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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ainda Sobre a Violência

Em texto anterior, mencionei o quanto o poder público está sem poder de reação frente à onda de violência que assola os estados nordestinos. Os governos i) não conseguem agir integradamente; ii) não conseguem renovar as instituições responsáveis pelo combate à criminalidade e iii) não conseguem agir preventivamente. Deixem-me detalhar esses três aspectos a seguir.

Segurança pública é algo maior do que polícia. Exemplifiquei isso aqui. Isso implica agir integradamente em diversas frentes: sistema prisional, sistema preventivo, sistema repressivo e sistema judiciário. Como todas as instituições públicas envolvidas nesse processo são extremamente deficientes por causas diversas, a tarefa é hercúlea. O que os governos normalmente fazem é agir em uma frente, a que acham que pode ser mais produtiva (ou visível à população). E quando falo integração, refiro-me ainda a trabalhos que envolvam as diferentes esferas. Prefeitura e Estado, por exemplo, têm que atuar fortemente integrados no processo preventivo. Quando vemos jovens na rua cheirando crack à luz do dia, como ocorre na região da Beira-Mar, não adianta chamar o Ronda. É problema de outra esfera e de outra dimensão. Mas pergunto: alguém sabe que número de telefone a ligar para fazer uma denúncia? A quem devemos recorrer?

O fortalecimento das instituições que combatem diretamente a criminalidade e buscam reduzir a violência implica em qualificação de pessoal, monitoramento, punição dos desvios e gestão. Esse é o aspecto que mais tem direta relação com o Governo do Estado. A decisão de fazer um Ronda com um programa de treinamento deficiente e fechar uma academia de polícia por quase quatro anos são indicadores de que por aqui não dá para esperar muito.  Aliado a isso, vimos recentemente o governador preso (sem intenção de trocadilho) entre policiais e bombeiros que faziam manifestações por melhores salários e condições de trabalho. Tenho o sentimento de que a compra das Hilux para carro de patrulha leva os policiais a acharem que são preteridos em seus salários. A criação de uma corregedoria não vinculada à SSPDS é alentadora, mas ainda persistem dúvidas de como isso pode praticamente ter efeito se os corregedores não são funcionários de carreira.

Por fim, a prevenção, que também já foi objeto de alguns textos escritos neste blog, vive de ações pontuais, quase que protótipos de solução. Não têm impacto significativo, nem sustentabilidade. Várias ideias boas (mulheres da paz no Bom jardim, por exemplo) são executadas de forma dispersa e sem nenhuma sustentabilidade. Acabam não tendo resultado significativo e viram candidatas a boas ideias estragadas

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Penas alternativas e Impunidade

Um dos assuntos mais sensíveis em nossa sociedade refere-se à sensação de impunidade. Algo que permeia todas as classes sociais e os mais diferentes  setores da sociedade e que tem efeitos deletérios incomensuráveis.

Infelizmente esse sentimento de impunidade tira-nos a capacidade de uma análise racional sobre um dos maiores problemas brasileiros: o injusto sistema punitivo que vivemos. Vou usar aqui o termo sistema punitivo para me referir de forma ampla ao sistema que envolve a polícia judiciária, ministério público, justiça e sistema prisional. Todas as vezes em que se cogita estabelecer penas alternativas para casos de menor poder ofensivo ou que busquem esvaziar cadeias e delegacias cresce o sentimento de impunidade e abre-se o espaço para discursos populistas.

Embora sob uma primeira análise a ideia de liberar quem cometeu ilícitos leva-nos imediatamente a pensar em impunidade, é preciso perceber que esse raciocínio é por demais simplório para compreender um dos maiores problemas de uma sociedade cheia de complexidades e deficiências históricas como a nossa.

Um dos princípios básicos de um sistema punitivo em países democráticos é de que a pena por um ilícito deve guardar proporção com o dano causado pelo delito.  Esse princípio não existe de fato hoje. Não me refiro nem ao arcabouço legal, mas à dura realidade de pessoas (a grande maioria de pobres) que se amontoam em cadeias e que via de regra pagam muito caro pelo que fizeram. O papel ressocializador que o Estado é obrigado a exercer também é inexistente. Na verdade, ao se tratar batedores de carteira junto de homicidas, traficantes e gangsters de todo naipe, se está alimentando um círculo vicioso da violência.

O impacto desse círculo vicioso é cruel na nossa vida cotidiana. Os agressores vão se “escolando” no crime e também, por saberem que não faz muita diferença entre ser latrocida ou meramente um batedor de carteira, tornam-se cada vez mais violentos.  Aqueles que defendem leis mais rigorosas precisam compreender que o grande problema é que o sistema punitivo hoje já é rigoroso. Na verdade, demasiadamente rigoroso e demasiadamente injusto. Uma reforma que induza o Estado a agir com parcimônia e sabedoria é o que devem buscar os homens públicos de bem. Mas para isso é preciso coragem para não serem cooptados pelos discursos fáceis, mas contra-produtivos.

Vejamos o exemplo americano. Eles têm as prisões de segurança máxima, as mais exemplares. Muitas delas são privatizadas e o zelo para reduzir o contato dos presos com os agentes está presente nos menores detalhes. Há muito se sabe que esse é um dos pontos vulneráveis de qualquer prisão. É o elo mais fraco, visto que a interação preso-agentes é suscetível à corrupção, extorsão e ameaças.

