi dada pelos meus empregadores (Governo do Estado e Fundação Edson Queiroz), oportunidade essa que não me canso de agradecer e, por isso mesmo, torno público neste introito.
 Os quatro anos que lá vivi, foram-me de profundo ensinamento, não somente pelo aspecto acadêmico, mas acima de tudo por ter-me permitido conhecer bem o primeiro mundo. Numa época em que a Internet engatinhava, o mundo ainda não era tão pequeno como hoje e viagens deste porte eram raras.
A Europa, em particular a França, foram-me (e ainda me são) fascinantes. Poderia relacionar os vários aspectos que me atraíram e que hoje, vejo atraírem os brasileiros que, de mais em mais, viajam para lá, como limpeza, transporte urbano e segurança. Mas havia algo mais que permeava todos esses aspectos: a igualdade social. A classe média era a grande maioria e com representantes em todas as profissões.
Talvez nada tenha sido mais emblemático para mim, do que quando, no primeiro dia de trabalho da empregada doméstica que havia contratado, a vi chegar em seu próprio carro, logo após ter deixado seu filho na escola. Ela tinha uma rotina de trabalho tão comum quanto à minha. Este episódio me veio várias vezes à cabeça, não somente ao acompanhar o noticiário sobre a nova lei dos empregados domésticos, mas sobretudo por ter ainda ouvido lamentações aqui e acolá de que “a nova legislação dificultará mais ainda a contratação e legalização de empregadas”, “minha vida ficará mais difícil”, etc.
É fato de que a vida poderá ficar um pouco mais difícil para uns que se acostumaram com uma cultura que encarnava a desigualdade de forma tão natural que não podia ser percebida. Ainda há muito disso em nossa sociedade. Mas havemos mesmo é de festejar mais um passo do Brasil para sermos um país de classe média: um sonho que temos não somente o direito, mas sobretudo o dever de compartilhar. Um sonho que se tornarmos realidade vai naturalmente reduzir todos os males que hoje nos afligem.

* Esse artigo foi publicado na coluna Opinião do O Povo em 16/04/2012

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Nem eu, Nem tu


Vou reproduzir uma piada que escutei do Prof. Tarcísio Pequeno recentemente e que não me sai da cabeça. Ela tem muito a ver com o mundo de empreendedorismo digital que, junto com alunos e desbravadores, descubro.

“Um grupo de pessoas observava caranguejos em água fervendo na panela quando um deles percebeu que um caranguejo estava a escapar de destino tão cruel. Havia conseguido atingir a beirada da panela o que lhe permitiria dar um impulso e fugir da mesma. Alertado por um dos observadores de que um dos caranguejos estava a escapar, aquele que promovia o evento culinário disse tranquilamente – não se preocupe esses caranguejos são cearenses. Paralelamente a esse comentário, aquele que fez o alerta, observou que outros caranguejos haviam puxado o que estava por fugir.”.

Se tal piada representa ou não a cultura cearense, difícil de garantir. Certamente pode-se trocar os cearenses por outras categorias e/ou nacionalidades dependendo do contexto ou interesse. O que creio ser interessante ressaltar é que nesses nossos tempos de empreendedorismo na Internet, em sendo verdade, tal comportamento traz prejuízos incalculáveis.

Boa parte de novos empreendimentos na Internet requerem viralização para serem bem sucedidos. Ou seja, precisam que as pessoas se engajem e se motivem a divulgar, a disseminar e a trabalhar pela causa.  Requerem igualmente a formação de comunidades virtuais envoltas em modelos de negócio que se baseiam em situações de ganha-ganha. As razões de tal engajamento podem ser devidas a motivações intrínsecas (de caráter individual) ou extrínsecas (fatores externos). Por outro lado, razões para o não engajamento como inveja, preconceitos ou competição predatória são destrutivas e mesmo catastróficas aos empreendedores. Geram situações de perde-perde.

Já não vivemos em um ambiente onde viralizar coisas seja fácil, pois não temos conectividade e reputação suficientemente impactantes como em outros lugares do planeta. Por exemplo, tudo que é lançado no MIT, Havard, Vale do Silício e similares é notícia, se espalha com incrível rapidez e nós mesmos cearenses nos apressamos a retuitar, postar no Facebook e divulgar com ânsia e orgulho como se fizéssemos parte daquela realização. Tudo do que não precisamos é de um sentimento de que se for iniciativa daqui, temos que puxar para dentro da panela. O “nem tu, nem eu” vai nos deixar fervendo e escalpelando. Afinal, será que somos assim mesmo? 

terça-feira, 21 de agosto de 2012

SPAM Eleitoral


Para os não familiares com o informatiquês que invade nosso cotidiano, deixem-me definir o que significa SPAM. Trata-se do uso de sistemas eletrônicos de comunicação para enviar uma grande quantidade de mensagens não-solicitadas às pessoas.

A atual campanha para prefeito tem posto à prova o conhecimento dos candidatos e de suas equipes sobre o que é SPAM e sobre as formas que ele pode assumir. Os incômodos carros de som e, mais recentemente, o SPAM telefônico com o envio de mensagens gravadas mostram que as campanhas precisam evoluir muito na questão.

Detenho-me aqui ao SPAM por telefone, pois o acho até mais intrusivo e incômodo ao cidadão do que o popular SPAM através de emails. Uma chamada telefônica interrompe a rotina da pessoa, força-lhe uma ação, sem que ela tenha a menor ideia de quem seja e de que assunto se trata. Já imaginou se todos os candidatos decidem fazer a campanha disparando chamadas para a população? E se todos os empresários também decidem fazer o mesmo para anunciar seus produtos?

