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sábado, 3 de novembro de 2012

Sandy: Fatos e Versões


Conheci com perfeição o que significa a expressão “coração apertado” na semana passada. Estive em Washington D.C. brevemente o que me deu a oportunidade de encontrar com minha filha que está morando e estudando em Manhattan. Matei um pouco da saudade, mas o furacão Sandy forçou-nos a reduzir nossa estada. Nossa despedida no domingo foi muito difícil. Eu fugia de Sandy de volta ao Brasil, mas ela ia justamente em sua direção em New York.

Os dias seguintes  deixaram-me em constante angústia e agonia. Esses sentimentos eram alimentados pelo acompanhamento do noticiário televisivo, em especial, o jornalismo americano. Não demorou muito para perceber o quanto os noticiários eram dramáticos, exagerados e não informativos.

De uma foram geral, a cobertura midiática foi sofrível. Vi claramente que havia pouca informação a prover. Faziam drama de tudo. Informação que é bom, nada. Na verdade, não havia muito a informar. O essencial foi que o furacão havia causado desgastes materiais, havia afetado o fornecimento de energia elétrica e provocado a paralisação dos meios de transporte. Isso pode ser dito em um Tweet. Nos jornais televisivos isso tinha que render. Por isso buscavam dramas, de pessoas angustiadas, tristes e de preferencia desesperadas. Tiveram dificuldades em encontra-las. Solução: blá, blá, blá, blá.

Mas tal fato não se restringe somente a imprensa televisiva e nem muito menos a imprensa americana. O jornal O Povo, por exemplo, em sua página de capa da quarta-feira dia 31 de outubro, consegue fazer uma absurda comparação entre o 11 de Setembro e os efeitos do Sandy. A diferença de mortos entre as tragédias não permitiu ao jornal perceber que de fato o que era mais relevante noticiar foi como um fenômeno de proporções catastróficas como Sandy levaram a tão poucas causalidades. Creio que o Katrina ajudou aos americanos a serem excessivamente cautelosos. Minha versão é que Sandy causou desgastes grandes materiais, mas a imprensa entrou no rolo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Seios da Princesa, Paparazzi e Internet: Um mistura explosiva


Qual manchete vende mais? o cachorro mordeu o homem ou o homem mordeu o cachorro? Essa pergunta anedótica ilustra o quanto a mídia precisa chamar a atenção de seus leitores. Os eventos incomuns constituem excelente oportunidade para isso.

O topless, prática das mulheres não usarem a parte superior do biquíni nas praias, é extremamente comum na Europa. Os anos 60, marcados pelos movimentos de liberdade feminista na Europa, foram a época de início da prática de topless nas praias europeias, prática que persiste até hoje, embora em declínio.

Essa semana pensei nesse tema ao ler sobre o impacto causado pela matéria de um jornal sensacionalista francês que mostrou fotos da esposa do príncipe William da Inglaterra em topless durante as férias de verão. Mais do que o abuso da privacidade da princesa que foi perseguida por um Paparazo em um castelo privado e que usando câmeras com potente zoom conseguiu capta-la, o que me atraiu na história foi a perspectiva da disseminação do sensacionalismo via Internet.

Sempre houve gente bisbilhotando a vida das celebridades com o objetivo de exploração comercial, pelo simples fato de que vende. Nesses nossos tempos de veiculação rápida e global da informação  isso tem componentes mais agudos. Dentre eles o choque cultural. É aí que insiro a questão do topless. Embora comum na Europa, tem sua aceitação variada de país a país. Alguns como o nosso, é curioso, meio fetiche, meio desafiador, mas, não chega a ser agressivo. No entanto, há aqueles em que tal prática é vista de forma muito pejorativa, agressiva mesmo.

Celebridades como o príncipe e a princesa não podem mais ter comportamento condizente somente com a cultura deles. Precisam ser politicamente corretos com um mundo que cada vez mais se radicaliza. Deve ser frustrante. É muita proibição. Mas a busca por audiência que era monopolizada pelos meios de comunicação oligárquicos, agora tornou-se paranoia de todo pequeno produtor de conteúdo na Web. Enfim, tem muito mais gente querendo explorar as mordidas dos homens nos cachorros. São sinais de nossos tempos.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

WikiLeaks, Anarquia, Diplomacia e Liberdade

Julian Assange, o criador de WikiLeaks, já entrou para a história. O homem que trouxe a anarquia para o palco mundial está pagando um preço alto e ainda nem sabemos qual será o tamanho da sua conta. A primeira grande anarquia realmente revolucionária na rede veio de alguém que decidiu desmoralizar o jogo hipócrita que rege as relações diplomáticas internacionais. Desnudou os segredos dos jogos de poder.

