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terça-feira, 19 de julho de 2011

C&T na Câmara Setorial de Tecnologia da Informação

Participei hoje pela manhã, na Agencia de Desenvolvimento do Estado do Ceará – ADECE, de mais uma reunião ordinária da Câmara Setorial de Tecnologia da Informação – CSTIC. Represento a FUNCAP como suplente do Pres. Tarcísio Pequeno.

O Dep. Federal Ariosto Holanda foi convidado para palestrar e expor ideias sobre C&T, inovação e TIC. Ariosto mostrou em suas transparências um pouco da realidade brasileira. Um País em crescimento, mas com um enorme passivo que se formou nos últimos anos. Um passivo, que em sua grande parte, se concentra na área da educação, seja a básica, seja a de nível superior.

Vários números foram apresentados. O Deputado enfatizou a necessidade de mais investimento em extensão para transferência tecnológica. Ele acredita que há muito conhecimento estocado hoje nas universidades e que pode e deve chegar aos meios produtivos. Ótimo que na reunião estavam presentes representantes da FIEC, SEBRAE, BNB e Universidades. Eles são atores fundamentais para realizar isso. 

Escutando os comentários das pessoas após a apresentação feita pelo deputado, vi-me novamente na situação que já começa a me ser familiar. A diversidade de percepção do que deve ser uma inovação é muito grande. Todo mundo tem seu conceito de inovação e consequentemente se permite definir o que é relevante para ser inovador. A rigor todos estão certos. Afinal de contas, há exemplos de inovações os mais diversos, nas mais diversas áreas e também com os mais diversos impactos. Só que conseguir engajar um processo de discussão produtivo e construtivo do papel do Estado e das devidas instituições públicas nesse contexto é muito difícil.

A eterna discussão sobre cooperação Universidade-Empresa, por exemplo, vira e mexe volta à tona com observações estereotipadas que nada acrescentam à questão. Já escrevi sobre isso aqui  e aqui, mas há na mente das pessoas uma imagem tão forte de estereótipos que tendem sempre a ressaltar a mesma visão de que a Universidade é distante, professores não querem inovar, etc.

Na FUNCAP tenho buscado contribuir e fazer minha parte no projeto atual em andamento. Várias ações de aproximação universidade-empresa, fortalecimento da pesquisa e de estabelecer uma cadeia de inovação vêm sendo realizadas.

Continuo acreditando que a inovar é inventar o futuro. Uma metodologia natural de pensar o futuro é a pesquisa científica. É o que os cientistas estão habilitados a fazer. Evidentemente que inovar não é algo exato e  experimentar é regra. Há que se aprender com os erros. Por isso inovação sempre leva um tempo maior do que o que a gente prevê. Há muitos percalços no caminho. Como ainda estamos, no Estado, em fases preliminares desse processo, fica todo mundo achando que há algo errado. Tenho convicção de que o caminho que está sendo trilhado, se continuado, dará bons frutos.


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Números da Ciência Brasileira

O trabalho de um cientista não se faz de forma desprovida de avaliação ou de medição de produtividade. Muito pelo contrário. É um métier bem competitivo com métricas mundialmente aceitas e seguidas. Para os não familiarizados sobre como funciona esse mundo. Deixe-me descrever um simples aspecto que é muito importante nesse contexto. As descobertas feitas pelos pesquisadores são validadas e ao mesmo tempo divulgadas ao mundo através de publicações científicas. Os periódicos científicos e os anais das conferencias científicas contemplam artigos escritos por pesquisadores. O controle editorial do que está sendo publicado é feito por outros pesquisadores e esse mecanismo chamado de avaliação por pares (em inglês, peer review) é fundamental na comunidade acadêmica. Publicar artigos científicos é assim crucial para a vida de um pesquisador que passa naturalmente a ser avaliado pela quantidade de artigos que conseguiu publicar. Há inclusive uma máxima dita tradicionalmente em inglês publish or perish (publique ou pereça) que é muito bem conhecida pelos acadêmicos. Mas não são só os pesquisadores que passaram a perseguir e monitorar seus índices de publicação científica. Trata-se de uma questão política e mesmo estratégica para uma nação. Nessa era do conhecimento em que vivemos, índices de produção de conhecimento estão se tornando tão (e talvez se tornarão mais) importantes do que índices econômicos ou de produção industrial. São indicadores da criatividade e do potencial de desenvolvimento de uma nação. O que ocorreu na semana passada é emblemático dessa realidade que descrevo. O Ministro da Educação fez muita festa ao anunciar que o Brasil subiu duas posições no ranking de número de artigos científicos publicados em 2008 e ocupa a 13ª posição. Em 2007, o país estava no 15º lugar, atrás da Holanda e da Rússia, países que foram ultrapassados este ano. Entusiasmado o ministro emendou:
"Nós estamos vivendo um momento no país em que foi possível, de um ano para outro, aumentar em 50% a produção científica brasileira, em periódicos indexados por agência internacional"
Os dados mencionados pelo ministro constam da estatística realizada pela empresa Thomson Reuters, que contabiliza anualmente os números de trabalhos científicos publicados por 200 países. Mas o entusiasmo do ministro, além de emblemático, é igualmente exemplo de como os meandros desses mecanismos são tortuosos e complexos. Não é a toa que existe uma área da ciência que se destina a estudar os mecanismos de medição da ciência: a ciênciometria. Esse sucesso extraordinário já está sendo contestado, pois, dizem alguns, que ele decorre principalmente de uma mudança na forma de cálculo usada pelo Instituto Thomson. Como mais revistas brasileiras passaram a fazer parte dos arquivos do Instituto, a produção brasileira cresceu automaticamente. Ressalte-se que a avaliação quantitativa não é a única maneira de se mensurar a produtividade científica. Uma avaliação qualitativa se concentra não somente no quanto o pesquisador publicou, mas sobretudo no impacto do que foi feito. Esse impacto é normalmente medido pelo quanto o trabalho é usado ou citado por outros trabalhos. O fato é que as avaliações qualitativas da produção científica brasileira ainda são muito baixas o que acaba por ratificar as críticas dos mais céticos. De qualquer forma, sou extremamente otimista com toda essa discussão, não somente pelos números quaisquer que sejam, mas porque vivenciei (e vivencio) nesses últimos dez anos uma revolução na ciência brasileira. Uma revolução provocada certamente pelos incentivos governamentais de formação de doutores (continuados há mais de 20 anos), mas principalmente pela mudança na cultura da sociedade que lenta, mas gradativamente ergue a ciência ao patamar de importância que deve possuir em qualquer nação desenvolvida. Os números hão de mostrar isso, mais cedo ou mais tarde.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia

Já tinha mencionado em textos anteriores o quanto a ciência brasileira está a receber investimentos nesses últimos anos. A diferença do tempo em que voltei de meu doutorado em 1997, há dez anos atrás, é estupenda. Na época, não tinha recursos para fazer nada. A única fonte de financiamento era o CNPq que possuía verbas reduzidíssimas que só chegavam a um pequeno grupo de pesquisadores mais experientes. A situação hoje em dia é tão diferente que não me canso de, nas minhas palestras a alunos, incentivá-los a fazer pesquisa. Falta gente! É preciso quebrar um paradigma, ainda disseminado na sociedade em geral, de que não temos, nós brasileiros, condições de estrutura, material e financiamento para realizar ciência de alto nível. O mais recente edital lançado pelo CNPq distribuiu mais de R$ 600 milhões a grupos de pesquisa de excelência no País para criação de Institutos de C&T. Esses Institutos (percebam que, embora com esse nome, não se trata obrigatoriamente de um prédio) são redes regionais ou nacionais de cientistas com o objetivo de estudar um tema específico. O objetivo é financiar continuamente grupos de pesquisa de alto nível. O Estado do Ceará foi contemplado com três Institutos, todos na UFC, nos seguintes temas: Biomedicina do Semi-árido, coordenado pelo professor Aldo Ângelo Moreira Lima, Transferência de Materiais Continente-oceano, coordenado pelo professor Luiz Drude de Lacerda e Salinidade, coordenado pelo professor José Tarquínio Prisco. O edital recebeu 261 propostas, das quais 61% vieram da região Sudeste. Dos recursos disponíveis, serão destinados 35% para os projetos dos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, 15% para o Sul e 50% para os do Sudeste. Trata-se de um processo competitivo e a submissão de propostas só podia ser feita por pesquisadores nível 1A ou 1B do CNPq (ou equivalente!?). Não sei qual critério o CNPq usa para definir o que pode ser equivalente a um pesquisador 1A ou 1B. Requer pelo menos, como especificado no Edital, capacidade para liderar projetos complexos e com vários participantes, e liderança demonstrada por publicações de impacto em revistas científicas, patentes nacionais ou internacionais, e expressivo resultado em orientação de dissertações ou teses e supervisão de pós-doutores. Para se ter uma idéia do quão difícil é submeter o pedido do Instituto, não há no Estado do Ceará, nenhum pesquisador 1A ou 1B, por exemplo, em Computação. Aliás, chamou-me atenção o fato que o Estado de São Paulo teve 35 Institutos contemplados, mas nenhum em Computação. Projetos em Computação com coordenadores da UFRJ, UFMG e UFPE foram os únicos contemplados.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Teses em Prateleiras

