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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Cidades Alegres e Motivadas

Quando escrevo e palestro sobre cidades inteligentes gosto sempre de enfatizar que cabe ao poder público criar um ambiente que motive a participação dos cidadãos na solução de seus problemas cotidianos. Uma das formas de fazer isso tem sido investigada no que vem sido chamada de " The Fun Theory"(algo como Teoria do Divertido).

Trata-se de uma iniciativa, originalmente patrocinada pela VW, para fomentar a inovação através de ideias que façam apelo ao divertido e lúdico para resolver problemas de mobilidade urbana. É algo que converge também com a onda atual de gamification que estamos tanto vendo na Web onde se busca criar situações de competição típica de jogos nos mais diferentes contextos.

Vejam dois exemplos nos vídeos abaixo para entender melhor do que se trata. A primeira ideia é simples. O valor da multa dos que foram flagrados pelos fotosensores em um certo local é acumulado em um bolão para ser sorteado por aqueles que passaram nos mesmos locais sem serem multados. A ideia vem sendo testada em  Stockholm na Suécia.

O outro vídeo mostra uma forma também simples para motivar a reciclagem de garrafas de vidro. Descubram.




quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Capacidade de Indignação

A capacidade de se indignar e de se manter indignado é fundamental para a saúde de uma sociedade. Mas isso não é nada fácil. Faz parte da natureza humana, a racionalização, pois nos libera das tristezas causadas pelas “coisas que (pensamos) não podemos mudar” ou somente porque queremos esquecê-las. Creio que racionalização é especialmente importante para nós brasileiros que temos a felicidade como valor tão fundamental.

O exemplo mais marcante de indignação que vivenciei aconteceu logo depois de minha volta dos EUA quando lá residi por mais de um ano. Fomos, minhas filhas e eu, de carro a uma farmácia e ao sair de lá, formos abordados por uma jovem mulher que tinha uma criança chorando no colo. Ela me pedia dinheiro para comprar um remédio enquanto mostrava-me a filhinha doente. Ao sair do local, percebi que minha filha (de 17 anos então) chorava muito.

Ao perguntar-lhe o que tinha acontecido, só escutei como resposta “não é justo, não é justo”. Aquilo me chocou tanto que nem me lembro muito dos argumentos que encontrei para racionalizar tudo. Só me lembro que foi exatamente o que tentei fazer. Nunca me esquecerei de sua indignação sincera e pura. Não estava acostumada com aquele contexto e indignava-se com o que via. Não creio que isso ainda ocorra hoje em dia, quatro anos depois. Provavelmente aprendeu a racionalizar, mas me marcou.

É uma estória que sempre me vem a mente quando vejo as crianças dormindo ao relento nas cidades brasileiras. Lembro-me ainda do marcante monumento ao holocausto bem no coração de Berlim. São pedras enormes como túmulos que são dispostas em uma enorme área. Ao todo, perfazem 90 mil metros quadrados com 2711 lápides de concreto cinza. Um projeto de 27 milhões de euros. Só para não deixar a sociedade esquecer e lembrar que é preciso se indignar.  Temos a difícil tarefa de alimentar nossa indignação.


* Artigo escrito na coluna Opinião do Jornal O Povo em 29/11/2011

terça-feira, 12 de julho de 2011

Que Fortaleza os Turistas Verão?

Essa pergunta foi feita nesse domingo pelo Jornal O Povo a seis pessoas que, de uma forma ou de outra, estão ligadas à área de turismo no Estado do Ceará. Li atentamente cada resposta. Elas elencavam, por um lado, facetas positivas como nossas belezas naturais, bem como outras menos otimistas relativas às deficiências de infraestrutura e segurança.

Não mencionaram aquilo que me salta aos olhos diariamente, em especial na área turística da cidade e que acredito merecer ênfase. De uns tempos para cá, o número de pessoas que dormem nas ruas da região da Beira Mar parece-me só crescer.

Não sei dizer se há um aumento real ou um aumento na minha percepção.  Talvez as duas coisas. Tenho viajado ao exterior e o choque do retorno é sempre relacionado à forma miserável como algumas pessoas (a maioria jovens) se deteriora  ao relento aqui na cidade. Não é também incomum ver famílias nessa situação ou pelo menos grupos de pessoas que parecem compor uma família.