Além disso, a questão do SPAM telefônico levanta uma outra problemática: a da privacidade. Como os números telefônicos têm sido conseguido? De que base de dados eles vêm? Não me consta que essa informação esteja aberta ao público. Se está sendo comprada, quem tinha o direito de vende-la? Os usuários que tiveram seus números de telefone usados, permitiram o uso para esse fim?

Além de tratar-se de um péssimo exemplo, pois demonstra desconhecimento da ética de uso saudável dos meios de comunicação, duvido da efetividade de tal medida. Será que os que dela recorrem gravam a quantidade de desaforos que recebem das pessoas que se aborrecem ao receber o telefonema? Será que medem o impacto negativo nas redes sociais de tal prática?

Os candidatos têm obrigação de conhecer e respeitar essa nova ética porque, como homens públicos, têm um papel preponderante na tarefa de zelar para que os recursos eletrônicos e as informações privadas das pessoas sejam usados de forma responsável.  É uma boa hora de dar o bom exemplo.

* Artigo publicado na coluna Opinião do jornal O Povo de hoje

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Meu Aniversário



Estou tendo um aniversário particularmente delicioso. Em Lyon, muito bem acompanhado, conheço um pouco mais da culinária francesa em restaurantes que competem por chegar em um nível de excelência totalmente impressionantes.

A distância me levou também a receber mensagens de parabéns por email e Facebook as quais adorei. Fantástico como a distância e o virtual fazem com que as pessoas se esforcem para enviar votos carinhosos, criativos, divertidos e calorosos. Talvez não os recebessem se estivesse pessoalmente com os amigos.

Enfim, amigos e queridos familiares, tem sido maravilhoso lê-los e por isso tenho curtido-os demais. Um grande abraço e obrigado.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Manger et Bouger

Os franceses sempre comeram muito bem, tanto em sabor como em termos nutricionais. Quando morei lá, lembro-me demais do quanto eles levavam a sério a educação alimentar nas escolas. Refrigerantes e comidas gordurosas ou muito doces não faziam parte dos cardápios. Foi o único lugar que vi crianças comendo salada no McDonalds.

Ontem, ao assistir a televisão, tomei conhecimento de um programa governamental que mostra o quanto eles continuam preocupados com os hábitos alimentares. O programa “Manger et Bouger” (comer e se mexer) faz parte de uma política nutricional, prioridade de saúde pública, que visa reduzir as patologias mais comuns na França: câncer, doenças cardiovasculares, diabetes e osteoporose.

O programa baseia-se num amplo conjunto de ações para fornecer informações às pessoas de forma que possam tomar decisões favoráveis à saúde quando vão se alimentar quanto a seus hábitos sedentários. Uma das ações, a que me chamou atenção (como havia mencionado), foi a elaboração de uma lei que obriga para toda publicidade de alimentos e bebidas que adicionam sal, açúcar ou edulcorantes e os alimentos manufaturados se veicular dicas de comportamento saudável. As dicas são as seguintes:
  •  Para sua saúde, coma pelo menos 5 frutas e verduras por dia;
  •  Para sua saúde, pratique uma atividade física regularmente;
  •  Para sua saúde, evite de comer muito açúcar, muito sal e muita gordura;
  •  Para sua saúde, evite de ficar “beliscando” entre as refeições;


Essas mensagens saem na televisão a quase cada cinco minutos. O mais interessante é que em horários de programas infantis, elas aparecem mais, pois tem muita propaganda de biscoito, salgados, refrigerantes e outras comida não muito saudáveis. Uma verdadeira lavagem cerebral. Demonstra o quanto eles levam a sério a alimentação. Não é a toa que não se vê a obesidade comum nos EUA e mesmo no Brasil aqui. Você já pensou se passaria na prova das quatro regras dos franceses?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Mais Lenha na Fogueira Acesa por Rita Lee

Plinio Bortolotti e Fábio Campos travaram um debate muito interessante sobre o episódio que aconteceu no show da cantora Rita Lee em Aracaju mês passado. Plínio defendeu haver um erro de prioridade da Polícia de Sergipe quando decide fazer revistas nas pessoas que estavam ao pé do palco da cantora ao invés de combater crimes mais importantes. Fábio Campos em artigo anterior já havia se posicionado contra os argumentos de Plínio (e o fez depois aqui) argumentando que “Quando uns e outros passam a entender que cumprir ou não a lei depende do ponto de vista, é sinal de que há algo de 
muito errado em nossa sociedade”. Ele considera que a relativização das leis atenta contra a democracia e não cabe à polícia decidir quem deve ou não se submeter ao rigor da lei.

Os argumentos de Fábio, de que a lei é para todos e que ninguém está acima da mesma digo que são, literalmente, politicamente (e legalmente) corretos. Em essência não há como discordar dos mesmos, não? Como não creio que as coisas sejam assim tão preto no branco, acho que vale a pena sim fazer algumas considerações. Faço-as sem a menor pretensão de estar legalmente fundamentado, até porque nem é essa a minha formação, mas creio que devamos descortinar outras facetas que estão além dos argumentos de priorização levantados por Plínio.

