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quarta-feira, 16 de maio de 2007
Merda de Cachorro e Cidadania
Tenho observado um constante incremento no número de pessoas que passeia em locais públicos com seus animais de estimação, principalmente cachorros. Isso reflete uma tendência mundial e verificada com muita clareza na Europa e nos EUA. No entanto, nestes países há uma grande diferença. Os donos de cachorros têm a responsabilidade de limpar os excrementos deixados por seus animais. Aliás, essa responsabilidade também existe aqui, mas a diferença é que eles a assumem, nós não. Vi muito na Califórnia os donos de animais de estimação andando com uma espécie de luva de plástico que é usada com este fim. Em muitos parques, estas luvas são disponibilizadas em banheiros públicos da mesma forma que o papel higiênico. Mesmo na França onde esse problema é historicamente reconhecido, novas leis têm surgido com o intuito de penalizar os que não colaborarem com a limpeza pública. Infelizmente, em uma cidade como Fortaleza em que abundam casos de pessoas que jogam lixo de seu carro no meio da rua, parece ser pedir demais observar este detalhe, não? Mas considero que este fato é emblemático de nosso problema social. Não queremos assumir nossos deveres. Queremos ter direitos, mas os deveres... É mais fácil culpar o governo, a prefeitura, a empresa de lixo, etc. Essas pequenas coisas fazem uma diferença grande no final. Continuo dizendo que temos uma grande crise de cidadania e de consciência coletiva. Se aprendermos a respeitar os outros e os valores sociais, aprenderemos, em conseqüência, a cuidar melhor de nosso patrimônio público. Repito, podemos começar nós mesmos.
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terça-feira, 15 de maio de 2007
Sonegação Fiscal e Participação da Sociedade
Sonegação fiscal e participação social já foi um tema de reflexão em texto anterior (clique aqui para acessá-lo). Vou retomar as reflexões, contando um fato que me ocorreu neste fim de semana. Fui realizar uma compra em uma loja de lustres em Fortaleza, Paroma Lustres, e na fila para realizar o pagamento percebi que a pessoa no caixa ficava perguntando aos clientes se eles queriam ou não o cupom fiscal. A princípio não consegui compreender o que aquela questão significava e o que era o tal cupom. Como estive fora esse último ano, pensei que podia se tratar de uma promoção da Secretaria da Fazenda. Quando essa pergunta foi feita a um senhor que estava na minha frente e ele disse que não queria o tal cupom, reforcei meu sentimento de que este cupom seria um bônus qualquer. Ao chegar minha vez, fui questionado da mesma forma, se queria o cupom fiscal. Indaguei o que era mesmo esse cupom e então, para minha surpresa, fui informado que o cupom e a nota fiscal eram a mesma coisa. Disse a pessoa da loja que ela não tinha nem que me questionar se eu queria a nota ou não. Ela era obrigada a fornecê-la. Deixei claro que aquela pergunta tinha me surpreendido, principalmente pelo fato de ter visto um cliente antes de mim que não tinha recebido a nota pela sua compra. Esta situação me remete a uma reflexão sobre a natureza deste tipo de imposto e do desconhecimento dos cidadãos da sistemática de seu funcionamento. Para explicar de uma forma simples o fato de que os comerciantes são meros repassadores do valor do imposto pago pelo contribuinte, deixe-me criar a seguinte situação hipotética. Se eu for comprar um produto que me custa cem reais, dezessete reais deste montante não são do comerciante, mas do governo. Eu estou somente solicitando ao comerciante que receba os dezessete reais e que os repasse ao governo para que o dinheiro seja aplicado em educação, saúde, segurança, etc. O dinheiro do imposto é meu. Não é do comerciante. A maneira de formalizar este acordo é através da nota fiscal. Ou seja, o comerciante emite a nota para confirmar que recebeu os dezessete reais, se comprometendo a passá-los ao governo. Quando ele não emite a nota, ele se desobriga a passar o dinheiro para o governo. Cria-se uma típica situação de apropriação indébita. O dinheiro que dei para o governo fica nas mãos do comerciante. Olha que tenho até encontrado muitas pessoas que, por estarem revoltadas com os nossos governantes, declaram abertamente que se puderem sonegar o fazem. Mas especificamente neste caso, se o cidadão não pede a nota, ele não está sonegando, ele está simplesmente sendo enganado. Roubado mesmo. Sendo assim, me questiono: porque há pessoas que não solicitam a nota? Porque alguns dizem que não a querem quando perguntados (o que me parece ainda mais absurdo) ? Só tenho uma resposta. Desconhecimento de causa. Aqui cabe uma crítica aos governantes que gastam tanto com campanhas publicitárias dos mais diversos tipos. Porque não investir em campanhas que esclareçam isso? Porque não investir na formação de uma consciência coletiva de cidadania? Porque não realizar ações educativas nas escolas esclarecendo os mecanismos que nós mesmos criamos para viver em coletividade (como a logística dos impostos)? Bem, se eles não fazem, façamos nós mesmos o que estiver ao nosso alcance.
