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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

5 em 5

Todos os anos a IBM lança um relatório em que faz previsões sobre o que será revolucionado nos próximos cinco anos devido às novas tecnologias emergentes.  Creio que esse negócio de fazer previsões em tecnologia é uma grande peça de marketing. É tarefa tão difícil que não acredito que os pesquisadores da IBM estejam preocupados com a acurácia das mesmas, mas como eles sabem que reverbera, nada como um relatório desses para ganhar mídia espontânea. No relatório deste ano, as seguintes previsões foram feitas:

Energia vinda das pessoas e das coisas que usamos. Em breve, os pesquisadores da IBM acreditam que até o próprio corpo humano servirá como fonte de energia para sensores e chips instalados no corpo humano.

Identidade biológica, características biológicas serão de mais em mais a forma mais natural de identificar um dispositivo digital e de se identificar par esses dispositivos. Senhas serão coisas do passado. Chegaremos em um caixa eletrônica e bastará falar nosso nome para ser atendido.

Leitores digitais da mente. Tecnologias que permitem a interação com computadores através do pensamento serão difundidas. Já escrevi sobre Brain Human Computer Interface aqui mesmo no blog

Fim do Gap Digital. Devido à difusão das tecnologias digitais móveis, inclusão digital não será mais necessária. As pessoas serão incluídas naturalmente.

Personalização da informação será natural. Publicidade, por exemplo, será tão precisa em relação aos interesses dos usuários que o número de spam será cada vez menor e mais fácil de ser detectado.

As previsões variam radicalmente em termos de viabilidade e impacto. As duas primeiras previsões estão mais no campo da ficção científica. Em matrix, o ser humano já servia de bateria para máquinas, enquanto que em Gattica tínhamso todos identificadores únicos. As duas últimas são bem mais viáveis e não envolvem tanta revolução assim. Na verdade, a IBM tem investido forte em Business Intelligence, Smart Cities e outros termos midiáticos referentes ao tratamento de grandes volumes de dados. Era de se esperar que esse tipo de tema fizesse parte de um relatório vindo de lá.

A questão da inclusão digital me parece mais retórica. Contempla um otimismo meio que alienante. Afinal de contas, sem inclusão educacional fica difícil acreditar em inclusão digital. Não sei para que mundo a IBM está olhando.

Agora um ponto crucial que é quase ortogonal à essas precisões é de que elas agridem radicalmente à nossa privacidade e levanta mesmo questões morais sobre o acesso de nossas informações mais íntimas. Essas questões não parecem ser interessantes de serem levantadas pelos pesquisadores da IBM, pelo menos não em uma peça publicitária. Veja mais sobre as previsões no vídeo abaixo (em inglês):


terça-feira, 19 de julho de 2011

C&T na Câmara Setorial de Tecnologia da Informação

Participei hoje pela manhã, na Agencia de Desenvolvimento do Estado do Ceará – ADECE, de mais uma reunião ordinária da Câmara Setorial de Tecnologia da Informação – CSTIC. Represento a FUNCAP como suplente do Pres. Tarcísio Pequeno.

O Dep. Federal Ariosto Holanda foi convidado para palestrar e expor ideias sobre C&T, inovação e TIC. Ariosto mostrou em suas transparências um pouco da realidade brasileira. Um País em crescimento, mas com um enorme passivo que se formou nos últimos anos. Um passivo, que em sua grande parte, se concentra na área da educação, seja a básica, seja a de nível superior.

Vários números foram apresentados. O Deputado enfatizou a necessidade de mais investimento em extensão para transferência tecnológica. Ele acredita que há muito conhecimento estocado hoje nas universidades e que pode e deve chegar aos meios produtivos. Ótimo que na reunião estavam presentes representantes da FIEC, SEBRAE, BNB e Universidades. Eles são atores fundamentais para realizar isso. 

Escutando os comentários das pessoas após a apresentação feita pelo deputado, vi-me novamente na situação que já começa a me ser familiar. A diversidade de percepção do que deve ser uma inovação é muito grande. Todo mundo tem seu conceito de inovação e consequentemente se permite definir o que é relevante para ser inovador. A rigor todos estão certos. Afinal de contas, há exemplos de inovações os mais diversos, nas mais diversas áreas e também com os mais diversos impactos. Só que conseguir engajar um processo de discussão produtivo e construtivo do papel do Estado e das devidas instituições públicas nesse contexto é muito difícil.

A eterna discussão sobre cooperação Universidade-Empresa, por exemplo, vira e mexe volta à tona com observações estereotipadas que nada acrescentam à questão. Já escrevi sobre isso aqui  e aqui, mas há na mente das pessoas uma imagem tão forte de estereótipos que tendem sempre a ressaltar a mesma visão de que a Universidade é distante, professores não querem inovar, etc.

Na FUNCAP tenho buscado contribuir e fazer minha parte no projeto atual em andamento. Várias ações de aproximação universidade-empresa, fortalecimento da pesquisa e de estabelecer uma cadeia de inovação vêm sendo realizadas.