E se refizéssemos então a pergunta feita pelo jornal para algo como: Que sociedade vão os turistas conhecer? Que impressão terão do fortalezense? Que impressão terão de nós mesmos? Elas permitem-nos considerar uma dimensão de cidade maior do que praças, ruas e serviços.

Respostas a essas perguntas podem incluir um componente capaz mesmo de nos envergonhar e que está além da hospitalidade, alegria e afabilidade que gostamos de nos imputar. Podem identificar uma excessiva passividade que nos leva a aceitar inertes um convívio diário com concidadãos em situação tão penível. Se não nos indignamos a ponto de fazer nossos governantes resolverem a questão ou, talvez, de agirmos nós mesmos, será que isso não será “percebido” pelo turista? Ou será que achamos mesmo que isso não tem nada a ver conosco? Não podemos. Queiramos ou não, percebamos ou não, essa é a Fortaleza de hoje.

* Artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de hoje 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Carona Amiga: Nostalgia


Nas minhas recentes conversas com amigos, percebo uma nostalgia latente. O ponto comum de que todos se ressentem é da liberdade que tínhamos de ir e vir. Quando jovens explorávamos Fortaleza a pé, de ônibus, bicicleta e, eu em particular, de carona.

Tinha me esquecido do quanto eu pegava carona. Era caroneiro de todo momento. Não era somente em ocasiões especiais, para ir a uma praia ou lugar mais distante. Voltava de carona da escola quase que diariamente, principalmente quando estudava no Santa Cecília (cerca de 30 anos atrás). Dirigia-me ao sinal da Estados Unidos (hoje Sen. Virgílio Távora) com a Antonio Sales e pedia carona aos que paravam lá.

Algumas diferenças daquele tempo para cá. Não existia o flanelinha que hoje domina a maioria dos semáforos da cidade. A Antônio Sales era duas mãos o que me era crucial, pois vinha da Estados Unidos até a Barão de Studart. Mas a principal diferença era, obviamente, o fato de que as pessoas  não se furtavam a oferecer-me carona. Poucos carros tinham ar condicionado. Consequentemente, o contato do caroneiro com o condutor do veículo era mais fácil. A farda da escola ajudava muito. Quando estava fardado a taxa de aceitação era muito maior. Nunca fiz a conta para saber quanto. Na época não era obcecado em “numerizar” tudo.

O desaparecimento da carona amiga é muito emblemático da forma como vivemos hoje. Não há o menor sentido nem pedir, nem dar carona. Vivemos com medo dentro de nossas casas e de nossos carros. Como chegamos a isso? Acho que naquela época já estávamos nos dirigindo ao que somos hoje. Só que não percebíamos. Agora, resta-nos reconhecer que temos uma dívida enorme a resgatar. Talvez, um dia, nossos netos voltem a pedir carona. E nós mesmos poderemos estar no carro ofertando tranquilamente uma carona amiga.  

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Exigência de Educação e Cultura Cidadã

