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sábado, 6 de outubro de 2012

Professores e Startups: zona de conforto deslocada


O breve artigo do Prof. Michael Stonebraker na ACM Communications deste mês trouxe uma mensagem que merece compartilhamento. Stonebraker é professor e pesquisador do MIT e um dos pioneiros nas pesquisas em banco de dados relacionais. Atualmente faz pesquisas sobre como explorar eficientemente “big data”. Com o aumento exponencial dos dispositivos de coleta de dados nas nossas vidas, já produzimos mais de 1.8 zetabytes de dados por ano. Isso preencheria 57.5 bilhões de iPads de 32 Gigabytes.

Mas não é a pesquisa de Prof. Stonebraker que me chamou mais atenção, foi sua atuação como empreendedor. Já fundou e vendeu várias startups e continua investindo seu tempo em criar novas empresas e novas ideias. Abaixo segue sua mensagem:

“ Se um professor/cientista só publica papers na universidade, tem pouca chance de ver suas ideias se tornarem realidade, pois é difícil haver transferência tecnológica. Se ele procura uma grande empresa para vender suas ideias, muito dificilmente as terá comprada. A saída é fazer uma startup e tentar por si". 

Ter a coragem de deslocar a zona de conforto que se forma na carreira tradicional de pesquisa acadêmica não é nada fácil.


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dirigir um automóvel é uma atividade em perigo ou somente perigosa?

Cruza-se a fronteira entre ficção e realidade cotidianamente. Os celulares, que hoje já nos são tão comuns, já foram um objeto muito distante. Lembram-se de Maxwell Smart, o agente 86, com seu telefone celular (que era um sapato L)?

Pois bem, uma dessas fronteiras que parece ainda distante dá mostras de que se aproxima: carros sem motoristas. Esses carros, considerados um tipo de veículo autônomo, não precisam de motoristas e são guiados por computadores que se baseiam em dados capturados por sensores e câmeras.  Competições acadêmicas onde os pesquisadores apresentam os avanços no setor acontecem anualmente.

Recentemente, ninguém menos que a Google entrou na busca por soluções.  E quando a Google entra em cena, pode esperar que algo acontece. A Empresa de Mountain View formou logo uma equipe de peso. Contratou os pesquisadores que ganharam os mais recentes prêmios das competições promovidas pela DARPA (Agencia de Defesa Americana) e fez parcerias com a equipe de robótica e engenharia da Universidade de Stanford na Califórnia.  

Em seu blog, a Google apresentou os avanços que vêm fazendo com a tecnologia que permite que os carros façam seus trajetos sem motoristas. O carro da Google usa câmeras de vídeo montadas no teto, sensores de radar e uma mira a laser para enxergar outros carros e obstáculos no trânsito. Ele já rodou mais de 200.000 Km pelas ruas de cidades americanas sem provocar nenhum acidente. A motivação da Empresa é a de reduzir o índice de mais de 1,2 milhões de vidas que são perdidas em acidentes de trânsito. 

Para os que me lêem e adoram usar suas Ferraris nas seguras e velozes autoestradas brasileiras, fiquem atentos.  Esse hobby pode estar chegando ao fim.




quarta-feira, 13 de maio de 2009

Números da Ciência Brasileira

O trabalho de um cientista não se faz de forma desprovida de avaliação ou de medição de produtividade. Muito pelo contrário. É um métier bem competitivo com métricas mundialmente aceitas e seguidas. Para os não familiarizados sobre como funciona esse mundo. Deixe-me descrever um simples aspecto que é muito importante nesse contexto. As descobertas feitas pelos pesquisadores são validadas e ao mesmo tempo divulgadas ao mundo através de publicações científicas. Os periódicos científicos e os anais das conferencias científicas contemplam artigos escritos por pesquisadores. O controle editorial do que está sendo publicado é feito por outros pesquisadores e esse mecanismo chamado de avaliação por pares (em inglês, peer review) é fundamental na comunidade acadêmica. Publicar artigos científicos é assim crucial para a vida de um pesquisador que passa naturalmente a ser avaliado pela quantidade de artigos que conseguiu publicar. Há inclusive uma máxima dita tradicionalmente em inglês publish or perish (publique ou pereça) que é muito bem conhecida pelos acadêmicos. Mas não são só os pesquisadores que passaram a perseguir e monitorar seus índices de publicação científica. Trata-se de uma questão política e mesmo estratégica para uma nação. Nessa era do conhecimento em que vivemos, índices de produção de conhecimento estão se tornando tão (e talvez se tornarão mais) importantes do que índices econômicos ou de produção industrial. São indicadores da criatividade e do potencial de desenvolvimento de uma nação. O que ocorreu na semana passada é emblemático dessa realidade que descrevo. O Ministro da Educação fez muita festa ao anunciar que o Brasil subiu duas posições no ranking de número de artigos científicos publicados em 2008 e ocupa a 13ª posição. Em 2007, o país estava no 15º lugar, atrás da Holanda e da Rússia, países que foram ultrapassados este ano. Entusiasmado o ministro emendou:
"Nós estamos vivendo um momento no país em que foi possível, de um ano para outro, aumentar em 50% a produção científica brasileira, em periódicos indexados por agência internacional"
Os dados mencionados pelo ministro constam da estatística realizada pela empresa Thomson Reuters, que contabiliza anualmente os números de trabalhos científicos publicados por 200 países. Mas o entusiasmo do ministro, além de emblemático, é igualmente exemplo de como os meandros desses mecanismos são tortuosos e complexos. Não é a toa que existe uma área da ciência que se destina a estudar os mecanismos de medição da ciência: a ciênciometria. Esse sucesso extraordinário já está sendo contestado, pois, dizem alguns, que ele decorre principalmente de uma mudança na forma de cálculo usada pelo Instituto Thomson. Como mais revistas brasileiras passaram a fazer parte dos arquivos do Instituto, a produção brasileira cresceu automaticamente. Ressalte-se que a avaliação quantitativa não é a única maneira de se mensurar a produtividade científica. Uma avaliação qualitativa se concentra não somente no quanto o pesquisador publicou, mas sobretudo no impacto do que foi feito. Esse impacto é normalmente medido pelo quanto o trabalho é usado ou citado por outros trabalhos. O fato é que as avaliações qualitativas da produção científica brasileira ainda são muito baixas o que acaba por ratificar as críticas dos mais céticos. De qualquer forma, sou extremamente otimista com toda essa discussão, não somente pelos números quaisquer que sejam, mas porque vivenciei (e vivencio) nesses últimos dez anos uma revolução na ciência brasileira. Uma revolução provocada certamente pelos incentivos governamentais de formação de doutores (continuados há mais de 20 anos), mas principalmente pela mudança na cultura da sociedade que lenta, mas gradativamente ergue a ciência ao patamar de importância que deve possuir em qualquer nação desenvolvida. Os números hão de mostrar isso, mais cedo ou mais tarde.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Exames de Detecção de Câncer de Próstata Salvam Vidas?