No entanto, o grande problema que os americanos estão vivendo é que as prisões, por melhores que sejam, estão superlotadas. O sistema penal e judicial americano está em crise pelo excesso de pessoas ou presas ou em liberdade condicional. Os norte-americanos estão agora sofrendo conseqüência de uma política rigorosa de punição implementada nos últimos vinte anos. Há vinte anos atrás 580.000 pessoas estavam condenadas a prisão nos EUA. Esse número hoje é de cerca de 2,3 milhões de pessoas. No Japão, por exemplo, esse número era 40.000 e passou a 71.000 vinte anos depois. A população americana representa 5% da mundial mas em se tratando da população carcerária a americana é de 25% da global. A taxa de presos por habitante nos EUA é 756 por 100.000 habitantes sendo cinco vezes maior do que a média global. Um em cada 31 adultos nos EUA está na prisão ou em um sistema de liberdade vigiada.

A razão principal para esse crescimento exponencial da população carcerária Americana é de que a lei é muito rigorosa com pessoas que cometem pequenos delitos. Isso tira toda a energia e foco das autoridades policiais e as impede de se concentrar nos grandes problemas como o aumento da dominação do cartel mexicano. Não precisamos cometer os mesmos erros que os americanos cometeram.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Sigilo de Dados Criminais: Fatos e Versões


Recentemente, mencionei a, na minha opinião, tímida atitude do Governo do Estado de São Paulo em colocar na Internet as estatísticas de crimes por distrito policial. Disse que era um avanço, mas que muito mais é necessário. Há cerca de três anos venho denunciando a cultura que parece nos impede de compreender que as informações públicas devem todas estar à disposição dos cidadãos.

Fiquei surpreso, ao descobrir, ainda na semana passada, notícias sobre denúncias de que especialistas  contratados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo foram acusados de vender informações, ditas sigilosas, sobre a estatística de crimes. Vejam matéria aqui.


Não vou entrar no mérito específico da questão, até porque não tenho informações precisas do que realmente ocorreu. Agora, surpreendeu-me sobremaneira o fato de que todas as matérias sobre o tema alardearem a existência de informações sigilosas que não poderiam ser divulgadas. Mas que informações são essa? Em busca de compreender mais o problema, vi que se tratavam somente de estatísticas de crime por local. Isso é um absurdo total. Dados de ocorrências criminais com o tipo de roubo, local, hora e data são públicos.  Não têm nada de sigiloso. Não aceitar isso é incentivar um jogo de interesses promíscuos entre os que têm acesso à informação e aqueles que se dispõem a comprá-la ou a consegui-la de forma não transparente.  

Se estamos totalmente convencidos de que as informações são sigilosas, então o problema da falta de controle sobre as mesmas é realmente preocupante. Afinal de contas, o trato de informações sigilosas  requer controles e mecanismos de proteção muito maiores do que os seguem as Secretarias de Segurança. Abundam as denúncias de que certas empresas conseguem acesso às informações de lugares mais perigosos diretamente de fontes oficiais. Enquanto isso, não recebi resposta de NENHUMA Secretaria de Segurança à minha carta  (leia-a aqui) em que proponho parceria com WikiCrimes, justamente para expor aos cidadãos essas informações públicas. 

segunda-feira, 22 de março de 2010

QR Code em WikiCrimes



Os mais observadores podem ter percebido no texto da semana passada em que falei das novidades de WikiCrimes um símbolo de um QR Code na janela de envio de alertas de locais perigosos. Essa é outra grande novidade de WikiCrimes e que queremos explorar fortemente a partir de agora.

Já havia mencionado o que era o QR Code, mas para os que não conhecem o conceito aqui vai uma breve introdução. Trata-se de um código (como um código de barras) que pode ser lido por câmeras de baixa resolução como as dos celulares. QR vem de Quick Response (Resposta Rápida). Foi inventado pelos japoneses há cerca de quinze anos, mas como tem limitações para representar textos grandes (normalmente só representa 100 caracteres), não tinha encontrado muitas aplicações. Só agora começa a ter maiores utilidades, pois como os celulares começam a popularizar o acesso à Internet, os QR Codes podem representar links para web, o que facilita o acesso aos mesmos sem necessidade de digitação ou memorização.

É exatamente esse o uso que estamos dando ao QR Code em WikiCrimes. O usuário pode gerar um link que mostre uma área de WikiCrimes e representá-lo por um QR Code. O código pode assim ser impresso e o papel com o mesmo pode ser colocado em qualquer lugar (normalmente, esperamos colocá-los no mesmo local a que se refere o link). Qualquer pessoa, pode assim, de seu celular, ler o código e acessar automaticamente o link na Internet. Será uma espécie de placa “Saiba sobre a segurança daqui” de forma eletrônica. Começaremos a distribuir esses códigos em Fortaleza juntamente com outro projeto que estamos concebendo com colegas publicitários (mas que falarei mais em outra oportunidade).

Lembrem-se dos requisitos que você deve cumprir para conseguir lê-lo:
- Um leitor de QR Code no seu celular (você pode baixá-lo aqui)
- Um celular que acesse a Internet
- Um celular com câmera filmadora ou fotográfica.