Continuo acreditando que a inovar é inventar o futuro. Uma metodologia natural de pensar o futuro é a pesquisa científica. É o que os cientistas estão habilitados a fazer. Evidentemente que inovar não é algo exato e  experimentar é regra. Há que se aprender com os erros. Por isso inovação sempre leva um tempo maior do que o que a gente prevê. Há muitos percalços no caminho. Como ainda estamos, no Estado, em fases preliminares desse processo, fica todo mundo achando que há algo errado. Tenho convicção de que o caminho que está sendo trilhado, se continuado, dará bons frutos.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Decadência na Inovação Americana?


Estariam os americanos perdendo sua capacidade de inovar e assim manterem-se líderes mundiais? Os incrédulos de que essa característica é importante, basta ver todas as inovações tecnológicas que aparecem diariamente na Internet para perceber o quão pujante é o País nessa área.

A capacidade de inovar possui uma correlação com a política imigratória. à histórica relação que os EUA sempre tiveram com os imigrantes. A Intelligentsia americana foi fortemente originada de migrantes, judeus e orientais (incluindo Indianos), em maioria. Os governos americanos sempre induziram a imigração intelectual e contavam com o símbolo da América Terra dos Sonhos para seduzir os que buscavam um novo ambiente de trabalho e residência.

Com o passar do tempo isso quase que se institucionalizou e foi um dos fatores que levou a diminuição do interesse do jovem americano em seguir a carreira científica. Alguns crêem que houve igualmente uma queda no sistema de ensino básico americano, o que fez com que o concorrido processo competitivo de entrada nas grandes universidades americanas fosse vencido majoritariamente por alunos vindos de fora do País. Isso não parecia ser um problema. Na verdade, se tratava mesmo da estratégia principal do processo de ” imigração seletiva”. Os alunos vinham estudar e os bons “seduziam-se” facilmente pelo American Way of Life e pelas propostas vantajosas das Empresas e Universidades de lá.

Isso haveria de acabar um dia. E parece que o começo veio bem no começo do novo século. As economias crescentes da China e Índia, principais fornecedoras de migrantes , também passaram a seduzir. A crise econômica foi outro duro golpe nos EUA. O desemprego crescente por lá também está servindo para mostrar que o País do Futuro pode estar bem mais próximo à terra de nascença dos alunos migrantes. Além disso, os governos de países exportadores decidiram lançar políticas agressivas também. Os chineses lançaram um projeto enorme de aquisição cérebros a ser executado em cinco anos. Em 2008 começaram um projeto para contratar  2000 cientistas estrangeiros e trazer de volta para casa cerca de 1000 cientistas  chineses que haviam deixado o País. Cerca de U$150 milhões estão sendo aplicados para esse fim. Não esquecer que isso tudo deve ser feito juntamente com investimentos fortes no atual sistema educacional. 

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quer viver mais? Tenha amigos

Muito interessante esse estudo que tomei conhecimento no site LiveScience
Já estamos carecas de saber (alias, nós quarentões, literalmente) que fazer exercício físico, hábitos alimentares e deixar de fumar são fatores essenciais para aumentar a longevidade. Novos estudos sugerem que há um outro fator importante para termos vida longa: relacionamentos sociais. Estudos desenvolvidos por pesquisadores da universidade de Brigham Young University, Utah, EUA (publicado no PLoS Medicine Journal). mostram que pessoas com fortes laços sociais podem aumentar as chances de sobreviência em até 50% para um certo período de tempo. Isso é quase o dobro tão benéfico quanto atividade física em termos de capacidade de reduzir as chances de morrer cedo.
Os pesquisadores revisaram 148 estudos que examinaram o link entre relacionamentos sociais e mortalidade. Foram estudos que envolveram mais de 308 mil participantes em pessoas que foram seguidas em média durante cerca de 7.5 anos. Os estudos mediram os relacionamentos sociais de várias formas como o tamanho da rede social do individuo, se ele era casado ou não bem como o quão engajado nos relacionamentos eram os indivíduos. Perguntas sobre como as pessoas achavam que eram vistas pelos amigos também foram realizadas. Visaram assim capturar o sentimento de se sentir importante aos outros.
Mas porque mesmo os relacionamentos sociais nos ajudam a viver mais? Nada que já não saibamos. Amigos nos ajudam a combater as situações stressantes cotidianas, nos encorajam, apoiam-nos quando necessário, acompanham-nos no lazer, etc. Enfim, o ditado popular “Mais vale um amigo na praça do que dinheiro no bolso”agora é que ganha força mesmo. Tem validação científica. 

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Porque a Informação na Internet Flui tão Rapidamente?