Extremamente interessante a reação de algumas pessoas quando descrevo o estudo científico publicado no New England Journal of Medicine e divulgado no caderno de saúde do New York Times(NYT). Antes de refletir sobre as diferentes reações, deixem-me resumir o que compreendi do estudo. Ressalto que se trata de um assunto que não é minha especialidade e por isso mesmo não possuo conhecimento sobre o estado da arte na área. Novos estudos que se contrapõem a esse que vou descrever podem surgir, mas atualmente o estudo em questão parece ser bem atual. A fonte principal em que baseei minha interpretação foi a matéria do NYT com o título “Prostate Test Found to Save Few Lives” (Descoberto que teste de câncer de próstata salva poucas vidas). São dois os estudos que mostram que fazer testes anuais que buscam identificar a existência de tumores, como o teste de PSA, salva poucas vidas e levam a riscos e tratamentos desnecessários a uma grande quantidade de homens. Vou buscar resumir o que dizem os estudos.Para maiores informações consultem diretamente a matéria do NYT aqui. Os testes, ditos de detecção, como toque, PSA e, em último caso, biópsia, visam indicar se uma pessoa tem um tumor. O que dizem os especialistas é que na maioria de casos de câncer de próstata, os tumores tendem a crescer muito lentamente (ou não crescer) e não constituem uma ameaça a vida dos pacientes. Para o caso dos tumores que crescem rapidamente, mesmo que se faça diagnóstico cedo, a probabilidade de se salvar vidas é pequena. Os estudos — um na Europa e outro nos EUA — foram considerados pelo médico chefe da Sociedade Americana de Câncer como os mais importantes na história da saúde masculina. As conclusões do estudo europeu indicam que, dentro de um intervalo de dez anos, para cada vida salva com o tratamento cirúrgico em função dos testes, 48 homens tiveram tratamento desnecessário. Dito outramente, suponha que alguém faça um teste de PSA hoje e depois uma biópsia revela que essa pessoa tem câncer, o que a leva ao tratamento. Há uma chance em 50 que, em 2019, ele tenha tido a vida salva pelo tratamento. Por outro lado, há 49 chances em 50 que a pessoa tenha sido tratada desnecessariamente para um câncer que não ameaçaria sua vida. Na verdade, na medicina, essa postura, digamos conservadora, ocorre em muitos outros problemas. O problema é que os efeitos colaterais do tratamento do câncer de próstata, apesar dos avanços, ainda são muito traumáticos. Ele pode levar a impotência, incontinência e algumas vezes a dores na hora de defecar ou diarréia crônica quando radiação é feita. A matéria do NYT coleta depoimentos de vários médicos que dizem o quanto o estudo é importante porque ele permite informar os pacientes da validade de se fazer anualmente os testes de detecção com dados concretos, coisa até então inexistente.
Um dos estudos envolveu 182 mil homens em sete países europeus; o outro aproximadamente 77 mil homens em 10 centros médicos nos EUA. Em ambos, os participantes foram randomicamente selecionados para fazer ou não o teste preventivo. Os dois grupos foram seguidos por mais de uma década. Comparações entre o grupo que fazia os exames preventivos e o grupo dos que não faziam mostraram que as vidas salvas, por se fazer os testes de detecção, foram pouquíssimas. No estudo europeu, nos primeiros sete anos, não houve nenhuma melhoria no grupo dos que fizeram os testes. No americano houve uma redução de 13% na taxa de mortalidade no grupo dos que não fizeram os testes! Em 1990, quando os estudos começaram, se acreditava que os testes de detecção reduziriam o número de mortes em 50%. Houve muito debate e crítica ao estudo, pois se dizia antiético fazer com que algumas pessoas não se submetessem aos mesmos. Na Europa esse problema não existiu muito, pois a política pública de boa parte dos países da Comunidade Européia não prevê a realização dos testes de detecção. O fato é que a redução de 50% não veio a ocorrer, o que de certa forma ratifica os estudos. O estudo americano ainda vai continuar a acontecer e os participantes serão acompanhados. Talvez em um prazo mais elástico haja uma mudança nas conclusões que hoje estão sendo tiradas. Os avanços nos métodos cirúrgicos para que se reduza os efeitos colaterais também devem ser considerados. De qualquer forma, as conclusões dos resultados desses estudos certamente forçarão as autoridades mundiais de saúde a refletir o impacto das mesmas na política pública de muitos países. Em um próximo texto vou refletir um pouco sobre a reação das pessoas ao serem apresentadas a esse estudo.

segunda-feira, 2 de março de 2009

I Feel Good !