Para os que não estão a par de WikiLeaks trata-se de um site onde documentos sigilosos são postos a disposição de todos. Um site onde  informações vazam  (daí o termo leak que em inglês quer dizer vazamento). Já tinha mencionado o mesmo aqui. Detalhe: na época tinha posto o link do site.

Hoje não posso mais fazê-lo simplesmente porque não sei qual o endereço está sendo usado agora. O governo americano se engajou numa campanha frenética para “calar” Assange. Algo nunca visto no mundo ocidental democrático. Ameaçam a todas as empresas que ousem hospedar WikiLeaks de serem processadas com rigor. A Amazon, por exemplo, teve que se negar a hospedar o site nos EUA. O sistema de pagamento por crédito Pay Pal teve que sustar todo tipo de doação que era feito a WikiLeaks via seu site. A caçada a Assange em todo o mundo é feita pela Interpol. Já circula no Congresso Americano mudanças legais para endurecer o tratamento a todos que, de uma forma ou outra, venham a se envolver em ações que favoreçam WikiLeaks.

Talvez os americanos devam pedir ajuda aos chineses já que estes têm mais experiência em censura na Web. O mais paradoxal é que a última notícia tida sobre WikiLeaks era que estava hospedado em um site na China! Estariam os chineses dando uma “tapa com luva de pelica” nos americanos? Estes últimos condenam tanto a censura na rede como a que ocorre na China, e agora agem da mesma foram!? 

É extraordinário o efeito WikiLeaks ! Não tenho conhecimento detalhado do que os documentos sigilosos dizem. Aliás, acho que ninguém tem. É tanta informação que somente com o tempo saberemos mais. Mas o que quero aqui refletir é sobre o impacto pós-WikiLeaks. Ou seja, das ações que estão sendo tomadas contra WikiLeaks. A decisão dos países que se consideram afetados em censurar tudo que se relacione a WikiLeaks. Isso provoca um debate super interessante sobre a liberdade de imprensa e sobre o domínio de um determinado País sob a Web.

Primeiro, vale se perguntar: até que ponto WikiLeaks é imprensa? O site é um mero lançador de furos. Consegue informações importantes de fontes privilegiadas e as publica. Além disso, a última leva de documentos com informações que vazaram tiveram, antes de serem divulgadas, uma análise da imprensa de mais alto nível. Assange já sabia que precisava de “costas mais largas”. Liberou os documentos sigilosos que tinha primeiramente para editorias do porte do New York Times e The Guardian. Alguns consideram que esse ato mostra o que se espera da imprensa neste nosso século: certificador da credibilidade de informações.   

O segundo aspecto que vale ressalva é sobre o poder que um País, em particular os EUA, terá ou quer ter sobre a rede. A tentação existe, mas a teia tem sua vida própria e formas de se defender. Difícil bloquear WikiLeaks. Acho interessante a analogia com uma caixa-d’água com vazamento. Os países tentam tapar um vazamento, mas outros aparecem. Aliás, eu tinha mencionado que não poderia dizer em que endereço WikiLeaks estava. Não estava sendo de todo preciso. Na verdade, apoiadores do site não param de aparecer e WikiLeaks já está disponível em mais de 200 sites distribuídos no mundo. Haja bombeiro!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Eleições 2010: A imprensa numa mudança de época

Tempo de eleições é sempre um período marcante na vida de um país democrático. Ótimo que seja assim. Envolve engajamento, paixão, decepção, amor e ódio. Ingredientes presentes em qualquer drama.

Institucionalmente envolve governos, ONGs, empresas, imprensa e, como não poderia deixar de ser envolve os interesses econômicos essenciais para a própria sobrevivência dessas instituições. Adicione-se o fato de que as instituições são feitas por pessoas que por sua vez amam, odeiam, se decepcionam, tem seus interesses, etc. De novo tem-se os ingredientes para o drama. 

