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terça-feira, 11 de junho de 2013

Até Logo

Hoje escrevi artigo no O Povo descrevendo as razões pelas quais decidi parar momentaneamente de escrever naquele cotidiano. Segue o artigo abaixo.

Há cerca de um ano fui convidado para escrever nesse espaço livre e democrático. Era uma novidade para mim e que se mostrou extremamente prazerosa. Já exercitava a expressão de minhas reflexões no Blog que entretenho, mas a audiência de um jornal/portal de grande circulação deu-me mais oportunidade de sentir a reação dos leitores. 
 Neste trajeto, encontrei muita gente que me abordava e dizia  “li seu artigo, era o que eu queria dizer”. É algo muito agradável sentir-se porta-voz de outros. Embora nem sempre os comentários sejam de felicitações, elas prevaleceram. Parece-me que quem não gosta do que você fala prefere não polemizar. 
 Recentemente, fui convidado a fazer parte da equipe da Prefeitura de Fortaleza, como Coordenador Adjunto da recém-criada pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação, liderada pelo Prof. Tarcísio Pequeno e que tem a sugestiva sigla de CITINOVA. Aceitei o desafio.
 
Está me sendo dada a oportunidade de, não só contribuir com minhas ideias, mas sobretudo de agir. Nossa missão na CITINOVA é de promover a inovação para a cidade por meio da ciência e da tecnologia. Um desafio que não deve se restringir a uma área específica e com possibilidades de aplicações em toda a cidade.  Apaixonante, não? Não tinha como declinar.
 
 A nova aventura requer fazer algumas escolhas. Deixar de escrever neste espaço é uma das que estou me impondo. Creio que minhas reflexões, se forem críticas, devem ser expostas internamente para a administração municipal. Se não forem críticas, vira bajulação. Enfim, melhor calar momentaneamente. Obrigado aos leitores e meu “até mais ver”.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Conectado

Minha entrevista a Arenusa Goulart esta semana na TV O Povo. Um papo leve e descontraído.

terça-feira, 5 de março de 2013

Fortaleza NÃO é a 13a cidade mais violenta do mundo




“Estatísticas não mentem jamais. Já os estatísticos ...”

Antes que estatísticos sintam-se ofendidos, deixem-me dizer que o subtítulo deste artigo não visa, atingi-los, nem critica-los. Trata-se de uma alusão anedótica à, complexa e cheia de armadilhas, tarefa de analisar e interpretar estatísticas. 

Semana passada o jornal O Povo fez uma matéria baseada em um estudo feito por uma ONG mexicana que classificou Fortaleza como a 13a cidade mais violenta do mundo. Mesmo reconhecendo a trágica situação que vivemos no campo da Segurança Pública, a classificação apresentada, de pronto, me soou equivocada. Números que uso frequentemente em meus estudos nunca haviam mostrado tal ranking. Pus-me então a investigar fontes alternativas e os números e metodologia usada por tal ONG.

No mapa da violência 2012 lançado pelo Instituto Sangari, Fortaleza não figura nem em entre as cinquenta cidades brasileiras mais violentas. Entre as capitais nordestinas,  Maceió, Recife e João Pessoa sim, fazem parte da lista.  Por que então essa divergência?

O ranking gerado pela ONG mexicana foi obtido a partir de uma metodologia sui generis. Escolheram somente algumas cidades com mais de trezentos mil habitantes e a partir delas fizeram uma classificação. Serra no Espirito Santo, por exemplo, uma das mais violentas do Brasil, não foi nem escolhida no estudo. O critério de escolha das cidades e o corte em trezentos mil habitantes não é claro. O fato é que proclamar que Fortaleza é a 13a mais violenta do mundo com base nesse estudo é simplesmente incorreto.

Ainda mais surpreendente é que após a matéria, os jornalistas do O Povo continuaram a repercuti-la e o Governo do Estado até hoje não se pronunciou. Quem cala consente, não? Fatos como esse só me deixam cada vez mais convicto de que a abertura de dados, tal como propus com WikiCrimes (http://www.wikicrimes.org) é a melhor política para dar transparência e publicidade ao que ocorre. Não seria preciso ir buscar tão longe dados sobre o que acontece aqui por essas bandas. Se é para interpretar erroneamente os dados, que sejam pelos menos dados únicos compartilhados.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cenas e Discursos Perigosos


Cena 1. “Um jovem volta para casa à noite. Liga seu iPod e passa a dirigir com o mesmo nos ouvidos (prática cada vez mais comum, pois comprar som de carro atrai assaltos). Usa um carro popular, embora novo com cor neutra (algo como bege, gelo, branco, prata). Distraído não percebe imediatamente uma viatura da Polícia que o persegue e que começa a insistir para que ele pare. Não escuta a sirene por causa dos escutadores no ouvido. Quando percebe a Polícia, chega mesmo a aumentar um pouco a velocidade de seu carro, pois nem acredita que aquilo seja para ele. Dobra uma pequena rua escura para dar passagem à Polícia.”
Cena 2. “Policiais em estado de estresse recebem aviso que um carro popular de cor bege foi roubado por alguém que comete assaltos e havia matado um policial em troca de tiros. Avistam um carro nessas condições. Começam a persegui-lo, colocam a sirene, fazem sinal de luz. O carro se assemelha com o que foi descrito no alarme recebido. O carro aumenta a velocidade, parece querer se livrar. Dobra à direita em rua escura. Deve estar querendo escapar”.

