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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Inovação e Cooperação Universidade-Empresa


Inovação é a palavra da vez no País e não poderia deixar de sê-la no Estado. O crescimento da economia e a consequente busca por competitividade obrigaram-nos a acordar para a necessidade de inovar.

Consequentemente o tema sobre a necessária aproximação da academia com as empresas ressurge. Vivemos, há não muito tempo, um dilema falso de que a geração de riqueza era dissociada do desenvolvimento científico.

Pesquisadores são os parceiros ideais dos empresários na busca de inovação. Eles, por serem obrigados a estarem na fronteira do conhecimento, têm naturalmente a visão do que é novo. Evidente que isso não exclui o feeling que os empresários têm sobre a viabilidade econômica de uma ideia. Ressalta-se ainda que as possibilidades de aplicar os resultados das pesquisas científicas na sociedade e gerar benefícios em larga escala ficam potencializadas com a participação da iniciativa privada.

Muito embora os benefícios da aproximação dos campos sejam facilmente demonstrados, o desconhecimento das agendas de cada um é terreno fértil para o surgimento de visões estereotipadas negativas.

São mundos com lógicas próprias e que possuem objetivos que via de regra correm paralelamente e não convergem obrigatoriamente. A equivocada percepção de que todas as pesquisas científicas devem necessariamente ter aplicações imediatas é um exemplo disso.

As pesquisas teóricas, pejorativamente chamadas de prateleiras, são as que fornecem a base para que as pesquisas aplicadas ocorram e, em via de regra, são as que causam inovações de ruptura.

O desafio de qualquer sociedade contemporânea, e a cearense em particular, é o de fomentar o desenvolvimento científico amplo, sem preconceitos e que promova o aumento significativo da base de pesquisadores atualmente existente. Só assim pode-se criar as condições favoráveis para que pesquisadores e empresários passem a interagir de forma produtiva, sintam-se motivados a cooperar e, assim, obter os resultados alvissareiros que isto pode trazer.

* artigo publicado na coluna Opinião do Jornal O Povo de 17/05/2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

Inovação e Cooperação Universidade-Empresa

Inovação é a palavra da vez no País e não poderia deixar de sê-la no Estado. O crescimento da economia e a conseqüente busca por competitividade obrigaram-nos a acordar para a necessidade de inovar. Naturalmente o tema sobre a necessária aproximação da academia com as empresas vem à tona. Vivemos, há não muito tempo, um dilema falso de que a geração de riqueza era dissociada do desenvolvimento científico. A veia humorística cearense quando expressa “não ficou rico porque decidiu estudar”, reflete um pouco desse sentimento.

O fato é que, agora que inovação virou moda, fica claro que o conhecimento científico é fundamental para a geração de riqueza. Pesquisadores são os parceiros ideais dos empresários na busca de inovação. Eles, por serem obrigados a estarem na fronteira do conhecimento, têm naturalmente a visão do que é novo.  Evidente que isso não exime o feeling que os empresários têm sobre se a ideia dá dinheiro. Por outro lado, a possibilidade de aplicar as pesquisas na sociedade e gerar benefícios em escala significativa fica potencializada com a participação da iniciativa privada. E isso pode dar, além de dinheiro, outra coisa altamente almejada por um pesquisador: reconhecimento.

Muito embora os benefícios da aproximação dos campos sejam facilmente demonstrados, é comum escutar visões estereotipados de um lado em relação ao outro e vice-versa. Isso tem conseqüência deletéria na almejada aproximação, pois elas pode ocorrer de forma bem mais natural se as partes passarem a conhecer melhor a agenda própria do outro. São mundos com lógicas próprias e objetivos que via de regra correm paralelamente e não necessariamente devem sempre convergir.

A agenda acadêmica, por exemplo, é bem ampla, pois envolve docência, extensão e pesquisa. Alem disso, não adianta pensar que tudo quanto é pesquisador deve ter que fazer pesquisa aplicada. Cheguei a escutar empresários “cobrando” retorno social do pesquisador. As pesquisas, pejorativamente chamadas de prateleiras, são as que as dão a base para que as pesquisas aplicadas ocorram e em via de regra são as que causam inovações de ruptura.

O desafio é criar as condições favoráveis para que os dois lados se sintam motivados a participar e assim obter os resultados alvissareiros que isto pode dar. Nesse aspecto, considero que a forma mais efetiva de cooperação deve envolver sempre que possível a imersão do pesquisador dentro da Empresa. Ele precisa conhecer o negócio da Empresa, suas potencialidades e seus problemas. Isso é fundamental porque a descoberta de um problema (em termos científicos) é uma das etapas cruciais do processo de pesquisa.