Para fundamentar meu argumento, deixem-me exemplificar uma prática comum da polícia americana. Lá, as blitz com revistas aos cidadãos, só ocorrem se há alguma evidência, a menor que seja, de que uma pessoa possa oferecer perigo a outros (ou a si mesmo). Por exemplo, um motorista que troca de vias em velocidade ou dirige em zig-zag será certamente parado e revistado. Claro que a decisão para saber se algo “oferece perigo” e do quão pernicioso é esse perigo é subjetiva e vai mesmo além de uma ameaça física como a de provocar um acidente. Mas o fato relevante é de que os cidadãos não aceitam ser e por isso mesmo não são indiscriminadamente objetos de batidas com revistas.

Morei quatro anos na França e 1 ano e dois meses nos EUA.  Nunca fui parado por uma blitz em nenhum dos lugares. Aliás, nunca vi uma blitz tipo as que fazemos aqui. O princípio por trás desta postura é de que a polícia, em suas atividades ostensivas e repressoras, deve obrigar-se sempre a considerar as fronteiras que lhes são impostas pelo necessário zelo que devem ter às liberdades individuais dos cidadãos. Exceção a esta regra, que passou a ocorrer depois de 2001, são as extensas revistas nos aeroportos as quais todos que viajam devem se submeter.

O episódio ocorrido em Sergipe, mais do que uma questão de priorização, deve remeter-nos à questão de deveres do poder constituído, mas igualmente dos seus limites perante os direitos individuais. Não conheço os detalhes da operação, creio mesmo que poucos de nós que estamos a escrever sobre a questão conheçamos. Mas de uma forma geral, fazer revista em cidadãos que assistem ordeiramente um show em um espaço público, quer seja sob a suspeição de uso de droga ou não, me parece claramente uma agressão, no mínimo, um atentado contra a privacidade. Mas o espaço não é público? Sim, mas a individualidade do cidadão deve estar acima de tudo esteja ele onde estiver.

Se temos ou não como esperar que nossa polícia atualmente saiba se portar dentro desses princípios em qualquer ambiente de qualquer classe social é outra história. Mas para remar nessa direção, precisamos primeiro nos por de acordo que isso é importante e é o que queremos.  

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Retrospectiva e Prospectiva: A Meia-Idade

“Nunca houve tanta gente de meia-idade vivendo bem e ativamente no planeta.”

Ao escutar essa frase numa entrevista em que uma especialista em gerontologia descrevia os avanços da Medicina, perguntei-me: é o meu caso? A retrospectiva deste ano não pode deixar de ser sobre os sinais que a meia idade começa a nos dar. As limitações físicas e os problemas de saúde são os primeiros a nos dizer que uma nova época está chegando. Mas é uma época que a Ciência agora nos diz que tem tudo para ser a melhor da vida. Competitiva até mesmo com a tão famosa e propagada juventude.

A Ciência descobre com frequência que tinha descoberto coisas erradas (ou pelo menos imprecisas). A complexidade do corpo humano está ainda longe de ser desvendada. Por exemplo, não é mais verdade que perdemos cerca de 30% da capacidade cerebral quando envelhecemos. Parece ser mais correto dizer que as pessoas da meia idade vivem ativamente, aliam conhecimento teórico com prática advinda da experiência e, o melhor, vivem mais felizes. A capacidade de ser produtivo alia-se à experiência e faz com que as pessoas na meia-idade sejam ainda muito felizes e otimistas.

Alguns acham que em termos de evolução da espécie, esse otimismo é fundamental. Somos peças importantes tanto para cuidar de nossos filhos como dos pais. Uma espécie de elo entre gerações. O otimismo é importante para fazer com que as pessoas que nos cercam sejam também mais felizes. Somos ainda mais conscientes do que nos espera no futuro e assim precisamos menos de preocupações com precauções. Os jovens com sua impertinência encontram-se frequentemente em situações de crise e de perigo. Os jovens estão também inseguros quanto ao futuro. Na meia-idade sabemos mais claramente onde podemos e queremos chegar e assim definimos com maior taxa de acerto nossos objetivos.

2011 me mostrou claramente sinais de minha meia-idade. A saúde, minha, de amigos próximos e de familiares queridos, foi o vetor principal desses sinais. Torço para que sejam somente alertas e que saibamos reagir a eles e que 2012 nos permita ser ainda mais felizes.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mais para idiota do que para gênio

Adorei essa figura que anda circulando nas redes sociais e que por isso decidi compartilhar aqui. Esse é o tipo de comportamento que presenciamos diariamente nas ruas de Fortaleza e que bem que valeria uma manifestação contrária nas redes sociais.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A Privacidade no Virtual: Problema para Pais e Filhos

Nesses últimos dias tenho sentido na pele as dificuldades que passam os pais de adolescentes quando se trata de discutir a postura dos jovens na Internet. E olhe que posso me dizer escolado no assunto (pelo menos pelo ponto de vista técnico!), o que deveria me dar mais espaço para argumentação e capacidade de compreensão das diferentes dimensões que envolvem a questão.

Deixem-me dar um exemplo para tornar minha reflexão um pouco mais clara. Quem de nós (de idade mais avançada) não era mais contido quando falávamos com os amigos na frente de nossos pais? Tínhamos sempre um pouco mais de cuidado ao falar em público (para não dizer palavrões, por exemplo) do que quando estávamos somente com nossos colegas. Na verdade, essa atitude é muito natural e ainda agimos assim. Nosso comportamento privado, dentro de uma rede social de amigos, é sempre muito mais livre do que em ambientes menos íntimos. A decisão de como se portar era  relativamente simples de ser feita. Estava fortemente relacionada ao local físico e a presença física. Ou seja, na roda com os amigos o comportamento é um,  já nos meios mais formais,  o comportamento é outro sempre mais contido.