“IBOPE: 70% dos brasileiros aprovam qualidade do ensino”. Esse é o título da matéria veiculada no Diário do Nordeste via Agência Estado sobre uma pesquisa feita pelo IBOPE em nove capitais brasileiras (Fortaleza, inclusive). Essa pesquisa (veja a matéria aqui) per si deveria nos obrigar a uma reflexão. Adicione-se a essa pesquisa, outra feita no ano passado com patrocínio da UNICEF chamada "Redes de Aprendizagem - Boas Práticas de Municípios que Garantem o Direito de Aprender". Esta pesquisa destacou cidades no País onde a rede municipal de ensino público funcionava bem. No entanto, um outro levantamento, feito há poucos dias, mostrou que do universo das 37 cidades premiadas, 21 não reconduziram os prefeitos ou seus candidatos para um novo mandato. Creio que as duas pesquisas se entrelaçam através de uma constatação trágica: nosso nível de exigência em matéria de educação é muito baixo e isso é um reflexo de nosso baixo nível de educação. Surpreenderia se fosse diferente. Educação não é algo absoluto que se pode facilmente dizer que se tem ou não tem. A própria percepção do que se tem por direito como cidadão é parte da educação. Vê-se aqui um ciclo vicioso que precisa ser quebrado. Vou voltar a bater na mesma tecla que tenho batido nesse blog quando falo da cultura cidadã (veja alguns textos aqui, aqui e aqui). Temos que ter uma visão mais abrangente de educação da população. Sempre que falamos de educação pensamos na escola e na sala de aula. É claro que essa educação formal é importante, mas há muita coisa que pode ser feita no dia-a-dia das pessoas e que poderia fazê-las mudar de comportamento e que passassem a agir de forma educada (mais civilizadas diriam alguns). O problema é que isso implica em uma mudança na nossa forma de governar também. É preciso sair da reatividade e passar a pró-atividade. É preciso considerar toda e qualquer oportunidade de contato com o cidadão como uma oportunidade de ensino e aprendizagem. É preciso transformar todos os agentes públicos em educadores em potencial. É preciso propor parcerias com a sociedade organizada numa cruzada pela ética, civilidade e comportamento coletivo. Isso evidentemente é muito difícil e os mais céticos diriam que com nossos políticos de hoje em dia isso fica impossível. A boa notícia é que um movimento desse tipo acaba ficando mais fácil nesse momento em que o País começa a conhecer um pouco de fartura. Uma economia estabilizada (que a crise internacional não me desminta) que gera melhor nível de renda, que oferece mais possibilidade de empregos e que permite ascensão social, é o momento ideal para que as pessoas se dediquem um pouco para o social. Não somente no sentido de ajudar os outros, mas também no sentido de perceber que é preciso fazer um pouquinho pela coletividade para que a sua própria vida seja melhor. Sem as condições mínimas, fica mais difícil qualquer discurso visando o coletivo, pois as necessidades individuais egoístas prevalecem. Se comerçarmos a fazer algo nessa direção, teremos melhor educação, até porque seremos mais exigentes.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Esporte e Sociedade

Instigado por um comentário de um leitor que me dá honra por sua presença neste blog, vou voltar a falar sobre esporte e educação. O comentário foi feito pelo mestre Roberto Bastos um estudioso do basquete mundial e acima de tudo com compreensão, como poucos, do papel do esporte em uma sociedade. Roberto em seus comentários ao texto em que falo de Internet e educação (clique aqui para acessá-lo e ao comentário completo de Roberto) pergunta
“Na sua recente viagem a Europa não viste nada relacionado ao esporte? que tenha ajudado o ser humano a ser melhor através do esporte?”, “Será que esse jogo(o basquete) não melhora o homem em todos os sentidos? Não seria bem mais fácil de aprender dividir, multiplicar, somar,diminuir?”.
É claro que sei que ele já sabe minha resposta, mas não custa nada reiterá-la. Não há menor dúvida que o esporte é capaz sim de tornar as pessoas melhores. Os esportes coletivos, como o basquete, então, são particularmente relevantes para desenvolvimento de aptidões essenciais nos dias de hoje a qualquer profissional: trabalho em equipe, relacionamento interpessoal, liderança, controle emocional e competitividade. Não é novidade para Roberto, como também para grande parte da população, de que precisamos dar uma nova dimensão ao esporte através da educação como já tinha mencionado nesse texto aqui escrito logo após os jogos olímpicos. Agora, é ainda mais relevante entender que é preciso que o esporte tenha uma dimensão maior na sociedade como um todo. Algo muito na linha do que tenho escrito sobre a cultura cidadã (veja textos que escrevi sobre isso escrevendo "cultura cidadã"no espaço de pesquisa no canto superior esquerdo) em que a sociedade passa a participar mais ativamente da resolução de seus problemas em comum. Quando se fala de esporte tem-se uma grande vantagem porque ele tem a capacidade de entusiasmar, fazer sonhar, criar ídolos, enfim, mexe com o imaginário popular. Sentimentos que, quando bem trabalhados, podem fazer as pessoas melhores. Evidentemente, que há outro lado da moeda. Todo esse discurso é muito próximo de argumentos fascistas de preponderância de alguns sobre os outros, de uma classe ou de um tipo de gente sobre alguém. Algo do tipo “ é preciso vencer sempre”e “deve-se levar vantagem em tudo”. Aqui mora o perigo e de novo vem a lembrança de que esporte e educação devem andar juntos, para que o sentimento de respeito e admiração pela excelência prepondere sob a frustração de não ter sido o melhor. Isso não é fácil de jeito nenhum. Aliás, a própria sociedade americana, a qual constantemente está em meus comentários com exemplos positivos devido a seu nível de participação, solidariedade e educação, tem nos demonstrado com freqüência o quanto uma educação competitiva pode ter efeitos colaterais negativos como as matanças de jovens em escolas por colegas desequilibrados. De resto, seria muito bom que nossos prefeitos entrantes ou reentrantes começassem a pensar, e sobretudo, agir mais sobre tudo isso.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Stress no Trabalho

Dando continuidade à reflexão feita recentemente sobre o trabalho (ver o texto aqui) e dado que este fim-de-semana estarei trabalhando tanto no sábado quanto no domingo (o que aliás aconteceu também no sábado passado), decidi postar esses vídeos que encontrei no YouTube. São cômicos, mas nos alertam aonde podemos chegar. Vou tomar cerveja!