Essas cenas estão muito distantes da realidade? Seu filho poderia ser o protagonista da cena 1? Reflitam, em especial os que dizem frases do tipo: “bandido bom é bandido morto”, “atire primeiro, pergunte depois”, etc. Confiam de que pode haver um treinamento, por melhor que seja, que permitiria aos policiais descritos na cena 2 “mandar bala” em marginais e fazer uma abordagem que respeite o direito do rapaz que poderia ser seu filho? 

Nesses momentos de violência crescente é preciso muita cautela no que se diz e no que se defende. Policiais recebem da sociedade o direito de matar, mas as condições para que isso ocorra são bem estabelecidas na lei e temos obrigação de sermos exigentes e intransigentes quanto aos desvios. O que se precisa é de uma boa polícia. E uma boa polícia respeita os direitos de todos e sabe usar a força quando necessário. Contemporizar é crime ainda maior. A sociedade não pode aceitar.

* Artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de hoje

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Feliz Compartilhamento!


Novo ano, novos votos. Para fazer os meus, inspiro-me em meu objeto de trabalho e ao mesmo tempo fonte de admiração: a Web.  Não me refiro aqui aos aspectos tecnológicos como software, protocolos e outros bits e bytes.  A genialidade da Web decorre do fato de ser uma obra construída coletivamente pela humanidade. Uma invenção de todos nós.

Essa infinita rede de conhecimento que se constrói a cada momento está sempre pronta a nos surpreender. Pronta mesmo para revolucionar. E mesmo em constante construção, nela há informação que nos auxilia a responder sobre tudo e sobre todos. Resolve nossos problemas, tira nossas dúvidas, deixa-nos perto dos que estão longe.

A Web de amanhã resolverá problemas que hoje nem percebemos que existem. Parece-me que a humanidade tinha uma ânsia represada de compartilhar informação. Faltava a plataforma para fazê-lo. A Web e a Internet foram essas plataformas e que permitiram esse esforço coletivo único. Sem coordenação central, sem um dono e sem fim.

Podemos ir além. Devemos ser visionários e olhar a Web como um exemplo que nos guie para algo ainda mais grandioso. Um mundo onde a ação de compartilhar esteja no centro de uma nova forma de organização da sociedade. Uma ação que envolve com incrível naturalidade os conceitos de sustentabilidade, igualdade e bem-estar social. Inspiremo-nos e pensemos no compartilhamento dos mais variados recursos como a água, os transportes, a energia, a alimentação. Cabe-nos começar a construir as plataformas que permitam que isso aconteça. Exigirá uma nova economia, inclusive: a economia do compartilhamento. Que 2013 seja o começo! São meus votos.

* Artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de hoje

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Chame-me, se puder



Não chego a pensar que a privatização do sistema de telefonia ocorrido anos atrás tenha sido prejudicial ao País. Lembro-me de que ter uma linha telefônica era privilégio de poucos e se tratava de um investimento tão valioso como ter um imóvel. Impossível imaginar a inserção brasileira no mundo atual de Internet e telecomunicações globais se não houvesse mudança naquele contexto. Isso não pode nos impedir de questionar o que está errado no modelo atual de telefonia, em especial o da telefonia móvel.

O nível de saturação do sistema chegou a um ponto sem precedentes. Um ponto que só deixa-nos, nós clientes com nossos cada vez mais modernos telefones celulares, a apelar para a chacota e as piadas. Não há mais como suportar o péssimo serviço ofertado pelas  operadoras de telefonia móvel.

Recentemente depois de muito penar com uma operadora peregrinei entre outras só para confirmar o que já sabia. A qualidade do serviço é sofrível em todos os níveis e em todas as operadoras. A péssima qualidade do serviço de transmissão de voz e dados se alia a não menos ruim qualidade do serviço de atendimento aos clientes. Serviços de call center e os de atendimento nas lojas com longas esperas e pouco eficazes são a regra. Cheguei a passar pela absurda situação de nem conseguir me inscrever numa operadora a qual já era cliente de telefonia fixa. Faltavam dados cadastrais, disseram-me. Não entrei onde já estava dentro. Só rindo mesmo.

Transmissão de voz e dados é cada vez mais crucial no cotidiano de nossas vidas e tornou-se estratégico para o desenvolvimento de um País. Alie-se a isso a explosão da demanda impulsionada pelo maior poder aquisitivo do brasileiro. Essa combinação torna impossível tratar o tema como sendo exclusivamente de interesses privados. No momento atual, somente a concorrência, que deveria ser a mola mestra para melhorar a prestação dos serviços, não parece conseguir produzir a resposta que os clientes requerem.

A fragilidade dos serviços prestados expõe igualmente as deficiências do Estado no seu papel de regulador, fiscalizador e indutor. A despeito dos esforços demostrados pela ANATEL com algumas ações pontuais de punição às operadoras como foi o caso com a TIM recentemente, não me parece que ela tenha sido capaz de provocar muitas mudanças no que está posto. Algo mais tem que ser feito urgente.  A situação atual é uma grande piada, mas de mau gosto.

* artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de hoje

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Educação vai às ruas


Ao ler uma recente matéria do O POVO sobre como o lixo depositado nas ruas gera poluição nas praias, vi-me impelido a retornar à questão da cultura cidadã. A matéria ressaltava que a ação inadequada do cidadão ao sujar a cidade provocava dano em um dos maiores bens públicos que o próprio cidadão tem o direito de desfrutar: as praias. A Praia do Futuro, bastião do turismo cearense, era a vítima da ocasião e estava imprópria a banho.
Quero aqui enfatizar o papel educacional destinado ao poder público que vai além da sala de aula. A postura dos cidadãos no seu cotidiano pode e deve ser educada. Usar a criatividade em campanhas de conscientização é a melhor estratégia educacional que se pode querer. Mostrar as consequências de atos que aparentemente não causam danos diretos ao cidadão é uma dessas estratégias. Não é incomum ver as próprias pessoas que sujam as ruas reclamarem da falta de limpeza das praias.  Elas não se veem como causadoras do problema.
O grande desafio para tornar essas campanhas efetivas é fazer com que sejam apropriadas pelo cidadão. Precisam gerar o sentimento de contágio. As pessoas têm que se sentir impelidas em participar, pois devem começar a perceber que os outros estão participando. Alguns mais céticos poderiam dizer que nossos governantes não sabem fazer isso. Digo que sabem, sim. O fazem muito bem quando querem se eleger. A mesma dinâmica usada durante uma eleição que visa criar um movimento em torno de uma ideia ou de um nome de um candidato deve ser usada durante o governo.
Prestemos bem atenção aos candidatos durante a campanha. Em especial na forma tenaz e perseverante que terão para conseguir nosso voto. Peçamos para que sejam puxadores de uma grande campanha chamada “educação vai às ruas”, usando, para começar as altas verbas de publicidade que possuem. Seria um excelente começo para contagiar a sociedade. A nós cabe reagir proativamente. Afinal se chegamos a pensar que os governos pensam que somos idiotas, cabe-nos deixar de agir como se fossemos.
* Artigo publicado na coluna Opinião do O Povo de hoje.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Respeito é bom e os torcedores o querem


Escuto sempre de que o cearense, pela paixão que tem pelo futebol, merece mais do que seus times o presenteiam. Sou mais um a engrossar esse caldo. A média de público nos campeonatos brasileiros seja da série A, B ou C de Ceará e Fortaleza é sempre invejável e demonstra o comprometimento das torcidas com suas equipes.

Já está então mais do que na hora dos times passarem a respeitar mais seus torcedores. O que acontece hoje com o programa sócio-torcedor tanto de um time quanto de outro é mais um exemplo do inadmissível. Os times convocam os torcedores para se inscreverem como sócios de forma que, ao pagarem uma mensalidade, obtenham automaticamente o direito de assistir as partidas de seu time em um espaço destinado a tal.

Acontece que isso tem se mostrado uma verdadeira fraude. Eu posso dizer de cadeira (com perdão ao trocadilho) que ao chegar no Estádio o sócio-torcedor não tem, de forma alguma, garantia de ter sua cadeira para assistir o jogo. As três vezes que decidi ir ao PV assistir um jogo, fiquei em pé com muitos outros, na entrada do espaço destinado às cadeiras em condições totalmente inapropriadas para quem paga (antecipadamente ou não) e mereceria receber um serviço digno.  

Sabedor de que não teria uma assiduidade alta, inscrevi-me como sócio-torcedor com o objetivo maior de contribuir com meu clube de coração. Mas esperava ter respeito quando decidisse ir ao estádio. A dura realidade tem me deixado tão indignado que me levou a escrever essas linhas.

Estamos em época e clima de copa do mundo. Vislumbramos-a, mesmo que muitas vezes de forma até inocente, como oportunidade para resolver boa parte de nossos problemas. Agora, um deles não me parece ser tão difícil de resolver. Envolve uma equação supersimples que os dirigentes dos clubes locais e Federação Cearense de Futebol têm certamente condições de fazer: há que haver uma cadeira reservada para quem pagou por ela. E olhe que já existe até lei que protege o torcedor.  Falta o que para ela pegar?  Respeito é bom e nós merecemos.

* artigo publicado hoje na coluna Opinião de O Povo

terça-feira, 24 de julho de 2012

Criativa Mobilização Social


Google, Facebook  e outros que vivem das redes sociais virtuais têm muito que ensinar à classe política. Esses gigantes da Internet nunca deixam de reconhecer que precisam incansavelmente compreender o comportamento de seus usuários. Eles sabem muito bem que as pessoas são fortemente influenciadas, para o bem ou para o mal, por suas redes sociais.  Para não perderem seguidores, todas as mudanças em seus produtos passam pelas etapas Teste, Aprenda e Execute.  

Aplicar metodologias similares para compreender o que milhares de pessoas sentem e reagem dentro de suas redes sociais deve despertar o interesse de nossos governantes da mesma forma que aos empreendedores da Internet.  Alguns políticos mundo afora já perceberam como as ciências comportamentais e o estudo das redes sociais (virtuais ou não) podem ser importantes ferramenta de gestão.

O governo britânico, com a ajuda de cientistas comportamentais, realizou estudos em que enviou cartas a contribuintes em débito com o fisco pedindo que regularizassem sua situação. Fez isso em dois grupos distintos. No primeiro, fez uma solicitação de quitação de débito normal. No segundo, o texto solicitava o pagamento dos impostos devidos, mas comparava o contribuinte com outros do mesmo setor ao dele. Dizia, por exemplo, que a grande maioria dos contribuintes do setor já havia regularizado sua situação fiscal pagando em dia. A mera comparação do contribuinte com aqueles que compõem sua rede social profissional fez com que a quantidade de regularizações deste segundo grupo fosse cerca de 15% maior do que a do primeiro grupo.  

Eis aqui um enorme campo a ser explorado por nossos governantes.  A mobilização da sociedade, buscando motivá-la e incitá-la a ações positivas, é condição determinante para a efetiva implantação de leis e de políticas de governo.  