Agora, já sabem, se ao andar por Fortaleza, virem um QR code desse espalhado pela cidade, usem seus celulares pode ser indicações de locais perigosos.

Acessem WikiCrimes e gerem QR Code das áreas que quiser alertar. É o mesmo procedimento que descrevi no texto passado. Para começar a se exercitar, “leiam” o que está acima desse texto e vejam como ele funciona. Quem me diz que área o código representa?

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

10 Anos de CIOPS: Ainda Pouca Compreensão

Semana passada, recebi uma singela, mas muito gratificante homenagem do CIOPS de Fortaleza. Na verdade, agora deve ser dito a CIOPS, pois se tornou Coordenação Integrada Operacional de Segurança. Fui homenageado pelos serviços prestados e por ter sido idealizador do projeto. Difícil esquecer o sentimento de desafio que foi a implantação do projeto. No dia 22 de Janeiro de 1999, quando ”viramos a chave” foram alguns meses de adrenalina pura. O termo virar a chave vem do fato de que os links da TELEMAR tinham que ser desviados para os telefones antigos do COPOM da Polícia Militar para os do CIOPS (então Centro e não Coordenação). A população não podia ficar nem um segundo sem atendimento e a mudança tinha que ser feita de forma totalmente transparente. Detalhe: após a virada de chave não tinha mais volta. Embora tenhamos tido intensamente planejado aquele momento, era impossível antever tudo, daquilo que era um projeto pioneiro no Brasil. Foram algumas noites sem dormir com uma equipe aguerrida dentre os quais menciono Coronel Gondim (PM), Major Sólon(BM) e Delegado Róscio além da Amiga e analista de sistemas da ETICE Lúcia Pompeu. Chegada a estabilidade, tornou-se uma referência e visitantes de quase todos os Estados vieram visitar a experiência e copiá-la. Hoje a maioria deles possui um CIOPS nos mesmos moldes. De fato, o modelo CIOPS, embora novo no Brasil, já vinha sendo adotado nos países desenvolvidos há algum tempo. Lamento muito que durante esses dez anos o CIOPS tenha ainda enfrentado tanta desinformação da mídia e mesmo de algumas autoridades. Ainda na semana passada o editorial do Diário do Nordeste deu crédito a consultoria de Bratton pela criação do CIOPS !

A Ciops é fruto do único diagnóstico de qualidade, realizado por consultoria norte-americana, contratada para sugerir a modernização da Segurança Pública no Ceará.

Creio que a carência do sistema de Segurança Pública na época (que era bem maior do que hoje) fez criar o sentimento de que o CIOPS seria o remédio para todos os males. Isso não é verdade, mas um programa persistente de redução da violência em áreas urbanas não pode existir sem uma central de atendimento de emergência eficiente. Antes da existência do CIOPS não havia nenhum sistema de coletas das ocorrências criminais. O telefone 190 estava constantemente ocupado e o atendimento era lento e impossível de ser gerenciado. Repito aqui o que já disse em outros textos em que falei sobre o CIOPS: a existência de um completo sistema de informação com registro de todas as etapas do atendimento é o ponto alto do projeto. Pauta-se assim pela transparência no atendimento, capacidade de planejamento e acompanhamento e medição de produtividade. Evidente que tudo isso de per si não é suficiente para dizer que a qualidade do atendimento é de alto nível. A questão gerencial, qualificação de pessoal e, sobretudo, a estrutura operacional de atendimento na rua da Polícia serão sempre desafios a serem vencidos e darão pano para críticas. É importante, no entanto, compreender o papel do CIOPS para poder criticá-lo de forma a não cometer injustiças com aqueles que nele trabalham, mas principalmente com a Instituição.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Dahlem Konferenzen – Representantes

Só agora que acabou tive tempo de organizar as idéias discutidas em Berlim na Dahlem conferência. Vou começar falando da diversidade de pesquisadores presentes no grupo que foi, pelo meu ponto de vista, um dos fatores mais positivos da reunião. Sem querer entrar muito em detalhe, nós pesquisadores estudamos e discutimos sobre como é possível definir modelos matemáticos (aqui inseridos os modelos computacionais) para representar aspectos da vida em sociedade. O objetivo foi o de definir uma agenda com temas e questões de pesquisas que sejam direcionadores das pesquisas a médio prazo no tema. Éramos 40 pesquisadores de diversas partes do mundo representando áreas diversas como Economia, Sociologia, Criminologia, Física, Matemática e Computação. A representação por nacionalidade dos pesquisadores era a seguinte Alemanha 12, EUA 8, França 5, Reino Unido 4, Dinamarca 2, Suiça 1, Suécia 2, Holanda 2, Austrália 1, Brasil 1, Romênia 1, Itália 1. Vejam que do hemisfério sul somente um australiano e eu fomos convidados. O convite foi formulado pelo conselho da Dahlem Konferenzen, formado por professores da Universidade de Berlim e pelos organizadores e moderadores escolhidos para discutir o tema. A escolha foi baseadas no currículo dos pesquisadores e, principalmente, nas publicações científicas realizadas no tema em questão. Minha participação deveu-se as publicações realizadas no contexto de simulações de crime. WikiCrimes ajudou ainda a tornar-me, digamos, “mais popular”. Aliás, durante a conferência fui convidado a dar uma entrevista, juntamente com um colega holandês, para uma rádio alemã em um programa que fala sobre ciência. Dois aspectos merecem menção. Primeiro, ressalte-se que crime é notícia até em países com índices baixíssimos de criminalidade. Dentre os assuntos discutidos, a rádio escolheu exatamente dois representantes desse tema. Mesmo a crise econômica não teve tanta prioridade. Segundo, o jornalista que me entrevistou era um alemão que tinha doutorado em matemática e possuía um conhecimento profundo em simulações. Foi uma das entrevistas mais desafiadoras que pude dar. Ele me fez uma sabatina, sempre buscando ir além do que eu respondia. Bem diferente da maioria das entrevistas que dou no Brasil onde muitos jornalistas nem mesmo escutam o que estou a dizer (ou se tentam, não conseguem entender). Vou ver se consigo o áudio da entrevista para disponibilizá-la aqui. Falei em inglês, mas será traduzida para o Alemão. Vamos ver como vai ficar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Análise de Crimes: Um Livro Referência