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Carreiras e Corridas

Estive neste fim de semana em Guaramiranga participando de uma corrida de longa distância que me permitiu conhecer mais intimamente o ambiente que envolve essa prática que vem se propagando fortemente no Brasil, em especial, em Fortaleza. Experimentei o sentimento que move os entusiastas e pude refletir sobre alguns aspectos que me parecem interessantes deste contexto. Mesmo não sendo muito afeito a modismos, reconheço que neste caso, em particular, só identifiquei benefícios. Obviamente, o maior deles refere-se aos impactos positivos na saúde dos esportistas, conseqüência direta da prática de esporte. Impossível não sublinhar que os aspectos estéticos, por serem tão cultuados em nossa sociedade (veja texto sobre isso aqui), também se constituem resultado e motivação, principalmente nas mulheres que, aliás, comparecem em grande massa. Ao buscar aprofundar a busca de por que desta febre maratonista, identifica-se que as corridas de longa distância têm algumas características bem peculiares e que potencializam sua popularidade. Elas não requerem equipamento nem local especiais para sua prática. São ainda extremamente democráticas, pois todos podem praticá-las: congregam tanto homens como mulheres, profissionais e amadores, jovens e velhos, e de qualquer classe social. Não exigem dos eventos maiores preparações nem tratamentos diferenciados. Poucos esportes podem, por exemplo, realizar uma competição com todas as categorias juntas em um mesmo local e ao mesmo tempo. Vi muitas famílias correndo juntas, com pais e filhos e até avôs participando. Esta diversidade favorece sentimentos de companheirismo e fair-play emocionantes. Os corredores se ajudam e dão força uns aos outros. Nos treinamentos semanais os mais dedicados se juntam em grupos e formam equipes. Nutrem-se assim do componente social que originalmente não está presente na corrida que é eminentemente um esporte individual. A competição (estritamente falando) se restringe aos profissionais que disputam os primeiros lugares. A grande maioria dos corredores está buscando competir consigo mesma. Buscam quebrar seus próprios recordes e limites. O público que acena e aplaude em todo o trajeto dá ainda outro tempero especial ao evento. O segundo aspecto que me saltou os olhos foi de como esses eventos esportivos estão se tornando um negócio lucrativo. Não me refiro exclusivamente ao negócio para aqueles que promovem as corridas, mas principalmente às cidades onde elas se desenrolam: o negócio do turismo esportivo. Os esportistas se articulam para participar das corridas e para conhecer os sítios onde elas se desenvolvem. Essa prática já era habitual quando se falava das grandes e tradicionais corridas como as de New York e São Paulo (São Silvestre). Com a popularização das corridas e com o aumento do número de praticantes, há um nicho a ser explorado pelas cidades de outros portes. O evento deste fim de semana em Guaramiranga demonstrou isso muito claramente. Mais de quatrocentos corredores levaram, certamente, pelo menos o dobro de pessoas à cidade. Trata-se assim de uma ótima oportunidade para as cidades que querem expor suas potencialidades. O momento atual é de euforia dos praticantes e o número de adeptos cresce diariamente. Mesmo após um recrudescimento, que me parece normal que aconteça, com perdão do trocadilho: há carreira nas corridas!

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Ainda Sem Cansaço, Embora Não Descansado!