* Artigo publicado no Jornal O Povo na coluna Opinião de hoje

domingo, 27 de maio de 2012

A Academia e a Cidade


Jocélio Leal, reputado jornalista do O Povo, fez nesse domingo uma provocação à todos que queiram se sentir incomodados. Disse que há uma enorme pobreza de ideias nas pré-candidaturas e no período pre-eleitoral e não deixou de fora a academia. Perguntou onde estão aqueles que foram pagos por dinheiro público para avançar o conhecimento.

Sou um dos que se sentiu inocomodado, pois concordo com ele de que temos, nós da academia, que sermos mais atuantes. Busco sê-lo. Não vou aqui discorrer que defendo isso ou aquilo outro. Não há espaço para tal. Vou somente indicar alguns textos que já escrevi no blog e/ou no próprio O Povo sobre temas ligados a nossas vida pública. Desde Segurança até limpeza urbana, tenho buscado contribuir.

Textos sobre Segurança Pública





Textos sobre Cidades Inteligentes




Textos sobre Cultura Cidadã





Textos sobre urbanismo





Tem muito mais no blog, basta pesquisar. Serve, no entanto, para dizer que me senti atingido, mas não visto a carapuça.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ainda sobre ladainhas e trânsito em Fortaleza


Fábio Campos escreveu recentemente neste quotidiano o artigo “Para fugir da ladainha” em que discorda dos que esbravejam contra a indústria da multa e vivem pedindo mais educação no trânsito a AMC (o que ele chama de ladainha). Acredita ele que a epidemia de infrações de trânsito em Fortaleza requer ação repressiva e que educação no trânsito já foi dada quando se tira a carteira de motorista.

Minha visão é que os que defendem ambas as ladainhas perdem o foco do problema.  Primeiro, não compreendem que, como toda questão comportamental na sociedade, causas e efeitos de problemas e ações não podem ser compreendidos isoladamente. Há uma interação entre  os fatores condicionantes que podem tanto potencializar as soluções como aumentar os problemas.  No tocante ao caos do trânsito, é impossível dissociar as omissões e erros do poder público, que inclusive lhe diminuem a credibilidade nas ações preventivas e repressoras, do mau comportamento dos motoristas e pedestres (não esquecer que os pedestres cearenses não usam a faixa de segurança, por exemplo).

O segundo equívoco refere-se ao conceito de educação comportamental, social ou cívica (como queiram). Enganam-se que é algo a ser ensinado em sala de aula e muito menos nos bancos do Detran quando se faz exame para retirar uma habilitação.  Não se refere aqui em “aprender” o que é certo, mas sim de quanto se está disposto a fazê-lo. O cada um por si e a lei do mais esperto não têm sustentabilidade, mas as pessoas precisam perceber e sentir que seguir as regras é a melhor forma de todos “se darem bem”.

Quem tem o dever de quebrar esse ciclo vicioso no qual estamos inseridos hoje é o poder público. Deve agir nos fatores que potencializam a desobediência, começando por aqueles que lhes são obrigação como sinalização, engenharia de trânsito, pavimentação das ruas, etc. Depois deve agir na educação (não de sala de aula) com programas de divulgação, exemplos, jogos e concursos de forma a gerar motivação e controle sociais sobre o tema. Tudo isso com  intuito de que a sociedade em geral comece a fazer a parte que lhe compete.  Aí sim, a fiscalização deve agir. Com a credibilidade e  a autoridade fortalecida o governo penalizaria a minoria(difícil acusar de indústria da multa quando se penaliza uma minoria) que não conseguiu aprender a lição. 

* artigo publicado hoje na coluna Opinião do Jornal O Povo

quarta-feira, 2 de maio de 2012

As Belas Calçadas de Fortaleza


A matéria do jornal O Povo sobre uma pesquisa feita pelo Mobilize Brasil em que as calçadas de Fortaleza são consideradas pelos entrevistados como as melhores do Brasil vem a calhar, no momento em que começaremos a falar de eleições e consequentemente de pesquisas e de como as mesmas são apropriadas pela mídia.

A pesquisa foi feita por uma OSCIP(Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), fundada em 2003, e que atua nas áreas de educação, cultura e cidadania, chamada Associação Abaporu, organização sem fins lucrativos que lançou o projeto Mobilize Brasil. Não pude conseguir maiores detalhes sobre a OSCIP.

Surpreendente me foi a forma como o jornal O Povo lançou a material sem contestar sua validade da mesma ou nem mesmo perguntar sobre os detalhes metodológicos que pudessem apoiar uma análise um pouco mais elaborada de quem tivesse interesse de saber como os resultados foram obtidos.

Concluir que Fortaleza tem as melhores calçadas do País é um contrassenso tão forte que logo a notícia virou piada nas redes sociais. Achei que a estóia ia parar por aí mesmo, mas quando li o artigo da prefeita Luizianne Lins se vangloriando das calçadas da cidade e usando a pesquisa em questão, decidi participar da conversa. Para começar escrevi ao portal Mobilize Brasil para pedir maiores informações. Enviei a seguinte mensagem:

“Bom dia,
Queria parabeniza-los pela iniciativa de olhar as calçadas brasileiras, mas temo que a estratégia que vocês adotaram acabe piorando o que já está. A pesquisa que fizeram em algumas calçadas em algumas cidades e que são certamente não podem ser consideradas representativas da condição de todas as calçadas de uma cidade, deixa-nos(cidadãos preocupados com a questão) a mercê de "interpretações" (para não dizer manipulações) dos governos. Estarei escrevendo um artigo no jornal sobre a questão e queria que vocês me dessem mais detalhes sobre a metodologia usada para a escolha das ruas e quantidade das mesmas. Quem deu as notas? Os entrevistadores eram os mesmos? Qual a margem de erro em função de interpretações ou erros de coleta?  Qual a validade de se comparar as cidades? Podemos dizer, como disse a prefeita no jornal e que causou enorme espanto e virou piada dos fortalezenses, que Fortaleza tem as melhores cidades do Brasil?”.

