Mon cher grand ami e compadre, Luis Eduardo Menezes, estará, hoje a noite no Ideal Clube, lançando o livro Desafios, Gestão e Conquistas. Uma trajetória profissional. Um livro que conta uma história de gestão no serviço público, mas acima de tudo, uma história de exemplo a ser seguido. Um exemplo a ser seguido por dois fatores: a carreira de corretude e sucessos e a escrita do livro ela mesma.
Luis e eu, formamo-nos em processamento de dados na UFC e a partir de lá vivemos e compartilhamos nossas conquistas e desafios. Tomamos caminhos profissionais que as vezes se distanciam e as vezes se aproximam. No entanto, tendem sempre a convergir em um ponto: a gestão no serviço público. Luís com seu pragmatismo peculiar, vivendo experiências. Eu, como a academia exige, mais com viés teórico. Imaginem a riqueza de nossas trocas de idéias! Chega a causar ciúmes!
Luis, em várias oportunidades, foi chamado a participar como gestor público nos mais diferentes níveis. O livro conta um pouco dessa história. Embora já o tendo lido, não discorrerei sobre os detalhes de seu conteúdo para não tirar o interesse dos leitores. Será um instrumento valioso para historiadores. Impossível dissociar as histórias de Luis e a “época de mudanças” que acompanhamos, vivemos e torcemos como bons PSDbistas que somos “acusados” de ser. A mudança na gestão pública cearense foi um dos pontos de inflexão do movimento iniciado com a ascensão ao poder de Tasso Jereissati. Luis é um representante típico disso.
Dito isso, venho ao segundo ponto que considero exemplar em sua pequena história (digo pequena, pois acho que muito ainda haverá de ser contado nas próximas edições vindouras): o livro. Escrever um livro é uma atividade exemplar, visto que temos uma enorme dívida com a cultura da leitura e da escrita. Precisamos aprender a contar nossas histórias para gerações vindouras. E isso não é nada fácil. Requer disciplina, dedicação e coragem. Disciplina e dedicação são razões óbvias. Coragem, no entanto, talvez seja uma característica percebida por poucos. Principalmente pelos que não escreveram ainda. Ela é necessária porque um livro é nossa imagem e semelhança. Mostra-nos e registra-nos para sempre. Não há como apagar. Nem todos tem essa coragem. Bravo Menezes!
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Um Livro, Uma História, Uma Amizade
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Luis Eduardo
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Dinheiro é Sempre a Melhor Recompensa?
Ao ler um texto de Dan Ariely no blog do TED sobre o que nos motiva e do quanto as compensações financeiras impactam nessa motivação, descobri esse vídeo super bem feito que descreve um experimento presente no livro Predicatably Irrational (referenciado na coluna de livros interessantes ao lado). Trata-se de uma forma bem criativa de contar uma estória. Pena não ser para qualquer um. Aliás, dêem também uma olhadinha na página de Ariely. Só o design inicial já vale a visita.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010
Livraria Cultura em Fortaleza
Fiquei muito contente com a abertura da Livraria Cultura em Fortaleza. Como “rato de biblioteca” que sou, minha primeira visita ao novo prédio na Av. Dom Luís deixou-me muito bem impressionado.
Embora ainda continue a comprar majoritariamente meus livros pela Internet, não nego que o charme e o bem-estar de freqüentar uma livraria é inigualável. Fortaleza não tinha um local no nível da Cultura. Em particular, chamou-me atenção o acervo de literatura estrangeira escrito em outras línguas. Os livros em inglês, por exemplo, não se resumem à pockets como na maioria das outras livrarias. Livros que em livrarias no exterior são caracterizados como “não ficção” dificilmente eram encontrados aqui. O acervo de DVDs e CDs é igualmente rico, embora não tenha tido tempo de explorá-lo com carinho.