Um comentário da Kenia sobre a campanha “cansei“ da OAB-SP e de meu texto sobre fazer a coisa certa me faz revisitar o tema (clique aqui para ver o comentário). Adorei as sugestões que ela fez e queria de antemão solicitar aos leitores deste blog que pensem em slogans que apelem por essa cultura cidadã que tenho falado. Muito se tem falado sobre cidadania no Brasil. Entendo que cidadania requer acima de tudo uma postura participativa e pró-ativa. Não se trata somente de criticar. Há que contribuir, agir. Daí meu slogan “Faça a coisa certa”. Kenia está vivendo na Bélgica e assim tendo a oportunidade ímpar de conviver com pessoas que cultivam um singelo sentimento de ser um cidadão ativo, respeitoso e zeloso com as coisas comuns e com a comunidade em geral (como é a maioria dos europeus). Sempre que converso com pessoas que tiveram a experiência de viver em países mais desenvolvidos, escuto o quanto essa postura chama a atenção e o quanto isso é invejado. Perguntam sempre: o que nos impede de sermos iguais a eles? Engraçado o quanto essa situação é parecida com a postura que a religiões pedem a seus fiéis. As religiões normalmente solicitam que seus fiéis pratiquem a bondade, a caridade, a solidariedade e o amor, sem pensar em retribuição (muitas vezes sob o argumento de que esta retribuição só virá em um outro mundo, vida, dimensão ou reencarnação!). Pois bem. Uma cultura cidadã ativa e participativa requer o mesmo desprendimento. Talvez nem precisemos esperar tanto para ser retribuídos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Cansei de “Canseis”: Contra a Indignação Inoperante

Provocado por um comentário anônimo (clique aqui para ver o comentário) sobre minha suposta postura light e sobre minha posição quanto a campanha “cansei”, venho refletir sobre ambos. Primeiro, quero dizer que não estou cansado de nada, muito menos do blog. Aliás, a iniciativa deste blog foi uma das mais corretas decisões que tomei nos últimos anos. Evidentemente os textos que escrevo refletem meu estado de espírito e que naturalmente varia. Reconheço ainda que a capacidade de crítica e de indignação é uma característica bem marcante de minha personalidade e assumo as conseqüências positivas e negativas de tê-la assim. Se por um lado ela me permite identificar oportunidades, acusar problemas e quebrar paradigmas, por outro lado ela me faz incompreendido, indesejável e muitas vezes de ser tachado de chato. Ou seja, minhas variações de humor tendem a acontecer em função deste constante processo de busca por equilíbrio (que espero não atingir, pois significaria a morte!). Se estou, a luz de alguns, um pouco mais light, creio que se trata de um mero reflexo momentâneo deste processo. Deixando as reflexões intimistas de lado, vamos à questão da minha postura mais contundente quanto aos problemas da realidade brasileira. Um dos princípios que regem minhas posições é de que nosso problema enquanto país, só será resolvido por nossa mudança de conduta. Não acredito que a solução esteja em campanhas de indignação como o “cansei”, “não a violência” e outras mais. Tenho dito isso em textos passados (clique aqui, aqui , aqui e aqui ). A campanha da OAB intitulada “cansei” (clique aqui para saber da campanha ) me parece mais um exemplo de campanha de indignação imobilizante que traz mais prejuízo do que benefício. Estamos fazendo crescer o sentimento de que esse país não tem jeito e que nada pode ser feito. Me isento aqui do debate político-partidário que passaram a dar para essa campanha. Acho mesmo é que temos um erro conceitual enquanto sociedade: nossa eterna capacidade de sempre colocar a culpa em alguém. Não há nenhuma campanha que busque alertar que precisamos fazer, nós mesmos, a coisa certa. Quanto mais colocamos culpa nos outros, mais nos sentimos confortáveis em justificar os nossos erros. Cria-se um ambiente perfeito para a racionalização com raciocínios do tipo “Como os políticos são ladrões, não pago imposto”, etc. Não quero dizer com isso que não devamos nos indignar com o que estamos vivenciando, mas não creio que seja somente a indignação que esteja ao nosso alcance. Aliás, soube que a OAB-SP tinha se preocupado para que a campanha cansei fosse diferente (até aqui estava otimista!). Eles decidiram coletar um conjunto de sugestões para serem entregues aos governos, congresso, etc. (aí perdi o otimismo! Lá estamos nós achando um responsável por resolver todos os problemas). Já disse e repito, nossos políticos, dirigentes, governantes são uma representação fiel do que somos. São uma amostragem mais do que representativa. Não há como esperar diferentemente. Eles são como nós, refletem o que somos, e quando os mudamos, os novos são novamente como nós e refletem de novo o que somos e assim sucessivamente. O ponto principal é como quebrar o ciclo e minha posição é de que só o quebramos mudando a nós mesmos. Eu sei que posso ser acusado de ter um discurso meramente retórico com baixa possibilidade de ser implementado. No entanto, sou otimista. Creio que se começarmos a olhar a realidade sob essa perspectiva e passarmos a investir nossa energia mobilizadora nessa direção, as mudanças acontecerão de uma forma surpreendente. Acho o “Faça a Coisa Certa” é um slogan muito mais positivo para o Brasil.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Merda de Cachorro e Cidadania