Muito interessante o projeto I Feel Fine iniciado por dois jovens estudantes de Computação um de Stanford e outro de Princeton. Ele é representativo de um novo tipo de pesquisa social que somente a existência da web permite. Desde Agosto de 2005, um programa está monitorando blogs em várias partes do mundo e toda vez que encontra frases que começam com “I feel” ou “I am feeling” (eu me sinto e estou me sentindo, em português), ele grava a frase toda em um banco de dados. Depois disso, ele tenta identificar que sentimento está associado ao o que está escrito: felicidade, tristesa, raiva, depressão, etc. Além das frases, o programa grava informações sobre o blogueiro como sexo, idade e localização geográfica. O banco de dados tem mais de 10 milhões de “sentimentos” com cerca de 20.000 novas entradas por dia. As possibilidades de exploração do banco são interessantíssimas. Os autores do projeto exploraram correlações do sentimento das pessoas em determinadas regiões e as condições climatológicas, por exemplo. Afinal, chuva afeta o humor? Comparações também são possíveis: Europeus ficam triste mais com mais frequencia do que Americanos? Mulheres se sentem gordas mais frequentemente do que homens? Qual o sentimento mais representativo das jovens até 20 anos? Quais as cidades mais felizes do mundo? Além dessa mineração dos dados, os autores criaram uma interface super bacana onde estatísticas diversas podem ser visualisadas. Acesse-as aqui.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Filantropia de Bill Gates

Existem muitas pessoas no mundo que dedicam tempo para ajudar aos mais necessitados. Médicos e enfermeiros de organizações como Médecins Sans Frontièrs http://www.msf.org/ (Médicos sem fronteiras) são exemplos de trabalhadores humanitários que se esforçam mundo afora para melhorar as condições de vida das pessoas, em especial em países do terceiro mundo. A filantropia é outra forma comum de apoiar causas humanitárias e é bem difundida, particularmente nos Estados Unidos. A pesquisa científica na área médica, por exemplo, é fortemente subsidiada por fundações privadas, normalmente, criadas por celebridades. Bill Gates, o fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, é nos dias atuais a estrela mundial da filantropia. Ele aposentou-se da Empresa e decidiu empregar todas as suas energias na sua Fundação e no trabalho filantrópico. Diferentemente, da maioria das celebridades que apóia as pesquisas contra câncer, AIDS e outras doenças globais, Bil Gates inova. Nesse vídeo abaixo, em que ele palestra no TED, uma conferencia sobre empreendedores e inovadores globais, pode-se conhecer seus dois projetos prioritários: combater mosquitos como os que transmitem a malária e aumentar a qualidade dos professores de ensino básico e médio. A malária é uma das doenças que mais mata no mundo e exemplifica muito bem a perversa lógica da pesquisa científica privada que se orienta pelo retorno do investimento. Trata-se de uma doença que está erradicada nos países ricos e que aflige somente às populações do terceiro mundo. A conseqüência disso é que não há dinheiro para o desenvolvimento de pesquisas científicas para resolver esse problema, pois as drogas produzidas não trarão lucro aos grandes laboratórios farmacêuticos. Para exemplificar essa situação, ele mostra que existe no mundo mais investimento em pesquisas para encontrar drogas contra a calvice do que contra a malária. Na sua palestra, fez graça ao soltar uns mosquitinhos na platéia (não infectados, é claro!) dizendo que não havia razão para somente os pobres conhecerem a experiência de serem picados por mosquitos. Outra prioridade da Fundação Bill Gates é a busca pela melhoria dos professores. Aqui, quero enfatizar que o termo que ele é usa é professor mesmo (embora evidentemente a melhoria do ensino-aprendizagem seja uma conseqüência da melhoria dos professores). Ele acredita que está fundamentalmente nos professores a chave para a melhoria do ensino. Suportado por dados que mostram a diferença entre professores de escolas americanas de alta qualidade e aqueles de baixa qualidade, Gates diz que é preciso transformar a forma de ensinar. Para começar, ele sugere que a forma de premiar os professores mude. Tradicionalmente, os professores são premiados por antiguidade e título. Em suas pesquisas, evidenciou-se que, nas escolas de alto nível americanas, esses dois fatores não estão diretamente correlacionados com a qualidade dos melhores professores. Vejam o vídeo (em inglês) para compreender mais o que Gates planeja. Nele pode-se ver seu entusiasmo na nova função de bom moço. Gates é muito novo, tem muito dinheiro e é muito inteligente. Se tiver notoriedade por suas ações filantrópicas comparável com a que teve com a Microsoft, a humanidade sairá ganhando.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Harnack Haus

A primeira emoção que tive ao chegar em Berlim deu-se na chegada ao hotel. Estou hospedado na Harnack Haus, uma antiga casa criada nos anos 20 para receber reuniões e conferencias de cientistas alemães e do resto do mundo. Por mais de 80 anos ela possui uma aura de magia, pois representa o símbolo da Academia germânica uma das mais renomadas de todos os tempos. A descoberta da fissura do átomo, por exemplo, foi feita há poucos metros daqui por cientistas que estavam em uma reunião na Haus (casa em alemão). A casa está intimamente ligada a Dahlem – o nome do bairro que outrora era um município – colônia de cientistas nos arredores da Universidade Livre de Berlin. Ela foi primeiramente sede da Sociedade Kaiser Wilhelm (no final do império Prussiano – república de Weimar) que se destinava a promoção da Ciência. Depois da segunda guerra, virou quartel dos americanos que saíram depois da queda do muro. Depois disso, voltou a ter os objetivos de antes e passou a ser gerida pela prestigiosa Sociedade Max Planck. Sinto-me enebriado pela força dos gigantes que passaram pela casa e seus compartimentos. Diga-se de passagem que não é somente o valor histórico do hotel que merece elogio. O restaurante é muito bom. Já pagou a vinda (Assim não vale. Os alemães já pagaram tudo mesmo)!