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segunda-feira, 14 de maio de 2007
Sinceridade Papal
Ainda sobre a visita do Papa ao Brasil, devo dizer que fiquei surpreso positivamente com a postura afirmativa e segura do Papa sobre os problemas brasileiros. O fato de ser autoridade espiritual para a maioria dos cidadãos brasileiros o permite ser sincero e não tergiversar sobre os problemas que nos afligem (enfocando o ponto de vista da igreja, é claro). E foi exatamente isso que ele fez. Contrariando alguns que esperavam somente uma visita de cortesia com elogios e troca de tapinhas nas costas (o que não deixaria de ser muita hipocrisia), ele foi muito incisivo em seus comentários mostrando um completo domínio da realidade brasileira. Desde a classe política até a mídia televisiva, sobrou para todo mundo. Por exemplo, ele pediu que os pastores buscassem formar “ nas classes políticas e empresariais um autentico espírito de veracidade e honestidade”. Sobre a mídia ele disse que "É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio”. Foi um recado direto a televisão e em particular as telenevolas dito pelo especialista do Vaticano (Jornal OPovo dia 13 de Maio). Ele acrescentou que “ as ficções veiculadas pelas telenovelas não mostram uma família normal. Existem infidelidades, traições, há filhos nascidos fora do casamento, pessoas que passam de uma cama a outra e há o sexo livre. Tudo isso contraria o que é a doutrina moral da Igreja sobre o matrimônio". Ele acha que o que a Igreja constrói educando os jovens nas paróquias e nos oratórios é destruído pela televisão, porque ela é mais forte, mais incisiva do que a pregação de um padre ou de um bispo. Esses comentários me fazem enfatizar a opinião veiculada em um texto anterior de quanto o perfil dos padres é importante para que essa missão seja realizada.
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domingo, 13 de maio de 2007
A Necessidade de Bons Pastores
Aproveitando a visita do papa Bento ao Brasil vou refletir um pouco sobre a religião católica. Percebo que há um grande número de pessoas (e mesmo de fiéis) que acredita que alguns dogmas da Igreja católica deveriam ser mudados para acompanhar a evolução dos tempos. Trata-se de tema delicadíssimo e complexo, mas busco entender a posição conservadora da Igreja. Entendo que os valores fundamentais de uma religião não têm a obrigação de serem populares. Os valores morais defendidos pelas religiões visam estipular um padrão comportamental das pessoas em uma sociedade (outro debate seria analisar o quanto isso é bom e o quanto é ruim). O fato é que as culturas mudam com muita freqüência e nem todas essas mudanças são ortogonais aos valores religiosos. Se as religiões acompanhassem essas mudanças correriam o risco de perder identidade e não cumprirem sua função. O surgimento de incompatibilidades é uma conseqüência natural. Em particular, a igreja católica centra boa parte de suas energias na família e em torno dela gravitam outros temas como aborto, comportamento sexual e divórcio. O comportamento das pessoas face estes temas sofre modificações freqüentes. Continuar motivando seus seguidores a viver segundo valores conservadores não é tarefa fácil e creio que é fortemente relacionada com a qualidade dos padres. Nesta direção, um aspecto que me intriga refere-se à impossibilidade de se ter pastores casados. Em meu parco conhecimento teológico, não consigo vislumbrar onde este dogma seja um pilar mestre de sustentação de um valor moral específico. A manutenção desta medida, no entanto, tem sido catastrófica para a Igreja Católica. Vêem-se casos de desvios de comportamento sexual dos padres que têm sido mais freqüentes do que se podia esperar, o que abala a fé dos seguidores e a credibilidade da instituição. Outro aspecto refere-se ao fato da procura para ser padre ter diminuído além da qualificação dos mesmos também ter diminuído. No Brasil de alguns anos atrás, as famílias queriam que os filhos fossem médicos, advogados e padres. Atualmente isso não é mais verdade (no que se refere aos padres!). A necessidade de bons pastores é essencial para qualquer religião. Trata-se de um papel de liderança que requer conhecimento teológico e, acima de tudo, sensibilidade social. Impor aos padres a barreira de não permitir a formação de uma família (que, como já disse, é um dos valores fundamentais do catolicismo) me parece um contra-senso e um erro estratégico que poderá custar caro no futuro.
