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domingo, 30 de junho de 2013

A Beleza de Fortaleza


Em Maio de 2007, recém-chegado do pós-doutorado em que passei pouco mais de um ano na Califórnia, escrevi sobre a Beira-mar.
Na época descrevi meu sentimento quando passeei pelas calçadas e percebi todo o calor humano e diversidade lá presentes. Aqui decido voltar sobre a questão, porque vi alguns comentários de turistas que vieram a Fortaleza e disseram não achar a cidade bela. Diziam não ter visto nada de especial.

Lembrei-me de quando cheguei em Marseille na França, cidade que morei por quatro anos. A primeira impressão quando lá cheguei foi a de achar a cidade feia. Era minha primeira ida a Europa e esperava aquelas coisinhas lindas bem ajeitada, tipo Suíça. Marseille não tinha(e não tem nada disso). É um caos só. Multiarquitetura, multicultural, multilépoca J).  Só compreendi a beleza da cidade depois de algum tempo. E vi que a França não tem tantas cidades como Marseille.

Acho que Fortaleza, embora muito diferente de Marseille, é uma cidade dessas que não dá para perceber a beleza em um primeiro momento como Rio, Paris e outras onde as beleza natural aflora. Ela tem que ser vivida e sentida. E a Beira-mar (incluindo a Praia de Iracema) é para mim o local a se sentir.

Sempre que lá passeio, vejo uma representação de classes, de culturas e de valores incríveis. Difícil encontrar um espaço amplo, cheio de atrações, como muita gente e eclético como a Beira-mar. A proximidade com a zona hoteleira e restaurantes é riquíssima. Durante a Copa das Confederações adorei ainda mais passear na Beira-mar. A mistura de gente tornou-se ainda mais eclética.

Lembro que tudo isso é ainda temperado pelo cearense com seu condimento especial: o bom humor.  Há sempre um vendedor exótico fazendo alguma graça (com a própria desgraça ou zombando da cara do próprio comprador (pode algo ser mais politicamente incorreto)).

Seria muito pobre reduzir a beleza de Fortaleza à noite da Beira-mar? Talvez, mas se os turistas a vivenciarem  vão começar a perceber uma  beleza que vale o ticket. 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A Imponência e a Modernidade Urbana em D.C.



Estive brevemente em Washington D.C. para apresentar um artigo científico na Universidade de George Mason. Aliás, saí de D.C. quase fugido do furacão Sandy (mais devastador do que devasso).

Sempre me surpreendo com essa cidade soberbamente bem organizada, limpa, bonita em todos os seus ambientes. Vale a pena a visita. Tive informações técnicas privilegiadas de uma brilhante estudante brasileira (por coincidência, minha filha) que estuda em New York e me acompanhou nas minhas andança. Falou-me sobre a história das escolhas urbanas da capital americana. A imponência  das grandes construções públicas é ressaltada por suas conexões  através de largas avenidas que, quase sempre em diagonal, criam um desenho bem particular desta cidade ímpar.

Não posso deixar de enfatizar: a bicicleta tem sua relevância. Ela tem seus espaços, pode ser alugada de um lugar a outro e é comum ver demarcações nas ruas onde elas têm espaço compartilhado com os carros. Nada de achar que tudo é ciclovia como já cheguei a mencionar aqui.

Difícil encontrar algo para criticar nessa cidade, certinha demais. Adicionam-se ao desenho particular, alguns exemplos simples de uso da tecnologia no espaço urbano que creio valerem menção. Os parquímetros são alimentados por energia solar. Vejam em foto abaixo. Eles nem têm tanto sol como nós, mas o usam bem melhor. Ainda sobre o sistema de estacionamento, o pagamento dos espaços pode ser feito por telefone celular: mobile parking (veja o vídeo abaixo para saber como funciona). Como já disse também por aqui no blog, os smartphones no futuro breve também serviram para falar :-)) Para os antiamericanos, não visitem D.C. terão ainda mais raiva deles (mas, se puderem reconhecer a inveja, fará bem J).


 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pergamon

Na minha ida a Berlim, tirei um tempo para visitar o Pergamon Museum. É um dos museus mais impactantes que já visitei. Extraordinário. A coleção de arte da antiguidade clássica, em especial, os fantásticos Altar de Pérgamo e as portas do mercado de Mileto são imponentes, belos e transportam o visitante aos tempos da antigas civilizações. O Altar é uma estrutura dedicada a Zeus, originalmente construída no século II a.c. Escavaçoes feitas por arqueólogos alemães, no final do século XIX, o descobriram quase que integralmente. Impressionante também pensar em como os alemães conseguiram levar tudo aquilo para casa. Como os turcos deixaram? Veja uma foto abaixo que tirei da Wikipédia.


As peças de antiguidade do Oriente não são menos impressionantes, com especial destaque para a grandiosa Porta de Ishtar, uma representação maravilhosa da antiga Babilônia. É de tirar o fôlego.

Para completar, o museu estava apresentando a obra de Yadegar Asisi, uma pintura panoramica da antiga Atenas que é tão impressionante quanto as coleções do Museu. Achei no YouTube um video(veja também abaixo) que dá uma ideia do quão belo e inovador é o trabalho de Asisi. O artista brinca com a noção de perspectiva de uma forma que nos ludibria a todo momento.