Ocorre que o mundo atual digital expandiu os horizontes de interação e tornou essa escolha de postura muito mais difícil de ser feita. No mundo atual, tudo se digitaliza e por isso ganha a capacidade de estar em qualquer lugar instantaneamente. Mesmo uma reunião presencial pode ser rapidamente difundida. Pode-se, por exemplo, estar reunido em uma mesa de bar e ser filmado e “transmitido” para qualquer lugar do mundo com a facilidade que smartphones conectados na internet e com suas câmeras de vídeo de alta resolução permitem.

E isso não para por aí. Depois de digitalizado, fica-se registrado. Ou seja, não dá para esquecer o que disse. A reprodutibilidade é outra característica marcante do mundo digital. Pode até ser que sua imagem e mensagem não seja imediatamente transmitida, mas ela estará registrada em algum lugar e poderão acha-la (com a ajuda do Google, claro) em outro momento.

De uma forma geral, o que quero atentar é que os contextos privados estão cada menos reservados. As redes sociais virtuais, então, são mestres em nos ludibriar sobre que contexto estamos. Quando conversamos pelo Facebook ou Orkut, por exemplo, temos a tendência a achar que é o mesmo contexto da nossa mesa de bar ou mesmo uma mera reunião com amigos. Não é bem assim. Por mais que queiramos ou tentemos, impossível ter o controle sobre a difusão da informação digitalizada.

Em se tratando de adolescência, os perigos pela não percepção exata de que contexto se está inserido são ainda maiores. Jovens são mais despojados e expõem-se mais abertamente, o que pode ter consequências muito desagradáveis. Não é a toa que as redes sociais não podem ser acessadas pelas crianças (o que aliás, se desmoraliza cada vez mais aqui no Brasil).

Mas afinal, o que fazer? Não tenho a prepotência de dizer que tenho soluções para a questão. Na verdade, tento, eu também, aprender como agir. De uma forma geral, creio que só uma velha máxima é que vale aqui: os pais devem acompanhar seus filhos. Acompanhar aqui significa participar também dos contextos virtuais nos quais eles se inserem. Segui-los no Twitter, tê-los como amigo nas redes sociais, etc são o mínimo(ou talvez o máximo) que nós pais podemos fazer. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Capacidade de Indignação

A capacidade de se indignar e de se manter indignado é fundamental para a saúde de uma sociedade. Mas isso não é nada fácil. Faz parte da natureza humana, a racionalização, pois nos libera das tristezas causadas pelas “coisas que (pensamos) não podemos mudar” ou somente porque queremos esquecê-las. Creio que racionalização é especialmente importante para nós brasileiros que temos a felicidade como valor tão fundamental.

O exemplo mais marcante de indignação que vivenciei aconteceu logo depois de minha volta dos EUA quando lá residi por mais de um ano. Fomos, minhas filhas e eu, de carro a uma farmácia e ao sair de lá, formos abordados por uma jovem mulher que tinha uma criança chorando no colo. Ela me pedia dinheiro para comprar um remédio enquanto mostrava-me a filhinha doente. Ao sair do local, percebi que minha filha (de 17 anos então) chorava muito.

Ao perguntar-lhe o que tinha acontecido, só escutei como resposta “não é justo, não é justo”. Aquilo me chocou tanto que nem me lembro muito dos argumentos que encontrei para racionalizar tudo. Só me lembro que foi exatamente o que tentei fazer. Nunca me esquecerei de sua indignação sincera e pura. Não estava acostumada com aquele contexto e indignava-se com o que via. Não creio que isso ainda ocorra hoje em dia, quatro anos depois. Provavelmente aprendeu a racionalizar, mas me marcou.

É uma estória que sempre me vem a mente quando vejo as crianças dormindo ao relento nas cidades brasileiras. Lembro-me ainda do marcante monumento ao holocausto bem no coração de Berlim. São pedras enormes como túmulos que são dispostas em uma enorme área. Ao todo, perfazem 90 mil metros quadrados com 2711 lápides de concreto cinza. Um projeto de 27 milhões de euros. Só para não deixar a sociedade esquecer e lembrar que é preciso se indignar.  Temos a difícil tarefa de alimentar nossa indignação.


* Artigo escrito na coluna Opinião do Jornal O Povo em 29/11/2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

Que Fortaleza os Turistas Verão?

Essa pergunta foi feita nesse domingo pelo Jornal O Povo a seis pessoas que, de uma forma ou de outra, estão ligadas à área de turismo no Estado do Ceará. Li atentamente cada resposta. Elas elencavam, por um lado, facetas positivas como nossas belezas naturais, bem como outras menos otimistas relativas às deficiências de infraestrutura e segurança.

Não mencionaram aquilo que me salta aos olhos diariamente, em especial na área turística da cidade e que acredito merecer ênfase. De uns tempos para cá, o número de pessoas que dormem nas ruas da região da Beira Mar parece-me só crescer.

Não sei dizer se há um aumento real ou um aumento na minha percepção.  Talvez as duas coisas. Tenho viajado ao exterior e o choque do retorno é sempre relacionado à forma miserável como algumas pessoas (a maioria jovens) se deteriora  ao relento aqui na cidade. Não é também incomum ver famílias nessa situação ou pelo menos grupos de pessoas que parecem compor uma família.