Acabei de ler o livro “Artificial Crime Analysis Systems: Using Computer Simulations and Geographic Information Systems - Sistemas Artificiais de Análise de Crimes: O uso de simulações computadorizadas e sistemas de informação geográficos”. Trata-se de uma coletânea de artigos escritos por pesquisadores de todo o mundo e que foram editados pelos pesquisadores Lin Liu e John Eck da Universidade de Cincinati. O livro foi lançado no começo do ano e congrega os diversos aspectos que estão sendo estudados hoje no mundo em computação, sociologia, criminologia e áreas afins sobre métodos científicos para mapeamento criminal. Mapeamento criminal refere-se a técnica de usar sistemas computadorizados em conjunto com sistemas de informação geográficos com fins de compreensão da criminalidade e investigar meios de reduzi-la. Pode-se dizer que, embora recente, a obra já tornou-se uma referência na área de Segurança Pública por sua abrangência, diversidade e representatividade. Ressalto que, junto com alguns alunos e colegas professores, escrevi o capítulo XV, que descreve nosso enfoque multiagente para simulação de crimes contra o patrimônio. É leitura obrigatória para qualquer estudioso no assunto. Maiores referências podem ser acessadas na coluna ao lado de leituras obrigatórias.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

WikiCrimes na BBC

A primeira matéria internacional sobre WikiCrimes saiu nessa terça-feira 15 de Abril. A BBC de Londres abriu um generoso espaço para noticiar em rádio e em seu site (clique aqui para acessar o texto). A reportagem abre espaço para depoimentos de pessoas a favor e contra a idéia. Acho muito bom que isso aconteça. Percebo certo receio de alguns em registrar crimes e sempre que falo sobre o projeto, há pessoas, muitas delas policiais, que apresentam argumentos céticos. Nada como ter um debate para esclarecer os pontos duvidosos. Na reportagem da BBC há o depoimento de um policial civil do Rio de janeiro que declarou que a Policia não deveria publicar os dados porque os mesmos levariam insegurança à população. E não estamos nós, agora mesmo, sem WikiCrimes, nos sentindo inseguros? O cidadão carioca, por exemplo, tem um nível de segurança que seria abalado com a informação de onde os crimes ocorrem proporcionada por WikiCrimes? Sinceramente, acho que isso não faz o menor sentido. Eu diria que é exatamente o contrário. O que traz insegurança é a falta da informação. Sem informação o cidadão não pode se proteger, nem se precaver. Além disso, há que se lembrar que a informação é pública e cabe ao cidadão decidir se a usa e como a usa. Acrescento ainda o que disse o britânico Spencer Chainey, estudioso em segurança pública, em sua palestra no Encontro do Fórum ano passado em Belo Horizonte. Ele mostrou o impacto na sensação de segurança em cidades inglesas onde os dados criminais são apresentados ao cidadão. Muitos cidadãos se sentiram mais seguros ao saber o que acontecia em seus arredores, pois a maioria achava que acontecia mais crimes do que o real. Voltando à reportagem, devo dizer que ela teve um impacto fortíssimo no nível de acesso do site. Acessos de todos os lugares do mundo foram feitos. A Inglaterra e os EUA comandaram as consultas e os registros. Em apenas um dia, houve mais acessos do que os que tinham sido feitos nos três meses anteriores. É ao mesmo tempo, excitante a atemorizante. Esse é o mundo da Web 2.0. Que aprendizagem! Abaixo, publico uma foto da reportagem.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Por Uma Polícia “Esperta”