Recomendo fortemente a quem for a Berlim. Imperdível. 



quinta-feira, 28 de junho de 2012

Francês Nóis Sabe


Cansei de ir aos restaurantes requintados de Fortaleza e ver erros grosseiros nos cardápios. Não entendo como TODOS, digo sem medo de errar, todos os restaurantes finos de Fortaleza não se preocupam com o que está escrito em seus cardápios. 

Em alguns deles, onde já tenho certa intimidade com maitres, sugeri correções. Em particular, os restaurantes com inspiração na gastronomia francesa apresentam barbaridades como as que mostro abaixo. Não vou dizer o nome do restaurante porque, como disse previamente, não creio ser um problema de um único local. Mas vejam que até filé mignon está escrito errado. 

Interessante é que esse critério é claramente desprezado. Os restaurantes tem ótimo aspecto, boa comida e preços altíssimos. Não sabem o quanto isso pega mal. 



terça-feira, 17 de abril de 2012

Estamos de Parabéns?

Senti-me impelido a falar, nessa época de aniversário meu e de Fortaleza, da relação que tenho com a cidade e de um dos sentimentos que ela me desperta. Nasci aqui e embora tenha vivido cerca de 20% de minha vida fora, sempre estou de volta. Não consigo, no entanto, deixar de compara-la com os locais onde passo. O que temos de atrativo?

Cresci numa Fortaleza, não tão pacata quanto a de meus pais. Passei a explorá-la e conhecê-la por conta própria na década de 70. À época, Fortaleza estava em crescimento como eu. Parece-me que havia (e ainda há) no nosso imaginário de fortalezense, uma necessidade constante de torná-la uma grande metrópole. E assim aconteceu. Infelizmente esse crescimento se deu de forma totalmente dissociada de uma reflexão mais ampla sobre que tipo de crescimento deveríamos ter.

Uma das poucas coisas que, nos últimos quarenta anos, se aproxima de um planejamento a longo prazo para a cidade foi a unanimidade em torno de nossa vocação ao turismo. Uma ideia que independeu de partido político no poder, mas que aqui também parece se desenvolver de forma desfocada, sem a completa percepção do que realmente devemos fazer para sermos atrativos.

Não me parece que percebemos que o mundo hoje quer ardorosamente consumir cultura (em sentido amplo que o conceito representa). Esse é o objeto de desejo dos que viajam. Querem conhecer, dentre outras coisas, arte, sabores, costumes, produtos, vegetação, gente, enfim, um ecossistema cultural que quanto mais rico mais atrativo. As pessoas querem sentir uma cidade e alimentar seus sentidos. Infelizmente, ser atrativo aos turistas por este ponto de vista requer um dever de casa que não estamos fazendo a contento: investir muito em cultura.

O pior é que não percebemos que a forma de crescimento que adotamos consegue inclusive a ser depredadora do que possuímos. Destruímos cada vez mais nossos espaços típicos, como pequenas vilas residenciais, áreas verdes urbanas e ruas rústicas de paralelepípedo. Privilegiamos os grandes empreendimentos a nossos artistas, cozinheiros e empreendedores da cultura enfraquecendo a economia criativa local. Desvalorizamos nossa história que, embora jovem, é essencial para compreendermos o que somos e porque assim estamos.

Ainda estamos tão ávidos por consumir a cultura de “fora” que deixamos a preservação e fortalecimento da nossa em segundo plano. E assim vamos crescendo.

* artigo reproduzido hoje na coluna Opinião do Jornal O Povo

quarta-feira, 14 de março de 2012

Key West: Sunset Moderno

Na volta a Florida para o Complenet, pus-me na rota de Key West no fim de semana. A mais distante e mais a oeste das ilhas chamadas Keys da Florida. Não a conhecia e a curiosidade de descobrir o que atrai tanto os americanos me motivou. Lá vê-se de tudo. Há desde a típica Florida repleta de aposentados bem como de turistas das mais diversas idades que descem diariamente dos luxuosos navios de cruzeiro.

A cidade é “mignon” com arquitetura colonial (inglesa), cheia de restaurantes, museus e vida noturna. Poderia falar sobre várias dessas coisas, mas o que mais me impressionou foi a forma como os americanos estruturaram a cidade. A ergueram sem nenhum pudor ao meio ambiente. A beira-mar é ampla, arejada e, digamos, dentro do mar. Assim são os restaurantes e os hotéis. Estava hospedado em um hotel que, ao acordar na abertura da janela, vi um cruzeiro que parecia ter invadido o quarto. Chocante! Lembro do amigo Amaral que gosta de dizer que nos dias atuais o Cristo Redentor não teria nunca sido construído por causa da agressão ao meio-ambiente. Talvez Key West também não o fosse. Outros tempos.

Key West se orgulha de ter o por do sol (sunset) mais bonito dos EUA. Todos os dias os turistas se reúnem na beira-mar e depois de assistirem a espetáculos circenses na Malory Square assistem ao por do sol e o aplaudem. É bonito mesmo, talvez seja o mais bonito dos EUA, mas não pude deixar de lembrar-me de nossa Jericoacoara onde os aplausos ao por de sol também são calorosos.