Mas de tudo o que mais me entusiasmou foi o fato de ter feito a visita com minhas filhas e tê-las visto tão entusiasmadas quanto eu. Em certo momento emocionei-me ao perceber o prazer que as duas sentiam ao folhear os livros, ao procurar novidades e ao explorar os diferentes temas e o espaço. Indescritível o sentimento que tive. Um misto de orgulho e realização por termos conseguido, Beth e eu, transferir-lhes tão naturalmente o gosto pela leitura que nos é caro. Saímos com a sacola cheia. Caro, mas com o sentimento de que o dinheiro foi bem gasto.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Irracionalidade Previsível e a Economia Comportamental
Volto ao tema da irracionalidade humana para comentar um pouco sobre o livro Predictably Irrational. Sua leitura é um deleite só. Escrito pelo professor de Economia no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Dan Ariely, é daqueles livros que se lê em um fim de semana. Leve, divertido e cheio de curiosidades. Ariely é representante de uma nova linha de pesquisa chamada Economia Comportamental. Trata-se de uma nova área de pesquisa que envolve psicólogos, cientistas sociais e economistas. Em resumo, ela busca compreender porque muitas das decisões humanas parecem totalmente irracionais quando analisadas friamente sob a ótica econômica dos conceitos de custo e benefício. Cientistas dessa área acreditam que essas decisões irracionais não são totalmente aleatórias e que apresentam inclusive alguns padrões. Em particular, a economia comportamental concentra-se nas decisões irracionais que fazemos nas nossas relações comerciais.
Deixem-me exemplificar o tipo de experiência realizada. Pesquisadores queriam estudar o impacto de impor penalidades nas pessoas e o quanto isso era comparável com sanções sociais. Para isso, foram a uma escola que tinha o problema recorrente de que os pais dos alunos chegavam tarde para pegar as crianças depois das aulas. Decidiram então aplicar multas para cada atraso dos pais. Conseqüência: a quantidade de atrasos aumentou! O pais sentiam-se mais pressionados quando a pressão era da escola e dos próprios filhos. O dinheiro tirou o peso da responsabilidade social. Vendo o ocorrido, a escola decidiu retirar a penalidade financeira. Resultado: os atrasos continuaram grandes! A volta à situação anterior de respeito ao padrão social não se fez.
Em seu livro Dan Ariely descreve uma série de inusitadas experiências que ele e colegas vêm desenvolvendo e seus resultados surpreendentes. Os domínios são os mais diversos. Para entender como as pessoas tomam decisão quando estão excitadas sexualmente, por exemplo, ele e seus colegas fizeram experiências sobre como as decisões, opiniões e atitudes das pessoas mudavam quando sob forte estímulo sexual como vendo filmes ou revistas pornográficas. Testes para mudar medir o nível de desonestidade das pessoas e em que situação elas ocorrem é outro exemplo dessa diversidade.
Aqueles que buscam resultados científicos concretos com a descrição detalhada dos métodos aplicados pelos pesquisadores vão se frustrar. O livro não entra nesse nível de detalhe e nem parece ser esse o objetivo do autor. Trata-se de uma obra de divulgação científica onde o que mais se ressalta é o ineditismo das questões levantadas e dos métodos utilizados. Para os menos exigentes, recomendo.
segunda-feira, 16 de março de 2009
Os Livros do O Leitor
Muito feliz a matéria veiculada no caderno Vida e Arte de sábado sobre os livros lidos no filme O Leitor. No filme, a relação entre os protagonistas é frequentemente permeada por cenas em que a personagem masculina (David Kross e depois Ralph Fiennes) lê livros em voz alta à personagem feminina (Kate Winslet). Voltando a matéria, ao lê-la pensei “o que me fez apreciar tanto essa matéria?” (além do fato de ter gostado muito do filme). Creio ter sido pelo fato da pertinência e da forma como ela foi produzida. Envolve contextualização (o fato do filme estar em evidencia), percepção ( do detalhe que permeia o filme, mas que não nos dedicamos a apreciá-lo), novidade (pelo fato de observar a leitura em “voz alta”que é quase inédita para adultos) e educação (pelo fato de se tratar de clássicos que merecem nossa leitura). A matéria faz um breve resumo de todos os livros “lidos” em voz alta no filme. Guerra e Paz, O Amante de Lady Chatterlay, Odisséia e todos outros que circulam no filme, não sem objetivo (pois quase sempre contextualizam algum momento), ganharam um breve resumo. Acho que aqui há um exemplo do bom jornalismo. Onde a perspicácia está presente, que, englobando diferentes perspectivas de diferentes disciplinas , dissemina cultura por osmose. Vejam a matéria completa aqui.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Gaming The Vote: Eleições Podem Sempre Ser Justas?