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia

Já tinha mencionado em textos anteriores o quanto a ciência brasileira está a receber investimentos nesses últimos anos. A diferença do tempo em que voltei de meu doutorado em 1997, há dez anos atrás, é estupenda. Na época, não tinha recursos para fazer nada. A única fonte de financiamento era o CNPq que possuía verbas reduzidíssimas que só chegavam a um pequeno grupo de pesquisadores mais experientes. A situação hoje em dia é tão diferente que não me canso de, nas minhas palestras a alunos, incentivá-los a fazer pesquisa. Falta gente! É preciso quebrar um paradigma, ainda disseminado na sociedade em geral, de que não temos, nós brasileiros, condições de estrutura, material e financiamento para realizar ciência de alto nível. O mais recente edital lançado pelo CNPq distribuiu mais de R$ 600 milhões a grupos de pesquisa de excelência no País para criação de Institutos de C&T. Esses Institutos (percebam que, embora com esse nome, não se trata obrigatoriamente de um prédio) são redes regionais ou nacionais de cientistas com o objetivo de estudar um tema específico. O objetivo é financiar continuamente grupos de pesquisa de alto nível. O Estado do Ceará foi contemplado com três Institutos, todos na UFC, nos seguintes temas: Biomedicina do Semi-árido, coordenado pelo professor Aldo Ângelo Moreira Lima, Transferência de Materiais Continente-oceano, coordenado pelo professor Luiz Drude de Lacerda e Salinidade, coordenado pelo professor José Tarquínio Prisco. O edital recebeu 261 propostas, das quais 61% vieram da região Sudeste. Dos recursos disponíveis, serão destinados 35% para os projetos dos estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, 15% para o Sul e 50% para os do Sudeste. Trata-se de um processo competitivo e a submissão de propostas só podia ser feita por pesquisadores nível 1A ou 1B do CNPq (ou equivalente!?). Não sei qual critério o CNPq usa para definir o que pode ser equivalente a um pesquisador 1A ou 1B. Requer pelo menos, como especificado no Edital, capacidade para liderar projetos complexos e com vários participantes, e liderança demonstrada por publicações de impacto em revistas científicas, patentes nacionais ou internacionais, e expressivo resultado em orientação de dissertações ou teses e supervisão de pós-doutores. Para se ter uma idéia do quão difícil é submeter o pedido do Instituto, não há no Estado do Ceará, nenhum pesquisador 1A ou 1B, por exemplo, em Computação. Aliás, chamou-me atenção o fato que o Estado de São Paulo teve 35 Institutos contemplados, mas nenhum em Computação. Projetos em Computação com coordenadores da UFRJ, UFMG e UFPE foram os únicos contemplados.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

IBERAMIA 2008

A partir de hoje estou a participar do IBERAMIA 2008 aqui em Lisboa. Trata-se do Congresso Ibero-Americano de Inteligência Artificial. Tivemos, Thiago Assunção e eu, um artigo completo aceito que deverei apresentar amanhã. Trata-se de uma conferência que se realizou primeiramente em 1988 e que ganhou gradativamente seu espaço para que, em 1998, tivesse seus anais publicados pela prestigiosa editora alemã Springer Verlag, o que vem ocorrendo desde então. A conferência passou então a ter maior reconhecimento, divulgação e tornou-se lugar importante para estreitar os laços de pesquisas entre cientistas dos dois lados do Atlântico, em particular daqueles da Penísula Ibérica com os da América Latina. A programação completa do Congresso pode ser acessada aqui bem como a descrição das edições anteriormente realizadas quer seja no Brasil ou na Europa.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O Que é Inovação Tecnológica?

Desculpem-me pelo tamanho desse texto. Vai de encontro a minha intenção de escrever textos curtos, mas o tema é palpitante e cheio de meandros, o que acaba por me fazer prolixo. Aliás, esse tema faz parte deste blog desde seu início quando ainda estava no Vale do Silício (veja aqui , aqui e aqui três textos correlatos escritos em Janeiro de 2007). Recentemente tenho discutido com vários empresários sobre como se pode avaliar o mérito de um projeto de inovação. Essa discussão é extremamente salutar, pois indica que o meio empresarial começa a perceber que inovar é preciso. Evidentemente que isso acontece em função do surgimento de inúmeros mecanismos de financiamento à inovação que vêm sendo criados tanto na esfera federal, como estadual, o que anima a todos. Em particular, profissionais e empresários da área de tecnologia da informação (TI) estão sempre a perguntar minha opinião sobre se uma determinada idéia tem potencial para ser classificada como inovadora e assim ser competitiva na busca por subvenção. Percebo que meu ponto de vista nem sempre é compreendido até porque ele não agrada muito. Minha visão pode ser considerada excessivamente exigente, mas as opiniões sobre o assunto são realmente muito subjetivas. Por isso, expresso minha opinião com muita humildade e aberto a considerar opiniões divergentes. Bem, voltando ao cerne da questão, o que caracteriza mesmo uma inovação tecnológica? Um ponto relativamente pacífico é de que inovação deve ser feita na Empresa. Por quê? Pelo simples fato de que inovação está intimamente relacionada com agregação de valor a um produto, processo ou idéia e, assim, geração de riqueza (ou bem estar social, no caso de inovações sociais). A inovação pode ser medida por indicadores diversos como o aumento da produção, do emprego e mudança do comportamento do mercado. Lembro o que escrevi recentemente sobre a diferença de inovação e invenção (ver texto aqui). Invenção refere-se ao lançamento da idéia nova e nunca antes pensada, mas que não obrigatoriamente levará a geração de riqueza e, por isso, não obrigatoriamente é uma inovação. Agora, o segundo ponto me parece crucial e muito mais polêmico: inovar, como a palavra bem representa, subentende uma coisa nova, seja um novo processo, um novo produto e mesmo a abertura de um novo mercado. Vou me concentrar na definição de inovação tecnológica do manual de Oslo que é um documento produzido pela Organização para a Cooperação e desenvolvimento Econômico(OCDE) e considerado uma referência na área: “Trata-se da introdução de produtos ou processos tecnologicamente novos e melhorias significativas em produtos e processos existentes”. Duas palavras que ressaltei merecem uma maior reflexão. A tecnologia é o conhecimento transformado em técnica para produção de bem e serviço. Essa definição nos introduz a idéia de conhecimento que por sua vez nos leva a de ciência (conhecimento sistematizado, dentro de uma estrutura teórica rigorosamente formulada). Este me parece um ponto crucial no desenvolvimento da inovação. Há uma relação de interação constante entre Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (alguns chamam de cadeia linear, outros de espiral interativa). A produção de conhecimento e sua incorporação em inovações tecnológicas são instrumentos cruciais para o desenvolvimento sustentável e que produza inovações significativas. Chego então ao ponto fundamental de minha opinião sobre inovação: a interação com a pesquisa científica. É essa interação que é capaz de alavancar inovações significativas(mesmo que não sejam de ruptura como definida por Schumpeter), mas que não sejam banais. Para aqueles que vão fazer projetos para competir por financiamento para inovação, gosto de dar a seguinte dica. Ao ter uma idéia para desenvolver uma inovação pergunte-se: i) há no mercado algo igual? ii) há no mercado alguém que também possa fazer o que estou pretendendo? A primeira pergunta é óbvia. Afinal, se já existir algo não é inovação né? A segunda pergunta visa avaliar algo mais sutil. Se há outros que podem fazer o que você se propõe, muito provavelmente a significância da sua inovação estará em xeque. Serve ainda para exemplificar novamente a importância da pesquisa. Projetos inovadores baseados na interação com a pesquisa não serão facilmente desenvolvidos pelas empresas que estão no mercado. O conhecimento de fronteira não é algo que está amplamente disponível no mercado e assim a inovação tende a ser significante.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Dahlem Konferenzen