Após uma resposta, me posicionarei. Me parece claro que as pesquisas devem ser compreendidas em sua amplitude e detalhe para podermos dizer que elas realmente expressam. Acho que os meios de comunicação também devem começar a fazer esse exercício.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Estamos de Parabéns?

Senti-me impelido a falar, nessa época de aniversário meu e de Fortaleza, da relação que tenho com a cidade e de um dos sentimentos que ela me desperta. Nasci aqui e embora tenha vivido cerca de 20% de minha vida fora, sempre estou de volta. Não consigo, no entanto, deixar de compara-la com os locais onde passo. O que temos de atrativo?

Cresci numa Fortaleza, não tão pacata quanto a de meus pais. Passei a explorá-la e conhecê-la por conta própria na década de 70. À época, Fortaleza estava em crescimento como eu. Parece-me que havia (e ainda há) no nosso imaginário de fortalezense, uma necessidade constante de torná-la uma grande metrópole. E assim aconteceu. Infelizmente esse crescimento se deu de forma totalmente dissociada de uma reflexão mais ampla sobre que tipo de crescimento deveríamos ter.

Uma das poucas coisas que, nos últimos quarenta anos, se aproxima de um planejamento a longo prazo para a cidade foi a unanimidade em torno de nossa vocação ao turismo. Uma ideia que independeu de partido político no poder, mas que aqui também parece se desenvolver de forma desfocada, sem a completa percepção do que realmente devemos fazer para sermos atrativos.

Não me parece que percebemos que o mundo hoje quer ardorosamente consumir cultura (em sentido amplo que o conceito representa). Esse é o objeto de desejo dos que viajam. Querem conhecer, dentre outras coisas, arte, sabores, costumes, produtos, vegetação, gente, enfim, um ecossistema cultural que quanto mais rico mais atrativo. As pessoas querem sentir uma cidade e alimentar seus sentidos. Infelizmente, ser atrativo aos turistas por este ponto de vista requer um dever de casa que não estamos fazendo a contento: investir muito em cultura.

O pior é que não percebemos que a forma de crescimento que adotamos consegue inclusive a ser depredadora do que possuímos. Destruímos cada vez mais nossos espaços típicos, como pequenas vilas residenciais, áreas verdes urbanas e ruas rústicas de paralelepípedo. Privilegiamos os grandes empreendimentos a nossos artistas, cozinheiros e empreendedores da cultura enfraquecendo a economia criativa local. Desvalorizamos nossa história que, embora jovem, é essencial para compreendermos o que somos e porque assim estamos.

Ainda estamos tão ávidos por consumir a cultura de “fora” que deixamos a preservação e fortalecimento da nossa em segundo plano. E assim vamos crescendo.

* artigo reproduzido hoje na coluna Opinião do Jornal O Povo

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sensações e Sentimentos de (in)segurança

Debuto este artigo com uma pergunta provocadora: em qual cidade você se sente mais seguro, naquela com um policial em cada quarteirão ou naquela sem policial? Além de provocativa, esta pergunta é obviamente uma caricatura. Esses dois mundos extremos são inatingíveis, mas servem para nos orientar a direção a tomar. 

Quem tem a oportunidade de fazer uma viagem às cidades mais desenvolvidas do mundo, prova da sensação de segurança que se obtém sem nem mesmo ver um policial. O oposto absoluto do que vivemos aqui. Estamos em uma busca obsessiva por segurança que seria idealmente obtida com um policial a cada esquina. 

Por mais absurdo que possa parecer esse sentimento, o fato é que as políticas de governo têm se alimentado dessa obsessão e, por sua vez, tem realimentado a mesma nos dando mais e mais polícia e menos e menos segurança. Um dos efeitos colaterais disto foi sentido recentemente quando da greve da Polícia Militar. Os cearenses, alimentados pelo Ronda do Quarteirão, que lhes deu uma sensação de segurança baseada na presença ostensiva de policiais, perceberam o quanto ela era frágil.  

O episódio da greve deve servir para nos fazer refletir não só sobre a sociedade que queremos ter, mas também sobre a que queremos sentir. Queremos mesmo sentir que vivemos em uma sociedade prestes a explodir em arrastões e saques aos roldões (prova é, que o comércio fechou as portas)?

Eu não quero.  Prefiro viver em uma sociedade em que não seja natural acreditar que as pessoas necessitam a todo instante violar o direito dos outros para subsistir. É a mesma sociedade em que as pessoas caminham tranquilamente nas ruas e sem um policial ao lado. Para que isso aconteça temos que pensar em um novo modelo de segurança pública mais amplo e que não ofereça só mais do mesmo: repressão. Um novo modelo que consiga unir a sociedade em torno de uma cultura de paz, convivência solidária e cordialidade. O modelo atual, embora nos leve à sensação de segurança momentânea não consegue impedir que nos tornemos reféns do medo que sentimos da própria sociedade.   


* Artigo publicado hoje no Jornal O Povo, coluna Opinião

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Aumento de Salário Implica em Melhoria da Segurança?