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quinta-feira, 10 de maio de 2007
Pesos Pesados e “Take Five”
Aos amantes de música, YouTube é um regalo. Há uma diversidade de material impressionante. O vídeo de Pavarotti e Barry White postado abaixo é um exemplo. Os dois são literalmente pesos pesados em tamanho, relevância como artistas e principalmente em voz. O vídeo é histórico, pois infelizmente não teremos mais como escutar Barry White ao vivo, e enfim, mostra o quão eclético Pavarotti consegue ser. Em seguida pode-se ver outro vídeo, desta vez destinado aos amantes do Jazz clássico: Dave Bruback em 1961 tocando seu carro chefe inigualável "Take Five" com Paul Desmond no sax. Apreciem sem moderação.
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Mestrado e Doutorado como Potencializadores do Empreendedorismo
Em textos anteriores discorri sobre os cursos de mestrado e doutorado e de como os mesmos visavam uma formação científica e qualificavam o pesquisador. Como boa parte da pesquisa científica mundial é feita em Universidades e os pesquisadores são também professores, se associa naturalmente o aspecto acadêmico e docente à pesquisa. No entanto, quero enfatizar outra possibilidade que um estudante pode explorar ao realizar os cursos de mestrado e doutorado: a qualificação para o empreendedorismo. Vejo uma forte relação entre o empreendedorismo e a capacidade de inovação. Pude vivenciar isto neste último ano em que estive na Califórnia. Ele é exemplarmente presente no vale do silício e em particular na Universidade de Stanford. Há uma atmosfera de inovação que contagia e que se perpetua onde o tom principal é dado pela sinergia entre as descobertas científicas e seu uso prático em empreendimentos inovadores. Neste sentido, transparece que a qualificação dos estudantes que realizam mestrado e doutorado é um fator determinante para que se consiga produzir tanta inovação. A formação científica traz algumas características ao estudante (e profissional) que são fundamentais para a formação de um perfil empreendedor. Vou me concentrar em dois aspectos. O primeiro refere-se ao inerente estilo crítico e analítico que se requer de um pesquisador. Uma característica sine qua non é aprender a aprender e principalmente a identificar problemas a serem resolvidos. Costumo mencionar aos alunos que a parte mais difícil de um trabalho de pesquisa é a fase de identificação de um problema. Aqui vale a pena esclarecer o que considero ser um problema de pesquisa. Um problema de pesquisa tem uma escala global. Ou seja, ele ainda não foi resolvido por ninguém no mundo. É bem verdade ainda que existem problemas que já estão identificados e que o desafio maior é encontrar a solução para os mesmos ( a vacina contra a AIDS, por exemplo). No entanto, em muitas ocasiões encontrar problemas de pesquisa implica na identificação de carências e limitações na forma de viver e nos instrumentos que usamos em nosso cotidiano. Gosto sempre de mencionar a web 2.0 e sua faceta colaborativa como exemplos disso (veja um dos textos que escrevi sobre isso clicando aqui). Dá para perceber que fazer mestrado e doutorado não se trata de uma tarefa fácil. Há a necessidade de se estudar muito para se conhecer o estado da arte na área de sua especialização. Esse é o passo essencial para a identificação de um problema. Mas o que a identificação de um problema tem mesmo a ver com o empreendedorismo? É que a identificação pioneira de um problema é o primeiro passo para criar uma inovação. É o primeiro passo para se criar algo diferente, que ninguém tinha pensado antes, pois não tinham visto que aquele problema existia. Evidente que se necessita ainda encontrar uma solução para o problema identificado. Trata-se aqui da segunda fase do processo científico e aqui novamente o domínio da matéria que se está estudando é essencial na obtenção de sucesso. Trata-se da fase mais tradicionalmente conhecida pela sociedade onde o domínio de um conhecimento específico favorece a proposta de uma solução para o problema. Enfim, acho que devemos quebrar este estereotipo de que fazer mestrado e doutorado só serve para quem quer ser professor. Afinal de contas o que estes cursos promovem acima de tudo é a produção e aquisição de conhecimento. Querer prever todos os efeitos que isso pode trazer em uma pessoa é prepotente e de pouca amplitude. Aos alunos que querem empreender: pensem nesta alternativa sem medo de ser feliz.