O novo milênio é caracterizado pela crescente globalização e maior especialização científica. A complexidade crescente das exigências enfrentadas pelas pesquisas exige cada vez mais forte cooperação para além das fronteiras dos campos de investigação e de países. Com as oficinas da Dahlem Konferenzen, a Universidade Livre de Berlim (Berlin Freie Universität) proporciona um fórum para os pesquisadores altamente qualificados participarem de um diálogo internacional e interdisciplinar para enfrentar os desafios científicos do futuro.

A conferência, que é dividida em oficinas, foi iniciada em 1974 para fomentar a criatividade científica, o intercâmbio de informações e de idéias entre diversas áreas, bem como o desenvolvimento de novas teses sobre a base de estudados bem fundados. Ao mesmo tempo, as oficinas são destinadas a incentivar os investigadores a conceber futuras agendas de investigação. A metodologia de trabalho se baseia na avaliação do estado da arte e na produção de 16 documentos de trabalho preparados para um seminário final. Todo ano 40 estudiosos são convidados a discutir os temas do seminário com o objetivo de identificar as lacunas em matéria de investigações científicas, encontrar possibilidades de convergência em questões polêmicas, e influenciar a orientação de futuras investigações. Este ano a Dahlem Konferenzen tem o tema conduzido pela pergunta “Is there a Mathematics in Social Entities ? ” (Há uma matemática nas entidades sociais?). Grupos de trabalhos vão estudar a questão sob quatro diferentes perspectivas: modelagem do mercado de moedas, modelagem de regiões inovadoras e modelagem de crimes. O quarto grupo estudará uma questão ortogonal aos outros três temas onde a idéia de modelos, metáforas e visualização serão discutidas.

Estou introduzindo a Dahlem Konferenzen para dizer que, esse ano, terei a grande honra de participar da mesma. Fui convidado pela Universidade Livre de Berlim para ser um desses 40 pesquisadores que vão compor o grupo de altos estudos e participar das oficinas e da conferência. No meu caso, em particular, me concentrarei na questão da modelagem de crimes. Estarei de Agosto a Dezembro participando de estudos e discussões que ocorrerão pela internet e em dezembro irei à Alemanha para a reunião final. O convite é uma distinção importante e que me lisonjeia sobremaneira. Trata-se de um reconhecimento pelos trabalhos que venho desenvolvendo na área de computação com aplicações na segurança pública. Nesse momento de júbilo não posso deixar de agradecer a todos que formam a equipe da célula de engenharia de conhecimento. De alunos da graduação, mestrado e doutorado até os colegas professores com quem colaboro, todos têm contribuído e queria compartilhar com eles essa realização. Obrigado!


terça-feira, 20 de maio de 2008

Teses em Prateleiras

Na semana passada, participei de uma mesa redonda sobre Inovação no auditório Luis Esteves na Federação das Indústrias do Estado do Ceará. De uma forma geral, percebe-se uma convergência no discurso de que a inovação é necessária e que a cooperação com a academia é o caminho . Aliás, já escrevi sobre isso, mas alguns discursos que escutei recentemente levam-me a revisitar o tema. Na mesa redonda da FIEC, ressalte-se a palestra do Prof. Carlos Pacheco da UNICAMP. Pacheco foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia quando Bresser Pereira foi ministro. Teve participação ativa na formulação e operacionalização dos fundos setoriais que são a mola mestra do motor de financiamento em C&T que hoje faz tanto sucesso no País. Pacheco de forma muito elegante disse que o primeiro requisito para se ter cooperações persistentes entre Empresa e Universidade é de se compreender que esses dois agentes possuem agendas próprias. Dito de outra forma, ele estava a dizer que a Universidade não existe só para fazer inovação para as Empresas. A produção de conhecimento é algo eminentemente vasto, eclético, difuso, enfim, não pode ser podado nem restrito, muito menos enquadrado. É na liberdade de se pensar o inusitado, de propor o diferente e de estudar o que aparentemente não se vê aplicação, onde se encontra a capacidade de se fazer grandes descobertas. Essa liberdade não necessariamente está ligada a falta de foco ou implique redução de qualidade. O mecanismo que rege mundialmente a produção de conhecimento é bem definido e há rigor e exigência em todos os momentos. As publicações científicas são avaliadas por comitês de especialistas o que faz com que os pesquisadores sejam obrigados a buscar qualidade no que fazem. Não fazem somente o que lhes “dá na telha” como pode parecer a alguns. Teses e artigos científicos que não têm aplicação prática imediata não estão somente “expostas nas prateleiras” como gostam de expressar vozes incompreensíveis desse contexto. Essas teses alimentam o ciclo de produção de conhecimento, pois são objeto de estudo de outros que podem em futuro, muitas vezes longínquo, achar utilidades práticas para as idéias ali presentes. Interessante é que as mesmas pessoas que falam de teses em prateleiras são as primeiras que gostam de mencionar Havard, Stanford, MIT, etc. como exemplos de instituições de referencia no contexto acadêmico. Só que são exatamente essas instituições que produzem o maior número de “teses de prateleiras”. Conseqüentemente são as mais cobiçadas pelas Empresas para a realização de parcerias. O motivo é simples e fácil de entender. O que as Empresas querem com cooperações com as Universidades é ter acesso ao que não conhecem, ao que não conseguem produzir, querem a novidade. E sabe onde elas estão? Nas tão estigmatizadas prateleiras.