E se refizéssemos então a pergunta feita pelo jornal para algo como: Que sociedade vão os turistas conhecer? Que impressão terão do fortalezense? Que impressão terão de nós mesmos? Elas permitem-nos considerar uma dimensão de cidade maior do que praças, ruas e serviços.

Respostas a essas perguntas podem incluir um componente capaz mesmo de nos envergonhar e que está além da hospitalidade, alegria e afabilidade que gostamos de nos imputar. Podem identificar uma excessiva passividade que nos leva a aceitar inertes um convívio diário com concidadãos em situação tão penível. Se não nos indignamos a ponto de fazer nossos governantes resolverem a questão ou, talvez, de agirmos nós mesmos, será que isso não será “percebido” pelo turista? Ou será que achamos mesmo que isso não tem nada a ver conosco? Não podemos. Queiramos ou não, percebamos ou não, essa é a Fortaleza de hoje.

* Artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de hoje 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Refletindo “Tipo de” sobre “Tipo de” o Uso “Tipo de” excessivo de “Tipo de”

Os jovens adoram usar expressões da moda. Contaminam-se com muita facilidade e ainda as adaptam para formas mais simplificadas que consequentemente facilitam contágio. É comum o uso de abreviações e adaptações de termos estrangeiros, por exemplo.  Nem todos percebem ou se incomodam com o uso dessas expressões, quase manias, que identificam os jovens a sua tribo mas que pode passar dos limites do aceitável. 

Não me acho muito intolerante com esse linguajar, mas reconheço que recentemente me inseri no rol dos incomodados. A febre do “tipo de”, “tipo aquele”, “tipo disso”, “tipo aquilo”, ou somente “tipo” está insuportável. Seu uso é sufocante. Não se consegue mais dizer duas palavras sem a ligação de “tipo-de”.  

Comentei com minhas filhas sobre o fato.  Ainda bem que elas não estão contaminadas (pelo menos quando falam comigo), mas percebem o quanto isso está presente no contexto de onde vivem. Aliás, creio que a convivência comigo não permite um exagero delas. Sofreriam um verdadeiro bullying de minha parte se se comportassem assim. A mais velha comentou comigo que alertou as colegas na Universidade e muitas nem se davam conta da absurda frequência com que faziam recurso da expressão. O melhor é que quando alertadas, perceberam o vício e buscaram mudar. Não conseguiram. Foi aí que perceberam mesmo o quanto estavam acometidas.

Motivei-me a escrever sobre isso. Talvez você que esteja lendo não tenha “tipo” percebido que “tipo” estava “tipo” acometido “tipo “do mesmo vírus. Se perceberam agora, busquem-se logo se vacinar. É ridiculamente insuportável aos ouvidos dos outros.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Por Gorjetas de 15%. Opcionais.

Já foram algumas as minhas idas aos EUA. Negócios e passeios se somam ao ano de vivência durante o pós-doutorado. Nelas, durante e depois, vejo-me sempre a pensar sobre semelhanças e diferenças entre as sociedades. Nos dias atuais, nos quais cada vez mais o brasileiro tem a capacidade de conhecer os EUA in loco, pergunto-me se conseguiremos nos influenciar pelo o que há de positivo por lá ou só vamos conseguir contaminarmos pelo vírus do consumo exagerado que por lá tanto circula?

Uma das coisas que mais considero positiva na sociedade americana é que ela é eminentemente meritocrática. Isso é um pilar importante dentro de uma sociedade competitiva. Eles acreditam que se forem bons e fizerem a coisa certa (do the right thing), vão sobressair-se. O apadrinhamento, os laços de amizade e os laços familiares têm muito menos relevância do que cá por estas bandas.   

Um exemplo emblemático de como esse valor pelo mérito é exercitado pela sociedade é a forma como as gorjetas são dadas aos prestadores de serviço. Primeiramente, elas não são dadas somente a garçons em restaurantes. Motoristas de táxi, carregadores de mala e camareiras também podem recebe-las. Agora, o mais importante, é que são opcionais. Nada de incluí-las obrigatoriamente no serviço. Recebe quem merece (e recebe mesmo, não fica com o proprietário). Convencionou-se que um serviço prestado corretamente merece 15%. Uma qualidade superior ao esperado pode valer gorjeta de até 20%.

As gorjetas opcionais servem para exemplificar um outro valor fundamental e que também é sustentáculo da sociedade americana. O rei na sociedade de consumo é o cliente. Dar-lhe atenção e prestar-lhe bom serviço é essencial e não deve ficar só em conversa. Pesa no bolso. Isso não se restringe ao atendente na ponta, mas ao sistema todo. Uma vez, ao sentar-me à mesa em um restaurante, havia um garfo sujo entre o talher que me foi disposto. Solicitei à garçonete que o trocasse. Ela não só o fez de pronto, mas ainda comunicou ao gerente (creio que teve receio de não ter seu serviço bem avaliado) que veio gentilmente pedir-me desculpas e oferecer-me um tira-gosto como cortesia. Será que presenciaria isso aqui onde os 10% independem da qualidade do serviço prestado?

Nesse momento em que temos discutido sobre nossa vocação turística em especial  como preparação para o Copa de 2014, que tal implementarmos ações que tornem melhores prestadores de serviço? O exemplo americano, nesse caso, acho que poderia ser de bom alvitres. 