Nesta eleição a imprensa voltou a jogar um papel preponderante, não só no tocante à tradicional atuação como meio de comunicação. De denúncias pouco fundamentadas à investigações polêmicas, vários eventos a colocam na berlinda e creio que nem mesmo na eleição de Collor ela foi tão exposta. Evidenciava-se, na época, o quanto um meio de comunicação tinha o poder de influenciar nos fatos políticos. A combinação da neutralidade jornalística com liberdade de imprensa mostrava-se, numa jovem democracia, argumento invencível, o que permitiu a manipulação da informação que resultou no que hoje já conhecemos. 

Seria por demais prepotente de minha parte buscar pintar um quadro completo da situação atual. Só emito minhas opiniões com base no pouco que percebo como leitor e curioso que busca ler as entrelinhas dos fatos (se é que elas são legíveis). Ouso então inserir uma nova variável que, creio, tem tornado a situação atual diferente do que ocorreu no passado: a Web.

Estou supervalorizando aquilo que é meu objeto de trabalho e estudo? Talvez. Mas a Web impacta na cobertura das eleições em pelo menos duas formas muito evidentes e inovadoras. Primeiro as necessidades econômicas de sobrevivência dos veículos tradicionais ficaram muito mais evidentes. O enfraquecimento desses meios devido à concorrência que a Web proporciona os faz mais vulneráveis e mais dependentes dos governos. Segundo, a reverberação das críticas aos meios de comunicação é muito maior com a Web. Antes, erros da imprensa não tinham como tomar grandes dimensões, pois o poder de propagação da crítica dependia quase que exclusivamente da própria imprensa. Hoje, a realidade é outra. Recentemente, comentei sobre isso quando discorri sobre os fenômenos CalaBocaGalvão e DilmaFactsbyFolha

Parece-me adequado revisitar aqui a máxima de que não só vivemos uma época de mudança, mas acima de tudo, vivemos uma mudança de época. Isso pode se ilustrado pela histórica decisão tomada ontem pelo Estadão. Em seu editorial, o jornal paulista de dimensões nacionais, declarou preferência pela candidatura de José Serra. Foi um dos poucos casos de quebra explícita de neutralidade na história recente brasileira. Essa postura é comum nos EUA e na Europa. Na França, por exemplo, Le Fígaro é conservador, Le Nouvel Observateur é socialista. Nos EUA, para que veículo mais republicano do que a FOX? Até mesmo em eleições primárias, a imprensa toma partido. Nas últimas primárias do partido democrático, por exemplo, o New York Times declarou sua preferência por Hillary.  

O segundo aspecto, referente a como ecoam as críticas à mídia pela Web, também tem dimensões próprias de mudança de época. Evidente que a Web brasileira hoje em dia não tem penetração em todas as camadas sociais. A rede social dos que transitam por Twitter, blogs e redes afins é ainda muito reduzida. Mas é nessa pequena e elitizada rede que trafegam quase todos os nomes da imprensa brasileira. Por essa razão os jornalistas, algumas vezes bem mais do que as instituições jornalísticas, que se expõem. As reverberações dessa rede os atingem diretamente. Têm suas opiniões confrontadas a todo momento quase que imediatamente após qualquer declaração. A credibilidade dos mesmos é a todo momento avaliada e reavaliada. Eles estão sendo afetados fortemente pela interatividade típica das mídias sociais. Como nem todos foram formados nesse contexto, estão aprendendo on the fly

Tudo isso terá reflexos na imprensa brasileira do futuro? Creio que sim. Mudança de época ou época de mudanças o processo de aprendizagem é constante. Os mais aptos sobreviverão.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Futuro das Mídias Sociais no Jornalismo

O blog Mashable dedicou importante espaço para refletir sobre o futuro das mídias sociais no jornalismo. Começam provocando ao dizer que mídias sociais estão mortas. Na verdade, querem dizer que todas as mídias serão sociais e categorizar um jornalismo como social vai ser pleonasmo.  Emendam que, além de social, o consumo de conteúdo sera de mais em mais personalizado. As funcionalidades que induzem atividades sociais nos sites estão ainda inspirando os leitores a se tornarem cidadãos jornalistas habilitando-os a  publicar e compartilhar informação em grande escala. O Twitter está cheio de exemplos em que o cidadão se tornou jornalista e que a notícia teve forte propagação.