Tenho visto muito freqüentemente os empresários buscarem na academia soluções para problemas que os mesmos identificam nas suas Empresas. Em sua grande maioria tratam-se de problemas que podem ser resolvidos com a adoção de uma tecnologia adequada. Não deixam de ser importantes para a Empresa e podem otimizar suas operações, mas não se caracterizam como problemas de pesquisa e que, ao serem resolvidos, podem dar um diferencial competitivo significativo.

Já mencionei em texto anterior (acesse-o clicando aqui) como algumas empresas estão criando um conselho de ciência e tecnologia e colocando pesquisadores acadêmicos para fazer parte do mesmo. Se provermos soluções para os problemas apresentados sob essas duas óticas, a aproximação será muito mais fácil. Na verdade, sou bem otimista quanto a essa aproximação, pois é exigência do mercado globalizado. Vale a lembrança de que o maior indutor da aproximação universidade-empresa é a competição do mercado que vai exigir inovação em todos os níveis das organizações. Quem não investir nisso, não sobreviverá muito tempo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

O Que Mudou na Computação ?


A computação faz cada vez mais parte de nossas vidas. Quando decidi por esta carreira em 1983 não tinha a menor ideia do quão impactante ela seria. Sabia que era algo “do futuro” (literalmente), mas não tinha nenhuma pista de que futuro seria este. Vez por outra reflito sobre o que mudou da época que comecei para cá. A base da computação mudou durante esses quase trinta anos?

Na faculdade estudei, grosso modo, as mesmas coisas que meus alunos estudam hoje. A necessidade de construir modelos computacionais para representar o mundo real estava presente naquela época como hoje em dia. Dominar o manuseio do símbolos e das abstrações (representados pelas linguagens de programação) nos diferentes níveis, sejam o das aplicações, comumente chamadas de sistemas de informação, sejam os de software básicos como sistemas operacionais e banco de dados era a atividade predominante. A compreensão da arquitetura do computador e as formas de organizar e manipular a informação aliava-se às essas outras atividades mencionadas. Não é a toa que as disciplinas de teoria da computação, banco de dados, estrutura de dados, linguagens de programação, análise de sistemas, redes de computadores ainda estejam presentes nos currículos dos cursos de computação mundo afora.

Mas isso não é intrigante? Como pode uma ciência ter evoluído tanto, ser hoje tão ubíqua e mudar tão pouco? Não falta algo na nossa formação? Quando penso em responder a estas perguntas sempre me vem uma coisa à cabeça: falta compreender melhor as pessoas. Creio ser essa a grande diferença da computação de hoje da de outrora.

Trinta anos atrás, os programas que desenvolvíamos geravam resultados que eram apropriados pelas pessoas de uma forma muito elementar. Produzíamos relatórios a serem lidos, via de regra por burocratas (sem sentido pejorativo), pois o objetivo era processar os dados. À época o computador era algo raro, grande, caro, excêntrico. Era uma máquina compreendida por poucos. No mundo dos mainframes (grandes computadores corporativos) a relação daqueles que o manipulavam (nós, os informáticos) com aqueles que iam usar seus resultados era distante e com um formato predefinido. Iríamos gerar as listagens de correntistas para uso dos bancários, a listagem dos produtos no estoque, as listagens dos funcionários com seus salários, etc.

Não tinha o menor sentido falarmos em interação humano-computador. A interação era humano-listagem de computador. Com o advento do PC e depois da Internet tudo isso se transformou radicalmente. Fazemos software que são usados pelas pessoas para fazer tudo e cada vez mais um pouco. Do micro-ondas à geladeira, passando pelos ipods, ipads e iTVs tudo requer interatividade. Como produzir isso sem compreender os meandros da comunicação entre as pessoas e delas com as máquinas? Nossos currículos se atualizaram para nos prepararmos a essa nova realidade?

É bem verdade que IHC (Interface Humano Computador) passou a fazer parte dos currículos de referencia dos cursos de ciência da computação, mas creio eu, ainda de forma incompleta. A comunicação, lingüística, sociologia e psicologia cognitiva para exemplificar algumas áreas parecem-me ser hoje cruciais para um profissional de computação. E não estou aqui querendo falar de alguém que vai fazer pesquisa. Penso mesmo em alguém que acaba de se formar e quer empreender. Sem base para compreender toda a dimensão do que é um software na era digital alguém pode inovar? Ainda há espaço comercial para o desenvolvimento tradicional de software corporativo, mas não é mais aí que está o futuro. O futuro está em fazer software para as pessoas no seu dia-a-dia. Para isso precisamos compreender o que as motivam, quais suas intenções, suas reações e suas relações. Os softwares vão de mais em mais permear tudo isso. 

