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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Capacidade de Indignação

A capacidade de se indignar e de se manter indignado é fundamental para uma mudança significativa de uma sociedade. Isso é muito, mas muito difícil. Faz parte da natureza humana, a racionalização, pois nos libera das tristezas causadas pelas “coisas que (pensamos) não podemos mudar” ou mesmo porque queremos esquecê-las. Creio que racionalização é especialmente importante para nós brasileiros que temos a felicidade como valor tão fundamental (veja um exemplo do que já escrevi sobre nossos valores aqui). O exemplo mais marcante de indignação tive quando tinha acabado de chegar de mais de um ano de vida nos EUA. Fomos, minhas filhas e eu, de carro a uma farmácia e ao sair de lá, formos abordados por uma jovem mulher que tinha uma criança chorando no colo. Ela me pedia dinheiro para comprar um remédio enquanto mostrava-me a filha doente e triste. Ao sair do local, percebi que minha filha (de 17 anos) chorava muito. Ao perguntar-lhe o que estava a ocorrer, só escutei como resposta “não é justo, não é justo”. Aquilo me chocou tanto que nem me lembro muito dos argumentos que encontrei para racionalizar tudo. Só me lembro que foi exatamente o que tentei fazer. Nunca me esquecerei de sua indignação sincera e pura. Isso ainda acontece hoje, dois anos depois? Aprendeu a racionalizar. Essa estória me veio à mente quando de minha visita ao monumento ao holocausto bem no coração de Berlim. São grande pedras como túmulos que são dispostas em uma enorme área. Ao todo, perfazem 90 mil metros quadrados com 2711 lápides de concreto cinza. Um projeto de 27 milhões de euros. É verdadeiramente chocante. Uma sociedade que reconhece que não pode racionalizar e nem esquecer. A foto abaixo é do monumento. Como as lápides são de tamnha diferente, cria-se essa impressão de que há uma onda acontecendo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Leis que pegam e Leis que não querem(?) que pegue

Já tinha falado do fenômeno brasileiro das leis que pegam e de outras que não e do quanto isso é perigoso para a nossa sociedade. No texto lei, moral e valores reforcei o fato de que se existem leis que não suportam valores da sociedade(clique aqui para ler esse texto), elas são fadadas ao insucesso. A situação do jogo do bicho é emblemática e me causa estarrecimento. São exemplos de coisas que ocorrem porque o poder público não cumpre sua parte com uma conivência da sociedade. Completa omissão de todos. Um jogo de faz de contas inacreditável. Chega a ser surrealista os funcionários do Paratodos pedindo em público para “trabalhar”. Veja esse depoimento que tirei do Diário do Nordeste : “Ganhamos por comissão e a maioria só vive disso”, afirmou uma funcionária, de 46 anos. “Eu irei aonde for para mudar isso. Estamos sem trabalhar”. Esses funcionários não se consideram fora-da-lei. Aliás, nem ele, nem ninguém. Ou seja, há a lei, mas não há o suporte moral para a sua imposição. Isso explica como que um negócio que envolve cerca de 15 mil pessoas só em Fortaleza e em Caucaia pode acontecer e sobreviver sob o olhar inerte de todos durante todos esses anos? Aliás, o jogo do bicho não é o único exemplo. Os transportes alternativos estão indo na mesma pegada. Quando alguém quiser colocar ordem, não vai conseguir.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uso de Preservativo e Valores Morais