terça-feira, 25 de março de 2008

Fomento à Pesquisa em São Paulo

Na semana passada estive visitando a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa Científica do Estado de São Paulo) que é o equivalente à FUNCAP aqui no Estado do Ceará. A FAPESP é uma referência nacional por uma séria de motivos: sua história que data de mais de quatro décadas, o volume de recursos manipulados (1% da arrecadação do Estado de São Paulo), número de projetos de pesquisa financiados (cerca de oito mil por ano) e número de bolsas de apoio a pesquisa concedidas (7 a 8 mil bolsas por ano). O mais surpreendente é a sua forma autônoma de atuar, coisa que não tinha visto em nenhum órgão público no País. Nem a propalada autonomia universitária dá tanta liberdade. Essa autonomia vem em sua grande parte, da existência de um patrimônio, que vem se avolumando desde a década de 60, de cerca de 1 bilhão de reais. Somente os recursos decorrentes de aplicações financeiras a permitem investir cerca de 25% a mais do que o dinheiro destinado pelo Estado. Não é somente essa autonomia financeira que é surpreendente. Há uma autonomia administrativa que permite, por exemplo, que aumentos salariais, tanto reajustes como promoções, sejam definidos pelo seu Conselho de Administração, sem que sejam pedidas autorizações ao governo paulista nem que sejam seguidas as regras rígidas dos funcionários tradicionais. Não me surpreendeu saber que todos os governos estaduais vivem querendo reformular essa situação inclusive com ações cada vez mais contundentes da Procuradoria Estadual. No entanto, a FAPESP conta com um apoio de peso: a comunidade científica paulista. Uma comunidade que representa o que há de melhor na ciência brasileira e que tem um alto poder de influencia política. Argumentam que se trata de um modelo que está dando certo e que não existe razão para mudanças. Deixando de lado os meandros internos da FAPESP, vale a pensa ressalvar que, nessa visita, começamos a articular uma cooperação FAPESP-FUNCAP que certamente será um marco nas pesquisas científicas no Estado do Ceará. A FAPESP se dispôs a destinar recursos para que pesquisas cooperativas, entre pesquisadores paulistas e cearenses, sejam realizadas conjuntamente em temas estratégicos a serem definidos pelo Estado do Ceará. A contrapartida cearense é aportar recursos de mesma monta que os financiados pelo governo paulista. Tenho uma grande expectativa de que isso aconteça o mais breve possível.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Avaliação de Financiamentos de Pesquisa: Experiências Americanas e Européias

Como disse em um texto recente deste blog, tive a oportunidade de participar, em Bruxelas, de uma reunião onde pesquisadores europeus e brasileiros foram obrigados a apresentar a evolução de suas atividades dentro de um projeto euro-brasileiro de pesquisa científica financiado pela comunidade européia. Essa experiência me foi muito útil em especial por ter vivido no pós-doutorado nos EUA uma situação similar. Fiz parte de um grande projeto financiado pela DARPA (Agência Americana de Defesa) e estive presente em uma das reuniões de avaliação e prestação de contas. As similaridades entre os métodos usados pelas agencias de fomento americanas e européias são bem maiores que as diferenças. Tem-se sempre uma comissão de especialistas contratados pelas próprias agências que fazem a análise técnica do projeto durante o desenvolvimento do mesmo. A liberação de recursos para a continuação do projeto é condicionada a uma avaliação positiva desses especialistas. As reuniões de apresentação são extremamente importantes e duríssimas para os cientistas. Há uma sabatina sobre todos os aspectos do projeto, quer sejam financeiros quer sejam sobre o conteúdo científico. Agora, percebi uma diferença que me chamou a atenção. No modelo americano a proposta de projeto científico é feita por uma empresa encarregada de montar um consórcio de cientistas (no projeto que estava participando essa empresa era a Lockheed Martin), normalmente vindos de diferentes universidades. Essa empresa tem ainda a responsabilidade de gerenciar o projeto, definir o que deve ser entregue nas diferentes etapas, avaliar resultados e, sobretudo, de concretizar as pesquisas desenvolvidas. Ressalte-se ainda que essa empresa contrata um pesquisador para ser o gerente geral científico. É normalmente alguém altamente renomado e que possui uma ingerência forte nos rumos do projeto. Lembro-me que perguntei a um experiente cientista americano do porque deste modelo. Ele me disse que, antigamente, quando não se seguia este modelo, muitos projetos nem chegavam ao fim. Disse-me que cientistas não são obrigatoriamente bons gestores e com a inserção de uma empresa obtinha-se uma maior eficiência. Essas características demonstram nitidamente o perfil pragmático dos americanos. Há que se transformar as soluções científicas propostas por cada componente do consórcio em resultados o mais concreto possível. Os europeus tradicionalmente não seguem esse modelo. Há igualmente um consórcio, mas somente com uma instituição líder. A gerência geral do projeto é bem mais difícil de ser feita. Isso não impede, como já tinha dito anteriormente, que o processo de avaliação seja rigoroso e realizado durante o processo. E o que poderíamos dizer do modelo brasileiro? Bem, por não termos uma história longa de financiamentos a projetos científicos, creio que ainda estamos aprendendo. Em muitos projetos as avaliações e prestações de contas só são feitas ao final do mesmo. Depois que o dinheiro já foi gasto, o que se pode fazer? Ainda por cima as avaliações técnicas nem sempre existem, foca-se mais na prestação de contas meramente administrativa e financeira. Temos muito o que aprender, mas nosso atraso nessa área é compreensível.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Onde Está a Transparência no CNPq?