David Bayley, americano de 75 anos, é uma referência mundial em segurança pública. Este pesquisador da Universidade de Albany escreveu vários livros que se tornaram leitura obrigatória para qualquer estudioso e prático no assunto. Sua palestra no II Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança constituiu-se em um dos pontos altos do evento. De forma simples e bem didática, ele respondeu a pergunta a qual ele mesmo formulou. O que a Polícia pode fazer para controlar a criminalidade? Resposta: ser esperta e ser justa (minhas traduções para “be smart and be fair”). São os dois pontos fundamentais que dirigiram a apresentação. Para ele, “ser esperto” é ter condição de responder se o que se está fazendo está dando certo. Ele disse que já viajou o mundo todo e sempre testa se uma polícia é boa com um joguinho de perguntas e respostas com o chefe da polícia. Pergunta primeiro o que a polícia está fazendo para controlar o crime. Independentemente da resposta, pergunta depois se isso dá resultado. A terceira pergunta, então, é crucial. Que dados possui para comprovar que o que está fazendo dá resultados. Disse que na sua grande maioria as polícias no mundo não sabem responder a todas essas perguntas. Muitas delas não respondem nem as duas primeiras. Uma polícia esperta precisa aplicar métodos policiais ou mesmo não policiais para resolver problemas particulares em locais específicos. Quando se refere a resolver um problema específico, ele se aproxima do conceito de Problem-oriented Policing (veja o que escrevi sobre isso aqui) que é um conceito bem popular nos EUA nos últimos dez anos. A idéia é de que a polícia tem que problematizar a criminalidade considerando as especificidades do local, as razões sociais, enfim o contexto geral do ambiente, para então, propor soluções que não precisam ser necessariamente somente de ações de polícia. Enfatiza que medidas genéricas, em geral, não resolvem. Principalmente em grandes cidades, há muitas diferenças entre bairros e áreas, entre classes sociais, entre cidadãos com faixa etária diferentes, etc. de forma anedótica, Bayley deu vários exemplos de como a polícia pode controlar a criminalidade com medidas não policiais e sem violência. Por exemplo, contou um caso em que traficantes e gangueiros abandonaram um lugar de tráfico só porque detestavam a música clássica que os policiais juntamente com o prefeito começaram a promover na área. Outro exemplo foi o da prostituição masculina que teve que mudar de área porque a nova iluminação pública da região, em combinação com as roupas que usava, os deixava com uma cor meio roxa e não os deixava atrativos. Trata-se de exemplos quase que caricaturados que visam ilustrar que a criatividade deve estar presente na busca das soluções. Em resumo, ser esperto é estar em avaliação continua. Vejam que esse discurso é algo muito parecido com o da grande maioria dos gurus de business que morrem de ganhar dinheiro falando sobre como ser um bom chefe, um líder, planejador e outras mais. Na verdade, a novidade do discurso de Bayley é que ele traz para o contexto policial toda uma problemática já presente nas grandes empresas. Ele mostra a necessidade de se ter mecanismos gerenciais voltados a busca por resultados. A estruturação de uma polícia esperta requer seminários de avaliação com policiais operacionais, a criação de unidades de polícias que testam novas estratégias, a criação de uma unidade dentro da Polícia só para realizar a avaliação dos programas, o desenvolvimento de colaborações com outros serviços como as universidades e, por fim, a criação de uma unidade “in-house” que pesquise sistematicamente por conhecimento a ser aplicado.

segunda-feira, 31 de março de 2008

WikiCrimes no II Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Estive em Recife desde quarta-feira participando do II Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em particular, atuei na mesa redonda sobre Produção de Dados e Conhecimento para Segurança Pública. Foi minha primeira oportunidade de apresentar WikiCrimes para uma platéia formada basicamente por agentes da área de Segurança Pública. Descrevi os objetivos do projeto e demonstrei seu funcionamento para um público atento e que realizou diversas perguntas. Sabia que a tarefa não seria simples, pois trata-se de um projeto que acaba por contrariar uma cultura difundida nas instituições de segurança que se caracteriza por falta de transparência e excesso de centralização. Uma pergunta recorrente me foi feita após minha apresentação sobre se as informações sobre crimes publicadas em WikiCrimes não poderiam ser usadas por pelos próprios criminosos em benefícios deles mesmos. Acho que vale a pena elaborar um pouco mais a resposta para essa questão. Uma das teorias mais referenciadas no meio acadêmico da criminologia é a teoria das atividades rotineiras (RAT – Routine Activity Theory, Felson 1979). Essa teoria formaliza algo que se pode compreender de forma fácil e intuitiva, qual seja: ocorrência de crimes depende da convergência de um agressor (motivado a cometer o crime) e uma vítima (em condição de vulnerabilidade e atratividade) em um determinado espaço geográfico. Em outras palavras, não há como haver um crime sem que essas condições ocorram (vejam que essa teoria não se aplica para crimes cibernéticos ou mesmo as extorsões por telefone, muito comum nos dias atuais, por exemplo). Pois bem, o que a RAT diz é que a convergência desses três fatores (agressor, vítima e local) depende das atividades rotineiras tanto da vítima como do agressor. Ou seja, se as rotinas dos dois coincidem com freqüência , há uma probabilidade maior de um crime ocorrer do que se essas rotinas não coincidem. Ocorre que quem tem o poder da informação e da surpresa é o agressor. Ele tem a possibilidade de decidir se um crime ocorre ou não além de poder inclusive planejar sua ocorrência, observando a rotina da vítima, por exemplo. O cidadão, como não tem a informação a seu dispor, não pode fazer muito. Ao fornecer informações sobre locais onde deve-se ter cuidado, WikiCrimes auxilia o cidadão a evitar a convergência dos fatores do RAT. Mas e essa mesma informação também seria útil a um criminoso? Provavelmente, não, mas para ser mais convinente ainda, deixem-me dizer-lhes ainda outra coisa bem conhecida no contexto da criminologia. Há locais que são mais freqüentemente alvos de crimes do que outros e um dos fatores que leva a isso é que os agressores, exatamente por terem a condição de estudar o local e planejar suas ações, sentem-se mais confortáveis em cometer crimes em locais que conhecem do que locais onde não tem algum conhecimento. Por isso, que digo que saber onde o crime ocorre com freqüência não é relevante para o criminoso. Há muitas outras informações mais úteis e que ele já as tem como obter diariamente como os hábitos das vítimas, as rotas de fuga, horários de desguarnecimento., etc. Mesmo que pudéssemos duvidar dos argumentos que apresento, há que se concordar que toda informação pode ser usada em benefício próprio tanto para o bem como para o mal (como, aliás, é fato para todas as grandes invenções da humanidade). Nas circunstâncias atuais, o cidadão de bem é o mais prejudicado com a falta de informação incentivada pela prática da cultura centralizadora e pouco transparente que hoje prevalece. Para finalizar, devo dizer que as polícias no resto do mundo já perceberam isso e divulgam o máximo de informação sobre os crimes na Internet. Dois exemplos disso são os sites (www.chicagocrime.org e http://topeka.org/crimestats/Map.aspx).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Motivation and Goals of WikiCrimes