Creio que a opinião pública brasileira, de uma forma geral, não tem dúvida de que os governos federal e estaduais têm obrigação de construir campanhas de esclarecimento à população quanto aos males que sexo sem proteção pode trazer, em particular com a transmissão do HIV. Em se tratando de um País laico, ou seja, onde não há intervenção da religião na estrutura legal e de poder político, não se pode esperar que o governo seja influenciado em sua política de saúde por questões religiosas. Mas será que essa questão é assim tão simples? Dado o calor do debate recorrente, pode-se perceber claramente que não. Embora algumas declarações intempestivas de uns e outros possam passar a impressão de que há radicalismos e intransigências (como declarações de religiosos pondo em dúvida a qualidade da camisinha como protetor), creio que o cerne da questão é que, neste debate está embutido um outro que versa sobre o quão um governo é responsável por disseminação de valores morais. O habitat tradicional de divulgação dos valores morais defendidos pelos religiosos é a igreja (ou templos), local onde os cultos ocorrem. Evidentemente que o trânsito da mensagem religiosa não se restringe a esses espaços. Os religiosos buscam a interação direta com a sociedade e há uma luta diária pela conquista do “fiel”. Nessa busca de disseminação dos valores morais que defende a igreja, os meios de comunicação de massa são um componente fundamental. Fica assim mais simples de entender o porquê das críticas veementes e recorrentes da igreja a forma como a mensagem governamental tem sido veiculada. As campanhas publicitárias dos governos ignoram totalmente o fato de que um comportamento sexual restrito a um parceiro ou mesmo a abstinência são igualmente formas de proteção contra transmissões de doenças. Tome, por exemplo, o slogan básico usado nas recentes campanhas: “Use camisinha!”. A igreja se queixa de que haveria aqui uma tendência a se desvincular toda e qualquer responsabilidade de se passar uma mensagem que comporte apoio a algum valor moral que possa ser considerado conservador. Afinal, o Estado tem ou não uma responsabilidade dessa natureza? Esse é o debate que me parece mais importante para o País e que temos obrigação a suscitá-lo. Os países ocidentais com sociedades mais amadurecidas encontraram seus caminhos. Em países laicos os valores morais são transmitidos nas escolas e se baseiam nos direitos fundamentais do ser humano. No entanto, quando se fala de um país que não consegue prover uma educação de qualidade para a maioria da polução, fica evidente de que existe um vácuo de educação moral e que contribui para incrementar as crises sociais que vivemos hoje. Precisamos encontrar o nosso caminho.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Moral, Cultura e Lei

Estava lendo um texto sobre a cultura cidadã no site do ex-prefeito de Bogotá por duas vezes Antanas Mockus (clique aqui para acessá-lo, em espanhol) e achei interessante revisitar alguns exemplos e conceitos. Antes, no entanto, lembro que já venho escrevendo sobre a cultura cidadã nesse blog (para saber mais, digite “cultura cidadã” no campo de pesquisa deste blog no canto superior esquerdo). Leis são normas criadas por uma sociedade com o objetivo de organizar a vida comunitária. Outros dois aspectos que andam pari passu com a lei são a moral e a cultura. Esses conceitos são bem conhecidos para quem estuda ética, mas no contexto da cultura cidadã de Mockus ganham um pragmatismo surpreendente. Vejam, por exemplo, quais foram as ações desenvolvidas no programa de educação no trânsito. Mímicos contratados para ensinar às pessoas a importância das faixas de pedestre explicavam teatralmente que o correto era atravessar na faixa e, aos motoristas, que aquele território pertencia aos pedestres. Com o passar do tempo, a própria população passava a repreender os transgressores com apitos e vaias. Se uma pessoa não era convencida a respeitar a faixa pelos mímicos, o povo nas calçadas a repreendia e, se ainda assim não funcionasse, vinha o guarda de trânsito para aplicar a multa. Essa seqüência representa os três mecanismos reguladores: a moral (representada pelos mímicos), a cultura (manifestada pela população vaiando) e a lei (personificada no guarda). Muito difícil conseguir emplacar leis e fazê-las obedecidas se não são suportadas pelos outros dois fatores. Em outro exemplo, o prefeito Peñalosa, que sucedeu Antanas Mockus e deu continuidade a política de seu predecessor, ao se referir sobre a recuperação de espaços públicos e suas formas urbanas, disse “em ambientes desordenados, as pessoas de boa índole (moral) se sentem minoria e não agem solidariamente. Por outro lado, um lugar bem-conservado dá a impressão de uma comunidade alerta(cultura), com cidadãos atuando em conjunto. Como a comunidade se conhece e interage nos parques, quadras esportivas e espaços públicos em geral, acaba ganhando uma cidade mais segura”. É claramente uma visão transversal e multi-disciplinar. Creio que não é preciso gastar muito argumento para convencer sobre o quanto essas idéias são interessantes. O grande desafio é ter capacidade de implantá-las.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Carreiras e Corridas