O Jornal O Povo me pediu para responder à seguinte pergunta: "As conquistas obtidas na greve pela PM implicam em melhoria na Segurança Pública?". Minha resposta foi NÃO. Preferiria dizer que não necessariamente, mas como não tive a opção de responder diferentemente de sim ou não fi-lo assim. Os argumentos para a resposta estão logo abaixo e na página de confronto de ideias do Jornal que foi às ruas hoje. Minha opinião foi confrontada com a da antropóloga Jânai Aquino, coordenadora científica do Laboratório de Estudos da Violência da UFC. Vocês podem ler a resposta dela aqui.


" Qualquer melhoria na segurança pública passa obrigatoriamente por uma mudança nas condições de trabalho dos policiais. Salário digno e uma carga horária mais adequada são condições que potencializam o surgimento de melhorias.  Mas daí a vê-las ocorrendo, há ainda um bom percurso. 
Primeiro, é sempre bom reforçar que segurança pública não se resume à Polícia Militar (PM). É algo maior que requer trabalho integrado em diversas frentes: sistema prisional, sistema preventivo (incluindo assistência social), sistema repressivo e sistema judiciário. Como a grande maioria das instituições públicas que compõem esses sistemas são extremamente vulneráveis (vide greve da Polícia Civil), o resultado é a nossa insegurança pública atual. Há ainda que se mencionar que esses sistemas têm órgãos em diferentes esferas, o que dificulta as integrações. Por exemplo, prefeitura e estado têm que atuar fortemente integrados no processo preventivo, enquanto o governo federal tem papel crucial no controle das armas. 
 É fato de que a atuação da PM é importantíssima e que a presença da mesma nas ruas afeta a sensação de segurança, mas exclusivamente isso tem efeitos efêmeros e imprevisíveis. Se vemos por uma lado a sensação de segurança criada pelo Ronda do Quarteirão, mesmo que contradito pelos dados reais da criminalidade, por outro lado, vemos uma também injustificada sensação de insegurança, capaz de paralisar uma grande metrópole, quando ocorre uma greve.
A PM pós-greve é a mesma de antes, com suas virtudes e defeitos. Deficiências históricas relativas à baixa qualificação dos policiais, impunidade e falta de acompanhamento psicológico e social dos envolvidos com drogas, só para exemplificar algumas, vão continuar existindo e precisam ser minimizadas para que os avanços conseguidos na greve possam realmente se transformar em melhorias para a segurança pública."

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Capacidade de Indignação

A capacidade de se indignar e de se manter indignado é fundamental para a saúde de uma sociedade. Mas isso não é nada fácil. Faz parte da natureza humana, a racionalização, pois nos libera das tristezas causadas pelas “coisas que (pensamos) não podemos mudar” ou somente porque queremos esquecê-las. Creio que racionalização é especialmente importante para nós brasileiros que temos a felicidade como valor tão fundamental.

O exemplo mais marcante de indignação que vivenciei aconteceu logo depois de minha volta dos EUA quando lá residi por mais de um ano. Fomos, minhas filhas e eu, de carro a uma farmácia e ao sair de lá, formos abordados por uma jovem mulher que tinha uma criança chorando no colo. Ela me pedia dinheiro para comprar um remédio enquanto mostrava-me a filhinha doente. Ao sair do local, percebi que minha filha (de 17 anos então) chorava muito.

Ao perguntar-lhe o que tinha acontecido, só escutei como resposta “não é justo, não é justo”. Aquilo me chocou tanto que nem me lembro muito dos argumentos que encontrei para racionalizar tudo. Só me lembro que foi exatamente o que tentei fazer. Nunca me esquecerei de sua indignação sincera e pura. Não estava acostumada com aquele contexto e indignava-se com o que via. Não creio que isso ainda ocorra hoje em dia, quatro anos depois. Provavelmente aprendeu a racionalizar, mas me marcou.

É uma estória que sempre me vem a mente quando vejo as crianças dormindo ao relento nas cidades brasileiras. Lembro-me ainda do marcante monumento ao holocausto bem no coração de Berlim. São pedras enormes como túmulos que são dispostas em uma enorme área. Ao todo, perfazem 90 mil metros quadrados com 2711 lápides de concreto cinza. Um projeto de 27 milhões de euros. Só para não deixar a sociedade esquecer e lembrar que é preciso se indignar.  Temos a difícil tarefa de alimentar nossa indignação.


* Artigo escrito na coluna Opinião do Jornal O Povo em 29/11/2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Impunidade e imunidade

A sensação de impunidade permeia nossa sociedade. Esse sentimento difundido parece que tira nossa  capacidade de uma análise racional sobre causas e soluções. Por exemplo, todas as vezes em que se cogita estabelecer penas alternativas e mais brandas para casos de menor poder ofensivo escuto clamores de que mais impunidade ocorrerá.  

À primeira vista, a ideia de liberar quem cometeu ilicitudes pode levar-nos  imediatamente a pensar em impunidade. Mas será que isso é mesmo assim tão lógico? Um dos princípios básicos de um sistema coercitivo, em sistemas democráticos pelo menos, é de que a pena por um ilícito deve guardar proporção com o dano causado pelo mesmo.  Esse princípio existe de fato hoje? Não me refiro nem ao arcabouço legal, mas à dura realidade de pessoas (a grande maioria de jovens pobres) que se amontoam em cadeias e que via de regra pagam muito caro pelo que fizeram.

Aqueles que defendem leis mais rigorosas precisam compreender que o grande problema é que nosso sistema hoje já é, de facto, rigoroso. Na verdade, demasiadamente rigoroso e ainda por cima injusto. Ao se tratar da mesma forma aqueles que cometeram delitos de menor poder ofensivo e aqueles mais perigosos, por exemplo, se está alimentando um círculo vicioso da violência. Os agressores vão se “escolando” no crime e também, por saberem que não terão punição muito diferente se forem homicidas ou meros batedores de carteira, tornam-se cada vez mais violentos. 