A figura do blogueiro também tende a se moldar a essa nova realidade. Passam a escutar fontes externas e a considerar o quão credíveis elas são. Em conseqüência, passarão, de mais em mais, a ser fonte de referência. Não é a toa que a reconhecida agencia de notícias Associated Press (AP) passou a considerar a possibilidade de referenciar blogueiros como fontes de informações de suas notícias. E olhe que a AP já começou tarde. Uma análise feita em seis anos de artigos do New York Times e do Washigton Post mostrou que os blogs estão crescendo como fonte de referência crível já desde 2008. A análise foi feita em cima de cerca de 2000 artigos e 120 blogs. A conclusão é que há um novo ciclo de notícias se estabelecendo com referencias cruzadas entre os dois veículos.
Outra característica diga de menção é o surgimento de mídias locais e colaborativas. Organizações como TBD possuem estações de TV e website e levam notícias locais e informações da comunidade (no caso de TBD trata-se da comunidade de Washigton, D.C.).  Nessas iniciativas há uma mistura entre a fonte da informação e o produtor de conteúdo, pois a testemunha do fato acaba se tornando o repórter. Agora, tudo isso vai exigir uma mente muito aberta dos jornalistas, pois vão ter que se habituar a ceder um grau de controle editorial para a comunidade.  

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A Imprensa Esportiva e a Seleção

Os últimos atritos de Dunga com a imprensa levaram-me a refletir sobre os porquês dessas crises. Verdade seja dita. Não é só Dunga que tem (ou teve) essas crises. Outros técnicos também sofreram com a pressão de ser técnico da Seleção e a imprensa acaba sendo canalizadora e algumas vezes geradora dessa pressão. Os atritos são comuns. Alguns mais habilidosos, como Parreira, tiraram de letra. Outros como Felipão, Zagalo, Leão e Luxemburgo em maior ou menor escala tiveram relação conturbada com a imprensa. Defensor incondicional da Imprensa como instituição fundamental da democracia que sou, acho que o papel de intermediária entre a Seleção e a população exercido pela imprensa é fundamental. Afinal de contas, quer goste ou desgoste, nada mais importante ao cidadão brasileiro do que o futebol nacional. Ser informado sobre tudo o que acontece com a Seleção é questão de vida ou morte.

Evidente que não se pode esperar que a imprensa seja só uma mera repassadora de fatos. Cabe-lhe também interpretá-los, analisá-los e mesmo induzir o espírito critico da sociedade. Em se tratando de política, por exemplo, a investigação jornalística é fundamental para controle social.

Em tempos de Copa do Mundo, no entanto, os interesses econômicos são muito grandes. Os patrocínios gigantescos e as exigências por exposição das marcas igualmente. Como gerar pauta para todo esse esquema? Com programas de “análise” esportiva. E haja analista e haja assunto. A mídia está repleta de “especialistas” e que se posicionam sobre toda e qualquer escolha feita pelo treinador ou jogadores. Impossível acertar. Impossível ter consenso. Dificílimo ser imparcial. Alguns jogam literalmente para a galera (para ficar no contexto), pois mantém a popularidade. Nesse contexto, chega-se mesmo a esquecer que o futebol por ser um jogo carrega o fator do imponderável. A conseqüência é que se passa ao exercício do achômetro com roupagem jornalística sendo assim inevitável o desgaste. As críticas e observações pontuais em particular sobre  o treinador ficam repetitivas e passam a imagem de que há uma perseguição. O interessante é que isso pode se voltar contra o próprio veículo jornalístico. Os recentes eventos com Cala Galvão, Cala Boca Tadeu Schmidt e Um Dia Sem Globo exemplificam isso.

