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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ensino de Religião nas Escolas Públicas

Vou voltar ao tema da mistura religião e Estado motivado pelo artigo da professora Sandra Helena no O Povo de ontem. Vou reproduzir um texto que havia escrito sobre um debate que ocorreu no jornal O Povo tempos atrás. No debate, o Jornal O Povo escutou a opinião de algumas pessoas sobre o que elas achavam da proposta que está para ser votada no Congresso de tornar facultativo o ensino religioso nas escolas públicas. Para minha surpresa, a opinião da maioria dos entrevistados foi de que se tratava de uma boa idéia. Em uma sociedade onde a maioria professa uma fé religiosa, isso não era para causar nenhum espanto. Meu espanto se deveu pelo fato  de que dois dos entrevistados eram deputados estaduais e educadores, um outro era o presidente do Conselho de Educação do Estado do Ceará e uma outra educadora. Deles, eu esperava uma postura diferente. Afinal de contas somos um Estado laico (ou não?). Minha surpresa maior foram as respostas dadas pelos ilustres Deputados Artur Bruno e Teodoro Soares de que disciplinas religiosas eram importantes para moldar a ética dos alunos. Vejam um trecho da resposta de Soares:

Sou favorável à inclusão do ensino religioso nas escolas por acreditar na relevância da religião para a formação ética dos adolescentes, funcionando como um resgate de valores morais tão enfraquecidos nos dias de hoje

Considero que isso é totalmente contrário à lógica de uma escola laica e democrática. Nada contra a religião.  Reconheço que a religião (para os que crêem) pode ter um papel importante na formação de jovens em seus valores e  disseminação de uma ética. Mas os estabelecimentos religiosos (escolas, igrejas, seminários, etc.) estão aí para preencher esse vácuo (para os que acham que ele existe). É obrigação da escola sim, formar os alunos nos valores éticos, mas não através da religião. Sem mencionar que há várias questões adicionais a serem respondidas: qual a ética que vai ser ensinada na escola? De qual religião? Quem vai decidir isso? Os diretores? Os pais? Os professores? Já imaginou uma cidade com um prefeito tipo Bispo Macedo? As escolas da prefeitura vão ensinar religião desde cedinho, né? Não dá para esperar muito de nossos congressistas, mas sinceramente, torço para que tenham um pouco mais de discernimento do que os educadores entrevistados e sejam contra essa medida. 

sábado, 22 de março de 2008

Semana Santa e Web

Quando escrevo sobre meu entusiasmo sobre a web, não desconheço que há muito lixo nela. No entanto, o que mais me agrada é seu caráter democrático e eclético. Um bom exemplo é a grande quantidade de sites religiosos (só foquei nos cristãos) que descobri em TechCrunch (www.techcrunch.com). Sites como GodTube , peopleo2pray , cross connector , faith2 e ebible são usados por milhões de cristãos para publicação de vídeos, consulta da bíblia, colaborações diversas, discussão sobre evangelhos, etc. Embora não tenha achado nenhuma menção a sites em português, a existência dos sites religiosos e o crescimento dos mesmos em popularidade é ilustrativo, pois normalmente se associa um estereotipo conservador e anti-web aos religiosos. Eles estão encontrando uma forma de dar o recado que lhes interessa. Os americanos, como era de se esperar, pois usam a web para tudo, não deixam de realizar suas orações na web. Uma pesquisa feita em 2004 pela Pew (veja pesquisa aqui) mostrou que 64% dos internautas americanos realizam alguma atividade espiritual e religiosa online.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Uso de Preservativo e Valores Morais