Em alguns textos desse blog (aqui e aqui, por exemplo), escrevi sobre as celebridades da web e sobre indicadores de porque elas aparecem. Mas nem todas as causas se relacionam com o aspecto cultural ou comportamental dos internautas. Uma das razões é porque a web é uma rede que possui algumas características que a tornam infraestrutura adequada para fluxo da informação. Deixem-me introduzir dois conceitos estatísticos importantes para a compreensão do todo. O primeiro é o de distribuição probabilística de uma variável aleatória (puxa vida!). Calma. Basta entender que a maioria dos fenômenos que ocorre na vida real segue o que chamamos de distribuição normal ou gaussiana. Por exemplo, se estivermos interessados em observar a altura dos cidadãos adultos de Fortaleza (a variável a ser observada). A maioria vai estar perto da média (admitamos 1,68m). Poucos estariam nos extremos (2,00m e 1,50m). Se traçarmos um gráfico onde no eixo X temos as alturas das pessoas e no Y a quantidade de pessoas com aquela altura, veremos que a curva tem um formato de sino (por isso chamada de em inglês, Bell Curve). O pico da curva é a média e as caudas, tanto esquerda como direita, representam os extremos com as poucas pessoas altas e as poucas baixas, respectivamente. Agora, nem tudo no mundo segue essa regra. Algumas coisas têm um comportamento bem “desajeitado” (ou seja, não seguem a curva normal). Por exemplo, vamos observar agora os aeroportos do mundo todo (colocando-os no eixo X) em relação à quantidade de vôos que eles recebem por dia (eixo Y). Será que o gráfico faz a mesma curva? Ou seja, poderíamos dizer que a maioria dos aeroportos recebe em média o mesmo número de vôos? Evidentemente que não. Temos poucos aeroportos no mundo que recebem milhares de vôo por dia e muitos aeroportos que recebem poucos vôos. Esses poucos aeroportos com muitos vôos são chamados de hubs. Se traçarmos a curva para retratar a distribuição dos aeroportos teremos a curva B da figura abaixo. Já escrevi sobre essa curva chamada de cauda longa aqui. Voltemos então à questão da web. Duas características próprias da web seguem a distribuição tipo cauda longa. Se escolhermos as páginas da web como nossa variável de observação e a quantidade de links que apontam para cada página (ou mesmo a quantidade de acessos que elas recebem), observamos que se forma uma rede onde poucas páginas recebem milhões de links (os hubs são Google, Facebook, Youtube, Blogger, etc,) e milhões de outras recebem pouco links. Isso também vale para as redes que se formam nos sites de relacionamento tipo Orkut, Facebook, MySpace, etc. Nelas temos poucas pessoas que têm milhares de amigos e são super conectadas enquanto temos milhões de pessoas que são pouco conectadas. Mas o que isso tem mesmo a ver com a velocidade do fluxo da informação? Essas redes, ditas livres de escala (scale free, em inglês) possuem uma propriedade que influencia diretamente a velocidade de transmissão da informação: a conexão entre dois pontos quaisquer da rede se faz em média com poucos passos. É por isso que se consegue ir de avião de qualquer canto do mundo para qualquer outro somente com duas ou no máximo três conexões. Os hubs acabam se conectando e fazem um papel de centralizadores e distribuidores entre pontos com poucas conexões. Assim uma informação que sai de um ponto da rede chega aos outros muito rapidamente, pois viaja através de hubs. A figura C mostra o formato de uma rede desse tipo. O mais interessante é que essas características estão presentes em redes diversas que vão desde redes moleculares, partículas subatômicas e mesmo distribuição de crimes numa cidade. O estudo dessas redes deu origem ao que alguns batizam de ciência das redes. Uma área com enfoque multi-disciplinar explorada por físicos, biólogos, químicos, sociólogos e cientistas de computação dentre outros.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Números da Ciência Brasileira