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terça-feira, 8 de maio de 2007
FOAF - Um Formato Padrão de Redes Sociais na Web

Um dos fenômenos que mais me intriga nesses últimos anos é o surgimento das inúmeras redes sociais virtuais na web. Reconheço que custei a perceber a importancia disso. Pensava que era mais uma daquelas modas que, com a mesma rapidez que aparecem, desaparecem. Questionava-me ainda porque as pessoas colocavam tanta informação pessoal na web sem nenhuma preocupação com privacidade. Entretanto, depois de algum tempo em que as mesmas continuam atrativas, devo admitir que já acho que se trata de algo para ficar. Dois aspectos me chamam atenção nesse fenômeno. Primeiro, me parece que as redes sociais virtuais ganharam relevância, pois vieram preencher uma carência de nossa sociedade moderna que nos torna individualistas e solitários. Como a necessidade de fazer parte de uma sociedade é inerente ao ser humano, as redes sociais virtuais foram o instrumento para que isso fosse obtido. Elas permitem ampliar o leque de relacionamentos, pois não requerem que as pessoas estejam fisicamente próximas. Para minha surpresa, a privacidade não parece ser uma preocupação muito grande, principalmente para os jovens. Em segundo lugar observo que as redes sociais virtuais formam uma base de dados incrivelmente rica abrindo possibilidades para inúmeras novas aplicações. Por exemplo, há alguns trabalhos de vanguarda em computação que estudam o desenvolvimento de programas anti-spams com o auxílio de redes sociais. Eles buscam calcular o quão próximo o remetente de um email é de seu recebedor. Essa proximidade seria medida através de navegações nas redes sociais do remetente e do recebedor, o que permitiria calcular um valor de reputação para os envolvidos na comunicação. Não é a toa que todas as grandes empresas de software querem possuir dados sobre redes sociais. Orkut, MySpace, LinkedIn são as mais conhecidas (vejam o mapa ao lado que descobri no blog de Alex Barbosa do Estado de SP descrevendo o tamanho de cada comunidade no mundo). Quero aqui alertar para um perigo: a concentração de poder pela acumulação de dados de redes sociais na mão de algumas grandes empresas. Creio que o antídoto para isto é participar de redes sociais armazenadas em bases de dados com formato padrão e de livre acesso. A melhor iniciativa nesta direção, uma proposta isenta, patrocinada pela comunidade científica de web semântica, é a comunidade FOAF (Friend of a Fried). O site FOAF pode ser acessado aqui . A idéia é que você diga quem são seus amigos, construindo sua rede social, e disponibilizando-a na web, mas em um formato padrão (o formato RDF). Informações como email e telefone podem também ser fornecidas, mas de forma criptografada para não terem seu uso deturpado. Vários programas que ajudam a criar um arquivo FOAF estão sendo disponibilizados na web (veja aqui um deles). Um exemplo a ser seguido é o da comunidade LiveJournal que grava toda a sua rede social em FOAF. Enfim, ao participar de comunidades e redes sociais virtuais, não esqueça que está fornecendo dados pessoais que podem no futuro dar um poder imenso a quem os detém. Sendo assim, se considera que não há prejuízo pessoal em disponibilizar os dados, melhor fazê-lo em formato padrão e aberto para que não estejamos ajudando a construir outras Microsofts.
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segunda-feira, 7 de maio de 2007
O Bloqueio de Pandora
Escrevi, há um tempo, quando ainda estava na Califórnia, sobre o Pandora (clique aqui para ver o texto) . Ainda me lembro de como fiquei motivado com o serviço de rádio personalizado pela Internet que o site fornece. Esta semana recebi uma carta de um dos fundadores de Pandora dizendo que infelizmente não será mais possível utilizar o serviço fora dos EUA. A carta explicou-me que o problema é que para que as músicas disponibilizadas no site sejam acessíveis no mundo todo, os empreendedores de Pandora precisam pagar licenças muito caras às gravadoras, o que inviabiliza o serviço pelo menos momentaneamente. Este é mais um capitulo na briga que já vinha mencionando sobre as forças que hoje detém o monopólio de produção e divulgação de conteúdo cultural contra as novas formas que surgem com a Internet. Não será um processo fácil conseguir vencer os obstáculos, mas acredito firmemente que o caminho novo aberto pela web é sem volta. A web vem mostrando diariamente, com o surgimento de iniciativas baseadas em colaboração e produção de conteúdo por muitos, que não há mais espaço para a centralização e controle como os que ainda reinam no momento. Só vai dar para espernear um pouco.