Embora ainda sinta a existência de um estereótipo de que cientista é acomodado e só quer fazer pesquisa na Universidade, creio que isso vem mudando nos últimos anos. Na verdade, a profissão de cientista/pesquisador sempre foi uma das mais competitivas do mundo. O conceito de globalização, tão comum nos dias atuais em especial no mundo empresarial, é conhecido pelos cientistas há muito tempo. A ciência não tem e nunca teve fronteiras. A descoberta de uma nova idéia e o lançamento de uma nova teoria sempre tiveram que ser validadas (e aceitas) por outros pesquisadores no mundo. É o que se chama no contexto acadêmico de avaliação por pares. Quando se submete um artigo a uma revista científica para análise, os editores da revista convidam outros cientistas, reconhecidamente competentes no tema em questão, para avaliar o trabalho submetido. As críticas e sugestões feitas ao trabalho são retornadas ao autor do trabalho quer seja para dar-lhe crédito, quer seja para apontar-lhe as deficiências encontradas no trabalho. Neste último caso o pesquisador tem condição de saber onde falhou e assim, de forma construtiva, melhorar seu trabalho. Esse sistema é universal e causa orgulho a comunidade científica, pois embute transparência e democracia. Pesquisadores quando demandam recursos financeiros aos órgãos de pesquisa para realizar suas pesquisas seguem um sistema similar(ou deveriam!). No Brasil, o mais importante órgão financiador de pesquisa é o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Pesquisadores frequentemente submetem projetos ao CNPq solicitando dinheiro. Este ano tive a desagradável experiência de submeter um pedido de auxílio ao CNPq e tê-lo rejeitado. Foi o sentimento de indignação ao receber a mensagem do CNPq indicando o indeferimento de meu pedido que me moveu a escrever esse texto. Recebi uma negativa que tinha o seguinte texto “O projeto não foi recomendado pelo Comitê por suas características técnico-científicas ou produção científica ou tecnológica do coordenador, ou pela proposta orçamentária”. Esclarecedor, não ? Como posso saber o que não me credenciou a receber os recursos? Como devo proceder no ano que vem? Vale ressaltar que os critérios a serem usados para a escolha do projeto são extremamente vagos e deixam a entender que basicamente será a qualidade do projeto (em termos científicos e financeiros) que será determinante. O mínimo que se deseja num caso desses é que se especifique a razão de uma rejeição. Enfim, o titulo deste texto no blog diz o que sinto.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cooperação Empresa com Universidade: Porque é Tão Difícil?

Há alguns dias atrás participei de uma reunião promovida pela Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia que tinha o objetivo de aproximar as empresas de Tecnologia da Informação (TI) do Estado às Universidades e a seus laboratórios de pesquisa. A metodologia empregada foi a de que cada laboratório exporia seus projetos e potencialidades para que os empresários pudessem identificar interesses em cooperação. As apresentações dos laboratórios me foram muito úteis, pois não conhecia o que estava sendo feito em boa parte deles. Principalmente os laboratórios da UFC do departamento de teleinformática. Embora necessária, a efetividade da aproximação Universidade-Empresa através de um maior conhecimento de suas competências é somente a ponta do iceberg. Creio que podemos olhar para o problema sob dois pontos de vista. Primeiro, há uma questão financeira. Pesquisas científicas requerem investimento, não são baratas e não dão resultado a curto prazo. Em se tratando do mercado cearense, que é majoritariamente formado por pequenas e médias empresas, recursos privados para pesquisas não são de forma alguma fáceis de serem obtidos. A margem de manobra das empresas é pequeníssima e ainda por cima, não custa lembrar, pesquisa embute um risco que as empresas quase nunca se sentem confortáveis em bancar. Depende-se assim fortemente de uma política governamental de indução a cooperação e que envolva recursos públicos. Os recentes investimentos do Governo Federal em subvenções econômicas às empresas privadas é um exemplo de como isso pode ser feito. O outro ponto de vista refere-se ao aspecto metodológico de como a cooperação pode ser feita efetivamente. Nesse aspecto, considero que a forma mais efetiva de cooperação deve envolver sempre que possível a imersão do pesquisador dentro da Empresa. Ele precisa conhecer o negócio da Empresa, suas potencialidades e seus problemas. Isso é fundamental porque a descoberta de um problema (em termos científicos) é uma das etapas cruciais do processo de pesquisa. Tenho visto muito freqüentemente os empresários buscarem na academia soluções para problemas que os mesmos identificam nas suas Empresas. Em sua grande maioria trata-se de problemas que podem ser resolvidos com a adoção de uma tecnologia adequada. Não deixam de ser importantes para a Empresa e podem otimizar suas operações, mas não se caracterizam como problemas de pesquisa e que, ao serem resolvidos, podem dar um diferencial competitivo significativo. Já mencionei em texto anterior (acesse-o clicando aqui) como algumas empresas estão criando um conselho de ciência e tecnologia e colocando pesquisadores acadêmicos para fazer parte do mesmo. Se provermos soluções para os problemas apresentados sob essas duas óticas, a aproximação será muito mais fácil. Na verdade, sou bem otimista quanto a essa aproximação, pois é exigência do mercado globalizado. Vale a lembrança do que também já mencionei no mesmo texto supra-referenciado. O maior motor de indução da aproximação universidade-empresa é a competição do mercado que vai exigir inovação em todos os níveis das organizações. Quem não investir nisso, não sobreviverá muito tempo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Inovação Tecnológica na FIEC