O trabalho de um cientista não se faz de forma desprovida de avaliação ou de medição de produtividade. Muito pelo contrário. É um métier bem competitivo com métricas mundialmente aceitas e seguidas. Para os não familiarizados sobre como funciona esse mundo. Deixe-me descrever um simples aspecto que é muito importante nesse contexto. As descobertas feitas pelos pesquisadores são validadas e ao mesmo tempo divulgadas ao mundo através de publicações científicas. Os periódicos científicos e os anais das conferencias científicas contemplam artigos escritos por pesquisadores. O controle editorial do que está sendo publicado é feito por outros pesquisadores e esse mecanismo chamado de avaliação por pares (em inglês, peer review) é fundamental na comunidade acadêmica. Publicar artigos científicos é assim crucial para a vida de um pesquisador que passa naturalmente a ser avaliado pela quantidade de artigos que conseguiu publicar. Há inclusive uma máxima dita tradicionalmente em inglês publish or perish (publique ou pereça) que é muito bem conhecida pelos acadêmicos. Mas não são só os pesquisadores que passaram a perseguir e monitorar seus índices de publicação científica. Trata-se de uma questão política e mesmo estratégica para uma nação. Nessa era do conhecimento em que vivemos, índices de produção de conhecimento estão se tornando tão (e talvez se tornarão mais) importantes do que índices econômicos ou de produção industrial. São indicadores da criatividade e do potencial de desenvolvimento de uma nação. O que ocorreu na semana passada é emblemático dessa realidade que descrevo. O Ministro da Educação fez muita festa ao anunciar que o Brasil subiu duas posições no ranking de número de artigos científicos publicados em 2008 e ocupa a 13ª posição. Em 2007, o país estava no 15º lugar, atrás da Holanda e da Rússia, países que foram ultrapassados este ano. Entusiasmado o ministro emendou:
"Nós estamos vivendo um momento no país em que foi possível, de um ano para outro, aumentar em 50% a produção científica brasileira, em periódicos indexados por agência internacional"
Os dados mencionados pelo ministro constam da estatística realizada pela empresa Thomson Reuters, que contabiliza anualmente os números de trabalhos científicos publicados por 200 países. Mas o entusiasmo do ministro, além de emblemático, é igualmente exemplo de como os meandros desses mecanismos são tortuosos e complexos. Não é a toa que existe uma área da ciência que se destina a estudar os mecanismos de medição da ciência: a ciênciometria. Esse sucesso extraordinário já está sendo contestado, pois, dizem alguns, que ele decorre principalmente de uma mudança na forma de cálculo usada pelo Instituto Thomson. Como mais revistas brasileiras passaram a fazer parte dos arquivos do Instituto, a produção brasileira cresceu automaticamente. Ressalte-se que a avaliação quantitativa não é a única maneira de se mensurar a produtividade científica. Uma avaliação qualitativa se concentra não somente no quanto o pesquisador publicou, mas sobretudo no impacto do que foi feito. Esse impacto é normalmente medido pelo quanto o trabalho é usado ou citado por outros trabalhos. O fato é que as avaliações qualitativas da produção científica brasileira ainda são muito baixas o que acaba por ratificar as críticas dos mais céticos. De qualquer forma, sou extremamente otimista com toda essa discussão, não somente pelos números quaisquer que sejam, mas porque vivenciei (e vivencio) nesses últimos dez anos uma revolução na ciência brasileira. Uma revolução provocada certamente pelos incentivos governamentais de formação de doutores (continuados há mais de 20 anos), mas principalmente pela mudança na cultura da sociedade que lenta, mas gradativamente ergue a ciência ao patamar de importância que deve possuir em qualquer nação desenvolvida. Os números hão de mostrar isso, mais cedo ou mais tarde.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Exames de Detecção de Câncer de Próstata Salvam Vidas?

Extremamente interessante a reação de algumas pessoas quando descrevo o estudo científico publicado no New England Journal of Medicine e divulgado no caderno de saúde do New York Times(NYT). Antes de refletir sobre as diferentes reações, deixem-me resumir o que compreendi do estudo. Ressalto que se trata de um assunto que não é minha especialidade e por isso mesmo não possuo conhecimento sobre o estado da arte na área. Novos estudos que se contrapõem a esse que vou descrever podem surgir, mas atualmente o estudo em questão parece ser bem atual. A fonte principal em que baseei minha interpretação foi a matéria do NYT com o título “Prostate Test Found to Save Few Lives” (Descoberto que teste de câncer de próstata salva poucas vidas). São dois os estudos que mostram que fazer testes anuais que buscam identificar a existência de tumores, como o teste de PSA, salva poucas vidas e levam a riscos e tratamentos desnecessários a uma grande quantidade de homens. Vou buscar resumir o que dizem os estudos.Para maiores informações consultem diretamente a matéria do NYT aqui. Os testes, ditos de detecção, como toque, PSA e, em último caso, biópsia, visam indicar se uma pessoa tem um tumor. O que dizem os especialistas é que na maioria de casos de câncer de próstata, os tumores tendem a crescer muito lentamente (ou não crescer) e não constituem uma ameaça a vida dos pacientes. Para o caso dos tumores que crescem rapidamente, mesmo que se faça diagnóstico cedo, a probabilidade de se salvar vidas é pequena. Os estudos — um na Europa e outro nos EUA — foram considerados pelo médico chefe da Sociedade Americana de Câncer como os mais importantes na história da saúde masculina. As conclusões do estudo europeu indicam que, dentro de um intervalo de dez anos, para cada vida salva com o tratamento cirúrgico em função dos testes, 48 homens tiveram tratamento desnecessário. Dito outramente, suponha que alguém faça um teste de PSA hoje e depois uma biópsia revela que essa pessoa tem câncer, o que a leva ao tratamento. Há uma chance em 50 que, em 2019, ele tenha tido a vida salva pelo tratamento. Por outro lado, há 49 chances em 50 que a pessoa tenha sido tratada desnecessariamente para um câncer que não ameaçaria sua vida. Na verdade, na medicina, essa postura, digamos conservadora, ocorre em muitos outros problemas. O problema é que os efeitos colaterais do tratamento do câncer de próstata, apesar dos avanços, ainda são muito traumáticos. Ele pode levar a impotência, incontinência e algumas vezes a dores na hora de defecar ou diarréia crônica quando radiação é feita. A matéria do NYT coleta depoimentos de vários médicos que dizem o quanto o estudo é importante porque ele permite informar os pacientes da validade de se fazer anualmente os testes de detecção com dados concretos, coisa até então inexistente.
Um dos estudos envolveu 182 mil homens em sete países europeus; o outro aproximadamente 77 mil homens em 10 centros médicos nos EUA. Em ambos, os participantes foram randomicamente selecionados para fazer ou não o teste preventivo. Os dois grupos foram seguidos por mais de uma década. Comparações entre o grupo que fazia os exames preventivos e o grupo dos que não faziam mostraram que as vidas salvas, por se fazer os testes de detecção, foram pouquíssimas. No estudo europeu, nos primeiros sete anos, não houve nenhuma melhoria no grupo dos que fizeram os testes. No americano houve uma redução de 13% na taxa de mortalidade no grupo dos que não fizeram os testes! Em 1990, quando os estudos começaram, se acreditava que os testes de detecção reduziriam o número de mortes em 50%. Houve muito debate e crítica ao estudo, pois se dizia antiético fazer com que algumas pessoas não se submetessem aos mesmos. Na Europa esse problema não existiu muito, pois a política pública de boa parte dos países da Comunidade Européia não prevê a realização dos testes de detecção. O fato é que a redução de 50% não veio a ocorrer, o que de certa forma ratifica os estudos. O estudo americano ainda vai continuar a acontecer e os participantes serão acompanhados. Talvez em um prazo mais elástico haja uma mudança nas conclusões que hoje estão sendo tiradas. Os avanços nos métodos cirúrgicos para que se reduza os efeitos colaterais também devem ser considerados. De qualquer forma, as conclusões dos resultados desses estudos certamente forçarão as autoridades mundiais de saúde a refletir o impacto das mesmas na política pública de muitos países. Em um próximo texto vou refletir um pouco sobre a reação das pessoas ao serem apresentadas a esse estudo.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Filantropia de Bill Gates