* esse artigo foi publicado na coluna Opinião do Jornal OPovo de 13/06/2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Ciência Motivacional


Nesse fim de semana, quando uma malvada virose me permitiu, estive assistindo o vídeo da palestra de Dan Pink no TED Oxford. Ele retoma a questão cujo a qual já discorri aqui no blog e que tem Dan Ariely, autor de Predictabily Irrational” como a voz mais ativa: a economia comportamental

Pink volta à questão do que motiva as pessoas e o caráter deletério que as recompensas financeiras podem ter. Em particular, ele dá exemplos de tarefas criativas e de como as pessoas reagem negativamente quando instigadas a desenvolvê-las por recompensas financeiras. Em tarefas onde se exige esforço mecânico e continuado as recompensas financeiras funcionam bem. Mas o mundo dos negócios hoje em dia se baseia de mais em mais em atividades criativas.

O exemplo da estratégia da Google de dar 20% do tempo do trabalho para o funcionário fazer o que desejar é mencionado como uma prática adequada para esse novo contexto. Cerca de 50% dos novos produtos da Google nasceram dos próprios funcionários justamente nesse momento em que têm tempo livre. A motivação que os move é a de poder criar algo novo e atrelar seu nome a isso.

A palestra começa com uma historinha de um exercício criativo que é bem interessante: o problema da vela. Veja a figura abaixo com tachinhas, fósforos e a vela. Como fazer para acender a vela suportá-la na parede de forma que a cera não caia na mesa. A resposta está no vídeo, mas saibam que pessoas recompensadas com dinheiro para terminar essa tarefa mais rápido acabam por realizá-la de forma mais lenta do que um grupo sem esse tipo de incentivo.



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Lei Seca para Bares e Restaurantes


Vira e mexe, a proposta de criar uma lei para proibir a venda de bebidas alcoólicas a partir de um certo horário da noite vem à tona. Sem nenhuma pretensão de rigor jurídico interpreto que leis são normas criadas por uma sociedade com o objetivo de organizar a vida comunitária. No entanto, outros fatores que lhes estão pari passu são a moral e a cultura. A sinergia entre esses conceitos é essencial para a efetividade das leis.

Um exemplo bem sucedido disso foi visto no governo de Antanas Mockus, prefeito de Bogotá por duas vezes, na implantação do que chamou de cultura cidadã. Ele buscou, de forma pragmática, criar condições para que a sinergia acontecesse. Por exemplo, para melhorar a educação no trânsito, mímicos contratados para ensinar às pessoas a importância das faixas de pedestre explicavam teatralmente que o correto era atravessar na faixa. Aos motoristas, ensinavam o respeito ao território dos pedestres. Com o passar do tempo, a própria população passava a repreender os transgressores com apitos e cartões vermelhos distribuídos pelo próprio poder público. A aplicação da multa pelo guarda era a última alternativa. Vê-se nesse exemplo a preocupação com a moral (representada pelos mímicos), a cultura (manifestada pela participação popular) e a lei (personificada no guarda).

Volto então à questão da Lei Seca em bares e restaurantes.  Nunca vi um dono de bar pedir carteira de identidade a um jovem antes de vender bebida alcoólica. Já há uma legislação em vigor, mas que culturalmente é desconsiderada. Um típico exemplo de fenômeno comum cá por essas bandas: “lei que não pega”.

O Estado não terá estrutura para verificar se todos os bares e restaurantes vendem bebida alcoólica após um horário definido pela lei. Se isso não for uma decisão compreendida, apoiada e desejada pela sociedade, será mais uma lei que não pega. Os exemplos onde a medida foi bem sucedida precederam de um forte trabalho de mobilização e articulação fomentado pelo poder público. Em grandes cidades, como Fortaleza, onde essas articulações requerem ainda mais esforço, credibilidade e representatividade dos governantes fica bem mais difícil da lei ser efetiva.

* este artigo foi publicado hoje na coluna Opinião do Jornal OPovo

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Bullying Institucionalizado

Em comparação com europeus e americanos, uma das posturas que mais considero marcante nos brasileiros, e mais ainda em nordestinos, é o hábito de “reparar” algo nos outros. Quem morou no exterior percebe mais claramente  esse hábito. É algo tão enraizado na nossa cultura que poucos que aqui vivem percebem o quanto é presente.  Morei na Europa e nos EUA. Ao conviver com outras pessoas lá, percebe-se claramente a preocupação de todos em respeitar a imagem e as decisões dos outros. Por exemplo, se você vai a um cabeleireiro, ninguém no trabalho diz “cortou o cabelo, ne’!”.

Quando falo sobre isso a amigos, alguns me dizem: “puxa como deve ser sem graça”. Pois é, pode-se até atribuir esse tipo de postura a frieza e distância, mas acho que é muito mais uma forma de respeito ao espaço dos outros.

Creio que nós, sob a desculpa da intimidade e convivialidade, exageramos. Reparamos nos outros tudo que os marca. É uma espécie de bullying institucionalizado. Você está magro ou gordo, velho ou novo, cabelos brancos ou pretos, curtos ou longos e por aí vai. Reparamos cada detalhe nos outros como se precisássemos disso até para nos aproximar, para ter intimidade. Não me surpreende quando leio sobre a procura crescente por cirurgias plásticas. Deve ser um peso grande para quem tem algo físico a ser notado a todo momento.