Gaming the Vote de William Poundstone é um livro que recomendo fortemente. Acabei de lê-lo, aliás, ele é o tipo de livro que se devora com rapidez. Poundstone é um físico formado no MIT e que há mais de vinte anos atrás decidiu escrever livros de não ficção. A biografia de Carl Sagan é um exemplo de um desses livros. Dois outros livros seus The Recursive Universe e Labirynths of Reason foram nomeados ao Pulitzer. Em Gaming The Vote, Poundstone advoga que o sistema de voto majoritário e plural quando se tem mais de dois candidatos é o mais injusto possível. O mais interessante é que seus argumentos são suportados por uma série de estudos que começaram no iluminismo e chegaram ao ápice com o “teorema da impossibilidade” do economista Kenneth Arrow, Nobel de Economia em 1972. Arrow provou que é impossível estabelecer matematicamente um sistema de votação perfeitamente justo. No livro pode-se ter uma noção da história do voto nesses últimos anos com exemplos surpreendentes e divertidos. As falhas no sistema de votação americano permitiram, por exemplo, que os eleitores do Estado da Louisiana nos EUA tivessem que escolher entre um político corrupto e um ex-dirigente da Ku Klux Khan para o Governo. Acho que muitos de nós, brasileiros, já passamos por situações parecidas: ter que escolher entre os dois piores. Pois bem, nada de reduzir nossa estima como eleitores, o sistema é inerentemente defeituoso. A falha no sistema plural, de uma forma simples, pode ser entendida em um caso em que se tem três candidatos sendo que dois deles compartilham idéias e um acaba por prejudicar o outro. Dessa forma o terceiro candidato, que pode nem ser o mais querido, ganha. Poundstone argumenta que isso ocorre com uma probabilidade de 11%. Será que não há algo melhor? Ele acredita que sim e aqui é que a coisa começa a ficar mais interessante. A grande novidade que Poundstone traz a tona é de que o teorema da impossibilidade não vale para eleições onde se fornece um score para cada candidato ao invés de somente colocá-los em uma ordem. Esse tipo de votação já é muito popular na web, onde os internautas estão sempre dando estrelas para vídeos, livros, textos, etc. Os argumentos de Poundstone são muito bem elaborados (pelo menos para um não expert como eu). Se eles vão prevalecer e levar a uma mudança na forma como os representantes são escolhidos nas grandes democracias é uma incógnita. Dada nossa história recente de inovação com o uso do voto eletrônico, estaríamos mais adaptados à mudanças como a proposta por Poundstone? Quem tiver interesse em saber mais, acesse a lista ao lado de livros que recomendo. Ela já está com Gaming The Vote.
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terça-feira, 21 de outubro de 2008
Genialidade Grupal
Li recentemente Group Genius: the Creative Power of Collaboration (Grupo Gênio: a força creativa da colaboração) de Keith Sawyer. O livro trata de assuntos interessantíssimos e que estão fortemente ligados às minhas atividades atuais: criatividade, inovação e colaboração. De uma maneira geral, no entanto, me decepcionou pelo o que considero uma infeliz estratégia seguida pelo autor. Ele caiu na armadilha de dar receitas do que fazer e não fazer e assim dirigiu-se a um terreno arenoso de obra tipo auto-ajuda e que particularmente detesto. Principalmente quando se trata de assuntos que estão na fronteira do conhecimento, melhor deixar o leitor tirar suas conclusões do que ficar querendo propor receitas. Por esta razão não o estarei postando na coluna ao lado. No entanto, há muita coisa interessante no livro que em resumo busca quebrar certo estereotipo de que a criatividade e a inventividade vêm através de insights repentinos por indivíduos iluminados, isolados e mesmo alienados. Ao contrário, criatividade está mais ligada a trabalho em equipe, experiência com tentativa e erro e muita interação, quer seja diretamente com colegas, quer através de idéias que vão sendo gradativamente assimiladas e evoluídas. Quando o autor não está dando receitas de como ser criativo, a leitura flui agradavelmente muito em função das diferentes e interessantes experiências feitas por psicólogos cognitivos descritas no livro. Para relaxar, deixem-me exemplificar com dois testes realizados na década de 60 por psicólogos “Gestaltistas” (consideram que o pensamento e as percepções das pessoas não podem ser entendidos por análises de componentes individualizados, mas somente com a visão completa do todo). Eles fizeram vários testes em busca de entender o fenômeno “aha”ou “heureka” que caracteriza o momento do click, da descoberta, o chamado “cair a ficha”.

Quem souber resolver, pode colocar as soluções nos comentários. Em alguns dias, farei alguns comentários sobre a dificuldade de se resolver esse tipo de problema (além de dizer a solução).