Existem muitas pessoas no mundo que dedicam tempo para ajudar aos mais necessitados. Médicos e enfermeiros de organizações como Médecins Sans Frontièrs http://www.msf.org/ (Médicos sem fronteiras) são exemplos de trabalhadores humanitários que se esforçam mundo afora para melhorar as condições de vida das pessoas, em especial em países do terceiro mundo. A filantropia é outra forma comum de apoiar causas humanitárias e é bem difundida, particularmente nos Estados Unidos. A pesquisa científica na área médica, por exemplo, é fortemente subsidiada por fundações privadas, normalmente, criadas por celebridades. Bill Gates, o fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do mundo, é nos dias atuais a estrela mundial da filantropia. Ele aposentou-se da Empresa e decidiu empregar todas as suas energias na sua Fundação e no trabalho filantrópico. Diferentemente, da maioria das celebridades que apóia as pesquisas contra câncer, AIDS e outras doenças globais, Bil Gates inova. Nesse vídeo abaixo, em que ele palestra no TED, uma conferencia sobre empreendedores e inovadores globais, pode-se conhecer seus dois projetos prioritários: combater mosquitos como os que transmitem a malária e aumentar a qualidade dos professores de ensino básico e médio. A malária é uma das doenças que mais mata no mundo e exemplifica muito bem a perversa lógica da pesquisa científica privada que se orienta pelo retorno do investimento. Trata-se de uma doença que está erradicada nos países ricos e que aflige somente às populações do terceiro mundo. A conseqüência disso é que não há dinheiro para o desenvolvimento de pesquisas científicas para resolver esse problema, pois as drogas produzidas não trarão lucro aos grandes laboratórios farmacêuticos. Para exemplificar essa situação, ele mostra que existe no mundo mais investimento em pesquisas para encontrar drogas contra a calvice do que contra a malária. Na sua palestra, fez graça ao soltar uns mosquitinhos na platéia (não infectados, é claro!) dizendo que não havia razão para somente os pobres conhecerem a experiência de serem picados por mosquitos. Outra prioridade da Fundação Bill Gates é a busca pela melhoria dos professores. Aqui, quero enfatizar que o termo que ele é usa é professor mesmo (embora evidentemente a melhoria do ensino-aprendizagem seja uma conseqüência da melhoria dos professores). Ele acredita que está fundamentalmente nos professores a chave para a melhoria do ensino. Suportado por dados que mostram a diferença entre professores de escolas americanas de alta qualidade e aqueles de baixa qualidade, Gates diz que é preciso transformar a forma de ensinar. Para começar, ele sugere que a forma de premiar os professores mude. Tradicionalmente, os professores são premiados por antiguidade e título. Em suas pesquisas, evidenciou-se que, nas escolas de alto nível americanas, esses dois fatores não estão diretamente correlacionados com a qualidade dos melhores professores. Vejam o vídeo (em inglês) para compreender mais o que Gates planeja. Nele pode-se ver seu entusiasmo na nova função de bom moço. Gates é muito novo, tem muito dinheiro e é muito inteligente. Se tiver notoriedade por suas ações filantrópicas comparável com a que teve com a Microsoft, a humanidade sairá ganhando.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Harnack Haus