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Rembrandt está no Ceará

Quem, indo a Amsterdã, se esqueceria de ir a um museu para apreciar a enorme quantidade de obras de arte dos artistas holandeses, principalmente, dos que viveram na época de ouro dos países baixos por volta de 1600? Em particular todos se lembrariam de Rembrandt como sendo um exemplar típico destes artistas. Pois não é que Rembrandt veio (e ainda permanece) ao Ceará? A exposição de algumas de suas gravuras está no espaço cultural UNIFOR até três de Junho. Imperdível! Rembrandt é para muitos o maior pintor de todos os tempos. Em particular suas gravuras, dentre as quais muitas estão na UNIFOR, são o que mais impressionam. De sua personalidade, gosto do fato de que sua pintura exalava sinceridade. Em um momento onde a burguesia adorava ter seus retratos em paredes mostrando “fotos” das famílias comportadas, Rembrandt pintava o que via e o que sentia (o que nem sempre era de bom grado dos mecenas). Esta iniciativa vem se somar às anteriores de porte comparável como a exposição Miró. Soube hoje pelo Reitor da UNIFOR que negociações para uma amostra Goya estão em andamento. Louvável todas as iniciativas. Não é fácil deslocar o eixo cultural do Sudeste da forma como a UNIFOR vem fazendo. Ao lado, postei um dos óleo sobre tela mais famosos de Rembrandt: “A lição de anatomia de Dr. Tulp”. Este quadro está no museu Maurício de Nassau em Haia. Aliás, para quem for a Haia, recomendo uma visita neste museu, pois há muitas coisas que se referem a colonização dos holandeses ao Brasil (basta ver os móveis e colunas que não tenho dúvida que são de Pau Brasil). As gravuras, não irei postar, pois indo a UNIFOR serão bem melhor apreciadas.
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quarta-feira, 2 de maio de 2007
Tecnologia da Informação e Segurança Pública
Quando escrevi o livro Gestão e Tecnologia da Informação em Segurança Pública em 2002 (clique aqui para maiores informações), tinha como um dos objetivos, o de alertar para o cuidado que se deve ter quando se realiza investimentos em Tecnologia da Informação (TI). Passados cinco anos, ao assistir às apresentações no Encontro Nacional do Fórum, conversar com muitos colegas de diferentes estados e mesmo com representantes da SENASP, sinto-me impelido a visitar novamente esse tema. Continuamos sem informações confiáveis para tomada de decisão e assim fica fácil perceber que continuamos aplicando mal os recursos ou tendo pouco retorno prático do que tem sido investido. Encontro muito frequentemente pessoas que me dizem que projetos de TI em suas organizações falharam porque um determinado software adquirido (normalmente em outra gestão!) não presta. O motivo menos provável de um fracasso de implantação de um software em uma Empresa é a qualificação deste software. Não estou dizendo que não existem softwares melhores do que os outros. Que não existem aqueles que são bons e os que são ruins. O problema é que ainda temos um fascínio pelas soluções tecnológicas que nos fazem pensar que ao adquiri-las teremos a solução para todos nossos problemas. Ledo engano. A implantação de qualquer tecnologia da informação em uma organização é um processo doloroso, demorado, caro e que exige qualificação gerencial, capacitação de pessoal, continuidade e muita, mas muita persistência. No contexto das organizações policiais brasileiras esses problemas são potencializados por alguns fatores: falta de cultura em registrar eventos precisamente, pressa na realização de procedimentos porque as demandas são sempre maiores que a capacidade atendimento, pouca capacidade gerencial e, principalmente, pouca qualificação do profissional de Segurança nas tecnologias de TI, além da pouca motivação do mesmo em aprendê-la. No outro lado, encontram-se empresas fornecedoras de tecnologia que muitas vezes também não tem a percepção destas dificuldades. A conseqüência disso é a abundancia de projetos parados, fracassados ou em descontinuidade, o que significa desperdício de tempo e de dinheiro (além obviamente de pouca eficácia da ação policial). Propor soluções para isso em tão pouco espaço como neste texto é impossível (não é a toa que pude escrever um livro todo sobre isso!). No entanto, queria atentar para uma questão geral. Qualquer projeto de compra e implantação de TI tem que vir acompanhando de um plano de implantação do sistema com métricas de sucesso bem definidas. Essas métricas devem exigir o comprometimento do fornecedor com o perfeito funcionamento do produto vendido, com a qualidade da informação que nele trafegará e com a qualificação do pessoal que o utilizará. Isto certamente minimiza o risco de fracassos embora não isente o gestor público de um processo rigoroso de monitoramento onde a tarefa de “convencimento” do público interno de que deve fazer a coisa certa é uma das mais relevantes.