Tenho observado um constante incremento no número de pessoas que passeia em locais públicos com seus animais de estimação, principalmente cachorros. Isso reflete uma tendência mundial e verificada com muita clareza na Europa e nos EUA. No entanto, nestes países há uma grande diferença. Os donos de cachorros têm a responsabilidade de limpar os excrementos deixados por seus animais. Aliás, essa responsabilidade também existe aqui, mas a diferença é que eles a assumem, nós não. Vi muito na Califórnia os donos de animais de estimação andando com uma espécie de luva de plástico que é usada com este fim. Em muitos parques, estas luvas são disponibilizadas em banheiros públicos da mesma forma que o papel higiênico. Mesmo na França onde esse problema é historicamente reconhecido, novas leis têm surgido com o intuito de penalizar os que não colaborarem com a limpeza pública. Infelizmente, em uma cidade como Fortaleza em que abundam casos de pessoas que jogam lixo de seu carro no meio da rua, parece ser pedir demais observar este detalhe, não? Mas considero que este fato é emblemático de nosso problema social. Não queremos assumir nossos deveres. Queremos ter direitos, mas os deveres... É mais fácil culpar o governo, a prefeitura, a empresa de lixo, etc. Essas pequenas coisas fazem uma diferença grande no final. Continuo dizendo que temos uma grande crise de cidadania e de consciência coletiva. Se aprendermos a respeitar os outros e os valores sociais, aprenderemos, em conseqüência, a cuidar melhor de nosso patrimônio público. Repito, podemos começar nós mesmos.

terça-feira, 1 de maio de 2007

O Mundo Nada Virtual da Beira Mar de Fortaleza

A experiência californiana me deixou muito ligado aos novos conceitos da web e fui adquirindo muita familiaridade com o mundo virtual. A iniciativa deste blog, por exemplo, é reflexo disto. Neste primeiro de maio fui dar uma caminhada na Beira Mar de Fortaleza e tive a oportunidade de observar um mundo nada virtual embora que guarde sua semelhança. Para os que não conhecem Fortaleza, a Beira Mar é uma área ao bordo do mar de aproximadamente 6 km que vai da praia de Iracema até o Iate Clube. Creio ser uma das regiões de maior movimentação turística no Brasil e se pode encontrar de tudo lá. Fiz um exercício divertido de identificar pessoas que personificavam, em carne e osso, os diferentes papéis que agentes no mundo virtual desempenham. Por exemplo, encontrei um cidadão que estava discursando em alto e bom tom, indignado sobre a acumulação de riqueza e as injustiças que isso trazia. Naquele momento ele era claramente um blogger. Suas idéias eram divulgadas ao público que transitava na região que, por sua vez, poderia concordar ou não, ou simplesmente, continuar sua caminhada sem dar-lhe maior atenção (que foi aliás o que me pareceu que a maioria decidiu fazer). Outra espécie de blogger foi personificada por uma dupla que cantava músicas religiosas e que tentava vender um CD com suas músicas. Via-se ali um blogger com interesse comercial. A área de entretenimento se fazia presente com vários artistas realizando acrobacias, encenações mirabolantes (como quebrar cocos com o calcanhar) e contando piadas (o que não poderia faltar no Ceará). O comércio também estava presente através das feirinhas de artesanato, mas igualmente pelos vendedores ambulantes que usam das mais diversas técnicas para atrair os fregueses. Alguns anunciam seus produtos gritando, outros usam alto-falantes. As cozinheiras usam o aroma de suas receitas para seduzir os transeuntes. Observei o quão reduzido era o alcance daquelas pessoas nas suas árduas tarefas de serem ouvidas e prestigiadas (diferentemente da web onde o mundo é o limite). No entanto, eles tinham algo em comum, uma grande intensidade de criatividade, disposição e sentimento que exalava nos seus cantos, discursos e gestos. Isso o mundo virtual não consegue transmitir. Os aromas e ruídos de risos, conversas e cantos que estavam no ambiente estavam impregnados de calor humano que é bem real e brasileiro. Tava com saudade !