Estive neste fim de semana em Guaramiranga participando de uma corrida de longa distância que me permitiu conhecer mais intimamente o ambiente que envolve essa prática que vem se propagando fortemente no Brasil, em especial, em Fortaleza. Experimentei o sentimento que move os entusiastas e pude refletir sobre alguns aspectos que me parecem interessantes deste contexto. Mesmo não sendo muito afeito a modismos, reconheço que neste caso, em particular, só identifiquei benefícios. Obviamente, o maior deles refere-se aos impactos positivos na saúde dos esportistas, conseqüência direta da prática de esporte. Impossível não sublinhar que os aspectos estéticos, por serem tão cultuados em nossa sociedade (veja texto sobre isso aqui), também se constituem resultado e motivação, principalmente nas mulheres que, aliás, comparecem em grande massa. Ao buscar aprofundar a busca de por que desta febre maratonista, identifica-se que as corridas de longa distância têm algumas características bem peculiares e que potencializam sua popularidade. Elas não requerem equipamento nem local especiais para sua prática. São ainda extremamente democráticas, pois todos podem praticá-las: congregam tanto homens como mulheres, profissionais e amadores, jovens e velhos, e de qualquer classe social. Não exigem dos eventos maiores preparações nem tratamentos diferenciados. Poucos esportes podem, por exemplo, realizar uma competição com todas as categorias juntas em um mesmo local e ao mesmo tempo. Vi muitas famílias correndo juntas, com pais e filhos e até avôs participando. Esta diversidade favorece sentimentos de companheirismo e fair-play emocionantes. Os corredores se ajudam e dão força uns aos outros. Nos treinamentos semanais os mais dedicados se juntam em grupos e formam equipes. Nutrem-se assim do componente social que originalmente não está presente na corrida que é eminentemente um esporte individual. A competição (estritamente falando) se restringe aos profissionais que disputam os primeiros lugares. A grande maioria dos corredores está buscando competir consigo mesma. Buscam quebrar seus próprios recordes e limites. O público que acena e aplaude em todo o trajeto dá ainda outro tempero especial ao evento. O segundo aspecto que me saltou os olhos foi de como esses eventos esportivos estão se tornando um negócio lucrativo. Não me refiro exclusivamente ao negócio para aqueles que promovem as corridas, mas principalmente às cidades onde elas se desenrolam: o negócio do turismo esportivo. Os esportistas se articulam para participar das corridas e para conhecer os sítios onde elas se desenvolvem. Essa prática já era habitual quando se falava das grandes e tradicionais corridas como as de New York e São Paulo (São Silvestre). Com a popularização das corridas e com o aumento do número de praticantes, há um nicho a ser explorado pelas cidades de outros portes. O evento deste fim de semana em Guaramiranga demonstrou isso muito claramente. Mais de quatrocentos corredores levaram, certamente, pelo menos o dobro de pessoas à cidade. Trata-se assim de uma ótima oportunidade para as cidades que querem expor suas potencialidades. O momento atual é de euforia dos praticantes e o número de adeptos cresce diariamente. Mesmo após um recrudescimento, que me parece normal que aconteça, com perdão do trocadilho: há carreira nas corridas!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A Cabeça do Brasileiro