terça-feira, 3 de março de 2009

WikiCrimes na JAVA Magazine

Fiquei muito satisfeito com o artigo feito por Leonardo Ayres, mestre em computação pela UNIFOR e principal desenvolvedor de WikiCrimes, na JAVA Magazine. O artigo discorre sobre conceitos importantes na Web hoje como mashups e uso de geoprocessamento através da API do Google Maps. Além dos aspectos educativos, o artigo aproveita para exemplificar os conceitos ao demonstrar como os mesmos vêm sendo usados em WikiCrimes. Acima de tudo, o convite feito a Leonardo para escrever o artigo deixou-me feliz por ser um merecido reconhecimento pelo trabalho pioneiro que vem desenvolvendo desde quando aceitou embarcar nessa aventura. Vejam a matéria aqui e freqüentem o blog do Leonardo para aprender mais sobre como desenvolver em JAVA aplicações como WikiCrimes.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Mídia em Papel: Qual o Futuro?

Vou continuar a refletir sobre um dos temas que recentemente tem tomado minha atenção: a mídia impressa. Todas as vezes que se fala sobre os avanços tecnológicos, a questão do fim do livro em papel vem à tona. O lugar-comum leva-nos a expressões tipo: “Nada como ler um livro em papel. Pode-se manuseá-lo, colecioná-lo, deitar com ele”. É verdade que há uma sensação especial na posse de um livro e isso ainda vai ser fator determinante para adiar a entrada em nossas vidas dos livros eletrônicos. Mas será que o mesmo tipo de raciocínio se aplica para os jornais impressos? Por fazer parte do conselho de leitores do O Povo, passei a receber o jornal há um mês. Nunca havia feito uma assinatura de jornal. Foi minha primeira experiência. Sinceramente, não encontro tantos argumentos em relação à sustentabilidade quando se trata desse tipo de mídia. A tinta se desprende facilmente o que dá sensação de sujeira. Não dá para ler um jornal deitado na cama como se faz com um livro, nem durante uma refeição como café da manhã. Em lugares abertos, onde há muito vento, é um sufoco. Sem falar no, pouco ecológico, gasto de papel, que ao final do dia perde sua utilidade (pelo menos em termos informativos!). Os notebooks cada vez menores e toda outra gama de dispositivos móveis com acesso fácil a Internet trazem uma alternativa simples, limpa e barata para a leitura de notícias. Agora, a questão fundamental que me parece que se abre é quanto ao modelo de negócios a ser adotado pelos jornais na Internet. A revista Time dessa semana dedica espaço para esse debate. A sugestão é de que os jornais comecem a adotar a política de micro-pagamentos. Ou seja, os internautas pagariam por cada notícia clicada; um valor normalmente bem pequeno (um centavo por matéria ou cinco reais por assinatura na web). Vale a pena dar uma olhada na matéria aqui.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Números Jornalísticos

Gosto de exercitar o olhar crítico. Vejo-o como uma característica fundamental de um pesquisador. Jogar esse olhar para as cenas cotidianas, pode inclusive ser considerado um papel social do acadêmico. A mídia ultimamente tem sido o alvo de meus olhares. Na semana passada, aconteceu algo que me chamou atenção por perceber imprecisões em matérias jornalísticas nos dois grande jornais da cidade em um mesmo dia. O Diário do Nordeste colocou em sua primeira página o seguinte cabeçalho “Detran flagra 40 motoristas embriagados por dia no CE”. Minha primeira reação foi a de pensar: puxa! Que número cabalístico esse 40! Nem mais nem menos? Será que o pessoal do DETRAN para de multar quando o número chega a 40? Quando se lê a matéria, conclui-se que havia imprecisão como eu já esperava. Aliás, não há somente imprecisão, há muita confusão. Os números são os mais diversos e mesmo a média de 40 por dia, que assumi que era o que o jornalista queria informar, não se consegue identificar. Foram 1238 condutores multados desde janeiro, o que dá uma média de 62 por dia. Vejam a matéria aqui e entendam o que quiserem (ou puderem). No mesmo dia o Jornal O Povo, noticiou que “Só 0,05% dos cearenses investe em ações”. Veja a matéria aqui. Outra notícia que imediatamente me saltou os olhos. Sabedor de que boa parte das aplicações financeiras feita pelos bancos contempla alguma parte em investimento em ações, achei estranho um número tão insignificante. Nesse caso, a própria editora de economia do jornal me esclareceu que havia um engano na matéria. O correto seria referenciar-se aos investimentos diretos feitos pelos cidadãos na bolsa de valores. Esse dois exemplos são lamentáveis porque acho que o uso de dados e números é uma das estratégias que mais deve ser perseguida pelos meios de comunicação. Se contrapõem à matérias que buscam generalizar conceitos só com base em exemplos e depoimentos de pessoas (o que infelizmente é bem comum hoje em dia). Pode ter sido só coincidência.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Blog, Mainard e Francis