A primeira emoção que tive ao chegar em Berlim deu-se na chegada ao hotel. Estou hospedado na Harnack Haus, uma antiga casa criada nos anos 20 para receber reuniões e conferencias de cientistas alemães e do resto do mundo. Por mais de 80 anos ela possui uma aura de magia, pois representa o símbolo da Academia germânica uma das mais renomadas de todos os tempos. A descoberta da fissura do átomo, por exemplo, foi feita há poucos metros daqui por cientistas que estavam em uma reunião na Haus (casa em alemão). A casa está intimamente ligada a Dahlem – o nome do bairro que outrora era um município – colônia de cientistas nos arredores da Universidade Livre de Berlin. Ela foi primeiramente sede da Sociedade Kaiser Wilhelm (no final do império Prussiano – república de Weimar) que se destinava a promoção da Ciência. Depois da segunda guerra, virou quartel dos americanos que saíram depois da queda do muro. Depois disso, voltou a ter os objetivos de antes e passou a ser gerida pela prestigiosa Sociedade Max Planck. Sinto-me enebriado pela força dos gigantes que passaram pela casa e seus compartimentos. Diga-se de passagem que não é somente o valor histórico do hotel que merece elogio. O restaurante é muito bom. Já pagou a vinda (Assim não vale. Os alemães já pagaram tudo mesmo)!

terça-feira, 25 de março de 2008

Fomento à Pesquisa em São Paulo

Na semana passada estive visitando a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa Científica do Estado de São Paulo) que é o equivalente à FUNCAP aqui no Estado do Ceará. A FAPESP é uma referência nacional por uma séria de motivos: sua história que data de mais de quatro décadas, o volume de recursos manipulados (1% da arrecadação do Estado de São Paulo), número de projetos de pesquisa financiados (cerca de oito mil por ano) e número de bolsas de apoio a pesquisa concedidas (7 a 8 mil bolsas por ano). O mais surpreendente é a sua forma autônoma de atuar, coisa que não tinha visto em nenhum órgão público no País. Nem a propalada autonomia universitária dá tanta liberdade. Essa autonomia vem em sua grande parte, da existência de um patrimônio, que vem se avolumando desde a década de 60, de cerca de 1 bilhão de reais. Somente os recursos decorrentes de aplicações financeiras a permitem investir cerca de 25% a mais do que o dinheiro destinado pelo Estado. Não é somente essa autonomia financeira que é surpreendente. Há uma autonomia administrativa que permite, por exemplo, que aumentos salariais, tanto reajustes como promoções, sejam definidos pelo seu Conselho de Administração, sem que sejam pedidas autorizações ao governo paulista nem que sejam seguidas as regras rígidas dos funcionários tradicionais. Não me surpreendeu saber que todos os governos estaduais vivem querendo reformular essa situação inclusive com ações cada vez mais contundentes da Procuradoria Estadual. No entanto, a FAPESP conta com um apoio de peso: a comunidade científica paulista. Uma comunidade que representa o que há de melhor na ciência brasileira e que tem um alto poder de influencia política. Argumentam que se trata de um modelo que está dando certo e que não existe razão para mudanças. Deixando de lado os meandros internos da FAPESP, vale a pensa ressalvar que, nessa visita, começamos a articular uma cooperação FAPESP-FUNCAP que certamente será um marco nas pesquisas científicas no Estado do Ceará. A FAPESP se dispôs a destinar recursos para que pesquisas cooperativas, entre pesquisadores paulistas e cearenses, sejam realizadas conjuntamente em temas estratégicos a serem definidos pelo Estado do Ceará. A contrapartida cearense é aportar recursos de mesma monta que os financiados pelo governo paulista. Tenho uma grande expectativa de que isso aconteça o mais breve possível.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

WikiCrimes no Ciência OnLine

WikiCrimes é hoje manchete no Jornal Ciência OnLine. A matéria foi muito bem conduzida pelo jornalista responsável e os pontos principais (negativos e positivos) do projeto foram bem explorados (acesse-a aqui). Considero o Ciência Online um espaço extremamente adequado para veicular a idéia de transparência nos registros de dados criminais, pois tem um público cativo e com um nível de instrução que certamente poderá gerar efeitos multiplicadores nos registros de WikiCrimes. Neste momento que estamos completando um mês de funcionamento, a análise do histórico de registros e de usuários permite-nos prever um futuro promissor. Em breve estaremos lançando consultas estatísticas de cidades mais participativas e de usuários mais participativos. As cooperações estão começando a ser costuradas e tendem a dar um incremento significativo nos registros. Nunca é tarde para lembrar “Compatilhe informações sobre crimes. Saiba onde não é seguro”.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Onde Está a Transparência no CNPq?