Já escrevi de meu entusiasmo ao ler o livro de Alberto Almeida “A Cabeça do Brasileiro” (clique aqui para ver meu texto anterior). Meu entusiasmo se deu principalmente pelo fato do livro trazer à tona um assunto que creio deve ser prioridade no Brasil: nossos valores. O livro busca compreender como eles estão internalizados através de uma pesquisa quantitativa. Agora, mesmo o mais entusiasmado dos leitores não pode deixar de concordar que o livro é extremamente polêmico por uma série de motivos. O mais importante deles, no meu ponto de vista, são as diversas conclusões tiradas pelo autor a título de interpretação dos dados coletados. Em grande parte dos assuntos os dados da pesquisa indicam resultados divergentes em função do nível de escolaridade dos entrevistados. Por exemplo, ao serem chamados a opinar sobre aspectos que medem o nível de patrimonialismo dos entrevistados como se concordam ou discordam com a seguinte afirmação “Já que o governo não cuida do público ninguém deve cuidar” chegou-se aos seguintes resultados. 50% dos analfabetos concordam com a afirmação, contra somente 2% dos que tem nível superior. Na grande maioria das questões um padrão mais progressista (chamado de moderno pelo autor) se apresenta nas respostas de pessoas de maior escolaridade em comparação com aqueles com menor escolaridade. Isso levou o autor à conclusão lógica de que os valores mais progressistas são em menor número no país, pois os menos escolarizados são em maior número. A conclusão é lógica, mas ela não permite uma inferência otimista em relação à classe de escolarizados. Ao analisar os dados mostrados no livro fiz algumas inferências que não vão na mesma direção das conclusões do autor. Primeiramente, devo dizer que senti falta de uma preocupação maior do autor quanto à fidedignidade das respostas dadas pelas pessoas de maior escolaridade. Em uma pesquisa onde se busca medir a cabeça do brasileiro, há que se considerar a hipocrisia que reina na sociedade (aliás a pesquisa que visava medir o “jeitinho” dão indicações disso). Esquivar-se da armadilha das respostas politicamente corretas às questões era uma obrigação. Essa preocupação existiu em algumas situações como quando o assunto pesquisado foi o racismo, mas não pude perceber o mesmo rigor em todos os temas. Independentemente dessa questão, podemos fazer leituras diferentes de outras conclusões. Na própria questão do patrimonialismo, ao serem questionados se “Cada um deve cuidar do seu e o governo cuida do que é público”, 53% dos que tem nível de escolaridade alta concordam contra 80% dos analfabetos. Como é possível ter uma visão otimista dos escolarizados diante desses números? Por viverem em um contexto em que as carências da sociedade são tão grandes, tinham obrigação de ter uma visão mais moderna. As respostas dos que tem escolaridade alta em relação ao “jeitinho” também merecem uma avaliação mais cuidadosa. É bem verdade que se encontra um correlação forte entre o nível de escolaridade e uma consciência maior de que o “jeitinho” é errado, mas os valores absolutos para os que são mais escolarizados estão longe de serem animadores. 48% dos que tem nível médio e 33% dos que tem nível superior acham o “jeitinho” certo. Creio que o debate sobre a questão só está começando. Acho fundamental que se compreenda mais o que essas respostas dos escolarizados querem dizer. Mas a princípio, elas me levam a uma avaliação bem mais cética do que a que foi apresentada no livro. Em alguns momentos os resultados evidenciam uma insensibilidade às demandas que a sociedade brasileira exige e aos problemas que a vida na mesma apresenta. É esta classe de escolarizados que tem a capacidade e a obrigação de realizar as transformações de comportamento de uma sociedade tão desigual. Não dá para dizer que a questão da transformação de nossos valores só se resume ao aumento do nível de escolaridade da população. Aliás, esse próprio objetivo e tanto outros de melhoria da sociedade ficam comprometidos sem uma transformação dos valores dos mais escolarizados.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

(Des)Controle Social e a Resistência de Renan Calheiros no Senado

Ao convivermos em um ambiente limpo com pessoas que zelam pela limpeza relutamos em jogar lixo no chão. Trata-sede um exemplo simples de controle social. As pessoas ficam inibidas a realizar ações que serão reprovadas pelos outros. Somos naturalmente controlados por uma necessidade de sermos reconhecidos e aceitos dentro de uma sociedade ou mesmo por termos medo da reprovação dos outros. Esse fenômeno social regula o comportamento das pessoas em grupos, sejam pequenas comunidades como um clube social, sejam em cidades ou mesmo um País. Esses grupos criam regras implícitas de comportamento que servem de balizadores a seus integrantes. Tenho já escrito sobre o quanto a nossa lógica de controle social está deturpada por uma corrosão de nossos valores morais e sociais. As pessoas não têm vergonha de dizer que se beneficiam de situações ilegais. É normal admitir que se sonega, que se corrompe(e que corrompe), que os fins justificam os meios, etc. Demonstra esperteza. Otário é quem não faz. O “reconhecimento” dos outros (ou pelo menos a não reprovação) permite a realização de ações que normalmente deveriam ser reprovadas, mas, que por serem feitas por todos, acabam não sendo. Ou seja, reina o descontrole social. Nossos políticos são um exemplo clássico disso. Tomemos o caso Renan Calheiros. Porque é tão difícil repreende-lo? Porque os políticos não se sentem pressionados pelo controle social do congresso (que deveria existir) e principalmente da sociedade em geral? Simples. Calheiros fez e faz algo que grande parte dos membros do congresso faz e que não se sente confortável em repreender. Seria aceitar que, ao repreendê-lo, se estaria repreendendo a si mesmo. Por outro lado, eles sabem que a sociedade, mesmo indignada não consegue articular-se consistentemente com ações punitivas e de controle social. Na verdade, há mesmo uma cultura passiva de aceitar que todos os políticos roubam (o livro a cabeça do brasileiro jogou uma luz sobre essa questão). Por isso, queria repetir o que já tenho dito. Mudar essa realidade consiste em mudar toda uma cultura nefasta de “jeitinho” e de passividade que se alojou em nossa sociedade. O poder público tem um papel fundamental na instituição de um processo educativo que permeie o cotidiano dos cidadãos. Não se trata somente de educação escolar, mas a educação dentro de uma cultura de respeito, compreensão do comunitário, de respeito aos direitos e deveres, etc. Isto tem que estar como prioridade em qualquer plano de governo. Deve ser transversal ao programa de governo. A implantação de uma política desta natureza potencializaria todas as outras medidas que se quisesse implantar.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Uma Luz no Fim do Túnel