No Manhathan connection deste Domingo(GNT às 23 horas de Domingo), Lucas Mendes perguntou a Diogo Mainard se ele gostava de blogs. Evidentemente, ele disse que não. Até aí tudo bem e normalíssimo, visto que escolheu ser do contra sempre. Agora, ao argumentar que blogs são ruins porque são objetos de opiniões tendenciosas e com objetivos econômicos escusos, foi paupérrimo. Ele disse que não gosta dos blogs porque ele não sabe quem os financia. E se não é financiado, não entende qual a motivação de alguém escrever. Ele disse que só se pode confiar em algo que tem conselho editorial e que tem a estrutura da imprensa tradicional onde se tem a separação do depto comercial do depto de notícias. Não sei se ele é inocente, mal-intencionado ou somente muito desinformado (não descarto a combinação das opções). Achar que a imprensa mundial é independente do poder do dinheiro é brincadeira. Onde anda sua língua ferina e sua acidez crítica na hora de criar uma contra-argumentação tão inocente? Mainard merece um espaço em minhas reflexões porque acho que ele é o único que tenta preencher uma lacuna importante na mídia brasileira, lacuna essa que teve em Paulo Francis seu representante maior: o jornalista crítico ao extremo, beirando o sadismo. Trata-se de um papel dificílimo de ser exercido e que, na minha opinião, Paulo Francis o fazia com maestria (imagine como seria o blog do Francis!). Ser o cara chato, crítico, ácido, amargo e tudo mais em matéria de ser do contra e ainda ser convincente é muito difícil. Exige muita cultura, muito conhecimento. Precisa de muita consistência nas críticas para não virar simplesmente um chato de galocha. Mainardi está longe de um Paulo Francis. Bem longe. Talvez sua definição na desinclopédia seja abusiva, mas que é divertida é. Dêem uma olhada clicando aqui.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A Telenovela Real da Morte de Isabela

Entendia-me, irrita-me e me dá mesmo nojo, a forma como o caso da morte da garota Isabella é tratado pelas televisões. Mesmo buscando fugir do tema, acabei por assistir uma matéria no Jornal Hoje da Globo num desses sábados, onde a pergunta mote era o que levava as pessoas a se identificar com o caso. A Globo foi perguntar a um especialista psicólogo que, em resumo, disse que há uma confusão na cabeça das pessoas sobre o que é realidade e o que é ficção. Já tinha refletido sobre esse efeito maléfico de se misturar ficção e realidade em particular devido às telenovelas (veja o texto que escrevi aqui). Agora, uma outra pergunta que certamente as televisões não vão fazer é porque estão explorando tanto, de forma claramente sensacionalista e muitas vezes irresponsáveis, um caso trágico como esse. A pergunta tem resposta óbvia: dinheiro. Independentemente do qual será o desfecho da estória, a família da criança, já tão magoada, estará marcada para o resto da vida. Não consigo descobrir alguma coisa positiva nessa super-exposição das pessoas envolvidas no caso. A competição por audiência leva a uma crueldade e a um postura paparazzi que denigre a imagem das televisões e alimenta uma cultura big-brother extremamente negativa.

domingo, 20 de abril de 2008

Recebi Um Conceito de Presente

Uma semana daquelas que acaba exatamente no dia 20, meu aniversário. Depois de tanta badalação em torno de WikiCrimes, não tenho como não relacionar as duas coisas, pois, para completar, acabo de receber um presente bem inusitado: o conceito de WikiCrimes na Wikipédia! Difícil de entender? Para os menos ligados ao mundo web, a Wikipedia é uma enciclopédia on-line que foi construída de forma colaborativa por pessoas no mundo todo (aliás o nome WikiCrimes é inspirado na Wikipedia). Embora tenha esse caráter democrático e participativo, não é qualquer coisa que pode ser adicionada na Wikipedia. Um aluno meu já tinha tentado adicionar o conceito de WikiCrimes lá, mas nunca era autorizado. No entanto, depois da matéria na BBC (clique aqui para acessá-la), WikiCrimes ganhou seu espaço automaticamente. Clique aqui para ver o conceito. Um presente e tanto. Representa a relevância que gradativamente o projeto vai ganhando por seu ineditismo, além de, evidentemente, nos mostrar o quanto a mídia internacional tem força.