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terça-feira, 1 de maio de 2007
O Mundo Nada Virtual da Beira Mar de Fortaleza
A experiência californiana me deixou muito ligado aos novos conceitos da web e fui adquirindo muita familiaridade com o mundo virtual. A iniciativa deste blog, por exemplo, é reflexo disto. Neste primeiro de maio fui dar uma caminhada na Beira Mar de Fortaleza e tive a oportunidade de observar um mundo nada virtual embora que guarde sua semelhança. Para os que não conhecem Fortaleza, a Beira Mar é uma área ao bordo do mar de aproximadamente 6 km que vai da praia de Iracema até o Iate Clube. Creio ser uma das regiões de maior movimentação turística no Brasil e se pode encontrar de tudo lá. Fiz um exercício divertido de identificar pessoas que personificavam, em carne e osso, os diferentes papéis que agentes no mundo virtual desempenham. Por exemplo, encontrei um cidadão que estava discursando em alto e bom tom, indignado sobre a acumulação de riqueza e as injustiças que isso trazia. Naquele momento ele era claramente um blogger. Suas idéias eram divulgadas ao público que transitava na região que, por sua vez, poderia concordar ou não, ou simplesmente, continuar sua caminhada sem dar-lhe maior atenção (que foi aliás o que me pareceu que a maioria decidiu fazer). Outra espécie de blogger foi personificada por uma dupla que cantava músicas religiosas e que tentava vender um CD com suas músicas. Via-se ali um blogger com interesse comercial. A área de entretenimento se fazia presente com vários artistas realizando acrobacias, encenações mirabolantes (como quebrar cocos com o calcanhar) e contando piadas (o que não poderia faltar no Ceará). O comércio também estava presente através das feirinhas de artesanato, mas igualmente pelos vendedores ambulantes que usam das mais diversas técnicas para atrair os fregueses. Alguns anunciam seus produtos gritando, outros usam alto-falantes. As cozinheiras usam o aroma de suas receitas para seduzir os transeuntes. Observei o quão reduzido era o alcance daquelas pessoas nas suas árduas tarefas de serem ouvidas e prestigiadas (diferentemente da web onde o mundo é o limite). No entanto, eles tinham algo em comum, uma grande intensidade de criatividade, disposição e sentimento que exalava nos seus cantos, discursos e gestos. Isso o mundo virtual não consegue transmitir. Os aromas e ruídos de risos, conversas e cantos que estavam no ambiente estavam impregnados de calor humano que é bem real e brasileiro. Tava com saudade !
segunda-feira, 30 de abril de 2007
Aprendendo a Fazer Segurança com a Colômbia
O chefe da Polícia Nacional Colombiana, Gen. Albeto Gomez, foi um dos palestrantes do I Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança em Belo Horizonte. Ele veio nos descrever as iniciativas tomadas para que Bogotá, com uma população de 8 milhões de habitantes, obtivesse uma redução da taxa de homicídios por cem mil habitantes que chegou a ser de mais 70 para a casa dos 18 (para se ter uma idéia a taxa de Fortaleza gira em torno dos 20). A maioria dos outros crimes também caiu significativamente. Diferentemente do Brasil, a polícia na Colômbia, chamada força nacional, é ligada diretamente ao ministro da defesa e pertence ao poder federal. A realização de uma grande quantidade de blitz para revistar carros em toda a cidade faz parte do cotidiano desta polícia. Ela age baseada em mapeamento criminal e trabalha por objetivos. O horário de trabalho dos policiais não segue obrigatoriamente turnos de trabalho fixo, pois isso depende do nível de criminalidade da região. Algumas medidas em relação aos menores me provocaram surpresa. Ele disse que os que estão “indefesos” e sozinhos na rua são “protegidos” e retirados para locais provisórios até puderem ir para casa. Não sei muito bem até que ponto isso encontraria respaldo legal na nossa constituição. O modelo não é totalmente centralizado, pois prevê o compartilhamento das responsabilidades com os prefeitos das áreas a serem policiadas. Aliás, mais do que parceiro o prefeito é o gestor maior de Segurança Pública de sua área. Isso facilita a realização de ações interinstitucionais envolvendo a sociedade civil e outras áreas de governo. Por exemplo, um acordo com as lojas de autopeças de automóveis foi feito com o objetivo de diminuir a compra de peças ilegais. Esse esforço e com a cooperação das lojas de autopeças para que denunciassem desmanches, fez com que o furto a veículo despencasse violentamente. Outro aspecto determinante no sucesso