Comparar os dois ambientes é injusto. São tão diferentes que não conseguiria estabelecer critérios mínimos, por mais que me esforçasse. Mas minha verve patriótica (nesse caso, mais cearense do que brasileira) vai me forçar a preferir nossos queridos verdes mares, pela simples razão de que são uma obra de arte original: a originalidade da natureza selvagem.

Pensei. Que enorme desafio temos pela frente. Criar uma infraestrutura que nos permita acesso fácil aos povos do mundo às nossas belezas e que as mesmas sejam geradoras de riqueza para a população (principalmente a nativa), mas preservando aquilo que é o valor mais absoluto: sua virgindade. Isso é possível?

As fotos abaixo de Malory Square com as pessoas se preparando para ver o por do sol e um sol poente em Key West foram extraídas de sunset celebration.



quarta-feira, 7 de julho de 2010

Turismo Internacional a Partir de Fortaleza: Longa Rota Ainda a Traçar

Triste saber que a Delta Airlines cancelou o vôo Fortaleza-Atlanta-Fortaleza. Considero triste mais por perceber nossa pobreza do que pela decisão em si. A única vez que tentei ir aos EUA partindo daqui pela Delta, tive uma tremenda duma chateação. O Vôo foi cancelado por “ motivos técnicos”. Tive que ir para São Paulo e acabei perdendo um dia de minha viagem. A Delta me reembolsou a diária do hotel que já tinha pago nos EUA, mas o incomodo e o dia perdido não têm preço. Se é para tratar o cliente assim, melhor não ter o vôo. Na época percebi que a rota não tinha muito futuro.

Acho que, além de campanhas internacionais de divulgação do Ceará,  como a  Secretaria de Turismo do Estado diz estar fazendo, ela deveria fazer uma campanha de divulgação nacional das possibilidades de vôo que partem de Fortaleza para o exterior. Fortaleza e seu aeroporto não podem sobreviver somente de passageiros cearenses. Não tempos um nível de renda que nos dê esse luxo. É preciso investir na possibilidade de ser um hub para conexões. Recentemente, quando estive na Finlândia, conversei com colegas pesquisadores do Amazonas e soube que nenhum deles fez o vôo para a Europa a partir de Fortaleza. Foram para São Paulo e de lá para Paris. Um trajeto muito mais longo do que se tivessem ido via Fortaleza. Eles argumentam que o pinga-pinga de Manaus até Fortaleza os desmotivou. 

O fato é que por mais que usemos o discurso de que o turismo é nossa principal vocação, os obstáculos que nos desafiam ainda são básicos.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Palkin: Uma Delícia Russa

Os que me conhecem sabem de minha paixão pela gastronomia em especial aquela trabalhada e requintada. Em minhas viagens, sempre procuro fazer uma ou mais visitas à restaurantes especiais.

O Palkin em São Petersburgo, na Rússia, que conheci em minha última viagem, é um dos que merece menção. Dificílimo encontrar um local tão marcante. Apresenta tudo que se espera de um grande restaurante. O ambiente é simplesmente extraordinário. Aberto em 1785 foi local de encontro de aristocratas, intelectuais e mesmo da realeza russa da época. Foi reaberto em 2002 deslocando um pouco um cinema que funcionou durante a época comunista. A suntuosidade do ambiente é típica dos grandes castelos russos da época da Czarina Catarina.

Mas não é somente o local que impressiona. O serviço é cinco estrelas. O atendimento é finíssimo. Todos os garçons falam inglês com perfeição. Compreendem perfeitamente o menu e sabem em detalhe cada nuance dos pratos servidos. Alia ainda ao requinte a qualidade da gastronomia. Desde a água mineral (pode-se escolher Perrier, San Pellegrino, Evian, etc.) passando pelo caviar  ao autentico filé Strogonoff a qualidade é sempre prioridade. Os pratos principais não podem ser degustados sem se provar as maravilhosas entradas como foie gras com aspargos verdes e a salada com queijo de cabra (minha predileta). Os melhores queijos franceses estão lá para começar o encerramento. Quanto às sobremesas? Bem, melhor olhar os dois vídeos abaixo. Uma trufa que se derrete com conhaque quente e frutas silvestres flambadas no Calvados merecem ser vistas dado o requinte do preparo. Recomendo fortemente. Está no nível dos grandes monumentos que permeiam São Petersburgo.  






terça-feira, 8 de junho de 2010

São Petersburgo

Minha expectativa ao visitar a Rússia pela primeira vez era alta. Muitos haviam dito que São Petersburgo era muito bonita. Aproveitei a vinda a Helsinki para dar um pulinho aqui.

É realmente extraordinária. Belíssima! Uma cidade enorme, espaçosa e cheia de história. As igrejas e monumentos são lindíssimos. Todos remontam à era pré-comunismo. Tal fato salta aos olhos e nos leva naturalmente à pergunta: o que foi que o comunismo deixou de herança? Ao se visitar São Petersburgo tem-se a impressão que os quase noventa anos de dominação bolchevique foram como uma parada no tempo. Pós-comunismo, a cidade voltou a viver. Só falta os Romanov assumirem de novo.