As deficiências crônicas e históricas do Estado em seu papel socializador e ressocializador acabam por aniquilarmos a esperança de que há solução por outras vias que não exclusivamente a repressão. Políticas e leis que levem o Estado a agir com foco na prevenção e ressocialização são fundamentais, mas para isso ocorra é preciso imunidade à discursos fáceis e contra-produtivos.

* artigo publicado hoje no jornal O Povo, coluna Opinião

terça-feira, 4 de outubro de 2011

“Escolas: menos empresa, mais educação!”

O título deste artigo reproduz um apelo feito no Twitter e que me chamou a atenção pela pertinência. Numa época em que abundam pela cidade propagandas patrocinadas pelas escolas privadas de Fortaleza sobre suas (discutíveis) façanhas em exames disto e daquilo, refleti sobre o que se espera que nossas escolas eduquem. Lembrei-me imediatamente do festival de falta de educação que se vê no trânsito frente às escolas, diariamente, nos horários em que pais vão transportar seus filhos. Há desde o desrespeito ao trânsito até agressões e discussões entre pais. Justamente o local onde deveria se aprender o certo, pratica-se diariamente o errado.   

Permitam-me compartilhar algumas experiências que tive quando de minha estada em outros países. Na Califórnia, no primeiro dia que fui transportar minha filha à escola, vi um senhor organizando o trânsito com um grupo de crianças (alunos da escola) de 6 a 9 anos que usavam coletes de trânsito e indicavam onde as pessoas deveriam parar. Na reunião de pais e mestres descobri que se tratava do diretor da escola. Na França, minha experiência foi similar. A escola tinha um local de estacionamento distante da entrada e todos tinham que deixar os carros lá e caminhar com a criança até a entrada. Nada de querer parar na porta da escola como é hábito aqui. A diretora da escola também participava do controle do trânsito.

Isso não é óbvio? Não há melhor momento e local para aprender a como se comportar no trânsito do que na chegada e saída da escola. E ainda por cima, há alguém com mais moral para fazer o controle do que o responsável máximo pela escola e as próprias crianças? O fato é que nesses países está muito claro de que a missão da escola é também educar cidadania, e isso deve envolver os pais, que devem ser responsáveis pelos bons exemplos. Esperar que a criança entre na sala de aula para só então ser educada, dissociada do contexto e da sociedade em que vive, é totalmente imbecil.

Querer que isso faça parte do rol de atividades de nossas escolas, em especial das privadas, é demais? Embora isso não seja cobrado no ENEM, no ITA, no vestibular ou seja lá no concurso que for, como acho que deveria ser cobrado pela sociedade, faço meu, o apelo feito no título.  


* Artigo escrito no Jornal O Povo de hoje

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Podemos nos sentir mais seguros com o Ronda do Quarteirão?

Semana passada o Jornal O Povo fez essa pergunta a dois especialistas. Cheguei também a ser consultado, mas como tinha muito pouco tempo para elaborar a resposta e tinha dúvidas sobre o que ela visava mesmo saber, tive que declinar de fornecê-la. Como não quero ser acusado de omitir-me quando consultado sobre assunto que me é de particular interesse, assumo essa responsabilidade aqui. Permite-me expor minha opinião de forma mais extensa.

Não se trata de pergunta simples para ser respondida responsavelmente. Já escrevi sobre o fenômeno da sensação de (in)segurança. Trata-se de algo dificílimo de ser apreendido e nem sempre dará indicadores de que uma política de segurança pública está correta ou não. Além disso, quando me foi perguntado se “podemos nos sentir seguros”, interroguei-me se não seria por demais prepotente dizer como acho que os outros podem se sentir.

Se o objetivo da pergunta é o de refletir sobre os avanços tidos no Ronda do Quarteirão durante esses quatro anos de implantação, creio que hoje já é possível buscar elaborar uma resposta, embora também não se trate aqui de resposta simples. Objetivamente, só se pode medir um programa sob a luz dos objetivos que ele visa atingir e sabe-se quais indicadores mostram que esses objetivos foram alcançados. Objetivamente, sucesso em segurança pública, mundialmente, se mede pelo acompanhamento da taxa de homicídios por 100 mil habitantes. Se fizermos uma análise do Ronda então somente por essa ótica, ele é decididamente um fracasso. Esse número só aumentou nos últimos anos e creio que ficaremos todos(inclusive o governo) muito felizes se conseguirmos trazê-lo de volta ao patamar do início do Ronda.  

Mas mesmo assim, recuso-me a parar a análise somente sob essa perspectiva. Afinal, há sempre espaço para alguém argumentar que i) há outros objetivos no Ronda que num primeiro momento podem não resultar em melhorias objetivas a curto prazo, mas que podem acontecer a longo prazo, ii) a taxa de homicídio poderia ser maior se não houvesse o Ronda e iii) há outros indicadores que podem indicar melhorias.

Vamos então buscar analisar o programa sob uma perspectiva diferente e que me parece também estava presente no início do Ronda. Houve acenos de que o programa seria uma polícia comunitária ou, como o Secretário Monteiro chamava de polícia de proximidade (já discuti sobre isso aqui). Com esse modelo teríamos uma polícia mais bem treinada e respeitosa dos direitos do cidadão. Policiais educados pareciam conquistar os cidadãos. Já descrevi como considero isso desfocado e até hipócrita aqui. Novamente, retomo a questão dos indicadores. Quais são eles para que se possa dizer que o programa foi bem sucedido sob esse ponto de vista? O índice de letalidade da polícia cearense diminuiu com o Ronda? Dito de outra forma: a polícia mata menos? Desconheço esse indicador. Se a polícia o possui, não o divulga.  Veja mais sobre como esse é um problema no País aqui.