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Fortaleza Bela: Deseducação no Caos Urbano

Não posso me furtar a escrever sobre algumas coisas que me saltam os olhos nesta volta à rotina Fortalezense. Contrastando com a alegria do contato com familiares e amigos, a tristeza de perceber algumas de nossas idiossincrasias ocupa um espaço em meu estado de espírito. Poucas coisas são tão alarmantes como o caos urbano que percebo na cidade. Há toda forma de descontrole com a clara omissão do poder público e sob o olhar inerte dos órgãos de defesa do cidadão. A conseqüência disto é uma população que busca adaptar-se a esse contexto, em prejuízo a uma convivência harmoniosa e em detrimento ao seguimento as leis. Deixem-me exemplificar o que quero dizer. A sinalização das ruas, em geral, é de péssima qualidade, tanto a que se refere ao tráfego de veículos quanto a que se refere ao uso dos espaços públicos pelos pedestres. Além disso, as calçadas são frequentemente intransitáveis, ou por ocupação ilegal ou por terem pavimentação totalmente destruída. Conseqüência, os pedestres têm que encontrar rotas alternativas para se deslocar, o que não pode ocorrer sem perigo. Essa situação provoca uma bola de neve, pois o trânsito que já é péssimo por muitas outras razoes como pavimentação deficiente, buracos, etc (vou parar para não chover no molhado) fica ainda mais prejudicado. Não tenho a menor dúvida que vidas são perdidas e pessoas são acidentadas muito em função deste contexto. Vejo ainda outro aspecto extremamente pernicioso. Na falta de condições para se viver harmonicamente vê-se em marcha um processo inconsciente de deseducação da sociedade. A regra geral de convivência numa sociedade com este contexto é a de se virar como puder e a lei de Gerson (levar vantagem em tudo) é a única claramente seguida. Por exemplo, não da para esperar que os pedestres só atravessem na faixa de segurança quando na maioria das ruas elas nem são indicadas. Nem da para esperar que os motoristas dêem prioridade aos pedestres (como se vê nas sociedades mais “civilizadas” em termos de convivência urbana), se eles estão atravessando as ruas a toda hora e em todos os locais. Conseqüência disso é um filme trágico e surrealista, pessoas cruzando as ruas aloucadamente, carros subindo calçadas para fazer ultrapassagens, sinalização desrespeitada repetidamente, motos e bicicletas “surgindo” de todos os cantos. Tal situação está longe do que pode se esperar de uma Fortaleza Bela.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Corrupção Enraizada