1º teste – Nove Pontos
Veja a figura abaixo. Tente conectar os nove pontos com quatro retas sem tirar a caneta do papel, nem passar duas vezes no mesmo caminho.
2º teste – Problema do Raio X
Suponha que você é um médico e tem um paciente com um tumor maligno no estômago. É impossível operá-lo, mas se o tumor não for destruído o paciente irá morrer. Existe um tipo de Raio X que pode ser usado para destruir o tumor. Se esse Raio X atingir o tumor todo de uma vez com uma intensidade alta o tumor será destruído. Infelizmente, com essa intensidade necessária o Raio X destruirá todo tecido de pele e nervoso que encontrar pela frente. Com uma intensidade baixa os tecidos não são destruídos mas o tumor não é destruído. Como fazer para não deixar o paciente morrer sem destruir seus tecidos nervoso e da pele?
Quem souber resolver, pode colocar as soluções nos comentários. Em alguns dias, farei alguns comentários sobre a dificuldade de se resolver esse tipo de problema (além de dizer a solução).
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Análise de Crimes: Um Livro Referência
Acabei de ler o livro “Artificial Crime Analysis Systems: Using Computer Simulations and Geographic Information Systems - Sistemas Artificiais de Análise de Crimes: O uso de simulações computadorizadas e sistemas de informação geográficos”. Trata-se de uma coletânea de artigos escritos por pesquisadores de todo o mundo e que foram editados pelos pesquisadores Lin Liu e John Eck da Universidade de Cincinati. O livro foi lançado no começo do ano e congrega os diversos aspectos que estão sendo estudados hoje no mundo em computação, sociologia, criminologia e áreas afins sobre métodos científicos para mapeamento criminal. Mapeamento criminal refere-se a técnica de usar sistemas computadorizados em conjunto com sistemas de informação geográficos com fins de compreensão da criminalidade e investigar meios de reduzi-la. Pode-se dizer que, embora recente, a obra já tornou-se uma referência na área de Segurança Pública por sua abrangência, diversidade e representatividade. Ressalto que, junto com alguns alunos e colegas professores, escrevi o capítulo XV, que descreve nosso enfoque multiagente para simulação de crimes contra o patrimônio. É leitura obrigatória para qualquer estudioso no assunto. Maiores referências podem ser acessadas na coluna ao lado de leituras obrigatórias.
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Critical Mass
Acabei de ler Critical Mass: How one thing leads to another (Massa Crítica: como uma coisa leva a outra) de Philip Ball, que coloco na lista de sugestão de livros ao lado. Foi minha mais recente (e temporariamente a última) leitura dentro da temática “não ficção”, em particular, de livros que falam da emergência das redes, da conectividade de componentes naturais e biológicos e em última instância de como se pode “matematizar”o comportamento social. Como já disse em textos anteriores, encontro aqui uma forte fonte de inspiração para os trabalhos de modelagem da criminalidade e da criação de modelos de simulação com essa finalidade. Outras obras similares a critical mass são Linked, Emergence, The Social Athom e Nexus. Ball faz um apanhado de diversos trabalhos que procuram modelar matematicamente o comportamento humano de forma agregada mesmo considerando que isso pode não ser possível para um indivíduo somente. Em outras palavras, impossível de prever o comportamento de um homem, mas o mesmo não é verdade para milhares deles. A idéia é de identificar padrões baseados na interatividade entre componentes (que no caso social são as pessoas) e que possam ser representados em modelos analíticos. Como já disse no meu comentário sobre o livro The Social Athom aqui, não se trata aqui de encontrar fórmulas matemática gerais analíticas, mas de realizar simulações baseadas em interações de agentes com o objetivo de reproduzir os padrões dos fenômenos a serem estudados. O livro faz uma análise histórica de como os modelos estudados na física, economia e sociologia interagem e, por meio de analogias cruzadas entre essas disciplinas, faz-nos compreender a emergência dessa nova abordagem da ciência social. Algo que podemos chamar de Sociometria. O livro é bem denso e mais completo (no sentido de cobrir um número maior de temas) do que os outros. Seu grande problema é que se deixa levar pelo entusiasmo característico de livros ditos populares de ciência. A sociometria está apenas no seu início e todo entusiasmo dos que nela navegam deve ser visto com muita cautela. De qualquer forma a leitura é muito interessante aos que desejam compreender melhor as diferentes ligações existentes entre conceitos como a teoria do jogos, redes small world, estatística social, simulação de tráfico, leis de potência e transições de fluidos. Trabalhos de pesquisadores como Thomas Schelling, Ilya Prigogine, Brian Arthur, Alan Kirman, Robert Axtell, Joshua Epstein, Robert Axelrod, Paul Omerod, Martin Nowak, Per Bak e Duncan Watts são discutidos. Recomendo.