O sentimento de que o Brasil não tem jeito é algo compartilhado por muitos brasileiros. Não é difícil nos percebermos por circunstâncias diversas, que a realidade nos impõe diariamente, em um pessimismo desanimador. Recentemente, comecei a perceber uma brisa (embora leve!) em uma direção que me causa alento. Sem muita pretensão científica, tenho eventualmente refletido nesse blog sobre a questão de nossos valores como povo (clique aqui e aqui para acessar textos sobre a questão). Acredito haver uma crise de identidade do brasileiro. Ele quer ser do primeiro mundo, mas não consegue perceber que os valores que internaliza não o permitem ser. Nossa mentalidade pouco comunitária, de querer levar vantagem em tudo e do jeitinho brasileiro nos levou a criar a sociedade desigual que conhecemos hoje. Esse assunto não é novo e no meio científico há muito tem sido discutido e estudado. O antropólogo Roberto da Matta, por exemplo, tem se dedicado há algum tempo a estudar o “jeitinho brasileiro” e o quão danoso ele é para o País. O problema é que nem esse nem outros temas correlatos conseguiram se tornar um tema popular. De vez em quando temos indicação de que a onda pró-ética vai tomar dimensão ela é logo abortadas, normalmente, por força da realidade cruel do quotidiano que tem a capacidade de enlamear tudo e todos que se arvoram a suscitar o tema. A mais recente oportunidade perdida veio com a chegada do PT ao governo e com a eleição do presidente Lula. Ela vinha precedida de muita esperança que a questão ética pudesse ser colocada na linha de frente dos problemas nacionais. Mensalões, Calheiros e outras questões sufocaram totalmente o tema. Mais recentemente, no entanto, tenho observado através de observações, interações e discussões (muitas delas na blogosfera) que essa questão tem se tornado de mais em mais popular. Um evento que certamente trará mais luz sobre a questão será a discussão que se inicia a partir dos resultados obtidos pela pesquisa realizada pelo cientista social Alberto Almeida no seu livro “A Cabeça do Brasileiro” (veja ao lado o link para o livro e como adquiri-lo). Considero leitura imperdível para todos. É um livro super interessante e será certamente muito útil para trazer à tona a discussão sobre nossas mazelas. Muito polêmico em uma série de conclusões, ele nos permite, de qualquer forma, quantificar a existência de valores arcaicos que relutamos a aceitar que temos enquanto povo. Por exemplo, a pesquisa mostra que a maioria de nossa população é favorável a censura, é leniente com políticos que roubam mais fazem, aceita a violência contra criminosos e outras coisas mais. Todas essas conclusões são delineadas dentro de um quadro em que o fator determinante, na opinião do autor, é o nível de escolaridade. Ou seja, quem tem escolaridade tem internalizado os valores ditos modernos e quem tem pouca escolaridade tem internalizado os valores arcaicos. Como País tem em sua maioria um nível de escolaridade baixo, somos mais arcaicos do que modernos. É claro que um assunto desse tipo está longe de ser esgotado e as conclusões do autor estão longe de ser unanimidade. Mas convenhamos, alguns dados mostrados, explicam fortemente boa parte do comportamento dos brasileiros em muitas de nossos problemas. Vou voltar a discutir sobre o livro em outros textos. Por enquanto queria somente sugerir a leitura e enfatizar que trazer à tona a percepção de que necessitamos agir na direção de mudar nossos valores é alentador.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Telenovelas: Realidade ou Ficção?