terça-feira, 15 de abril de 2008

Sem “Diretas Já”, “Fora Collor”, “Fora FMI” ou “Fora FHC” sobra “Fora Bill Gates”

Uma reflexão adjacente à questão do software livre que fiz anteriormente veio-me após uma pequena conversa anedótica com Prof. Riverson Rios logo antes da audiência pública sobre software livre na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará. O movimento estudantil, em particular dentro das universidades, sempre foi afeito à contestação, à crítica, ao embate por uma causa, ao esquerdismo, etc. Lá, é comum se eleger os inimigos públicos número um de diversas gerações. No Brasil recente, depois da ditadura, o combate pelas eleições diretas, o pedido de impeachment do Presidente Collor, a solicitação de moratória ao FMI e mesmo o fora FHC são exemplos de bandeiras investidas pelos jovens universitários mais ativistas. Quem é o vilão atual? Estariam nossos jovens universitários, hoje em dia, sem esse tipo de referencial ? Não há nenhuma ideologia que mereça uma boa luta? A entrada de Lula e do PT no poder, deixou os jovens universitários órfãos de inimigos (pelo menos no campo político), coisa que os jovens informáticos parecem não se ressentir. Bill Gates, com sua Microsoft, encarna o papel do grande vilão perfeitamente. Ela acumula capital em função de direitos autorais com licenças de uso de softwares, em particular do sistema operacional Windows. Há aqui todos os ingredientes de uma boa briga, visto que a Microsoft é um Golias e tanto: superpoderoso, dominador, rico e ainda por cima, americano (de quebra bate-se no Bush!). Mas ainda acho que há uma lacuna de ideais políticos que necessita ser preenchida. Difícil prever ou programar um que se torne esse foco, mas que eu acho que seria muito bom para o País se o combate a falta de ética ganhasse esse espaço. Será que isso pode acontecer de alguma forma caótica e descentralizada ou precisamos de uma liderança que lidere e capitalize o processo? Boa pergunta para futuras reflexões, mas vale a pena ter atenção para as recentes invasões de reitorias por estudantes como na UNICAMP, USP e mais recentemente UNB. Seria um indicativo de que uma nova bandeira está sendo hasteada?

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Brasil e Europa Pesquisando Televisão Digital

Esta semana a UNIFOR esteve ciceroneando pesquisadores de várias partes da Europa para discutir televisão digital. Trata-se do projeto SAMBA (System for Advanced interactive digital television and Mobile services in BrAzil – Sistema para televisão interativa digital Avançada e serviços Móveis no BrAsil). Este projeto é financiado pela comunidade européia e visa investigar formas de desenvolvimento de software, hardware e infraestrutura de comunicação para aplicações em televisão digital. Dentre os vários parceiros que fazem parte deste projeto a UNIFOR e a USP representam as universidades brasileiras. Como já comentei em um texto passado (Clique aqui para acessá-lo) a grande inovação da televisão digital no Brasil será a interatividade. Os programas de TV continuariam sendo transmitidos por satélite, mas a TV estaria interligada a Internet por um “canal de retorno” (normalmente pela conexão telefônica). Acredita-se que será uma das mais fortes iniciativas para diminuir a exclusão digital facilitando o fornecimento de informações e serviços para a população que tem dificuldade em acessar a Internet. É exatamente este o foco de SAMBA: prover serviços interativos de televisão digital a baixo custo. Uma das tecnologias presentes no projeto é a PLC (Power Line Communication) que permite que a rede elétrica seja usada como canal de retorno da televisão. Desta forma não seria necessário gasto com infra-estrutura telefônica e se aproveitaria a grande rede de distribuição de energia elétrica que hoje atinge mais de 90% das residências brasileiras. Os testes do projeto SAMBA estão sendo efetuados na cidade de Barreirinhas no Maranhão, onde várias residências estão sendo preparadas para receber sinais da televisão digital e para usar a rede elétrica como canal de retorno para a interatividade. Paralelamente na Itália, mais especificamente na região de South Tyrol, uma outra comunidade está também sendo preparada para ser o ambiente de teste no contexto europeu. Equipes da UNIFOR e da Empresa Create-Net da Itália, realizaram estudos para identificar o perfil dos usuários de televisão nos dois locais. Os resultados destes estudos foram apresentados no encontro desta semana em Fortaleza. Evidentemente que divergências no padrão de uso foram identificadas a começar com o dobro da quantidade de tempo que os brasileiros gastam na TV que os italianos. Outro aspecto relevante, particularmente no que se refere ao desenvolvimento de aplicações para a TV digital, é o fato de que os brasileiros assistem programas de televisão em família, o que não é muito típico nos países europeus (principalmente pelo fato de que muitas pessoas vivem sozinhas). Creio que isso pode ser uma excelente oportunidade para criação de aplicações educativas que atinjam toda a família. Acho que há um espaço próprio para aplicações que façam emergir a cultura do compartilhamento (veja textos que escrevi sobre essa cultura aqui e aqui ). Não poderia deixar de mencionar a excelente organização do evento na UNIFOR, onde a equipe coordenada pela Profa. Elizabeth Furtado foi extremamente feliz em mesclar reuniões de trabalho com atividades lúdicas em intervalos como a apresentação do coral e camerata da UNIFOR, cantando e tocando músicas nordestinas. O ponto alto do encontro foi quando a apresentação dos perfis de usuários da televisão identificados em Barreirinhas foi apresentado no teatro da UNIFOR. Artistas do teatro da UNIFOR encenaram de forma criativa e divertida os diferentes tipos de usuários. Um exemplo excepcional de como a Universidade pode, ao integrar os seus diferentes setores e recursos, por em prática a multidisciplinaridade.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Faculdade, Universidade e Pesquisa Científica