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terça-feira, 11 de março de 2008
O Inferno da Biblioteca François Mitterrand
Na minha recente viagem a França, tive a oportunidade de voltar à Biblioteca François Mitterrand. Trata-se de um dos dois sítios da Biblioteca Nacional da França – BnF (o outro, mais antigo, está na Rue Richelieu, perto de l’opéra de Paris). A biblioteca François Mitterrand é a terceira no mundo em volumes no seu acervo. São cerca de 13 milhões de livros. Perde para a biblioteca do congresso americano (29 milhões de livros!) em Washington e para a British Library (mais ou menos do mesmo tamanho da BnF). Vê-se claramente a vontade de integrar as diferentes formas de memorização e transmissão do conhecimento existentes no momento atual. Podemos encontrar nela o livro e o periódico, bem como o audiovisual e a informática. Esta última serve tanto para gerir o orçamento, o catálogo ou a consulta cotidiana das obras, como de memória (principalmente os CD-ROMs). Mais de 100 mil obras antigas foram digitalizadas e podem ser acessadas por computador à distância ou no próprio sítio. Um projeto de digitalização de obras que não são mais protegidas por direito autoral está em andamento. Agora, o que me parece o mais marcante da biblioteca é a riqueza de eventos que lá ocorrem diariamente. Exposições, palestras, aulas, debates, a todo momento, acontecem nas quatro torres que fazem a biblioteca. Na minha visita conheci uma exposição super interessante chamada L’Enfers de La Biliothèque (O Inferno da Biblioteca). Esse termo surgiu para representar as obras que eram censuradas e banidas de acesso à leitura. Quando não eram danificadas, ficavam armazenadas em área de acesso restrito. Do começo do século XIX até 1969, o “inferno” foi mantido e proibiu o acesso a livros que retratavam mais de 500 anos de história. Tive uma sensação estranha ao ver os catálogos das obras com a menção enfers escrito de lápis ao lado do título da obra. O termo é decididamente bem forte e emblemático. Carrega toda a carga da moral religiosa tão dominante durante tantos anos na Europa. Tratavam-se em sua grande maioria de obras que versavam sobre sexo, adultério e “imoralidades” (pelos padrões religiosos) embora temas políticos e considerados reacionários também tenham estado lá. A exposição na BnF é proibida para menores de dezesseis anos e uma vasta quantidade de material de áudio e vídeo também está presente. Gravuras, desenhos animados e filmes pornográficos com sexo explícito feitos no começo do cinema mudo nos lembram o quanto o tema é determinante por mais inovadora que seja a mídia. Para ver um vídeo em francês sobre a exposição clique aqui . Abaixo postei uma foto da maquete da BnF, site François Mitterrand. Percebe-se a grandiosidade da arquitetura. Outra figura postada exemplifica algumas chamadas para exposições e eventos diversos.