Escreverei sobre algumas curiosidades que encontrei por aqui, mas de tudo, o que mais me impressionou foi o  Museu Hermitage. Um dos maiores museus do mundo (o maior acervo de pinturas) é realmente impactante. O prédio é grandioso (veja a entrada principal na foto acima) e algumas de suas salas per si já são uma obra de arte. A galeria das obras de pintores do Século XVIII e XIX é demais. Vê-se Picasso, Derain, Gauguin, Van Gogh, Cézanne, Matisse, Delacroix, Renoir e outros vários,  sala após sala. Sem contar a existência de esculturas de Rodin entre elas para dar o acabamento. Obras de Leonardo da Vinci e Boticelli são o carro-chefe no andar de obras do Renascimento. Tem mais, muito mais. Gasta-se um dia fácil, fácil. Uma aula de história da arte (cansativo, é verdade!). Permite comparações que auxiliam na identificação de estilos, temas e épocas.  

Por fim, acho interessantíssimo como os museus nos dão também indicações de espólios pós-guerras. Os alemães se ressentem que algumas das obras de pintores impressionistas foram levadas pelo exército Russo e que hoje estão presentes no Hermitage. Para quem viu o museu de Berlim com toda a riqueza egípcia “importada”só pode pensar: “ladrão que rouba ladrão ...”

quarta-feira, 25 de março de 2009

Saga da Delta: No Pain no Gain?

A expressão inglesa do título (“sem dor, sem ganho”) é muito usada nos EUA para dizer que tem que ralar para conseguir as coisas. Em texto publicado ontem discorri sobre o péssimo atendimento que a Delta Airlines me deu em viagem para San Francisco. O que aconteceu com a locadora Dollar com quem tinha alugado o carro foi algo bem diferente. Quando cheguei com minha reserva no bureau da companhia no aeroporto(um dia depois da reserva), não tinha mais carro econômico. Aliás, não tinha mais carro nenhum. Acabei ganhando um upgrade para um conversível. A Empresa acreditou que o atraso não tinha sido minha culpa, compreendeu meu cansaço e tratou-me com dignidade. Veja foto abaixo. Será que o ganho foi por ter penado antes com a Delta? Não sei, mas posso afirmar que seria a única possibilidade de dirigir um conversível pelas maravilhosas highways americanas (e o clima ainda ajudou!).

terça-feira, 24 de março de 2009

A Saga da Delta

Já andei escrevendo sobre sagas que passei ao ser atendido por serviços de algumas de nossas grandes Empresas (a saga da Tim começa aqui e a da TAM aqui). Agora, saga de multinacional é a primeira que vivi. Minha ida para a Califórnia na última sexta-feira tinha tudo para ser uma das mais tranqüilas e rápidas. Afinal, o Governo do Estado, em especial a Secretaria de Turismo, tinha conseguido colocar Fortaleza na rota da Delta Airlines, uma das grandes companhias aéreas americanas. Que maravilha! O vôo Fortaleza-Atlanta era a aproximação entre os hemisférios que merecíamos. Algo do que se orgulhar. Isso se tudo não passasse de uma farsa sem tamanho. Os vôos são frequentemente cancelados por causa de "manutenções" nas aeronoves. A verdade, que mesmo os funcionários da Delta não conseguem esconder, é de a viabilidade econômica do vôo é dúvidosa. Quem sofre as consequencias é o cliente que é desrespeitado sem pena. Se não há quórum suficiente para tornar o vôo lucrativo, ele é cancelado e os passageiros são “jogados” de um lado para outro. Foi exatamente o que aconteceu comigo. Se tudo tivesse corrido bem, a previsão era de chegar em San francisco ainda na sexta-feira em cerca de treze horas de viagem. Um vôo diuturno com apenas uma conexão em Atlanta (provavelmente mais caro do que o que acabei pegando). Com o cancelamento, fui enviado ao Rio de Janeiro e só saí para Atlanta cerca das onze da noite. Quase na hora que deveria estar chegando ao destino. Nesse ínterim, o atendimento da Delta mostrou-se digno dos péssimos serviços por mim supra-mencionados. Perdi uma diária do hotel nos EUA que já estava paga. Ao perguntar quem ia me ressarcir, disseram-me “resolva no Rio de Janeiro”. No Rio de Janeiro, disseram-me “resolva no site”. Em Fortaleza, garantiram que teríamos um hotel no próprio aeroporto para nos abrigar até a saída do vôo(eu e os outros cerca de vinte passageiros na mesma situação). Ao chegar no Rio, nada de hotel. A notícia era de que não havia disponibilidade. Promessas de que poderia haver um upgrade para classe executiva também fizeram o mesmo trajeto: Fortaleza-Rio-Água. Consegui falar com o gerente da Delta no Rio. Disse-lhe que o mínimo que a companhia deveria fazer era me fornecer um upgrade mesmo sem minha solicitação, pois naquela noite deveria estar dormindo em um hotel no destino e não dentro de um avião como fui obrigado a fazer. Fui pouco convincente. Sabe o que ele me ofereceu: a sala VIP. Só que só poderia acessá-la quando o check-in fosse feito. Como o check-in não podia ser feito, não podíamos acessar a sala VIP. Cheguei em San Francisco em uma pequena viagem de cerca de 36 horas. Dei queixa na ANAC. Fui gentilmente atendido, mas percebi o quão frágil é sua estrutura. Sei que se recorrer a justiça terei como receber meus direitos, mas mesmo para um blogueiro ter essas estórias para contar cansa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Cearês , Cultura e Turismo

