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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Importação de tomógrafos, sim. De médicos, não?



Espero que o Brasil não perca a oportunidade de implantar um programa de importação de pessoal qualificado por causa de tanta desinformação e corporativismo. Todo País do mundo quer receber gente qualificada em qualquer setor. Americanos e canadenses são exemplos só para ficar pelas Américas. Perdi a conta dos alunos e amigos que hoje estão no Canadá, Europa e EUA. O engraçado é que todo mundo se lamenta quando eles se vão. Quando se fala em trazer de lá pra cá, não vejo a mesma coerência.

Especialmente nos últimos anos, não éramos atrativos para imigração qualificada, pois as condições econômicas e políticas não favoreciam. Isso mudou. As próprias crises por que passam os países desenvolvidos favorecem-nos. O projeto de atração de médicos surge dentro deste contexto favorável. Na verdade, isso não se trata de iniciativa isolada na área médica. A Ciência e Tecnologia também tem programa similar com o Ciência Sem Fronteiras onde há diversos incentivos para a instalação de pesquisadores estrangeiros no País.

Em essência, sou completamente favorável a todas essas iniciativas. Há, evidentemente, alguns senões à forma como o Governo tem tentado realizar isso na área médica. O foco inicial em cubanos foi muito infeliz, pois fez emergir um debate ideológico que está longe de ser o centro da questão. O governo parece-me que gradativamente corrige isso passando a não privilegiar uma ou outra nacionalidade.

O reconhecimento do diploma de médico aqui no País é outra coisa que precisa ser equacionada, mas que não me parece muito difícil. Equivalência de diplomas é algo que já vem sendo feita no meio acadêmico rotineiramente. Lembro-me que quando terminei meu doutorado no exterior, fui obrigado a fazer o reconhecimento do mesmo aqui no Brasil. Todos que estudam fora o fazem.   

Sobre a questão de fornecer a mesma oportunidade dada aos estrangeiros para os brasileiros, essa então é uma questão ainda mais simples de solucionar, e o governo agiu na direção correta. Abriu para que todos, sem distinção de nacionalidade, concorressem às vagas. Alguém de sã consciência acha que um brasileiro que mora a centenas de km de uma cidade do interior, fala português, não precisa validar diploma, etc. etc. não leva vantagem em um processo competitivo com um estrangeiro que está a milhares de quilômetros, não fala a língua e tem que se separar de suas raízes? Claro que leva.  Só não assume porque não quer e se não quer, tem mais é que torcer para que os estrangeiros queiram.

Por fim, vem a questão da forma legal de contratação das pessoas. Há um ônus de programas como esse, pois fogem ao lugar-comum, e precisam de soluções ad hoc. Fornecer bolsas é uma forma de agir com rapidez, devido à urgência reclamada pela população que sofre com o mal atendimento. O caminho natural para os bolsistas é que façam concursos e que ocupem cargos no serviço público paulatinamente. Reconheço que é um ponto que precisa avançar, mas também é fato de que os municípios carentes não têm condição de bancar um incremento grande nas suas folhas de uma hora pra outra.  

De certo, a contratação de mais médicos e a alocação dos mesmos para lugares menos favorecidos não é a solução definitiva para todos os problemas da área. As deficiências de estrutura, material e pessoal de apoio são também entraves, mas não consigo ver onde um impede o outro. São ortogonais. Diria mesmo que quanto mais médicos, mais poder de pressionar para que as estruturas sejam melhoradas. Uma coisa é certa: médico, até sem material, cura e salva, enquanto que material sem médico, não.


Um comentário:

Hildeberto Mendonça disse...

Convidar várias nacionalidades (+1)

Não revalidar diploma (-1: injustiça com quem vai pelo caminho da validação; +1: o problema é sério e urgente)

Receber uma quantidade enorme de médicos cubanos como se tudo tivesse sido planejado há muito tempo atrás, ignorando todo o debate que vem ocorrendo (-1)

Pagar ao governo cubano e não ao médico cubano (-1)

A vontade de voltar emperra na injustiça. No risco crescente de ser prejudicado na sua própria terra natal.