segunda-feira, 3 de março de 2008

A Imprensa Americana nas Eleições 2008

Recentemente, estive assistindo com mais freqüência do que a habitual, as redes CNN, Fox bem como alguns jornais americanos para acompanhar a eleição de 2008. Sempre achei que a imprensa norte-americana precisava se recuperar do onze de setembro, quando ela foi acuada e engolida pelos eventos. A eleição 2008 é um momento bom para isso. Ela tem buscado ocupar o terreno perdido fazendo jornalismo com qualidade. Não há espaços para fofoquinhas (de vez em quando algum bobão pisa na bola, como o comentário ofensivo feito por um jornalista da NBC contra a filha de Hillary e Bill Clinton). Ao contrário, sua tarefa é de sempre lançar desafios aos candidatos, os colocando em pressão contínua. Buscam “espremê-los”para que os mesmos respondam sobre os grandes desafios que o país deve enfrentar nos próximos quatro anos. Quem auxilia os jornalistas no debate com os presidenciáveis são especialistas nas mais diversas áreas contempladas. Uma verdadeira sabatina pública que é muito saudável para um país. Outro aspecto digno de menção é o fato de que ela toma partido abertamente quando julga necessário. Já tinha comentado que na França os grandes jornais têm suas posições ideológicas claramente definidas. Le Figaro é direita, Le Monde é esquerda e Le Nouvel Observateur é ainda mais esquerda. Nos EUA e Grã Bretanha também é assim. Por exemplo, New York Times é democrata e mesmo em relação à escolha do candidato democrata o jornal se posicionou. Deixou claro que acha Hillary a melhor candidata. Já o jornal inglês The Economist é neoliberal. Será que vender uma postura neutra e imparcial como tentam fazer a maioria dos grupos mediáticos brasileiros não seria somente pura hipocrisia?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Quem Matou o Jornal?

Já tenho dito e venho mostrando matérias que apontam um futuro bem diferente para a mídia convencional visto que a Internet a vem modificando constantemente. Soube de uma matéria de Agosto de 2006 na revista britânica The Economist (clique aqui para acessar o texto em inglês ) intitulada “Who Killed the Newspaper?” (que é a tradução em inglês da pergunta que intitula o texto que hora escrevo). Nessa reportagem, se faz menção ao livro de Philip Meyer “ The Vanishing Newspaper” que prevê que por volta de 2040 os jornais estarão praticamente extintos nos EUA. Na verdade a circulação de jornais nos EUA, na Europa Ocidental, na America Latina, na Austrália e na Nova Zelândia vem caindo nos últimos dez anos (fonte da própria revista). Blogs e outras formas de expressão digital estão entre as causas desse declínio. Como devem agir os empresários do jornalismo nesse contexto? Difícil pergunta mas uma coisa eu posso dizer: não podem partir para o desespero. Mas foi exatamente isso que o Estadão fez recentemente. Lançou uma campanha para denegrir os blogs e blogueiros (clique aqui para ver o vídeo da campanha). Quis passar a imagem de que informação com credibilidade só se obtém na mídia convencional e vinda de profissionais do setor. Disse que há muita bobagem nos blogs. Que novidade! Como não existisse muita bobagem nos jornais. Não vou gastar energia tentando dizer que blogs são bons ou úteis. Acho que quem deve dizer isso são os que destinam algum tempo para lê-los. Agora, o que me parece claro é que os meios convencionais de jornalismos têm que pensar urgente em estratégias de participar do processo democrático, distribuído e eclético que acontece na blogesfera. Tentar fechar os olhos para sua existência é burrice. Corre-se o risco de descobrir que quem matou o jornal foi um mico (veja o vídeo do Estadão para entender melhor).