Bem divertido o dicionário de Cearês(acesse-o aqui). Ele elenca uma centena de palavras que fazem parte do vocabulário do povo cearense e que são um deleite de se serem exploradas. Encontrar expressões como “rebolar no mato” (jogar fora) fazem rir, mas servem, por exemplo, a nos mostrar a pouquíssima preocupação ecológica que certamente não fez parte de nossas últimas gerações (e que ainda não faz!). O mato era o lixo! Só senti falta de um estudo mais elaborado que buscasse as raízes de cada palavra. Termos como baitola e espiricute são derivações do inglês, por exemplo, têm explicações. Baitola surgiu na época da segunda grande guerra quando americanos coordenavam a construção de estradas de ferro que deviam ser construídas com especial cuidado quanto à “bitola” das mesmas. Pelo sentido que a palavra tomou por aqui, dá para perceber que os cearenses não gostavam muito do jeito desses coordenadores, né? Espiricute é outra variação que refere-se ainda hoje a garotas ou garotos danados, mas não no sentido pejorativos. Vem de ”she is pretty cult” (algo como, ela é muito bonitinha!). Mesmo sem possuir esse estudo etimológico, a iniciativa é genial. Felizmente, percebo que gradativamente vamos, nós brasileiros e, cearenses em particular, perdendo o complexo de inferioridade que nos acompanhou muito por muito tempo e que nos fez ter vergonha de nossa cultura. Está cada vez mais claro que temos uma cultura própria, rica e que merece ser divulgada. Não há que comparar ou avaliar se é boa ou ruim. Ela é fruto de nossa história, reflete nossas raízes e auxilia a compreender nossos hábitos e comportamento. As diferenças culturais são a grande riqueza que vem sendo explorada por diversos povos, principalmente em benefício do turismo. Quem viaja, principalmente quando se fala de turismo internacional, está disposto, digo mais, está ávido para conhecer culturas diferentes das suas. É isso que os entusiasma. É claro que nossas belezas naturais e nosso clima ameno são fatores essenciais para atrair turistas. Mas isso só não basta. Há muita beleza natural em várias partes do mundo. O diferencial nessa competição de atratividade é a cultura. Vejam que minha definição de cultura é ampla. Não se resume a museus ou visitas a pontos históricos. Envolve as relações pessoais, a linguagem, a forma de se comunicar de expor os sentimentos, de sorrir, enfim de se dar. E nesse ponto, desculpem os compatriotas, o Ceará é imbatível. Nossa cultura acomoda naturalmente um sentimento de serventia, o prazer de receber e de fazer rir. Não é a toa que há uma proliferação de humoristas e shows de humor na cidade. Um povo que brinca com a própria dificuldade. Chega de leriado, arre égua, feliz festas!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Berlim é Um Canteiro de Obras

Há quinze anos atrás, quando morava na França, já escutava essa frase do título: “Berlim é um canteiro de obras”. Nunca tinha tido oportunidade de visitar a cidade, e agora, ao fazê-lo percebo que a frase continua válida. Depois da queda do muro, a parte oriental da cidade precisou ser quase que totalmente reformada, eu diria mesmo que reconstruída. Tudo era muito precário e principalmente feio. As obras, que em todos os lugares podem ser vistas em Berlim, são gigantescas. Algumas são restaurações de prédios históricos, mas a maioria refere-se à construção de prédios modernos. As ruas e avenidas são largas e monumentos gigantescos aparecem a todo o momento na mais simples caminhada. Entretanto, não posso dizer que senti aconchego lá. Os monumentos históricos reformados, os prédios modernos e mesmo futuristas e os condomínios padronizados da época comunista compõem um conjunto bizarro. Tenho a sensação de que é uma cidade que ainda busca sua identidade. Como ela é um canteiro de obras a única certeza que tenho é de que será bem diferente daqui a alguns anos. A questão principal é, no entanto, conseguirá Berlim ser bonita?

domingo, 12 de outubro de 2008

Lisboa

Lisboa lembra-me fortemente Marseille na França onde morei por quase quatro anos. Talvez por isso mesmo seja uma cidade que me agrade tanto. As colinas e vales e a estrutura de suas avenidas que descem diretamente ao mar são de uma similaridade incrível. Marseille tem sua Canabière que leva-nos ao Vieux Port à beira do Mediterrâneo. Lisboa com suas Avenida da Liberdade e Rua do Ouro que nos levam a Praça do Comércio e ao desembocadouro do Tejo. No entanto, não é só isso. As duas cidades são velhas, mas de espírito jovem. Não que as compare por causa de suas faixas etárias, pois nesse quesito Marseille é mais de 1000 anos mais idosa (oficialmente, mas as duas cidades parecem ter aparecido há mais de cinco séculos antes de Cristo), mas sobretudo em sua arquitetura. São semelhantes em suas ruelas escuras, enigmáticas, cheias de monumentos que comportam muita história e sempre cheias de alegria, sobretudo à noite, algo bem típico de cidades marítimas e de jovens. Abaixo algumas cenas retratadas e que me dizem um pouco de Lisboa.

Aos Gourmands. Pastelarias com Pastéis de Nata


Ruelas e mais ruelas.


As calçadas não são dos peões (ou melhor, pedestres).