Há algum outro indicador de qualidade do trabalho do policial que indique maior qualidade no que faz? Desconheço. E aqui vale uma pergunta a profa. Coordenadora do Laboratório de Estudos da Violência - LEV), uma das entrevistadas pelo O Povo. Ela  respondeu que acredita que hoje " o ronda dispõe de equipes policiais consideravelmente experientes" e que por isso podemos nos sentir mais seguros. Mas essa experiência é algo positivo? Pode-se dizer que estão implantando uma nova mentalidade ou aprenderam na rua com os que lá estavam?? Não tenho dados para achar que essa mudança de mentalidade é o que ocorre. Tenderia a achar que o que ocorreu com aqueles que compunham as primeiras turmas, que foram para a rua com pouquíssimo tempo de treinamento,  é exatamente o oposto (veja a tragédia que isso causou aqui). Mas não quero deixar meus sentimentos contaminarem meus argumentos. Se há algo de concreto que fortaleça a opinião da profa., queria muito conhecer. 

A taxa de homicídios seria maior se não houvesse o Ronda? Essa pergunta é ainda mais difícil de responder. Na verdade, essa taxa no Ceará vinha se mantendo estável (em patamar alto, é verdade) nos últimos 10 anos. No final do governo Lúcio Alcântara houve um pequeno aumento. Impossível dizer se era prenuncio de uma ascensão meteórica que seria ainda maior sem o Ronda. Mas é pouco provável.

Há outros critérios que merecem ser analisados? Por exemplo, parece ser consenso na população de que há maior visibilidade da polícia. Vê-se muito mais polícia do que antes. Mas isso é indicador de resultado? Há algum estudo específico que associe essa maior visibilidade a uma redução da violência ou da violência que seria potencializada sem a presença? Desconheço. Certamente esse fator é impactante na sensação de segurança. A população sente-se mais segura quando vê a polícia. Isso é bom, mas tem seus limites (já comentei sobre isso aqui). Principalmente se os casos de abuso de autoridade aumentam (novamente aqui solicito a divulgação desse número que não é transparente).

No final de tudo, caro leitor, devo dizer que essa análise que faço é propositadamente incompleta sob alguns pontos de vista, porque o Ronda é só um programa e a Segurança Pública exige uma política. É algo muito maior e que perpassa até os próprios órgãos subordinados à Secretaria de Segurança. Mas uma coisa posso afirmar categoricamente. Se não houver um trabalho consistente de definição e acompanhamento dos indicadores que permitem avaliar os objetivos do sistema de segurança, não se pode responder responsavelmente às perguntas feitas pela mídia e pela sociedade. E esses indicadores devem ser acima de tudo, transparentes. Se isso acontecer, a própria pergunta feita pelo jornal deixa de fazer sentido, pois ela terá resposta imediata com o simples acompanhamento público dos indicadores que mostram ou não o atingimento dos objetivos almejados.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Isto NÃO é Verdade

Já escrevi aqui sobre a figura que é a prefeita Luizianne Lins. Decididamente ela é notável (no sentido que não dá para passar desapercebida, somente). Este ano o Jornal O Povo ofereceu-lhe um espaço quinzenal na coluna opinião para que a mesma expusesse suas opiniões.

Os textos de Luizianne seguem sempre o mesmo padrão. Chegam a parecer peças publicitárias. Recentemente, naquele mesmo espaço ela foi acusada pelo Prof. João Arruda de ter uma espécie de autismo político. Confesso que já não dá mais para lê-los. Até que o fiz por um tempo, mas a ladainha ficou excessivamente repetitiva.

Pois bem. Para não dizer que ler seus artigos não me foi uma perca total de tempo, um deles me causou tanto espanto que merece essas minhas linhas. Não tanto pelo artigo em si, mas pelos desdobramentos que ele teve. Senão vejamos. Há alguns dias atrás, a prefeita escreveu um artigo de título “Isto é verdade” (leia-o aqui). Nele ela mencionava uma matéria da revista Isto é que falava do “aumento expressivo de indicadores de desenvolvimento sociais e econômicos da periferia de Fortaleza”. Luizianne, por sua vez, em seu artigo, apressou-se a interpretar que essa situação favorável devia-se à ações que vinha implementando na sua gestão.

Tinha tudo para ser mais um desses artigos típicos de Luizianne, se não fosse o detalhe, nada desprezível, de que os dados mencionados na revista não se referiam a cidade de Fortaleza, mas somente a sua região metropolitana. Descobriram em conversa com o pesquisador que realizou o estudo de que a periferia mencionada no artigo era a região metropolitana de Fortaleza. Isso mesmo. O título Isto É Verdade não poderia ser mais falso.

Ficam-nos as seguintes dúvidas (diga-se aliás, nada louváveis para com a prefeita). Ou ela não sabia do que estava falando, o que indica que não é capaz nem de perceber quando dados que referem-se a sua gestão são divulgados, ou mentiu conscientemente, sabendo que os dados não se referiam à cidade, nem muito menos à sua gestão. Fiquem vocês com a resposta que acharem mais conveniente (se é que dá para achar alguma conveniência nisso tudo). Ela é ou não é notável?