Telenovelas têm uma enorme penetração nos lares brasileiros e o debate se elas acabam por induzir comportamento ou se são somente reflexo dessa sociedade será sempre vivo. Sou extremamente crítico quanto ao papel das telenovelas na nossa sociedade e tenho uma enorme dificuldade em não atribuí-las parcela relevante de nossa pobreza cultural e de valores. Em particular, o fato de produzir comportamento padronizado com ênfase em liberdade sexual, desvalorização da família e foco em valores ligados ao ter são só alguns exemplos. Em função do alto grau de penetração da televisão, as telenovelas conseguem atingir um público muito variado e a forma como as pessoas internalizam as mensagens que elas veiculam está longe de ser compreendida no País. Alguns otimistas acreditam que a população tem a capacidade de discernir a realidade da ficção e, por conseguinte essa influencia comportamental teria pouco reflexo no cotidiano das pessoas. Vamos supor que isso seja verdade (o que particularmente, não acredito). Tenho percebido que de uns tempos para cá os autores de telenovelas estão optando por inserir nas estórias campanhas educativas e outras atividades reais com o objetivo claro de inserir realidade na ficção. Para compreender a que nível chegamos, li em um jornal de grande circulação que Marcílio Moraes, autor de "Vidas Opostas", maior audiência da Record, convidou o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), e o prefeito César Maia (DEM) para participarem de um debate sobre a descriminalização das drogas na novela. Estes fatos me parecem caracterizar um aspecto extremamente pernicioso que já vinha se materializando há algum tempo nas telenovelas. Eles dificultam a percepção do que é real e do que é ficção. Atribuir uma função educativa (que normalmente vem de uma forma muito superficial e carregada de clichês) às telenovelas me parece colocar munição real onde deveria haver festim. Como o inconsciente popular reage a essas mensagens? Elas não estariam adquirindo cada vez mais credibilidade na mensagem que se veicula na tela? Não estaria se aumentando o grau de manipulação das pessoas? Não quero ser acusado de estar vendo teoria da conspiração e assim dizer que há um movimento voluntário para se fortalecer a televisão como instrumento de manipulação de massas. No entanto, é exatamente a isso que estamos sujeitando nossa sociedade. Precisamos acordar.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Cultura Cidadã: Um Exemplo de Que É Possível Adquiri-la

O ex-prefeito de Bogotá por duas vezes, Antanas Mockus é professor, filósofo e matemático. A ele é creditada a implantação de uma série de medidas de sucesso que levaram a diminuição do número de homicídios dentre outros índices de violência. Eu já tinha assistido a apresentação do Gen. Alberto chefe da polícia nacional colombiana (clique aqui para ver o texto em que comento sua apresentação) em Belo Horizonte durante o Fórum Brasileiro de Segurança. Escutar o prefeito Mockus foi ainda mais interessante, pois me permitiu conhecer os dois lados dos envolvidos na questão. Devo dizer que até hoje não tinha assistido uma apresentação que fosse tão interessante em termos de segurança publica. A razão pelo qual me entusiasmei tanto não é difícil de identificar: comungamos de muitas idéias como comprova muito do que tenho escrito neste blog. O problema da segurança passa acima de tudo por uma mudança de comportamento da sociedade. Não é a toa que seu plano se chamou cultura cidadã. Fiquei extremamente motivado e mesmo emocionado no decorrer de sua apresentação. As medidas que ele tomou são exemplos de que é possível sim provocar a mudança de comportamento social. Sempre que tento convencer alguém que é possível mudar nossa sociedade e que essa mudança depende de nós, sou visto com desconfiança, como sendo um sonhador e para muitos até alienado. Outros acham que a questão da mudança cultural só pode ser feita com investimento em educação tradicional e assim com resultados visiveis só a longo prazo. A política do Prefeito Mockus me servirá sempre de exemplo de que isso não é necessariamente verdade. Na sua apresentação, Mockus explica de forma simples que a forma como vivemos em sociedade implica em cumprir regras informais além da lei formal. Se conseguirmos a convergência dessas duas, estaremos com muito maior possibilidade de termos uma sociedade mais pacífica. As regras informais envolvem o reconhecimento e respeito social. E é ai exatamente o ponto estratégico que se baseia toda sua política. Ele disse claramente que não há polícia no mundo que consiga resolver o problema de uma sociedade que não se respeita. Onde as regras básicas de convivência pacífica e ordeira não são seguidas. Onde as pessoas não se envergonham de agir erradamente, pois o errado é o comum. Vivemos isto no Brasil. Não tem polícia que baste! A partir desse diagnóstico ele decidiu orientar sua gestão para o lado educativo das políticas públicas tendo sempre em mente de que era preciso incentivar a noção de cidadania e criar efeitos multiplicadores que fizessem as pessoas mudar de comportamento. A criatividade deu o tom de sua gestão. Um dos projetos que mais gostei foi o do cartão cidadão que foi distribuído aos habitantes da cidade. Era um cartão que tinha um lado com polegar levantado (sinal de positivo) e outro lado era vermelho com o polegar para baixo (sinal negativo). A idéia foi fazer a população opinar quando uma atitude de alguém era boa ou não. Por exemplo, se alguém dava preferência aos pedestres em uma faixa de segurança, esse alguém recebia cartão verde com polegar para cima. Se alguém jogava lixo do carro na rua, ele recebia cartão vermelho. Criou-se então a co-responsabilidade com educação e vigilância social. No lugar da guarda de trânsito (que ele disse que era reconhecidamente corrupta), Mockus decidiu colocar mímicos que faziam artes indicando posturas erradas da população e tinham também uma missão educativa. Ele disse que quanto mais inusitada era a medida que tomava, mais a mídia dava atenção e mais a população ficava sabendo da iniciativa. Estava assim incrementado o efeito multiplicador que ele desejava. Os policiais receberam treinamento para aprender a formar cidadãos. Os pontos focais eram sempre melhorar a cidadania, consciência coletiva e auto-regulação social. Várias outras medidas foram tomadas e as comentarei em outros textos. Estou coletando alguns artigos que detalham as medidas e os resultados alcançados e em breve voltarei sobre o tema.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Sinceridade Papal