WikiCrimes has now an english version (as well as a portuguese one). Just reminding the main goals and motivations. The debate on the credibility of criminal data currently being supplied to society by law enforcement agencies is growing more heated every day. The traditional mechanism of data-gathering for which such agencies are responsible ends up giving them a monopoly over the handling of information on criminal occurrences, which is not always in keeping with the precept of transparency and public availability of information required by a democratic system. Allied to that, the limitations to provide high-quality public services, tend to provoke a feeling of disbelief among the populace which, in turn, contributes toward the low rate of reporting such occurrences: the so-called underreporting effect. Research conducted with victims of crime has shown that underreporting may, in densely-populated areas, is always there. The result of this can be disastrous in terms of formulation of public policies and especially in the planning of police actions, in view of the fact that the official criminal mapping may reflect a trend that is quite unlike what is actually occurring in real life. WikiCrimes intends to change the traditional logic of handling information on crimes that have already occurred, and considers that such a change is up to the citizens themselves. It is based on the principle that with adequate support, citizens will be capable of deciding how and when historical information on criminal occurrences can be publicized. WikiCrimes aims to be this support. It draws inspiration from the collaborative form of working on the Web, popularly exemplified today by the online encyclopedia Wikipedia. The idea is that the total mapping of crimes in a geographical area can be done, in a collaborative manner, directly by citizens. Consequently, data stemming from this participatory mapping will be automatically available for consultation and access by everyone, to use as they see fit. WikiCrimes also opens possibilities for conducting victimization studies that are more comprehensive and less costly than those being done at the present. Finally, we hope that it can serve as a tool for use by the public agencies themselves in the formulation of public safety policies and, in particular, by police forces in their activities of analysis and planning. Comparisons among the criminal maps produced by WikiCrimes with those produced by the law enforcement agencies, for example, may bring new knowledge about the dynamic of crime.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Dados Criminais e “Furos” Jornalísticos

O Jornal O Povo ofereceu em sua primeira página de ontem em letras garrafais a seguinte manchete “Homicidios: Estado usa números errados. 33% de mortes a mais”. O fio condutor da matéria foi a descrição de um estudo de um sociólogo, que “descobriu” que o número de homicídios registrados pelo CIOPS e o número registrado pelo IML não batiam. Fiquei estarrecido pela forma como essa matéria foi realizada. Primeiro, porque não é novidade para ninguém que entende um pouco de como funciona o sistema de coleta e registros de dados das Secretarias de Segurança Pública no Brasil de que os CIOPSs não têm o número mais preciso de registros de homicídios. Também não é novidade de que o dado do IML juntamente com o dos inquéritos da Polícia Civil é mais confiável no que se refere a homicídios (muitas vezes o dado da Secretaria de Saúde também pode ser usado). Segundo, surpreende-me dizer que o Estado usa o número errado. Ora, o outro número usado na reportagem é do próprio Estado, aliás da mesma Secretaria. Historicamente, o dado usado pelas Secretarias é uma consolidação das fontes que já mencionei. Os próprios dados enviados ao Ministério da Justiça não são os dados do CIOPS. Na matéria, a resposta da Secretaria de Segurança, tenta esclarecer, mas passa-se a impressão de que era algo errado e que passará a ser feito correto. Quero crer que os responsáveis que entendem de tudo isso que estou dizendo não tiveram espaço para esclarecer a situação. É preciso antes de tudo compreender o que é o CIOPS, qual sua finalidade e que dados ele congrega. O CIOPS é uma central de atendimento de emergência. Centrais de emergência não se destinam a coletar dados muito detalhados dos envolvidos . Devem coletar dados que permitam um rápido atendimento ao cidadão que pede socorro. É muito comum acontecerem chamadas que são registradas no CIOPS como lesões e que posteriormente, com a morte da vítima, torna-se um homicídio. Somente com a abertura do inquérito e com as informações periciais é que se pode precisar que este tipo de ocorrência se caracteriza como um homicídio. Um cadáver encontrado em via pública é outro exemplo. Só se pode confirmar que houve um homicídio após análises periciais. No CIOPS o registro fica somente como encontro de cadáver. Esses exemplos servem para mostrar que o trabalho de consolidação dos dados para a contagem de homicídios é tarefa necessária de ser realizada. Normalmente, para realizar essa consolidação tem-se uma central de tratamento de informações que toma nomes diversos nas Secretarias de Segurança do País. Esse é o dado oficial e é ele que é usado pelas Secretarias. Não tenho razões para crer que a gestão atual da SSPDS mudou esta prática. Vale ressaltar que não estou dizendo que os CIOPSs não possuem estatísticas úteis. Claro que as tem. Mas são de outra natureza. As estatísticas do CIOPS servem primeiramente para identificar zonas perigosas a partir de chamados do cidadão. É o dado mais importante para a realização de policiamento preventivo. Trata-se de informação geoprocessada e que dá um enorme subsídio às policias para, por exemplo, um programa tipo ronda do quarteirão. Agora, quando se fala de estatística qualitativa, com dados desagregados e para subsidiar investigações o dado mais adequado é o da Polícia Judiciária (aqui se insere os Institutos Científicos). De qualquer forma, com uma coisa dita na matéria concordo plenamente: há subnotificações de crimes. Aqui e em qualquer lugar do mundo. Por isso (e por outras) estou propondo WikiCrimes. Acho que ele merece muito mais barulho do que esse falso debate dos números de homicídios.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