Museu Calouste Gulbenkian. Tanto arte antiga(minha preferência) quanto moderna

Mercado de antiguidades e de peças para colecionadores. Selos, livros e discos de vinil abundam em face da Praça do Comércio e abaixo de um arco do triunfo dedicado a Vasco da Gama

Por falar em Vasco da Gama, esses belíssimos azulejos descrevem seu diálogo com o Rei antes de partir para conquistas em sua nau também retratada. Bem que meu Vasco poderia se inspirar um pouco em tanta glória.

Casa do Alentejo. Ainda hoje é destinada a reunir os alentejanos para uma conversa, um café e troca de homenagens. Seu prédio estilo mouro com azulejos e madeiras rebuscadas é imperdível.


terça-feira, 10 de junho de 2008

Naufrágio no Presídio


O GoogleMaps agora tem uma opção de visualização de fotos postadas pelos usuários. Ao explorá-lo, achei essa foto que considerei genial em algum lugar entre a praia do Presídio e a praia do Iguape. Lembrou-me minhas aventuras (raras) off road e do quão perigosas elas podem ser. A bela paisagem pode ser explorada no Maps com a opção satélite e indica o que pode motivar alguém a enfrentar os riscos. A foto abaixo é a ampliação da que está no Maps acima. Ela foi retirada do Panoramio (http://www.panoramio.com/photo/1724437) e postada lá por TomLins.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Cooper Atrapalha o Trânsito: Continuamos Estragando Boas Idéias

Uma matéria do Diário do Nordeste de 28 de janeiro com o mesmo título da primeira parte do título deste texto chamou-me atenção (clique aqui para ver a matéria ). De início, o próprio título da matéria me causou espanto. Numa cidade onde os pedestres nunca têm a prioridade, o título em questão é no mínimo inusitado. Podem os coopistas ser os causadores de tamanha façanha? O inverso me soaria mais natural. É o trânsito desregulado da cidade que não permite a prática de ciclismo, nem de corridas sem que o praticante arrisque sua vida. O corpo da matéria descrevia que alguns motoristas se queixavam pelo fato da prefeitura destinar um espaço na Avenida Beira-mar das 5 as 8 da manhã para os coopistas. Ao fazer isso, o espaço para os veículos foi reduzido e engarrafamentos passaram a ocorrer frequentemente. Como sou freqüentador casual desse espaço pelas manhãs, pude testemunhar os problemas. Como muitas das coisas no nosso País, trata-se de mais um exemplo de boa idéia e péssima implementação. É claro que destinar um espaço público ao cidadão para prática do esporte é uma boa idéia e trata-se de iniciativa louvável (vejam o exemplo de Paris que mencionei aqui). Mas ao fazer da forma atual, a Prefeitura arrisca estragar mais uma boa idéia (outros dois textos sobre estrago de idéias está aqui e aqui). A iniciativa requer um pouquinho de planejamento e ação interdisciplinar (não muito!). Há dois problemas cruciais no trânsito da Beira-mar: o estacionamento de carros da Avenida e a parada de ônibus de turismo. Os dois problemas podem ser resolvidos com um pouco de engenharia de trânsito e capacidade de articulação com o setor de turismo. Não se admite que cada ônibus de turismo tenha que obrigatoriamente parar na porta de cada hotel da orla. Porque não criar espaços próprios para paradas dos ônibus na própria avenida (ao se restringir o estacionamento de veículos de passeio nessas áreas se ganharia espaço para tal). Porque não destinar outros espaços para os ônibus nas vias de acesso a Beira-Mar? Porque não negociar como setor hoteleiro e com as agências de viagem um pequeno escalonamento de horário para o embarque e desembarque de passageiros visto que o fluxo é muito concentrado em alguns horários durante o dia? E principalmente,porque não colocar agentes de trânsito para coordenar o trânsito e educar os transeuntes e motoristas nos horários de engarrafamento: Normalmente isso só é necessário em períodos curtíssimos (no caso da manhã, o problema se concentra entre 7 e 8 da manhã). Não quero ser exaustivo nas soluções até porque não sou especialista em engenharia de trânsito, mas me parece claro que há alternativas, não muito complicadas, para que todos se sintam atendidos e respeitados. Agora, sem uma ação integrada e planejada, decididamente, não dá. Vejam o que disse o secretário de esportes sobre o assunto. “O que aconteceu é que muitos guias de turismo e pessoas ligadas à hotelaria se sentiram incomodados porque os ônibus não podem mais estacionar no meio da via. Até porque isso é proibido pela Código Nacional de Trânsito”. Não podem, mas o fazem, secretário, o fazem diariamente e é por isso que o problema ocorre. Criar o hábito de parar no meio da rua para recuperar os hóspedes é um desrespeito às leis, sim, mas infelizmente os órgãos responsáveis não estão presentes para repreender os abusos. É preciso entender que uma cidade bela e turística significa uma cidade onde as regras são seguidas e as instituições são respeitadas por buscarem resguardar o interesse da coletividade. Isso não estamos vendo na Beira-mar. Aliás os problemas mencionados ocorrem à noite também mesmo sem haver espaço reservado para os coopistas.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

As Árvores com Redes de Dormir: Uma Feliz Representação da Cultura Cearense


Não posso me furtar a comentar o quanto achei belas e inspiradas as árvores de Natal construídas com redes de lycra e que estão na Praça Portugal e na Praça do Ferreira. Os Fortalezenses certamente já as viram e se entusiasmaram com essa representação bem própria da cultura cearense para um símbolo natalino tão importante. Os que não tiveram oportunidade de vir a Fortaleza, ou venham logo ou pelo menos, se deliciem com a foto postada acima que retirei da versão web do Jornal O Povo (por Alcides Freire). Nela pode-se ver uma foto desse pinheiro bem cearense. Clique aqui para acessar a matéria. Abaixo faço uma tradução deste post para deixá-lo acessível aos amigos franceses e americanos. Feliz Natal.