Embora ainda sinta a existência de um estereótipo de que cientista é acomodado e só quer fazer pesquisa na Universidade, creio que isso vem mudando nos últimos anos. Na verdade, a profissão de cientista/pesquisador sempre foi uma das mais competitivas do mundo. O conceito de globalização, tão comum nos dias atuais em especial no mundo empresarial, é conhecido pelos cientistas há muito tempo. A ciência não tem e nunca teve fronteiras. A descoberta de uma nova idéia e o lançamento de uma nova teoria sempre tiveram que ser validadas (e aceitas) por outros pesquisadores no mundo. É o que se chama no contexto acadêmico de avaliação por pares. Quando se submete um artigo a uma revista científica para análise, os editores da revista convidam outros cientistas, reconhecidamente competentes no tema em questão, para avaliar o trabalho submetido. As críticas e sugestões feitas ao trabalho são retornadas ao autor do trabalho quer seja para dar-lhe crédito, quer seja para apontar-lhe as deficiências encontradas no trabalho. Neste último caso o pesquisador tem condição de saber onde falhou e assim, de forma construtiva, melhorar seu trabalho. Esse sistema é universal e causa orgulho a comunidade científica, pois embute transparência e democracia. Pesquisadores quando demandam recursos financeiros aos órgãos de pesquisa para realizar suas pesquisas seguem um sistema similar(ou deveriam!). No Brasil, o mais importante órgão financiador de pesquisa é o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Pesquisadores frequentemente submetem projetos ao CNPq solicitando dinheiro. Este ano tive a desagradável experiência de submeter um pedido de auxílio ao CNPq e tê-lo rejeitado. Foi o sentimento de indignação ao receber a mensagem do CNPq indicando o indeferimento de meu pedido que me moveu a escrever esse texto. Recebi uma negativa que tinha o seguinte texto “O projeto não foi recomendado pelo Comitê por suas características técnico-científicas ou produção científica ou tecnológica do coordenador, ou pela proposta orçamentária”. Esclarecedor, não ? Como posso saber o que não me credenciou a receber os recursos? Como devo proceder no ano que vem? Vale ressaltar que os critérios a serem usados para a escolha do projeto são extremamente vagos e deixam a entender que basicamente será a qualidade do projeto (em termos científicos e financeiros) que será determinante. O mínimo que se deseja num caso desses é que se especifique a razão de uma rejeição. Enfim, o titulo deste texto no blog diz o que sinto.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cooperação Empresa com Universidade: Porque é Tão Difícil?

Há alguns dias atrás participei de uma reunião promovida pela Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia que tinha o objetivo de aproximar as empresas de Tecnologia da Informação (TI) do Estado às Universidades e a seus laboratórios de pesquisa. A metodologia empregada foi a de que cada laboratório exporia seus projetos e potencialidades para que os empresários pudessem identificar interesses em cooperação. As apresentações dos laboratórios me foram muito úteis, pois não conhecia o que estava sendo feito em boa parte deles. Principalmente os laboratórios da UFC do departamento de teleinformática. Embora necessária, a efetividade da aproximação Universidade-Empresa através de um maior conhecimento de suas competências é somente a ponta do iceberg. Creio que podemos olhar para o problema sob dois pontos de vista. Primeiro, há uma questão financeira. Pesquisas científicas requerem investimento, não são baratas e não dão resultado a curto prazo. Em se tratando do mercado cearense, que é majoritariamente formado por pequenas e médias empresas, recursos privados para pesquisas não são de forma alguma fáceis de serem obtidos. A margem de manobra das empresas é pequeníssima e ainda por cima, não custa lembrar, pesquisa embute um risco que as empresas quase nunca se sentem confortáveis em bancar. Depende-se assim fortemente de uma política governamental de indução a cooperação e que envolva recursos públicos. Os recentes investimentos do Governo Federal em subvenções econômicas às empresas privadas é um exemplo de como isso pode ser feito. O outro ponto de vista refere-se ao aspecto metodológico de como a cooperação pode ser feita efetivamente. Nesse aspecto, considero que a forma mais efetiva de cooperação deve envolver sempre que possível a imersão do pesquisador dentro da Empresa. Ele precisa conhecer o negócio da Empresa, suas potencialidades e seus problemas. Isso é fundamental porque a descoberta de um problema (em termos científicos) é uma das etapas cruciais do processo de pesquisa. Tenho visto muito freqüentemente os empresários buscarem na academia soluções para problemas que os mesmos identificam nas suas Empresas. Em sua grande maioria trata-se de problemas que podem ser resolvidos com a adoção de uma tecnologia adequada. Não deixam de ser importantes para a Empresa e podem otimizar suas operações, mas não se caracterizam como problemas de pesquisa e que, ao serem resolvidos, podem dar um diferencial competitivo significativo. Já mencionei em texto anterior (acesse-o clicando aqui) como algumas empresas estão criando um conselho de ciência e tecnologia e colocando pesquisadores acadêmicos para fazer parte do mesmo. Se provermos soluções para os problemas apresentados sob essas duas óticas, a aproximação será muito mais fácil. Na verdade, sou bem otimista quanto a essa aproximação, pois é exigência do mercado globalizado. Vale a lembrança do que também já mencionei no mesmo texto supra-referenciado. O maior motor de indução da aproximação universidade-empresa é a competição do mercado que vai exigir inovação em todos os níveis das organizações. Quem não investir nisso, não sobreviverá muito tempo.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Mercado de Desenvolvimento de Software Off-shore no Ceará