Essa semana a Federação das Indústrias do Estado do Ceará promoveu um evento centrado na temática da inovação. Uma louvável iniciativa que deveria deixar-nos esperançosos de que um futuro melhor se apresente na difícil tarefa de se conseguir mais produtividade na economia cearense. Na abertura do evento ocorreu uma apresentação do presidente da Caloi, o Sr. Edson Musa. Antes da apresentação do palestrante convidado para falar sobre inovação tecnológica, ouvi do presidente da FIEC seu diagnóstico de porque a indústria não investe em pesquisa: alta carga tributaria(sic). Lembrei-me de um dos primeiros textos que escrevi neste blog (clique aqui para acessá-lo ) que admitia mea culpa, de nós professores, por não termos sido hábeis suficientes para formar nossos empresários com uma visão de que pesquisa científica é investimento. Felizmente o palestrante convidado, durante sua apresentação, fez um diagnóstico bem mais elaborado para a pergunta: Porque a indústria não investe em pesquisa? Basicamente os seguintes fatores foram enumerados: i) o desenvolvimento de produtos foi historicamente destinado ao para mercado interno o que não levou a muita competição; ii) um mercado protegido ou pelo governo ou por situações de monopólios e oligopólios que também reduzem a competição; iii) Instabilidade econômica do País que favoreceu a visão de curto prazo; iv) Altos custos e baixa disponibilidade de recursos; v) Excesso de Burocracia; vi) Cultura de cópia de produtos americanos e, vii) baixa interação Universidade-Empresa. Eu adicionaria a esses fatores o puro desconhecimento dos empresários do que vem a ser a pesquisa, o que favorece a aceitação de clichês pejorativos da atividade e dos pesquisadores. Gostei especialmente de uma opinião do palestrante com a qual concordo fortemente: a competitividade microeconômica é um índice muito mais confiável para medir a riqueza de um país. Ou seja, a relação número de pequenos negócios em relação ao total de negócios dá um tom de quão dinâmica e emergente é a economia. Veja que essas observações vão ao encontro às minhas observações em textos anteriores de que a formação de doutores empreendedores, as incubadoras e o incentivo a criação de empresas com capital de risco, tipo modelo Vale do Silício, devem ser perseguidas para dinamizar a economia (veja texto sobre assunto aqui). Outra grande notícia trazida pelo palestrante foi a de que Empresas, como a Natura, estão criando um conselho de ciência e tecnologia e colocando professores universitários para participar do mesmo. Desta forma se consegue um processo de aproximação com a abertura das portas da Empresa o que facilita a identificação de oportunidades. Resta-nos esperar que as Empresas cearenses sigam a mesma idéia (e que não esperem os impostos baixarem para fazerem isso!).

terça-feira, 4 de setembro de 2007

ExpertCOP e Simulações de Polícia na Mídia

Domingo pela manhã, uma matéria sobre o ExpertCOP foi ao ar no canal UNIFOR de televisão. Foi uma boa oportunidade de atualizar o público sobre os avanços do projeto e a visão de futuro que temos com o mesmo. Abaixo, posto o vídeo da entrevista que já está no YouTube. Nesta segunda, o Diário do Nordeste também fez uma matéria sobre as pesquisas desenvolvidas na UNIFOR. Veja a matéria clicando aqui . Essa divulgação já vem tarde, visto que o projeto começou em 2002 e teve em 2005 seus maiores resultados com a aplicação em cursos para policiais de todo o País. Artigos sobre o projeto foram publicados em revistas científicas e em congressos científicos nacionais e internacionais. Nosso próximo desafio é tornar o uso do software realidade no processo de treinamento dos policiais militares cearenses na academia.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Faculdade, Universidade e Pesquisa Científica

Sou frequentemente questionado sobre a diferença entre Faculdade e Universidade. Elas não são absolutamente iguais, embora seja comum intercambiarmos o uso dos termos. Vários aspectos diferenciais poderiam ser apontados como a maior autonomia para criação de cursos que as universidades possuem e outros aspectos determinados pelo Ministério da Educação. No entanto, queria me concentrar em uma diferença que considero a mais relevante. As universidades, além do ensino, promovem a pesquisa científica, o que não é regra nas faculdades. Costumo dizer aos alunos da UNIFOR (que é privada), que passar toda a vida universitária sem experimentar nada de pesquisa é algo como pagar e não levar. Ao dizer isso, quero atentar para o fato de que as mensalidades das Universidades privadas são um pouco maiores do que as das faculdades em parte pelo custo de se propor a fazer pesquisa. Por exemplo, para fazer pesquisa é necessário ter um grande número de professores doutores que consequentemente ganham melhores salários. Além disso, os professores doutores pesquisadores requerem laboratórios com equipamentos modernos e demandam alto custo de instalação e de manutenção. O convívio com estes professores, bem como a utilização desses laboratórios, pode ser conseguida através da participação em projetos de iniciação científica. Normalmente os professores pesquisadores têm bolsas de iniciação científica a oferecer aos alunos de graduação. Trata-se de uma espécie de estágio onde o aluno começa a conhecer o contexto da pesquisa com o convívio com outros pesquisadores mestres, alunos de pós-graduação e com professores pesquisadores. Além disso, têm a oportunidade de conhecer tecnologia nova e que muitas vezes ainda não está disponível no mercado, tornando-se também uma ótima qualificação para a inovação e o empreendorismo. Você que é aluno de graduação de uma universidade, prove da pesquisa. Mas esteja preparado. Ela pode lhe contagiar.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Ensino Universitário e Ciência: Mea Culpa

Prosseguindo sobre o aspecto do reconhecimento da sociedade à pesquisa científica, queria tocar num ponto que considero essencial. Refere-se a nossa própria postura, professores universitários, no que tange ao ensino da ciência e do seu papel na sociedade e no futuro de um país. Em quatro ou mesmo cinco anos de um curso de graduação na universidade, tiramos algum tempo para ensinar algo sobre a pesquisa científica aos nossos alunos? Pelo menos informações básicas que os motivem a aprofundar conhecimento ou pelo menos os façam reconhecer sua importância. Parece-me que não fazemos muito isso. Tenho dado palestras sobre o assunto e não me surpreende mais, escutar dos alunos que não sabem nem o que é mestrado e muito menos a diferença para o doutorado. Nem sabem o que é uma tese. Não têm uma definição clara do que vem a ser e nem como se faz pesquisa científica. E por aí vai. Aqueles que se engajam em programas de iniciação científica (que são uma minoria) têm a possibilidade de conhecer mais. Os outros ficam totalmente ignorantes. Qual a conseqüência disto? Quando se tornarem empresários, trabalhadores públicos, profissionais liberais, enfim quando abraçarem sua profissão, eles terão dificuldade de reconhecer o valor de um cientista. Serão presas fáceis para os estereótipos pejorativos. Não é preciso procurar muito para encontrar um cidadão que considera que um cientista é um cara alienado, meio doido, tipo a foto famosa do Einstein descabelado e com língua pra fora. Como querer fazer cooperação Empresa-Universidade num contexto desses? Mea Culpa.