A happy Representation of the Ceará Culture

I feel obliged to mention how beautiful and inspired I considered the Christmas trees designed and built in two important spots in Fortaleza (Ferreira Plaza and Portugal Plaza). The Citizens of Fortaleza certainly already knew them and, I believe, they are proud of this very typical representation of our culture. The pines are made of hammocks of cotton and lycra. Hammocks are a typical handmade product in the state. Even though originally linked to the less wealthy, a hammock is nowadays a required item in each and every house in Ceará, mainly because it is adequate to the warm weather. Above, I posted a picture of the Ferreira´s plaza pine (by Alcides Freire) extracted from O Povo newspaper. Feliz Natal!

Une heureuse représentation de la culture du Ceará

Je ne pouvais pas laisser passer l´opportunité de mentionner les très belles créations que sont exposées aux place Portugal et Du Ferreira, ici à Fortaleza. Le citoyen de Fortaleza les a certainement déjá vu et je croire qu´il est fier de cette très typique representation de notre culture. Il s´agit des pins de Noel que ont été faits des hamacs de cotton et de lycra. Les hamac sont des objets artisanaux très typique de l´état du Ceará. Même si à l’origine ils étaitent plutôt associés aux moins favorisés, aujourd´hui ils sont obligatoires dans chaque résidence cearense, surtout parce que ils sont adéquats à la chaleur typique de la région. Au-dessus, j´ai publié un photo du pin de la Plaza du Ferreira (par Alcides Freire) extrait du cotidian O Povo. Feliz Natal !

domingo, 11 de novembro de 2007

Vamos Andar em Guaramiranga!

Na minha visita fim-de-semana passada à Guaramiranga além da possibilidade de conviver com o mundo das corridas de fundo (veja texto aqui), pude visitar novamente a cidade depois de quase dois anos. A última vez tinha sido antes de minha ida ao pós-doutorado na Califórnia. Nessas últimas duas vezes tivemos (Beth e eu) o prazer de ser ciceroneado por casais amigos e capazes de recepções bem calorosas (muito embora no frio). Silvia e Tonguinho, Ana e Cláudio, e Ruth e Alberto são responsáveis por nossa imagem agradável e sempre nostálgica de Guaramiranga. No entanto, não posso deixar de demonstrar minha indignação com um aspecto na cidade que me salta os olhos. Presenciei um exemplo marcante de como estamos indo na contramão do mundo no que se refere ao uso dos espaços das cidades pelas pessoas com automóvel. O centro charmoso de Guaramiranga possui uma praça cortada por uma rua principal e circundada por outra via. Nele estão restaurante, bares, teatros onde se concentram os principais eventos da cidade. A passagem de carros é permitida nas duas vias, embora durante alguns eventos, a rua principal seja fechada aos veículos. Na via secundária além do tráfego é permitido o estacionamento de carros que se amontoam nas calçadas e o tráfego é confuso e muitas vezes impossível. É um claro exemplo de falta de planejamento urbano. Um projeto de reordenação com a criação de estacionamentos públicos ao redor da praça e com a completa proibição de estacionamento na via secundária não é, de forma alguma, difícil de ser feita. A via principal deveria ser totalmente dedicada aos pedestres. As distâncias na cidade são muito curtas e os percursos entre os restaurantes, principalmente os do centro é curtíssimo. Vale lembrar ainda que os efeitos deletérios desse desordenamento não se resumem ao caos do trânsito, mas igualmente a poluição em todos os níveis, que, em se tratando de Guaramiranga, é devastador. Há que se induzir a descoberta da cidade a pé. Aliás, caminhar na cidade com seu clima ameno é um dos charmes que todo visitante deveria conhecer. Temos muito que aprender com os países europeus que são habituados a proteger seus pequenos vilarejos dos carros e da ocupação desordenada. Para exemplificar, lembrei-me de duas cidades francesas que seguem a mesma filosofia de controle do tráfego de veículos. Uma cidade que me foi lembrada por um amigo e que tive a oportunidade de visitar várias vezes na França foi Baux de Provence(veja o site oficial da cidade aqui). Uma cidadezinha charmosa construída em cima de uma grande rocha. Os visitantes quando chegam à cidade são levados a um estacionamento onde deixam o carro e podem conhecer a cidade a pé. Outra cidade, também na Provence (interior do sul da França) que segue a mesma idéia é a cidade histórica medieval Le Castellet (acesse o site do Castellet clicando aqui). Vejam que essas cidades já são estruturadas desta forma há mais de 10 anos. Teria inúmeros outros exemplos de projetos em que os cidadãos são privilegiados em detrimento aos carros. Nosso subdesenvolvimento nessa área é patente.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Carreiras e Corridas