No mês de Abril escrevi que achava que a profissão de informática passava por uma espécie de crise de identidade (veja o texto clicando aqui). Não me é muito clara a direção que ela está tomando mesmo para um futuro em médio prazo. Tenho gradativamente aumentado esse sentimento (reconheço que não muito confortável para um professor na área), principalmente após a minha participação nas reuniões de um grupo de estudo coordenado pela Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará que se propõe a elaborar um plano estratégico para o setor de Tecnologia da Informação no Estado. Este grupo tem por objetivo definir políticas de desenvolvimento para o setor e um dos temas recorrentes refere-se à definição de estratégias de formação de mão de obra. Essa questão toma proporções ainda mais relevantes quando se pensa a atender o mercado internacional de empresas de software. Os países em desenvolvimento como os EUA e a Inglaterra, por exemplo, tem contratado empresas na Índia para desenvolver softwares que serão usados em seus países. Isto tem sido cunhado de desenvolvimento off shore (ao pé da letra seria fora do porto em português). A infraestrutura de comunicação mundial estabelecida com a Internet e a tecnologia de redes existente permitem que tais atividades sejam desenvolvidas transparentemente em locais totalmente diferentes das sedes das empresas. Para as contratantes a atração principal desse modelo é a redução de custos, pois em países em desenvolvimento como a Índia se consegue serviço de boa qualidade com salários baixos. Os modelos indianos e recentemente os chineses deram certo porque nesses países havia, e ainda há, uma grande quantidade de mão de obra qualificada e muito barata disponível. Esta não é bem a realidade brasileira, principalmente porque não há tanta oferta de pessoal, embora alguns casos de sucesso nacionais nessa direção já possam ser identificados. A IBM de Hortolândia em São Paulo, por exemplo, possui cerca de cinco mil funcionários que fazem desenvolvimento de software para serem usados pelas próprias fábricas e escritórios da IBM ao redor do mundo. Exemplos como esse e estudos de consultorias internacionais indicam que o Brasil também tem condições de se tornar um desses paraísos de off shore. O Estado do Ceará, sabendo dessa possibilidade, tem buscado criar condições para que o desenvolvimento econômico nesse setor se torne realidade no Estado. O principal problema é que a maioria do pessoal necessário para desenvolvimento off shore é de programadores e a quantidade necessária para atender a demanda é normalmente bem maior do que as Universidades e Faculdades cearenses hoje lançam no mercado. Por esta razão urge um forte investimento em qualificação de pessoal que poderá assim resultar na criação de um novo nicho para o profissional de informática com a captação deste mercado. Uma das idéias é investir na formação de um profissional técnico mesmo sem a base acadêmica tradicional de cursos de ciência da computação, mas com qualificação em matemática e áreas afins que o permitam ter a abstração necessária para ser um bom programador de computador. Várias alternativas têm sido estudadas dentre os quais menciono a formação de programadores já no nível médio e a requalificação de desempregados de nível superior. O debate no tema está longe de se exaurir e não se pode dizer com certeza se os resultados de tais estratégias trarão o retorno desejado. O fato é que tal situação serve para reforçar o que já sabíamos, mas infelizmente não temos sido capaz de reverter: é preciso um forte investimento na formação de pessoas para se aproveitar as oportunidades da sociedade do conhecimento. Como lamentar-se não levará a lugar nenhum, só nos resta começar logo a agir, pois antes tarde do que nunca.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Ensino Universitário e Ciência: Mea Culpa

Prosseguindo sobre o aspecto do reconhecimento da sociedade à pesquisa científica, queria tocar num ponto que considero essencial. Refere-se a nossa própria postura, professores universitários, no que tange ao ensino da ciência e do seu papel na sociedade e no futuro de um país. Em quatro ou mesmo cinco anos de um curso de graduação na universidade, tiramos algum tempo para ensinar algo sobre a pesquisa científica aos nossos alunos? Pelo menos informações básicas que os motivem a aprofundar conhecimento ou pelo menos os façam reconhecer sua importância. Parece-me que não fazemos muito isso. Tenho dado palestras sobre o assunto e não me surpreende mais, escutar dos alunos que não sabem nem o que é mestrado e muito menos a diferença para o doutorado. Nem sabem o que é uma tese. Não têm uma definição clara do que vem a ser e nem como se faz pesquisa científica. E por aí vai. Aqueles que se engajam em programas de iniciação científica (que são uma minoria) têm a possibilidade de conhecer mais. Os outros ficam totalmente ignorantes. Qual a conseqüência disto? Quando se tornarem empresários, trabalhadores públicos, profissionais liberais, enfim quando abraçarem sua profissão, eles terão dificuldade de reconhecer o valor de um cientista. Serão presas fáceis para os estereótipos pejorativos. Não é preciso procurar muito para encontrar um cidadão que considera que um cientista é um cara alienado, meio doido, tipo a foto famosa do Einstein descabelado e com língua pra fora. Como querer fazer cooperação Empresa-Universidade num contexto desses? Mea Culpa.