Creio que a opinião pública brasileira, de uma forma geral, não tem dúvida de que os governos federal e estaduais têm obrigação de construir campanhas de esclarecimento à população quanto aos males que sexo sem proteção pode trazer, em particular com a transmissão do HIV. Em se tratando de um País laico, ou seja, onde não há intervenção da religião na estrutura legal e de poder político, não se pode esperar que o governo seja influenciado em sua política de saúde por questões religiosas. Mas será que essa questão é assim tão simples? Dado o calor do debate recorrente, pode-se perceber claramente que não. Embora algumas declarações intempestivas de uns e outros possam passar a impressão de que há radicalismos e intransigências (como declarações de religiosos pondo em dúvida a qualidade da camisinha como protetor), creio que o cerne da questão é que, neste debate está embutido um outro que versa sobre o quão um governo é responsável por disseminação de valores morais. O habitat tradicional de divulgação dos valores morais defendidos pelos religiosos é a igreja (ou templos), local onde os cultos ocorrem. Evidentemente que o trânsito da mensagem religiosa não se restringe a esses espaços. Os religiosos buscam a interação direta com a sociedade e há uma luta diária pela conquista do “fiel”. Nessa busca de disseminação dos valores morais que defende a igreja, os meios de comunicação de massa são um componente fundamental. Fica assim mais simples de entender o porquê das críticas veementes e recorrentes da igreja a forma como a mensagem governamental tem sido veiculada. As campanhas publicitárias dos governos ignoram totalmente o fato de que um comportamento sexual restrito a um parceiro ou mesmo a abstinência são igualmente formas de proteção contra transmissões de doenças. Tome, por exemplo, o slogan básico usado nas recentes campanhas: “Use camisinha!”. A igreja se queixa de que haveria aqui uma tendência a se desvincular toda e qualquer responsabilidade de se passar uma mensagem que comporte apoio a algum valor moral que possa ser considerado conservador. Afinal, o Estado tem ou não uma responsabilidade dessa natureza? Esse é o debate que me parece mais importante para o País e que temos obrigação a suscitá-lo. Os países ocidentais com sociedades mais amadurecidas encontraram seus caminhos. Em países laicos os valores morais são transmitidos nas escolas e se baseiam nos direitos fundamentais do ser humano. No entanto, quando se fala de um país que não consegue prover uma educação de qualidade para a maioria da polução, fica evidente de que existe um vácuo de educação moral e que contribui para incrementar as crises sociais que vivemos hoje. Precisamos encontrar o nosso caminho.

domingo, 13 de maio de 2007

A Necessidade de Bons Pastores

Aproveitando a visita do papa Bento ao Brasil vou refletir um pouco sobre a religião católica. Percebo que há um grande número de pessoas (e mesmo de fiéis) que acredita que alguns dogmas da Igreja católica deveriam ser mudados para acompanhar a evolução dos tempos. Trata-se de tema delicadíssimo e complexo, mas busco entender a posição conservadora da Igreja. Entendo que os valores fundamentais de uma religião não têm a obrigação de serem populares. Os valores morais defendidos pelas religiões visam estipular um padrão comportamental das pessoas em uma sociedade (outro debate seria analisar o quanto isso é bom e o quanto é ruim). O fato é que as culturas mudam com muita freqüência e nem todas essas mudanças são ortogonais aos valores religiosos. Se as religiões acompanhassem essas mudanças correriam o risco de perder identidade e não cumprirem sua função. O surgimento de incompatibilidades é uma conseqüência natural. Em particular, a igreja católica centra boa parte de suas energias na família e em torno dela gravitam outros temas como aborto, comportamento sexual e divórcio. O comportamento das pessoas face estes temas sofre modificações freqüentes. Continuar motivando seus seguidores a viver segundo valores conservadores não é tarefa fácil e creio que é fortemente relacionada com a qualidade dos padres. Nesta direção, um aspecto que me intriga refere-se à impossibilidade de se ter pastores casados. Em meu parco conhecimento teológico, não consigo vislumbrar onde este dogma seja um pilar mestre de sustentação de um valor moral específico. A manutenção desta medida, no entanto, tem sido catastrófica para a Igreja Católica. Vêem-se casos de desvios de comportamento sexual dos padres que têm sido mais freqüentes do que se podia esperar, o que abala a fé dos seguidores e a credibilidade da instituição. Outro aspecto refere-se ao fato da procura para ser padre ter diminuído além da qualificação dos mesmos também ter diminuído. No Brasil de alguns anos atrás, as famílias queriam que os filhos fossem médicos, advogados e padres. Atualmente isso não é mais verdade (no que se refere aos padres!). A necessidade de bons pastores é essencial para qualquer religião. Trata-se de um papel de liderança que requer conhecimento teológico e, acima de tudo, sensibilidade social. Impor aos padres a barreira de não permitir a formação de uma família (que, como já disse, é um dos valores fundamentais do catolicismo) me parece um contra-senso e um erro estratégico que poderá custar caro no futuro.