WikiCrimes: Uma Semana Depois…


Depois da matéria no O Globo (clique aqui para ver a matéria) que lançou WikiCrimes vale a pena uma reflexão sobre a agitada semana pós-lançamento. A repercussão do site e a reação das pessoas me têm sido uma experiência muito enriquecedora. A fantástica sensação de estar aprendendo ao se tentar fazer acontecer é ao mesmo tempo excitante e angustiante. A constante descoberta de novidades, furos, reações inesperadas das pessoas compõem o cotidiano. Tenho dito sempre que WikiCrimes é, antes de tudo, um projeto social e de cidadania. Requer motivar as pessoas a participarem por uma causa. Trata-se ainda de criar uma cultura de compartilhamento que está muito forte em países anglo-saxões, mas que não me parece sedimentada na América Latina. Os aspectos tecnológicos são claramente secundários. Afora alguns bugs que identificamos e melhorias que já estamos desenvolvendo, fica claro que um dos maiores desafios é de comunicação. Comunicação, a princípio, para fazer a divulgação do site. Em segundo lugar, comunicação de uma mensagem convincente que consiga fazer as pessoas se motivarem e participarem. Os meios de comunicação tradicionais e os blogs têm aberto espaço para WikiCrimes. A avaliação dos usuários têm sido muito positiva. Recebo muitos e-mails de felicitações, embora preferisse receber mais mensagens de engajamento. Agora os que são empresários já olham para o projeto com um ar preocupado. Pensam que as informações criminais podem afastar os fregueses e clientes. Uma preocupação que não deixa de ser compreensível, mas contra a qual contraponho o seguinte questionamento: vale a pena tentar esconder a verdade dos clientes? Ao fazer isso não estariam arriscando a segurança destes e assim desmerecendo-o? Espero no futuro ter empresas parceiras do projeto e que elas passem a mensagem que suportam o projeto, pois estão preocupadas com o bem-estar do cliente (em última instância do cidadão) e por isso zelam pela transparência das informações. Em uma semana WikiCrimes já tem 100(cem) registros de crimes (tirei uma foto do site e o postei acima). A maioria dos registros deu-se em Fortaleza que tem sido a cidade mais participativa pela óbvia razão de ter sido o local onde WikiCrimes teve maior divulgação. Essa constatação aponta para a necessidade de se conseguir manter um alto nível de divulgação (o que está longe de ser evidente). Lembro-me de um livro interessante que li ano passado que se chama Tipping Point. Fala de um ponto de inflexão que um fenômeno atinge e que a partir dele seu crescimento é exponencial. Atingir o Tipping Point é o grande desafio de qualquer desenvolvedor de site na web. A estratégia é manter um crescimento constante e esperar que com o tempo o tipping point aconteça. O quanto se deve esperar para que isso ocorra, ninguém sabe. Há que se ter paciência e persistência. É minha primeira experiência nessa direção e, fazer isso, sem uma estrutura comercial nem organizacional torna o desafio ainda maior. Todo esse contexto faz parte do processo de aprendizagem. Acho que a idéia de WikiCrimes é tão boa que ela arrisca dar certo mesmo sem maiores estruturas. De qualquer forma, sei que precisaremos de parceria para manter a chama acessa. Será meu próximo passo e minha nova disciplina a cursar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

WikiCrimes Está no Ar!