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terça-feira, 4 de março de 2008
The Social Atom
Minha mais recente leitura foi The Social Atom (O Átomo Social) do físico e editor da conceituada Nature, Mark Buchanan. Já tinha lido Nexus do mesmo autor e pude ver em The Social Atom muitos dos conceitos anteriormente discutidos. No entanto, neste seu novo livro, Buchanan centra seus argumentos na necessidade de se prover as ciências sociais de um ferramental mais formal. Mas, ao invés de buscar levantar o cansado debate humanas vs exatas, ele apresenta uma série de argumentos para mostrar que há um quadro conceitual comum às duas áreas e que está sendo configurado em grande parte com o recurso das simulações computadorizadas. Para começar, ele ataca a suposição da racionalidade que tanto esteve presente nas ciências sociais recentemente. Defende que o ser humano não é racional calculista, mas de fato um “jogador” que vai se virando a cada momento. Usa uma série de estudos sobre a evolução da espécie para defender que as pessoas criam, a todo o momento, regras adaptativas para enfrentar as situações que a vida real os apresentam (o que ele chama de oportunistas adaptativos). Emenda ainda que a imitação está nas nossas raízes herdadas de nossos longínquos ancestrais pré-históricos. No entanto, a característica inerentemente social é a que merece maior atenção em seus argumentos. Ele argumenta que o ser humano foi evoluindo sua característica de altruísmo recíproco desde o momento que os caçadores pré-históricos perceberam que era fundamental viver em sociedade e assim aprenderam a cooperar. Onde entra mesmo a simulação computacional nessa estória? Na verdade, não se trata aqui de se usar os métodos tradicionais analíticos de simulação e que existem há mais de trinta anos. O enfoque analítico matemático tradicional não é suficiente para modelar fenômenos sociais que se caracterizam por sua extrema complexidade, não linearidade, diversidade e grande quantidade de variáveis que, por sua vez, normalmente assumem valores incertos. A modelagem desses complexos fenômenos sociais deve ser realizada com modelos baseados em agentes (ABM- Agent-based Models) que permitem representar as regras adaptativas e individuais que ele acredita ser o que caracteriza as pessoas. Essas simulações mesmo ainda incapazes de fazer previsões muito precisas, são ótimas para compreender fenômenos sociais ao se detectar padrões que podem ser matematicamente formalizados. Foi assim, por exemplo, que se descobriu como as redes sociais de relacionamento seguem uma distribuição que segue uma lei de potência como já comentei em um texto anterior (clique aqui para ver o texto que fala do fenômeno Small World). Enfim, considero The Social Atom leitura fortemente recomendada aos pesquisadores das ciências sociais bem como ao de computação. Através de exemplos e de uma narrativa muito fluida o autor é bem convincente de que a exatas e humanas podem se encontrar bem mais rápido do que se podia imaginar poucos anos atrás. A lista de livros interessantes ao lado estará assim sendo atualizada.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
Tecnologia e Hábito de Leitura
Mês passado a FUNCAP foi convidada pela Secretaria de Cultura para propor uma nova visão, com forte viés tecnológico, para a Biblioteca Pública Estadual Menezes Pimentel em Fortaleza. Esta demanda se insere no conjunto de atividades estabelecidas no plano estadual para leitura de livros (PELL). Fui indicado para iniciar um estudo com esse fim e estive na abertura de um workshop de planejamento das ações do PELL. Minha primeira sugestão, que logo percebi que era convergente com o PELL, era de que repensássemos o conceito de bibliotecas públicas. Porque as pessoas não as visitam? Como deve ser uma biblioteca nessa era digital? Como torná-la catalisadora e potencializadora da ação de ler (e mesmo da ação de escrever)? Tais perguntas, me parecem, que não comportam respostas simples. Envolvem diversas áreas e diversos aspectos culturais que precisam ser compreendidos e trabalhados. Novamente, me defronto com um projeto que não é só de tecnologia. Um projeto sobre como a tecnologia pode mudar (ou adequar-se a) o comportamento das pessoas, em especial, um que me agrada sobremaneira: o hábito da leitura. Do primeiro momento que comecei a pensar sobre a questão até hoje, algumas idéias estruturantes começaram a brotar. A primeira idéia é aproximar a biblioteca do leitor através de meios digitais. O portal da biblioteca deve ser dinâmico, mudar a postura passiva de leitor de recorrer à mesma só para consultar obras literárias. Mudar o paradigma de repositório de livros. Há de se criar um espaço interativo, de preferência em consonância como softwares de redes sociais. Desta forma, pode-se potencializar a troca de comentários e sugestões, criação de grupos de leitura, além de fomentar um sistema em que comentários sobre obras lidas sejam compartilhados. Inovações devem estar presentes. Talvez uma sala de leitura coletiva onde um grande livro estaria projetado em uma parede e as pessoas o leriam coletivamente (!?). A consulta de livros pela Internet deve ser a mais lúdica possível. As capas e contracapas, sumários, críticas e mesmo algumas páginas da obra devem ser digitalizadas para que o leitor “virtual” possa conhecer mais sobre a obra que deseja ler. Um sistema de recomendação de obras que “casam” com o estilo do leitor também é outra idéia a ser implantada. Algo bem no estilo Amazon. As livrarias avançaram muito nessa direção. Creio que as bibliotecas precisam fazer o mesmo. Estou buscando parcerias para a realização deste trabalho a ETICE (Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará) e a IBM já se apresentaram. Recebi uma indicação muito interessante da IBM, sobre um relatório feito na Inglaterra que analisa o hábito de leitura da geração Google encomendado pela British Library (Blioblioteca Nacional Britânica). A geração Google é aquela que nasceu depois de 1993. Esse texto abaixo extraído da Wikipédia diz tudo sobre esse conceito: "Most students entering our colleges and universities today are younger than the microcomputer, are more comfortable working on a keyboard than writing in a spiral notebook, and are happier reading from a computer screen than from paper in hand. Constant connectivity – being in touch with friends and family at any time and from any place – is of utmost importance." Em resumo, o texto define a geração Google como sendo aquela com mais familiaridade com a Internet e com a leitura de textos no monitor do que com um caderno e que esta conectada com amigos e familiares em qualquer lugar e a qualquer momento pela Internet. O relatório é denso e merece várias análises, mas é muito interessante saber que os jovens com acesso a internet lêem mais dos que os que não têm esse acesso. Contraria uma certa idéia preconcebida de que a geração digital troca o livro pelo computador. Acho que com medidas criativas pode-se, na verdade, potencializar as ações de leitura. O trabalho está só começando e estamos abertos a novas idéias. Que promete, promete.