Na semana passada, participei de uma mesa redonda sobre Inovação no auditório Luis Esteves na Federação das Indústrias do Estado do Ceará. De uma forma geral, percebe-se uma convergência no discurso de que a inovação é necessária e que a cooperação com a academia é o caminho . Aliás, já escrevi sobre isso, mas alguns discursos que escutei recentemente levam-me a revisitar o tema. Na mesa redonda da FIEC, ressalte-se a palestra do Prof. Carlos Pacheco da UNICAMP. Pacheco foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia quando Bresser Pereira foi ministro. Teve participação ativa na formulação e operacionalização dos fundos setoriais que são a mola mestra do motor de financiamento em C&T que hoje faz tanto sucesso no País. Pacheco de forma muito elegante disse que o primeiro requisito para se ter cooperações persistentes entre Empresa e Universidade é de se compreender que esses dois agentes possuem agendas próprias. Dito de outra forma, ele estava a dizer que a Universidade não existe só para fazer inovação para as Empresas. A produção de conhecimento é algo eminentemente vasto, eclético, difuso, enfim, não pode ser podado nem restrito, muito menos enquadrado. É na liberdade de se pensar o inusitado, de propor o diferente e de estudar o que aparentemente não se vê aplicação, onde se encontra a capacidade de se fazer grandes descobertas. Essa liberdade não necessariamente está ligada a falta de foco ou implique redução de qualidade. O mecanismo que rege mundialmente a produção de conhecimento é bem definido e há rigor e exigência em todos os momentos. As publicações científicas são avaliadas por comitês de especialistas o que faz com que os pesquisadores sejam obrigados a buscar qualidade no que fazem. Não fazem somente o que lhes “dá na telha” como pode parecer a alguns. Teses e artigos científicos que não têm aplicação prática imediata não estão somente “expostas nas prateleiras” como gostam de expressar vozes incompreensíveis desse contexto. Essas teses alimentam o ciclo de produção de conhecimento, pois são objeto de estudo de outros que podem em futuro, muitas vezes longínquo, achar utilidades práticas para as idéias ali presentes. Interessante é que as mesmas pessoas que falam de teses em prateleiras são as primeiras que gostam de mencionar Havard, Stanford, MIT, etc. como exemplos de instituições de referencia no contexto acadêmico. Só que são exatamente essas instituições que produzem o maior número de “teses de prateleiras”. Conseqüentemente são as mais cobiçadas pelas Empresas para a realização de parcerias. O motivo é simples e fácil de entender. O que as Empresas querem com cooperações com as Universidades é ter acesso ao que não conhecem, ao que não conseguem produzir, querem a novidade. E sabe onde elas estão? Nas tão estigmatizadas prateleiras.

terça-feira, 25 de março de 2008

Fomento à Pesquisa em São Paulo

Na semana passada estive visitando a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa Científica do Estado de São Paulo) que é o equivalente à FUNCAP aqui no Estado do Ceará. A FAPESP é uma referência nacional por uma séria de motivos: sua história que data de mais de quatro décadas, o volume de recursos manipulados (1% da arrecadação do Estado de São Paulo), número de projetos de pesquisa financiados (cerca de oito mil por ano) e número de bolsas de apoio a pesquisa concedidas (7 a 8 mil bolsas por ano). O mais surpreendente é a sua forma autônoma de atuar, coisa que não tinha visto em nenhum órgão público no País. Nem a propalada autonomia universitária dá tanta liberdade. Essa autonomia vem em sua grande parte, da existência de um patrimônio, que vem se avolumando desde a década de 60, de cerca de 1 bilhão de reais. Somente os recursos decorrentes de aplicações financeiras a permitem investir cerca de 25% a mais do que o dinheiro destinado pelo Estado. Não é somente essa autonomia financeira que é surpreendente. Há uma autonomia administrativa que permite, por exemplo, que aumentos salariais, tanto reajustes como promoções, sejam definidos pelo seu Conselho de Administração, sem que sejam pedidas autorizações ao governo paulista nem que sejam seguidas as regras rígidas dos funcionários tradicionais. Não me surpreendeu saber que todos os governos estaduais vivem querendo reformular essa situação inclusive com ações cada vez mais contundentes da Procuradoria Estadual. No entanto, a FAPESP conta com um apoio de peso: a comunidade científica paulista. Uma comunidade que representa o que há de melhor na ciência brasileira e que tem um alto poder de influencia política. Argumentam que se trata de um modelo que está dando certo e que não existe razão para mudanças. Deixando de lado os meandros internos da FAPESP, vale a pensa ressalvar que, nessa visita, começamos a articular uma cooperação FAPESP-FUNCAP que certamente será um marco nas pesquisas científicas no Estado do Ceará. A FAPESP se dispôs a destinar recursos para que pesquisas cooperativas, entre pesquisadores paulistas e cearenses, sejam realizadas conjuntamente em temas estratégicos a serem definidos pelo Estado do Ceará. A contrapartida cearense é aportar recursos de mesma monta que os financiados pelo governo paulista. Tenho uma grande expectativa de que isso aconteça o mais breve possível.