Sou frequentemente questionado sobre a diferença entre Faculdade e Universidade. Elas não são absolutamente iguais, embora seja comum intercambiarmos o uso dos termos. Vários aspectos diferenciais poderiam ser apontados como a maior autonomia para criação de cursos que as universidades possuem e outros aspectos determinados pelo Ministério da Educação. No entanto, queria me concentrar em uma diferença que considero a mais relevante. As universidades, além do ensino, promovem a pesquisa científica, o que não é regra nas faculdades. Costumo dizer aos alunos da UNIFOR (que é privada), que passar toda a vida universitária sem experimentar nada de pesquisa é algo como pagar e não levar. Ao dizer isso, quero atentar para o fato de que as mensalidades das Universidades privadas são um pouco maiores do que as das faculdades em parte pelo custo de se propor a fazer pesquisa. Por exemplo, para fazer pesquisa é necessário ter um grande número de professores doutores que consequentemente ganham melhores salários. Além disso, os professores doutores pesquisadores requerem laboratórios com equipamentos modernos e demandam alto custo de instalação e de manutenção. O convívio com estes professores, bem como a utilização desses laboratórios, pode ser conseguida através da participação em projetos de iniciação científica. Normalmente os professores pesquisadores têm bolsas de iniciação científica a oferecer aos alunos de graduação. Trata-se de uma espécie de estágio onde o aluno começa a conhecer o contexto da pesquisa com o convívio com outros pesquisadores mestres, alunos de pós-graduação e com professores pesquisadores. Além disso, têm a oportunidade de conhecer tecnologia nova e que muitas vezes ainda não está disponível no mercado, tornando-se também uma ótima qualificação para a inovação e o empreendorismo. Você que é aluno de graduação de uma universidade, prove da pesquisa. Mas esteja preparado. Ela pode lhe contagiar.

terça-feira, 30 de janeiro de 2007

Ensino Universitário e Ciência: Mea Culpa

Prosseguindo sobre o aspecto do reconhecimento da sociedade à pesquisa científica, queria tocar num ponto que considero essencial. Refere-se a nossa própria postura, professores universitários, no que tange ao ensino da ciência e do seu papel na sociedade e no futuro de um país. Em quatro ou mesmo cinco anos de um curso de graduação na universidade, tiramos algum tempo para ensinar algo sobre a pesquisa científica aos nossos alunos? Pelo menos informações básicas que os motivem a aprofundar conhecimento ou pelo menos os façam reconhecer sua importância. Parece-me que não fazemos muito isso. Tenho dado palestras sobre o assunto e não me surpreende mais, escutar dos alunos que não sabem nem o que é mestrado e muito menos a diferença para o doutorado. Nem sabem o que é uma tese. Não têm uma definição clara do que vem a ser e nem como se faz pesquisa científica. E por aí vai. Aqueles que se engajam em programas de iniciação científica (que são uma minoria) têm a possibilidade de conhecer mais. Os outros ficam totalmente ignorantes. Qual a conseqüência disto? Quando se tornarem empresários, trabalhadores públicos, profissionais liberais, enfim quando abraçarem sua profissão, eles terão dificuldade de reconhecer o valor de um cientista. Serão presas fáceis para os estereótipos pejorativos. Não é preciso procurar muito para encontrar um cidadão que considera que um cientista é um cara alienado, meio doido, tipo a foto famosa do Einstein descabelado e com língua pra fora. Como querer fazer cooperação Empresa-Universidade num contexto desses? Mea Culpa.