Ainda sobre a visita do Papa ao Brasil, devo dizer que fiquei surpreso positivamente com a postura afirmativa e segura do Papa sobre os problemas brasileiros. O fato de ser autoridade espiritual para a maioria dos cidadãos brasileiros o permite ser sincero e não tergiversar sobre os problemas que nos afligem (enfocando o ponto de vista da igreja, é claro). E foi exatamente isso que ele fez. Contrariando alguns que esperavam somente uma visita de cortesia com elogios e troca de tapinhas nas costas (o que não deixaria de ser muita hipocrisia), ele foi muito incisivo em seus comentários mostrando um completo domínio da realidade brasileira. Desde a classe política até a mídia televisiva, sobrou para todo mundo. Por exemplo, ele pediu que os pastores buscassem formar “ nas classes políticas e empresariais um autentico espírito de veracidade e honestidade”. Sobre a mídia ele disse que "É preciso dizer não àqueles meios de comunicação social que ridicularizam a santidade do matrimônio”. Foi um recado direto a televisão e em particular as telenevolas dito pelo especialista do Vaticano (Jornal OPovo dia 13 de Maio). Ele acrescentou que “ as ficções veiculadas pelas telenovelas não mostram uma família normal. Existem infidelidades, traições, há filhos nascidos fora do casamento, pessoas que passam de uma cama a outra e há o sexo livre. Tudo isso contraria o que é a doutrina moral da Igreja sobre o matrimônio". Ele acha que o que a Igreja constrói educando os jovens nas paróquias e nos oratórios é destruído pela televisão, porque ela é mais forte, mais incisiva do que a pregação de um padre ou de um bispo. Esses comentários me fazem enfatizar a opinião veiculada em um texto anterior de quanto o perfil dos padres é importante para que essa missão seja realizada.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Em Busca de Nossos Valores II

Estive conversando com uma antropóloga alemã que mora aqui na Califórnia e que já fez alguns estudos sobre a sociedade brasileira. Ela me disse que ficou surpresa ao perceber que o valor que ela mais percebeu caro aos brasileiros era a beleza física. Ela acredita que os jovens, em particular, são excessivamente vaidosos. As jovens, por exemplo, dão mais importância ao corpo, a forma de se vestir e de se maquiar do que jovens européias e americanas. Despertam mais cedo para o sexo, o que o alto índice de jovens mães solteiras revela-se como conseqüência. Outro valor que ela percebeu particular à nossa sociedade, foi o fato de que os relacionamentos de amizade (não precisa ser algo muito profundo, mas pelo menos de conhecimento) são usados para facilitar a resolução de problemas profissionais ou de acesso aos serviços públicos de uma forma muito mais determinante do que em outros países. Aliás, ela possui uma residência na Costa Rica e disse que pôde perceber este mesmo comportamento lá. Achei interessante esta visão por ser isenta. Um verdadeiro olhar de fora. Ela vai ao encontro de uma avaliação que fiz em textos anteriores que os laços de amizade são a forma que encontramos para escapar da má qualidade dos serviços públicos. Uma análise sob outro prisma deste fator foi feita pelo Prof. Walfredo Cirne da UFCG em conversa informal que tivemos. Ele acredita que damos muita importância ao fator “conhecido” pelo fato de que ainda reconhecemos muito pouco o mérito das pessoas. Tem sentido o que ele diz, pois vemos nossa sociedade cheia de exemplos em que os melhores não são reconhecidos em detrimento dos “conhecidos” ou mesmo familiares (o que pode ser exemplificado com os casos de nepotismo que ainda estamos verificando diariamente). Mas será que estes valores nos trazem somente conseqüências negativas? Creio que não. O culto à beleza física nos jovens pode nos trazer uma geração mais saudável (o abandono do cigarro me parece uma conseqüência disso). O que é muito bom em todos os aspectos: social, econômico e de qualidade de vida. Sobre o fator laços de amizade, podemos dizer que o mesmo está intimamente ligado a um aspecto que o mundo todo, principalmente o turista, admira no Brasileiro: a forma hospitaleira de ser e a facilidade com que ofertamos nossa amizade. Características essas, provavelmente, facilitadas por estarmos sempre buscando criar novos relacionamentos. Não nos isolamos uns dos outros. Enfim, difícil demais de dizer se há mais prós do que contras, mas sugerir uma dosagem equilibrada diminui a chance de errar a receita.