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terça-feira, 25 de setembro de 2007
A Cabeça do Brasileiro
Já escrevi de meu entusiasmo ao ler o livro de Alberto Almeida “A Cabeça do Brasileiro” (clique aqui para ver meu texto anterior). Meu entusiasmo se deu principalmente pelo fato do livro trazer à tona um assunto que creio deve ser prioridade no Brasil: nossos valores. O livro busca compreender como eles estão internalizados através de uma pesquisa quantitativa. Agora, mesmo o mais entusiasmado dos leitores não pode deixar de concordar que o livro é extremamente polêmico por uma série de motivos. O mais importante deles, no meu ponto de vista, são as diversas conclusões tiradas pelo autor a título de interpretação dos dados coletados. Em grande parte dos assuntos os dados da pesquisa indicam resultados divergentes em função do nível de escolaridade dos entrevistados. Por exemplo, ao serem chamados a opinar sobre aspectos que medem o nível de patrimonialismo dos entrevistados como se concordam ou discordam com a seguinte afirmação “Já que o governo não cuida do público ninguém deve cuidar” chegou-se aos seguintes resultados. 50% dos analfabetos concordam com a afirmação, contra somente 2% dos que tem nível superior. Na grande maioria das questões um padrão mais progressista (chamado de moderno pelo autor) se apresenta nas respostas de pessoas de maior escolaridade em comparação com aqueles com menor escolaridade. Isso levou o autor à conclusão lógica de que os valores mais progressistas são em menor número no país, pois os menos escolarizados são em maior número. A conclusão é lógica, mas ela não permite uma inferência otimista em relação à classe de escolarizados. Ao analisar os dados mostrados no livro fiz algumas inferências que não vão na mesma direção das conclusões do autor. Primeiramente, devo dizer que senti falta de uma preocupação maior do autor quanto à fidedignidade das respostas dadas pelas pessoas de maior escolaridade. Em uma pesquisa onde se busca medir a cabeça do brasileiro, há que se considerar a hipocrisia que reina na sociedade (aliás a pesquisa que visava medir o “jeitinho” dão indicações disso). Esquivar-se da armadilha das respostas politicamente corretas às questões era uma obrigação. Essa preocupação existiu em algumas situações como quando o assunto pesquisado foi o racismo, mas não pude perceber o mesmo rigor em todos os temas. Independentemente dessa questão, podemos fazer leituras diferentes de outras conclusões. Na própria questão do patrimonialismo, ao serem questionados se “Cada um deve cuidar do seu e o governo cuida do que é público”, 53% dos que tem nível de escolaridade alta concordam contra 80% dos analfabetos. Como é possível ter uma visão otimista dos escolarizados diante desses números? Por viverem em um contexto em que as carências da sociedade são tão grandes, tinham obrigação de ter uma visão mais moderna. As respostas dos que tem escolaridade alta em relação ao “jeitinho” também merecem uma avaliação mais cuidadosa. É bem verdade que se encontra um correlação forte entre o nível de escolaridade e uma consciência maior de que o “jeitinho” é errado, mas os valores absolutos para os que são mais escolarizados estão longe de serem animadores. 48% dos que tem nível médio e 33% dos que tem nível superior acham o “jeitinho” certo. Creio que o debate sobre a questão só está começando. Acho fundamental que se compreenda mais o que essas respostas dos escolarizados querem dizer. Mas a princípio, elas me levam a uma avaliação bem mais cética do que a que foi apresentada no livro. Em alguns momentos os resultados evidenciam uma insensibilidade às demandas que a sociedade brasileira exige e aos problemas que a vida na mesma apresenta. É esta classe de escolarizados que tem a capacidade e a obrigação de realizar as transformações de comportamento de uma sociedade tão desigual. Não dá para dizer que a questão da transformação de nossos valores só se resume ao aumento do nível de escolaridade da população. Aliás, esse próprio objetivo e tanto outros de melhoria da sociedade ficam comprometidos sem uma transformação dos valores dos mais escolarizados.