de Bogotá deve-se a uma política de articulação entre ações repressivas e ações sociais preventivas. A inserção do prefeito diretamente no processo de gestão da polícia viabiliza a integração de esforços. As regiões mais violentas das favelas foram “atacadas” com políticas de criação de escolas, lazer para os jovens e outras ações coordenadas pelo Prefeito. Vale ressaltar ainda algumas medidas criativas que fizeram parte de uma reestruturação da polícia. Por exemplo, para tratar a questão da dificuldade de manutenção e zelo das viaturas (comum em qualquer polícia brasileira), foi definida uma política que permitia aos policiais, depois de dois anos de uso dos carros, comprá-los a preços módicos. Isso fez com que os carros fossem bem tratados e a manutenção do mesmo fosse feita de forma tranqüila. O problema de não se ter carros disponíveis para rodar durante o dia praticamente desapareceu, pois o próprio policial tinha o interesse de manter o carro em boas condições. Afinal ele estava tratando do carro que poderia ser dele. Enfim, muitas das ações realizadas em Bogotá estão sendo desenvolvidas no Brasil. No entanto, como já tinha mencionado em um texto passado (clique aqui para acessá-lo) nos falta maior capacidade de integrar ações tanto horizontalmente (entre diferentes setores de um governo) bem como verticalmente (entre as esferas municipal, estadual e federal). E isto faz a grande diferença, pois é o caminho obrigatório para a realização das ações preventivas.
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sábado, 28 de abril de 2007
Ações Concretas para Ajudarmos na Redução do Crime
O recente clamor por paz e redução da violência e criminalidade mostra que a sociedade brasileira está no limite. Sinto que todos estão dispostos a contribuir, mas muitas vezes não sabem como. Normalmente, decidem fazer passeatas nas ruas pedindo paz. São atos simbólicos, mas de muito pouco efeito prático. Tenho escrito que uma das formas de contribuição para a redução da criminalidade está em nosso alcance. Basta mudarmos um pouco nossa postura, por exemplo, deixando de pensar somente em nós mesmos para pensar um pouco mais no coletivo (clique aqui para ver outro texto sobre o assunto). Deixem-me usar um exemplo simples que pode fazer com que um tipo de delito que nos aflige diariamente, o furto em veículos, reduza sensivelmente. Este tipo de delito é uma das coisas que mais aumenta a sensação de insegurança, pois recorrentes casos de furtos de toca-cds, calotas de pneus e outros equipamentos dos veículos deixam-nos com a sensação de que o crime está em todo o canto. Como podemos agir para combater esse crime? Simples. Não comprando equipamentos ou peças em locais que reconhecidamente fazem o tráfico dos produtos ilegais. Deixemos de comprar em comerciantes duvidosos, em feiras onde reconhecidamente se vende produtos piratas, enfim em lugares onde não se emite nota fiscal e onde não se pode garantir a boa procedência do produto. Se fizéssemos isso em conjunto esses furtos diminuiriam sensivelmente, pois eles só ocorrem porque há quem compre os produtos furtados. Somos nós mesmos que alimentamos o sistema. Eu sei bem que este tipo de discurso pode provocar logo o ceticismo de alguns: e se somente eu fizer isso? Isso não vai adiantar nada, pois meu colega do lado não faz e acabo tendo o prejuízo sozinho! Mas é exatamente esse tipo de raciocínio vicioso que temos que quebrar. Ele embute o sentimento de querer levar vantagem em tudo e de não acreditar que um comportamento coletivo correto pode emergir de uma ação individual. Outros mais céticos poderiam dizer: mas furto a carro é algo sem importância. Não resolve o problema da violência em geral. Isso é verdade em parte, mas lembremos-nos daqueles que morreram em latrocínios que ocorreram em situações ridiculamente sem sentido, como em uma simples tentativa de furto da capa de toca-cd em que o dono do carro surpreendeu o criminoso. Acredito muito que ações individuais e a propagação das mesmas em uma rede podem fazer a grande diferença. Trata-se de fazer algo e divulgar para o amigo que faça o mesmo. É incrível como o efeito corrente pode fazer a diferença. O exemplo do furto em veiculo é emblemático, mas serve para muitas outras coisas como o tráfico de drogas, de cargas comerciais roubadas, etc. Alimentamos um sistema que estimula o crime e fazemos isso muitas vezes sem perceber que estamos errando ou por não perceber as conseqüências de nossos atos. Pensemos nisso e acima de tudo, comecemos a agir.