O cearense em particular além de comentar sobre alguma característica de alguém, ainda o faz frequentemente em tom jocoso. Quem vestido de preto não recebeu o comentário “está de Zorro, eih”. Se veste branco, “Lá vem o doutor ou o pai-de-santo”. Faz-se isso sem muito cuidado e frequentemente se passa dos limites. Algumas pessoas ao serem apresentadas a outras, já reagem com uma piadinha ou comentário engraçado. Não consigo me habituar com isso confesso. Mas como se diz por aqui “perde-se um amigo, mas não a oportunidade de uma piada”. 

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Marchas da Maconha: Reflexões Legais

"Think outside the box."

Essa expressão é muito usada nos EUA para referir-se à necessidade, que muitas vezes se impõem, de se pensar diferente. Abrir horizontes. Quebrar paradigmas. Só assim se consegue inovar e resolver problemas complexos Em se tratando dos efeitos deletérios que as drogas e a guerra contra as mesmas trazem às sociedades, só quebrando paradigmas. Está claro que a forma como o mundo atualmente aborda o problema é fracassada.

Surpreende-me a reação negativa de alguns às iniciativas de se abrir um debate sobre a necessidade de se aumentar o rol de drogas legais. Aqui em Fortaleza, a marcha nesse sentido (cunhada de Marcha da Maconha) foi proibida pela justiça. Os poucos manifestantes que se reuniram no local, por não terem sido informados da proibição, foram intimidados pela Polícia. Mesmo jornalistas com posição progressista como Fábio Campos do O Povo se posicionaram veemente contra à manifestação.

Não tenho como discutir o mérito da questão da legalização de drogas como a maconha e cocaína. Não possuo conhecimento suficiente sobre o tema que permita-me formar uma opinião segura. Mas é exatamente por essa minha ignorância que considero que o debate sobre a questão deve ocorrer. Só assim se consegue aprofundar o tema e gerar conhecimento. Não precisa ser especialista para perceber que o mundo está perdendo o combate contra as drogas. Não é a toa que vozes vindas de fontes diversas e ecléticas como a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso estão a clamar por uma nova política de descriminalização.

O uso de drogas como maconha para tratamentos médicos é igualmente barrado por um enorme bloqueio preconceituoso. Já há muito conhecimento médico dos efeitos positivos da maconha em tratamentos, inclusive contra o câncer. Um dos maiores especialistas mundiais em drogas, o psicofarmacologista Elisaldo Carlini, ligado à Unifesp, aponta a existência de estudos feitos com animais em que se revela que o princípio ativo da maconha ajuda a combater a depressão e fortalece os indivíduos em situações de estresse.

Em outro estudo, durante três anos, um grupo de 50 viciados em crack se submeteu a uma experiência comandada por psiquiatras da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo): a combinação de terapia com maconha. O resultado do teste ganhou repercussão mundial, especialmente nos EUA, onde foi publicado em revistas científicas. Daquele grupo, 68% trocaram o crack pela maconha. Tempos depois, todos os que fizeram a troca não usavam nenhuma droga.
A maconha serviu para reduzir o desejo pelo crack, enquanto se esperavam os efeitos da terapia para que, com apoio familiar, o jovem pudesse reorganizar sua vida.
Os especialistas não só conhecem dos efeitos da maconha na concentração, no aprendizado e na memória, mas  sobretudo, sabem que sua descriminalização não é uma medida de fácil implementação. Visões preconceituosas impedem discussões honestas e mesmo o direito de fazer ciência é negado. Precisamos criar um ambiente favorável às opiniões divergentes. O fato da lei proibir o uso e a apologia do consumo não pode ser, de maneira alguma, argumento para impedir a discussão sob o tema. Afinal de contas, as leis não são imutáveis e as soluções inovadoras não virão sem muita pressão e movimentação social. 

terça-feira, 1 de junho de 2010

Hipocrisias da Sociedade e Segurança Pública II : Polícia Comunitária

Quando o programa Ronda do Quarteirão começou aqui no Ceará, escutei muita gente dizendo que a Polícia cearense estava muito boa. Escutava relatos de pessoas que espantavam-se porque os policiais tinham sido corteses. Davam até bom dia quando paravam carros na blitz! "Esse negócio de Polícia Comunitária é genial". Não me entendiam quando diziam que isso para mim não significava muito. Sempre disse que educação e respeito é obrigação de qualquer cidadão e dos funcionários públicos não poderia ser diferente. Agora, não achava que isso era suficientemente importante para se batizar a Polícia cearense de comunitária. 

“Bandido bom é bandido morto!”

Quem não escutou ainda essa frase aqui no Ceará? E sabe quem são os maiores adeptos dessa máxima? Os mesmos que tanto elogiam o “bom dia” do Ronda na blitz. É isso mesmo! Educação para nós, bala pros “outros”. E quem vai definir quem são os outros mesmo? Nem precisa. As estatísticas mostram que são os jovens desfavorecidos, normalmente da periferia. Não vou entrar pela lógica do discurso de grupos de direitos humanos que já critiquei e acho-os desgastados aqui no Estado. Partidarizaram um discurso que deveria ser mais amplo. Mas quero mostrar que essa tremenda hipocrisia é potencializadora de nossos problemas. Temos que compreender isso. Já escrevi sobre o quanto queremos punir os que cometeram delitos e por isso deixamo-los sofrer nas penitenciárias lotadas. Outro exemplo da hipocrisia. Para alguns: prisão domiciliar e penas alternativas. Para “os outros”: o inferno das prisões. Assim fica difícil de engajar qualquer tipo de reação à violência que impera e que está literalmente acabando com nosso sossego.