domingo, 11 de fevereiro de 2007

Corrupção Enraizada

Atreverei-me a discorrer sobre um assunto complexo e que me intriga há algum tempo: a corrupção no Brasil. Evidentemente corrupção não é exclusividade de nossa sociedade, mas tenho o sentimento que ela é um fenômeno que infelizmente tornou-se enraizado na nossa cultura. Com isso estamos perdendo o poder de nos indignar e de buscar reduzi-la. Tentar encontrar um único fator para explicar um fenômeno tão complexo é por demais reducionista. No entanto, quero me concentrar em alguns aspectos que considero relevantes ao tema. Primeiramente vou olhar para o fenômeno da corrupção focando no papel do corruptor, que considero o agente mais importante no processo. Segundo queria dizer que vejo a corrupção em todos os lugares e em todos os setores (por isso a considero enraizada). Não é “privilegio” de políticos, funcionários públicos, empresários ou quem quer que seja. Dito isso, quero me concentrar neste artigo no impacto que o enfraquecimento (ou mesmo o desconhecimento do papel) das instituições democráticas e de seus organismos pode ter na corrupção. Tomemos o conceito de governo, por exemplo. O governo é uma entidade criada pela sociedade com o objetivo de buscar o bem comum. Numa democracia, o governo se baseia na maioria, mas zela pelos direitos individuais e das minorias. A distribuição de renda e o atendimento aos mais carentes só é possível se houver um governo para coletar as contribuições (impostos) e gerenciar e atender às demandas. Independentemente de ser bem gerenciado ou não, o governo é a forma legítima escolhida pela sociedade para os fins supramencionados. Pois bem, o que tenho visto muito frequentemente é que os cidadãos brasileiros têm sentido repulsa pelo governo (não me refiro a um governo especifico, mas a noção geral de governo). Tornou-se uma entidade etérea a quem toda culpa se atribui e com quem não se possui nenhuma identificação. Várias formas de corrupção como a sonegação fiscal estão sendo justificadas por este sentimento. Não é muito difícil encontrar pessoas que recebem um bom salário, têm boa escolaridade e se prestam a “molhar a mão” de um guarda de trânsito para não serem multadas. Justificam: “Prefiro dar para o guarda do que para o governo”. “Ainda por cima eu ganho um amigo que poderá me fazer mais favores quando eu precisar”. Ações similares com outros agentes públicos como auditores fiscais, delegados ou mesmo membros do judiciário seguem a mesma lógica. Infelizmente, essa é a lógica perversa que tem prevalecido no País e que não se tem conseguido combater. Tenho a impressão que esta lógica não tem sido bem percebida por nós. Essa é a lógica que corrói cada vez mais as Instituições públicas e vai fazendo a sociedade viver dependendo de troca de favores. Se você conhece alguém em algum lugar importante, você consegue resolver seu problema. Senão, vai sofrer com a má qualidade dos serviços. E finalmente, é a lógica que gera falta de recursos financeiros suficientes para atender às demandas e prover qualidade nos serviços públicos, pois os valores a serem coletados não são nunca suficientes (fortemente em razão da corrupção/sonegação). Está criado o ambiente perfeito para alimentar o ciclo vicioso. Com a falta de recursos os governantes decidem por aumento de impostos, fortalecimento da fiscalização e ficam cada vez mais impopulares (aumentando a repulsa e fertilizando o terreno para mais corrupção). Creio que buscar quebrar este ciclo deveria ser prioridade para qualquer governante. Este é o verdadeiro pacto nacional que necessitamos.