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segunda-feira, 31 de março de 2008

WikiCrimes no II Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Estive em Recife desde quarta-feira participando do II Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em particular, atuei na mesa redonda sobre Produção de Dados e Conhecimento para Segurança Pública. Foi minha primeira oportunidade de apresentar WikiCrimes para uma platéia formada basicamente por agentes da área de Segurança Pública. Descrevi os objetivos do projeto e demonstrei seu funcionamento para um público atento e que realizou diversas perguntas. Sabia que a tarefa não seria simples, pois trata-se de um projeto que acaba por contrariar uma cultura difundida nas instituições de segurança que se caracteriza por falta de transparência e excesso de centralização. Uma pergunta recorrente me foi feita após minha apresentação sobre se as informações sobre crimes publicadas em WikiCrimes não poderiam ser usadas por pelos próprios criminosos em benefícios deles mesmos. Acho que vale a pena elaborar um pouco mais a resposta para essa questão. Uma das teorias mais referenciadas no meio acadêmico da criminologia é a teoria das atividades rotineiras (RAT – Routine Activity Theory, Felson 1979). Essa teoria formaliza algo que se pode compreender de forma fácil e intuitiva, qual seja: ocorrência de crimes depende da convergência de um agressor (motivado a cometer o crime) e uma vítima (em condição de vulnerabilidade e atratividade) em um determinado espaço geográfico. Em outras palavras, não há como haver um crime sem que essas condições ocorram (vejam que essa teoria não se aplica para crimes cibernéticos ou mesmo as extorsões por telefone, muito comum nos dias atuais, por exemplo). Pois bem, o que a RAT diz é que a convergência desses três fatores (agressor, vítima e local) depende das atividades rotineiras tanto da vítima como do agressor. Ou seja, se as rotinas dos dois coincidem com freqüência , há uma probabilidade maior de um crime ocorrer do que se essas rotinas não coincidem. Ocorre que quem tem o poder da informação e da surpresa é o agressor. Ele tem a possibilidade de decidir se um crime ocorre ou não além de poder inclusive planejar sua ocorrência, observando a rotina da vítima, por exemplo. O cidadão, como não tem a informação a seu dispor, não pode fazer muito. Ao fornecer informações sobre locais onde deve-se ter cuidado, WikiCrimes auxilia o cidadão a evitar a convergência dos fatores do RAT. Mas e essa mesma informação também seria útil a um criminoso? Provavelmente, não, mas para ser mais convinente ainda, deixem-me dizer-lhes ainda outra coisa bem conhecida no contexto da criminologia. Há locais que são mais freqüentemente alvos de crimes do que outros e um dos fatores que leva a isso é que os agressores, exatamente por terem a condição de estudar o local e planejar suas ações, sentem-se mais confortáveis em cometer crimes em locais que conhecem do que locais onde não tem algum conhecimento. Por isso, que digo que saber onde o crime ocorre com freqüência não é relevante para o criminoso. Há muitas outras informações mais úteis e que ele já as tem como obter diariamente como os hábitos das vítimas, as rotas de fuga, horários de desguarnecimento., etc. Mesmo que pudéssemos duvidar dos argumentos que apresento, há que se concordar que toda informação pode ser usada em benefício próprio tanto para o bem como para o mal (como, aliás, é fato para todas as grandes invenções da humanidade). Nas circunstâncias atuais, o cidadão de bem é o mais prejudicado com a falta de informação incentivada pela prática da cultura centralizadora e pouco transparente que hoje prevalece. Para finalizar, devo dizer que as polícias no resto do mundo já perceberam isso e divulgam o máximo de informação sobre os crimes na Internet. Dois exemplos disso são os sites (www.chicagocrime.org e http://topeka.org/crimestats/Map.aspx).

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom o texto!

Já coloquei nos favoritos!


Engenharia Ambiental

Cacthos disse...

Olá prof. Vasco, durante esse encontro você deve ter conhecido a solução citix (www.citix.net), elaborado pelo CESAR. Você acha que soluções tipo WikiCrimes e Citix podem depois convergir e formar uma única base de conhecimento?
Bom trabalho, e abraço.

Vasco Furtado disse...

Ola Cacthos,
Creio que sim. Acho que WikiCrimes tem uma proposta mais focada e provavelmente terá mais registros de crimes. Já Citix é mais abrangente e poderá capturar outros aspectos que em conjunto com dados de WikiCrimes poderão prover serviços bem interessantes.
Obrigado pela mensagem,
Vasco