Estive neste fim de semana em Guaramiranga participando de uma corrida de longa distância que me permitiu conhecer mais intimamente o ambiente que envolve essa prática que vem se propagando fortemente no Brasil, em especial, em Fortaleza. Experimentei o sentimento que move os entusiastas e pude refletir sobre alguns aspectos que me parecem interessantes deste contexto. Mesmo não sendo muito afeito a modismos, reconheço que neste caso, em particular, só identifiquei benefícios. Obviamente, o maior deles refere-se aos impactos positivos na saúde dos esportistas, conseqüência direta da prática de esporte. Impossível não sublinhar que os aspectos estéticos, por serem tão cultuados em nossa sociedade (veja texto sobre isso aqui), também se constituem resultado e motivação, principalmente nas mulheres que, aliás, comparecem em grande massa. Ao buscar aprofundar a busca de por que desta febre maratonista, identifica-se que as corridas de longa distância têm algumas características bem peculiares e que potencializam sua popularidade. Elas não requerem equipamento nem local especiais para sua prática. São ainda extremamente democráticas, pois todos podem praticá-las: congregam tanto homens como mulheres, profissionais e amadores, jovens e velhos, e de qualquer classe social. Não exigem dos eventos maiores preparações nem tratamentos diferenciados. Poucos esportes podem, por exemplo, realizar uma competição com todas as categorias juntas em um mesmo local e ao mesmo tempo. Vi muitas famílias correndo juntas, com pais e filhos e até avôs participando. Esta diversidade favorece sentimentos de companheirismo e fair-play emocionantes. Os corredores se ajudam e dão força uns aos outros. Nos treinamentos semanais os mais dedicados se juntam em grupos e formam equipes. Nutrem-se assim do componente social que originalmente não está presente na corrida que é eminentemente um esporte individual. A competição (estritamente falando) se restringe aos profissionais que disputam os primeiros lugares. A grande maioria dos corredores está buscando competir consigo mesma. Buscam quebrar seus próprios recordes e limites. O público que acena e aplaude em todo o trajeto dá ainda outro tempero especial ao evento. O segundo aspecto que me saltou os olhos foi de como esses eventos esportivos estão se tornando um negócio lucrativo. Não me refiro exclusivamente ao negócio para aqueles que promovem as corridas, mas principalmente às cidades onde elas se desenrolam: o negócio do turismo esportivo. Os esportistas se articulam para participar das corridas e para conhecer os sítios onde elas se desenvolvem. Essa prática já era habitual quando se falava das grandes e tradicionais corridas como as de New York e São Paulo (São Silvestre). Com a popularização das corridas e com o aumento do número de praticantes, há um nicho a ser explorado pelas cidades de outros portes. O evento deste fim de semana em Guaramiranga demonstrou isso muito claramente. Mais de quatrocentos corredores levaram, certamente, pelo menos o dobro de pessoas à cidade. Trata-se assim de uma ótima oportunidade para as cidades que querem expor suas potencialidades. O momento atual é de euforia dos praticantes e o número de adeptos cresce diariamente. Mesmo após um recrudescimento, que me parece normal que aconteça, com perdão do trocadilho: há carreira nas corridas!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Rio de Janeiro

Na semana passada estive no Rio de Janeiro. Foi a segunda vez que voltei àquela cidade depois de meu retorno da Califórnia. Quando vou ao Rio meus sentimentos são tão confusos que tenho uma enorme dificuldade de escrever algo sobre os mesmos. Acho que é um sentimento que deve ser muito comum nos visitantes da cidade. Vou arriscar declará-los do jeito que vier. Há uma mistura de incansável admiração pelas belezas naturais com um enorme espanto pela forma deletéria com que nos apropriamos dessa beleza. Falamos muito de degradação do meio ambiente ao nos referirmos às florestas, mares e áreas naturais vastas. Somos menos enfáticos quando essa degradação se dá dentro de cidades. Parece-me que há um certa condescendência com o fato de que não há mais como resolver os estragos feitos. O Rio, no entanto, me provoca. Não quero me referir à questão das favelas e outras áreas pobres que contrastam com suas belezas. Isso não é uma exclusividade carioca mesmo entendendo que a geografia da cidade e a forma como os morros foram ocupados dão um contorno especial a paisagem. O que me saltam os olhos são as agressões à cidade que foram sendo feitas gradativamente com o mau uso do dinheiro ou do espaço público. Em vários pontos da cidade se percebe obras agressivas (no sentido de que agridem a beleza da cidade), prédios grandes abandonados, poluição visual provocadas pelo poder público ou por sua omissão, ocupação desordenada dos espaços públicos e poluição de riachos, lagos e mar. Novamente, isso não é exclusivo do Rio, pois infelizmente é comum em nossas grandes metrópoles. Só acho que o efeito contraste (belo e feio) torna os problemas mais evidentes. O mais paradoxal é que não acho que esses problemas estejam ligados a falta de dinheiro. Muito pelo contrário. Vejo uma pujança econômica no Rio que vem de todas as direções. Há uma forte classe empresarial atuando no setor terciário, há a Petrobrás que tem um tremendo impacto na economia, há muita arrecadação de impostos que permite projetos públicos que quase sempre são de grande monta e sobretudo, a forte presença da academia representando o que há de melhor no Brasil em muitas áreas de estudo. Como conseguimos? Não há como não ter sentimentos antagônicos.