Além do mais esses rótulos de "polícia disso e polícia daquilo" estão sendo manipulados de forma marqueteira e só atrapalham. O que se precisa é de uma boa polícia, ponto. E uma boa polícia respeita os direitos de TODOS e sabe usar a força quando necessário. Por isso me preocupo tanto com o treinamento (depois volto ao tema).  

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Hipocrisias da Sociedade e Segurança Pública I : Transparência

A Segurança Pública é um domínio sem igual. Minha caminhada nessa área, embora sem atuar diretamente, como o fazem os policiais, permitiu-me descobrir (pelo menos para mim foi descoberta) hipocrisias de nossa sociedade. Deixem-me refletir sobre duas delas que me estão evidentes diariamente.

A primeira relaciona-se ao conceito de transparência da informação. Com WikiCrimes e depois com minhas palestras sobre governo 2.0 e dados abertos fui percebendo que esse conceito tem particular interpretação pelas pessoas. Lembro-me sempre do dito de que “mordomia só é ruim nos outros”. Pois é, vou lançar aqui um outro análogo 

“transparência só é bom nos outros”

Sempre que exponho WikiCrimes para empresários, eles são receptivos à idéia. No entanto, quando se vêem convidados a informar os crimes que ocorrem nos arredores de seu estabelecimento comercial, arrefecem. “Mas assim você vai assustar a minha clientela”, dizem. Banqueiros não gostam de dizer que há roubos em seus bancos, nem nos arredores. Comerciantes também não querem indicar locais perigosos perto de suas lojas. E assim adiante. Preferem deixar seus clientes desinformados e correrem riscos por não terem como se precaver do que “sujar”sua imagem. Zelam muito pelos clientes, não?

Uma das maiores surpresas que tive com WikiCrimes foi a postura das seguradoras de automóveis. Achei que adorariam a idéia e se uniriam a nós no projeto. Quando as procurei vi muita reticência e minha ingenuidade não permitia compreender a razão. Depois de algum tempo, um amigo foi sincero e me disse: para que deixar essas informações abertas para todos? As seguradoras, já as possuímos. Como? Mas como já as têm e a sociedade não? Custou, mas caiu a ficha. Há um jogo de troca de favores que a propriedade da informação pública acaba induzindo.

A situação de professores pesquisadores que trabalham com a temática é igualmente inusitada. Todos lutam pela transparência e pelos dados. Mas dependem do bom humor do Governo para tê-los. Presenciei casos de pesquisadores que se tornaram reféns do Secretário de Segurança que definiu quem pode acessar os dados públicos. Sujeitam-se. Lamentável.

Calma Vasco. Isso está a mudar. Governo aberto vai chegar aqui. Pena que nossas iniciativas pioneiras tenham que sofrer por não estarem no timing certo.

A outra hipocrisia refere-se aos direitos humanos e discorro em detalhes amanhã.

terça-feira, 3 de junho de 2008

A Vergonha do Basquete Master na Bahia

Costumo comentar o quanto tem sido agradável participar das competições de basquete master. Eu que fui atleta durante tantos anos (mas nem tanto tantos!) estava sentindo saudades do friozinho na barriga antes de uma final de competição ou partida decisiva. O desafio competitivo e as euforias que ele traz são inebriantes e, para um atleta master (melhor do que ex-atleta, né?), são por demais nostálgicas. Além do aspecto competitivo e rejuvenescedor, outra característica habitual deste tipo de evento é a reunião fraterna entre os jogadores. São momentos de reencontros e de recordações entre amigos e ex-oponentes. Os jogadores estão normalmente acompanhados por suas famílias, o que aumenta o congraçamento entre todos. Infelizmente, por estar em viagem de trabalho na Europa, não pude comparecer a Salvador na última semana para competir no campeonato Norte e Nordeste. Tomei conhecimento, no entanto, de que tive sorte em não ter ido. Uma desagradável cena aconteceu na competição e que a manchou fortemente. Um ex-atleta da Bahia (um tal de Jandiro, que certamente nunca teve a real dimensão do que é ser um atleta), no final de um jogo decisivo contra a Paraíba, forneceu deliberada e reiteradamente a bola para um adversário da Paraíba para que o mesmo fizesse uma quantidade de pontos que gerasse a desclassificação da equipe do Ceará. Pois é, o espírito esportivo e de respeito foi para o espaço. Difícil saber o que passa na cabeça de um cidadão desse. Mas o mais marcante é a reação dos outros integrantes da equipe baiana e dos paraibanos. Ninguém se posicionou e ainda hoje nas listas de discussão por emails, os participantes do certame, inclusive os de outros Estados não envolvidos diretamente, não imputem nenhuma responsabilidade aos outros envolvidos. Na verdade, isso não me surpreende muito. Temos uma grande dificuldade em imputar responsabilidades indiretas. Acostumamo-nos a encontrar o bode expiatório e responsabilizá-lo por toda a maracutaia (para usar um termo em voga). Nesse caso do basquete nem foi preciso muita força para achar o culpado, mas não é difícil perceber que não teria conseguido fazer tudo sozinho. De qualquer forma, o mínimo que se pode fazer é denunciar. Foi nesse intuito de que escrevi esse texto.