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Telenovelas: Realidade ou Ficção?

Telenovelas têm uma enorme penetração nos lares brasileiros e o debate se elas acabam por induzir comportamento ou se são somente reflexo dessa sociedade será sempre vivo. Sou extremamente crítico quanto ao papel das telenovelas na nossa sociedade e tenho uma enorme dificuldade em não atribuí-las parcela relevante de nossa pobreza cultural e de valores. Em particular, o fato de produzir comportamento padronizado com ênfase em liberdade sexual, desvalorização da família e foco em valores ligados ao ter são só alguns exemplos. Em função do alto grau de penetração da televisão, as telenovelas conseguem atingir um público muito variado e a forma como as pessoas internalizam as mensagens que elas veiculam está longe de ser compreendida no País. Alguns otimistas acreditam que a população tem a capacidade de discernir a realidade da ficção e, por conseguinte essa influencia comportamental teria pouco reflexo no cotidiano das pessoas. Vamos supor que isso seja verdade (o que particularmente, não acredito). Tenho percebido que de uns tempos para cá os autores de telenovelas estão optando por inserir nas estórias campanhas educativas e outras atividades reais com o objetivo claro de inserir realidade na ficção. Para compreender a que nível chegamos, li em um jornal de grande circulação que Marcílio Moraes, autor de "Vidas Opostas", maior audiência da Record, convidou o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho (PMDB), e o prefeito César Maia (DEM) para participarem de um debate sobre a descriminalização das drogas na novela. Estes fatos me parecem caracterizar um aspecto extremamente pernicioso que já vinha se materializando há algum tempo nas telenovelas. Eles dificultam a percepção do que é real e do que é ficção. Atribuir uma função educativa (que normalmente vem de uma forma muito superficial e carregada de clichês) às telenovelas me parece colocar munição real onde deveria haver festim. Como o inconsciente popular reage a essas mensagens? Elas não estariam adquirindo cada vez mais credibilidade na mensagem que se veicula na tela? Não estaria se aumentando o grau de manipulação das pessoas? Não quero ser acusado de estar vendo teoria da conspiração e assim dizer que há um movimento voluntário para se fortalecer a televisão como instrumento de manipulação de massas. No entanto, é exatamente a isso que estamos sujeitando nossa sociedade. Precisamos acordar.

domingo, 25 de março de 2007

Política Pública de Comunicação

Recentemente tive oportunidade de trocar e-mails com o ombudsman Plínio Bortolotti do jornal O Povo quando lhe parabenizei pelos comentários críticos e pertinentes que fez sobre a postura dos jornalistas que escrevem colunas sociais em veículos de comunicação. Aproveitei a oportunidade para apresentar-lhe meu blog e o artigo que reflito sobre o papel da imprensa na nossa sociedade bem como me questiono do porque da dificuldade de estabelecermos controles nos conteúdos de programas mediáticos, em particular, da televisão (veja o artigo novamente clicando aqui). Neste domingo ele escreveu um texto que vai totalmente ao encontro do que penso e reflete uma parte do que tinha escrito. Clique aqui para ler o texto. O texto é baseado em um documento produzido pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) entitulado Mídia e Políticas Públicas de Comunicação (clique aqui para acessar o documento). É leitura obrigatória para quem se interessa minimamente pelo assunto. Trata-se de um estudo rico e completo que mostra a pobreza do contexto de nossa mídia, quando se trata de se auto-avaliar. Por outro lado é alentador saber que temos entidades realizando estudos como esse os quais nos mostram que algo precisa ser feito. Parabéns de novo a Plínio por trazer o tema à tona. Infelizmente, as colunas de ombudsman não me parecem serem as mais populares nos jornais (não tenho base para dizer isso. Só um sentimento). Creio que, por focarem as vezes em pequenos erros e enganos cometidos pelos jornalistas, elas muitas vezes passam uma idéia que se trata de coisa interna do veículo de comunicação. Na verdade, lendo alguns artigos recentes de Plínio percebi que ele há algum tempo vem levantando pontos polêmicos e bem interessantes de serem considerados pela imprensa de uma forma geral ou pelo menos dentro do próprio jornal O Povo. Vamos ficar atentos para verificar até que ponto suas considerações têm eco internamente.