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sexta-feira, 27 de abril de 2007
I Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Publica
Estou participando do I Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que se realiza em Belo Horizonte. O sucesso do encontro mesmo antes de começar já podia ser percebido, pois haviam mais de 500 inscritos de todo o País. Incrível como uma idéia que começou com uma conversa informal entre poucos e foi gradativamente se propagando pode gerar um movimento tão importante. Fico feliz de estar participando e mais ainda de saber que há tanta gente qualificada que está se reunindo com o mesmo propósito de melhorar a Segurança Pública. Na quarta, dia 25, tivemos a reunião do colegiado que forma o núcleo duro do fórum. Elegemos um novo presidente e um novo conselho diretor (que tenho a honra de ser membro). Estarei apresentando o trabalho que venho fazendo na UNIFOR com o desenvolvimento de software para a Segurança Pública nesta sexta à tarde. À noite a abertura oficial foi muito concorrida e contou com a participação do Ministro da Justiça Tarso Genro e do Governador em exercício de Minas Gerais, Anastasia. As palestras e oficinas também têm sido de alta qualidade e bem variadas. A primeira palestra foi de Michael Scott do Instituto de Policiamento Orientado a Problemas. Policiamento orientado a problemas (Problem-oriented Policing-POP) refere-se a uma metodologia de compreensão dos crimes por suas causas e efeitos com outros crimes. A idéia é dividir um problema criminal em vários pedaços menores que se interconectam visando identificar as causas e efeitos entre eles. POP é diferente de policiamento tradicional porque encontra causas e padrões entre crimes. Policiamento tradicional tenta resolver cada problema a cada vez. POP tenta resolver problemas tentando encontrar problemas similares, tentando encontrar as causas, padrões e conexões. Quando se fala em padrões, podem ser vítimas repetidas, autores repetidos, horários repetidos, etc. O que me surpreendeu na apresentação de Michael foi o fato de que ele anunciou uma serie de princípios que devem ser obedecidos pelas Instituições antes de adotar POP. São princípios de uma polícia cidadã e democrática e que por si só já são um desafio para as polícias brasileiras. Além disso, mencionou o quanto é importante a capacitação do pessoal e o processo de treinamento. E aí eu relembro o texto escrito neste blog sobre o quanto estamos exigindo um perfil para o policial e não estamos dando as condições para que ele seja o que queremos. A boa notícia que Michael trouxe foi o fato de que a mudança para este perfil, mesmo nos EUA, é muito recente (e ainda muito heterogênea nos Estados membros). Temos que ter paciencia, pois como tenho dito sempre, não há passe de mágica. Depois escrevo mais sobre outros aspectos e outras palestras.
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quinta-feira, 26 de abril de 2007
Modelo Federativo Americano e Massacre na Virginia
Em minha visita a Califórnia escutei sempre de meus amigos americanos que era necessário compreender como funcionava o modelo federativo dos EUA para entender como as mudanças ocorrem no País. Diferentemente do modelo brasileiro, nos EUA o poder federal central tem pouco poder. Os estados membros, por sua vez, têm uma grande autonomia e podem estabelecer leis próprias. Por exemplo, a maneira com os EUA estão mudando a forma de encarar o problema do aquecimento global e de como eles vão encampar a luta ecológica se dá através dos Estados. Trata-se de um processo descentralizado onde estados mais progressistas vão liderando e os outros gradativamente vão acompanhando. O exemplo da Califórnia com sua legislação altamente incentivadora de produção de energia alternativa é ilustrador disso. Este modelo comporta, no entanto, suas desvantagens e um exemplo estarrecedor refere-se ao recente caso do massacre na Virginia. O New York Times investigou porque o coreano autor do massacre tinha tido autorização para comprar uma arma se a lei federal dizia que quem tivesse algum histórico de problema mental ou mesmo de depressão não poderia fazê-lo (e o coreano tinha problemas). Eles descobriram que, na Virginia, havia uma interpretação diferente desta lei e que casos como o do coreano (mesmo que conhecessem seus antecedentes), não justificariam uma proibição de aquisição. Vejam como um fato trágico pode ter sido potencializado por uma divergencia de interpretação de leis pelos diferentes agentes do processo. Veja a matéria do NYT clicando aqui.
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