Atreverei-me a discorrer sobre um assunto complexo e que me intriga há algum tempo: a corrupção no Brasil. Evidentemente corrupção não é exclusividade de nossa sociedade, mas tenho o sentimento que ela é um fenômeno que infelizmente tornou-se enraizado na nossa cultura. Com isso estamos perdendo o poder de nos indignar e de buscar reduzi-la. Tentar encontrar um único fator para explicar um fenômeno tão complexo é por demais reducionista. No entanto, quero me concentrar em alguns aspectos que considero relevantes ao tema. Primeiramente vou olhar para o fenômeno da corrupção focando no papel do corruptor, que considero o agente mais importante no processo. Segundo queria dizer que vejo a corrupção em todos os lugares e em todos os setores (por isso a considero enraizada). Não é “privilegio” de políticos, funcionários públicos, empresários ou quem quer que seja. Dito isso, quero me concentrar neste artigo no impacto que o enfraquecimento (ou mesmo o desconhecimento do papel) das instituições democráticas e de seus organismos pode ter na corrupção. Tomemos o conceito de governo, por exemplo. O governo é uma entidade criada pela sociedade com o objetivo de buscar o bem comum. Numa democracia, o governo se baseia na maioria, mas zela pelos direitos individuais e das minorias. A distribuição de renda e o atendimento aos mais carentes só é possível se houver um governo para coletar as contribuições (impostos) e gerenciar e atender às demandas. Independentemente de ser bem gerenciado ou não, o governo é a forma legítima escolhida pela sociedade para os fins supramencionados. Pois bem, o que tenho visto muito frequentemente é que os cidadãos brasileiros têm sentido repulsa pelo governo (não me refiro a um governo especifico, mas a noção geral de governo). Tornou-se uma entidade etérea a quem toda culpa se atribui e com quem não se possui nenhuma identificação. Várias formas de corrupção como a sonegação fiscal estão sendo justificadas por este sentimento. Não é muito difícil encontrar pessoas que recebem um bom salário, têm boa escolaridade e se prestam a “molhar a mão” de um guarda de trânsito para não serem multadas. Justificam: “Prefiro dar para o guarda do que para o governo”. “Ainda por cima eu ganho um amigo que poderá me fazer mais favores quando eu precisar”. Ações similares com outros agentes públicos como auditores fiscais, delegados ou mesmo membros do judiciário seguem a mesma lógica. Infelizmente, essa é a lógica perversa que tem prevalecido no País e que não se tem conseguido combater. Tenho a impressão que esta lógica não tem sido bem percebida por nós. Essa é a lógica que corrói cada vez mais as Instituições públicas e vai fazendo a sociedade viver dependendo de troca de favores. Se você conhece alguém em algum lugar importante, você consegue resolver seu problema. Senão, vai sofrer com a má qualidade dos serviços. E finalmente, é a lógica que gera falta de recursos financeiros suficientes para atender às demandas e prover qualidade nos serviços públicos, pois os valores a serem coletados não são nunca suficientes (fortemente em razão da corrupção/sonegação). Está criado o ambiente perfeito para alimentar o ciclo vicioso. Com a falta de recursos os governantes decidem por aumento de impostos, fortalecimento da fiscalização e ficam cada vez mais impopulares (aumentando a repulsa e fertilizando o terreno para mais corrupção). Creio que buscar quebrar este ciclo deveria ser prioridade para qualquer governante. Este é o verdadeiro pacto nacional que necessitamos.

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Empreendedores Sociais

O editorial de Nicholas Kristof no New York Times de 30 de Janeiro descreve alguns exemplos de um novo tipo de empresário na mesma linha de Muhammad Yunus, o vencedor do Nobel da paz por sua iniciativa de financiamento aos pobres em Bangladesh. Kristof chamou estes empresários de Empreendedores Sociais. Na África onde as crianças morrem de diarréia por falta de saneamento básico, Isaac Durojaiye abriu uma franquia de banheiros públicos. Ele fornece os banheiros para área menos favorecidas e desempregados se tornam os franquiados com a tarefa de educar o povo e coletar uma pequena taxa pelo uso do banheiro. Sessenta por cento do ganho fica com o franquiado e o restante financia a compra de mais banheiros. Na Austrália, um empreendedor social criou a Easy Being Green que distribui gratuitamente luzes e chuveiros elétricos de baixo uso de energia em troca de parte dos créditos na economia que os donos da casa têm em conseqüência do uso desses equipamentos menos gastadores. De posse dos créditos, a Easy Being Green os vende para a indústria que normalmente está no débito (usa mais energia do que tem direito). No final a Empresa ganha dinheiro e ainda ajuda a economizar energia. Kristof cita outros exemplos e conclui que estas iniciativas ilustram que mudanças positivas podem vir muito mais com criatividade do que com poder ou dinheiro. Ajudem-me a relacionar iniciativas de empreendedores sociais no Brasil.

sábado, 27 de janeiro de 2007

A Relação da Academia com a Sociedade

Um aspecto que me atrai particularmente na sociedade americana, que já tinha observado na sociedade francesa quando vivi quatro anos durante o doutorado, é que ela tem uma clara percepção da importância da pesquisa científica no bem estar da sociedade. Ser um pesquisador ou professor universitário que desenvolve pesquisa é uma profissão extremamente reconhecida. O cidadão comum tem uma percepção de que a ciência tem um papel importante na vida dele e na vida dos seus filhos. Mesmo se essa percepção é superficial e não há conhecimento profundo sobre os meandros do conhecimento cientifico, há reconhecimento. Presenciei várias iniciativas de jornadas “portas abertas”, onde a universidade convida a sociedade para conhecer o que ela está fazendo. Normalmente é um dia em que os pesquisadores e professores demonstram seus trabalhos e explicam o que estão fazendo para as pessoas “comuns”. O mais interessante é que eles conseguem explicar os assuntos os mais diversos e complexos de forma didática e divertida. As crianças adoram. É emocionante! Evidentemente que este não é o único fator para criar o reconhecimento, mas acho emblemático.