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quarta-feira, 25 de abril de 2007
Guns, Germs and Steel
O único dos livros da lista ao lado ainda não comentado foi Guns, Germs and Steel (Armas, Germes e Aço). Deixei propositalmente para o fim, pois este livro é daqueles que merecem menção especial. Seu autor é Jared Diamond um professor de medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Trata-se de um livro ousado, extremamente bem escrito e que prende a atenção do leitor mais inquieto. Diamond busca responder a algumas perguntas relacionadas ao desenvolvimento da raça humana e que podem ser representadas por uma só: “Porque foram os europeus que descobriram a América e não os índios americanos que descobriram a Europa?”. Sua teoria defende que o aspecto geobiológico e ambiental são os fatores determinantes para o desenvolvimento maior de algumas raças do que outras. Diamond rejeita violentamente qualquer teoria que defenda que os europeus têm um maior QI e que são (ou foram) mais inteligentes. Ela ainda da pouca importância ao desenvolvimento cultural, pois considera que dentro de uma janela de tempo grande com a que está querendo analisar esses aspectos acabam se perdendo. Seus argumentos se voltam para os fatores geográficos que fizeram a raça humana há 13000 anos antes de cristo adquirir a habilidade de domesticar e criar animais, bem como plantar sementes para colheita (diferentemente de viver da caça e da colheita do que crescia no ambiente). Ele acredita, por exemplo, que a variedade de espécies que havia na região do oriente médio permitiu uma maior qualidade de vida dos povos pré-históricos na região. Conseqüentes desenvolvimentos como a capacidade de conviver com germes e a elaboração de ferramentas de trabalho (inclusive em aço) dão nome ao livro. Dá para perceber que se trata de uma questão, no mínimo, polêmica e por isso mesmo o livro é tão apaixonante. Debates sobre as idéias lançadas no livro ainda são atuais (o livro teve sua primeira edição em 1997 e ganhou o prêmio Pulitzer naquele ano). Em particular o historiador William McNeil detonou a teoria de Diamond e um debate entre eles foi realizado publicamente na revista New York Times Review clique aqui para ler os argumentos de McNeil. Tanto o livro e os contra-argumentos são leitura imperdível. O desafio é formar opinião.
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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Os próximos 50 anos
Alguns colegas que sabem de meu vício por livrarias têm me solicitado sugestões de livros. Não me sinto confortável para sugerir livros de ficção, pois os acho muito pessoal. Vou arriscar uns não-ficção de vez em quando. Um que acabei de ler e achei interessante faz uma coletânea de ensaios de 25 cientistas sobre como será o futuro da ciência daqui a cinqüenta anos (“The Next Fifty Years: Science in the first half of the twenty-first century”, Editado por J. Brockman, Vintage Books, 2002). Diferentes assuntos como genoma humano, astro biologia, computação quântica, inteligência artificial são tratados em ensaios por biologistas, psicólogos, físicos, químicos, neurocientistas e cientistas de computação, entre outros. É uma tarefa desafiadora e arriscada, pois por melhor que seja o cientista, as bolas de cristal não são distribuídas nas Universidades. J No entanto, a maioria dos textos é muito instrutiva, pois o linguajar é simples e didático. Permite-nos compreender onde está a ciência hoje e quais são os desafios para o futuro. Para os professores, sugiro em especial o capítulo escrito por Roger Schank, um pesquisador em Inteligência Artificial, que tem focado suas pesquisas em computação para educação. Ele tem uma visão muito crítica do processo educacional atual e acredita que uma mudança radical tem que ocorrer (mais do que uma previsão, ele faz uma conclamação). Com a computação ubíqua (computador em todo canto e a todo o momento), ele acredita que mesmos as paredes vão poder responder perguntas. Por conseguinte, a educação deve ser focada na realização de perguntas e não no provimento de respostas. As respostas, as máquinas poderão dar. Em suma, ele diz que os professores tem que deixar de fazer perguntas e exigir que os alunos as façam.
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