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quarta-feira, 25 de abril de 2007

Guns, Germs and Steel

O único dos livros da lista ao lado ainda não comentado foi Guns, Germs and Steel (Armas, Germes e Aço). Deixei propositalmente para o fim, pois este livro é daqueles que merecem menção especial. Seu autor é Jared Diamond um professor de medicina na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Trata-se de um livro ousado, extremamente bem escrito e que prende a atenção do leitor mais inquieto. Diamond busca responder a algumas perguntas relacionadas ao desenvolvimento da raça humana e que podem ser representadas por uma só: “Porque foram os europeus que descobriram a América e não os índios americanos que descobriram a Europa?”. Sua teoria defende que o aspecto geobiológico e ambiental são os fatores determinantes para o desenvolvimento maior de algumas raças do que outras. Diamond rejeita violentamente qualquer teoria que defenda que os europeus têm um maior QI e que são (ou foram) mais inteligentes. Ela ainda da pouca importância ao desenvolvimento cultural, pois considera que dentro de uma janela de tempo grande com a que está querendo analisar esses aspectos acabam se perdendo. Seus argumentos se voltam para os fatores geográficos que fizeram a raça humana há 13000 anos antes de cristo adquirir a habilidade de domesticar e criar animais, bem como plantar sementes para colheita (diferentemente de viver da caça e da colheita do que crescia no ambiente). Ele acredita, por exemplo, que a variedade de espécies que havia na região do oriente médio permitiu uma maior qualidade de vida dos povos pré-históricos na região. Conseqüentes desenvolvimentos como a capacidade de conviver com germes e a elaboração de ferramentas de trabalho (inclusive em aço) dão nome ao livro. Dá para perceber que se trata de uma questão, no mínimo, polêmica e por isso mesmo o livro é tão apaixonante. Debates sobre as idéias lançadas no livro ainda são atuais (o livro teve sua primeira edição em 1997 e ganhou o prêmio Pulitzer naquele ano). Em particular o historiador William McNeil detonou a teoria de Diamond e um debate entre eles foi realizado publicamente na revista New York Times Review clique aqui para ler os argumentos de McNeil. Tanto o livro e os contra-argumentos são leitura imperdível. O desafio é formar opinião.

quarta-feira, 28 de março de 2007

Web 2.0 e Etnografia Digital

Etnografia é o estudo de uma cultura. Muito realizada por antropólogos, sociólogos e em menor escala (mesmo que em um crescendo) por outros profissionais como psicólogos. Até informáticos estão usando etnografia para compreender melhor o usuário do computador e adquirir conhecimento sobre suas necessidades. Normalmente se faz através de observação e muitas vezes através de participação na cultura. O que isso tem mesmo a ver com Web 2.0? Bem, veja o vídeo que este professor de Antropologia da Universidade de Kansas fez sobre o que ele pensa da Web 2.0 e de como ela está mudando nossa forma de viver. (Veja o vídeo abaixo). Este vídeo foi inicialmente enviado para a turma (em torno de 10 alunos) que ele estava ministrando aula de Etnografia Digital. Dentro de pouco mais de um mês, ele já tinha sido visto por mais de 1,7 milhão de pessoas no YouTube. Comentários de toda sorte, blogs e outras coisas mais passaram a discutir a etnografia digital e o vídeo do ilustre Prof. desconhecido. Ele se disse espantado, e mesmo com medo, do impacto que teve seu vídeo. Passou certo tempo para absorver o sucesso e responder aos comentários que vinham de todos os lados. Esta situação merece várias reflexões. Primeiro, a forma como o vídeo foi produzido. Possui uma arte bem interessante, mesmo se um pouco exagerado nos aspectos técnicos para meu gosto. Segundo, é interessante ver antropólogos estudando como uma nova cultura está se formando com a Web 2.0. Terceiro, é um exemplo fantástico de como algo produzido por uma pessoa normal, sem recursos maiores e sem suporte de nenhuma empresa pode ter um impacto tão violento e tão abruptamente. Finalmente, é instrutivo, pois quem poderia imaginar que tantas pessoas iriam ler um texto e assistir um vídeo de um professor de antropologia preocupado com a etnografia (ainda por cima a etnografia digital). Creio que esses pontos definem o que é Web 2.0.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Em Busca de Nossos Valores II

Estive conversando com uma antropóloga alemã que mora aqui na Califórnia e que já fez alguns estudos sobre a sociedade brasileira. Ela me disse que ficou surpresa ao perceber que o valor que ela mais percebeu caro aos brasileiros era a beleza física. Ela acredita que os jovens, em particular, são excessivamente vaidosos. As jovens, por exemplo, dão mais importância ao corpo, a forma de se vestir e de se maquiar do que jovens européias e americanas. Despertam mais cedo para o sexo, o que o alto índice de jovens mães solteiras revela-se como conseqüência. Outro valor que ela percebeu particular à nossa sociedade, foi o fato de que os relacionamentos de amizade (não precisa ser algo muito profundo, mas pelo menos de conhecimento) são usados para facilitar a resolução de problemas profissionais ou de acesso aos serviços públicos de uma forma muito mais determinante do que em outros países. Aliás, ela possui uma residência na Costa Rica e disse que pôde perceber este mesmo comportamento lá. Achei interessante esta visão por ser isenta. Um verdadeiro olhar de fora. Ela vai ao encontro de uma avaliação que fiz em textos anteriores que os laços de amizade são a forma que encontramos para escapar da má qualidade dos serviços públicos. Uma análise sob outro prisma deste fator foi feita pelo Prof. Walfredo Cirne da UFCG em conversa informal que tivemos. Ele acredita que damos muita importância ao fator “conhecido” pelo fato de que ainda reconhecemos muito pouco o mérito das pessoas. Tem sentido o que ele diz, pois vemos nossa sociedade cheia de exemplos em que os melhores não são reconhecidos em detrimento dos “conhecidos” ou mesmo familiares (o que pode ser exemplificado com os casos de nepotismo que ainda estamos verificando diariamente). Mas será que estes valores nos trazem somente conseqüências negativas? Creio que não. O culto à beleza física nos jovens pode nos trazer uma geração mais saudável (o abandono do cigarro me parece uma conseqüência disso). O que é muito bom em todos os aspectos: social, econômico e de qualidade de vida. Sobre o fator laços de amizade, podemos dizer que o mesmo está intimamente ligado a um aspecto que o mundo todo, principalmente o turista, admira no Brasileiro: a forma hospitaleira de ser e a facilidade com que ofertamos nossa amizade. Características essas, provavelmente, facilitadas por estarmos sempre buscando criar novos relacionamentos. Não nos isolamos uns dos outros. Enfim, difícil demais de dizer se há mais prós do que contras, mas sugerir uma dosagem equilibrada diminui a chance de errar a receita.