Dando continuidade ao texto em que falei da motivação de WikiCrimes, volto ao tema desta vez para anunciar o lançamento da sua versão beta (versão que está sujeita a pequenos problemas e modificações). Basta acessar o site WikiCrimes para começar “a compartilhar informações sobre crimes e saber onde não é seguro”. WikiCrimes é uma aplicação típica da Web 2.0. Ela permite aos seus usuários acessar e realizar registros de ocorrências criminais no computador diretamente em um mapa digitalizado. Por esta razão, esta atividade se chama mapear o crime. A filosofia que norteia WikiCrimes é a mesma da enciclopédia Wikipedia. Parte-se do princípio que a participação individual pode gerar uma sabedoria das massas. Ou seja, se todos participarem o mapeamento criminal passa a ser feito colaborativamente e todos terão o benefício de ter acesso às informações de crimes no mapa. Trata-se de uma experiência arrojada, pois muito mais do que um projeto de informática ele se apresenta como um projeto social. Considero-o social não somente pelo fato de ser relativo à Segurança Pública que, evidentemente, se trata de uma questão social. O que quero enfatizar é que o projeto requer a participação da sociedade e o seu sucesso depende essencialmente de se conseguir sensibilizar as pessoas a participarem. Por isso, a partir de hoje, começo uma cruzada no sentido de provocá-los a registrar crimes e convoco-os a juntar-se a mim na tarefa de difundir e disseminar a idéia.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Mapeamento Criminal em Debate Na Escola de Saúde Pública

Na semana passada fui convidado para participar de uma mesa de debates com a Profa. Glaucíria Brasil e com o Dr. Luis Carlos Galvão médico legista de Salvador. Excelente iniciativa da Escola de Saúde Pública, pois a Segurança é um problema multidisciplinar e a área de saúde é uma das que mais sofre as conseqüências da falta de políticas efetivas na área. O Dr. Mário Mamede me disse que a cada cinco minutos chega um motoqueiro acidentado ao IJF (que não vêm só de Fortaleza). Foi igualmente uma ótima oportunidade para que eu pudesse disseminar os conceitos de mapeamento criminal e de como isso pode ser útil como ferramenta de gestão pública. A Segurança tem o que aprender com a Saúde. Desde a criação do SUS (Sistema Único de Saúde), uma cultura de coleta e análise de dados se criou e hoje dados sobre o sistema de saúde são bem mais confiáveis do que os dados da Segurança. Não é a toa que muitas vezes o Ministério da Justiça recorre às estatísticas de homicídios vinda do SUS ao invés das que vêm das polícias estaduais.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

High Tech para Investigação Policial: Eddie


O caso da menina desaparecida em Portugal, filha de casais médicos britânicos, trouxe a cena uma das mais surpreendentes armas na investigação criminal: cachorros farejadores de sangue. A polícia britânica tem um springer spaniel, chamado Eddie, que tem a capacidade de farejar sangue mesmo após anos da mancha ter sido criada (muitas vezes invisível a olho nu) e até mesmo em locais que já tenham sido lavados. Clique aqui para conhecer mais sobre essa raça de cão. Eddie viaja o mundo ajudando policias de diversos países a desvendar crimes de difícil solução. De uma forma geral, sabe-se que cães possuem um sistema olfativo cerca de 200 vezes mais poderoso do que o humano. Ele consegue realizar a separação de cheiros e por isso é tão usado para farejar drogas onde a estratégia de misturá-las com outros aromas como café e perfume é muito comum. No caso da garota em Portugal, os cães identificaram sangue (que pode ser da menina) na casa e no carro dos pais, o que pode dar um novo direcionamento ao caso. Recentemente, descobri que essa capacidade olfativa dos cães pode ser usada até para o diagnóstico de câncer de pulmão. Ao cheirar a respiração do paciente, cães treinados poderiam identificar a existência de aromas que são provocados pela existência do tumor (clique aqui para conhecer mais sobre esse estudo, em inglês)

sábado, 28 de abril de 2007

Ações Concretas para Ajudarmos na Redução do Crime

O recente clamor por paz e redução da violência e criminalidade mostra que a sociedade brasileira está no limite. Sinto que todos estão dispostos a contribuir, mas muitas vezes não sabem como. Normalmente, decidem fazer passeatas nas ruas pedindo paz. São atos simbólicos, mas de muito pouco efeito prático. Tenho escrito que uma das formas de contribuição para a redução da criminalidade está em nosso alcance. Basta mudarmos um pouco nossa postura, por exemplo, deixando de pensar somente em nós mesmos para pensar um pouco mais no coletivo (clique aqui para ver outro texto sobre o assunto). Deixem-me usar um exemplo simples que pode fazer com que um tipo de delito que nos aflige diariamente, o furto em veículos, reduza sensivelmente. Este tipo de delito é uma das coisas que mais aumenta a sensação de insegurança, pois recorrentes casos de furtos de toca-cds, calotas de pneus e outros equipamentos dos veículos deixam-nos com a sensação de que o crime está em todo o canto. Como podemos agir para combater esse crime? Simples. Não comprando equipamentos ou peças em locais que reconhecidamente fazem o tráfico dos produtos ilegais. Deixemos de comprar em comerciantes duvidosos, em feiras onde reconhecidamente se vende produtos piratas, enfim em lugares onde não se emite nota fiscal e onde não se pode garantir a boa procedência do produto. Se fizéssemos isso em conjunto esses furtos diminuiriam sensivelmente, pois eles só ocorrem porque há quem compre os produtos furtados. Somos nós mesmos que alimentamos o sistema. Eu sei bem que este tipo de discurso pode provocar logo o ceticismo de alguns: e se somente eu fizer isso? Isso não vai adiantar nada, pois meu colega do lado não faz e acabo tendo o prejuízo sozinho! Mas é exatamente esse tipo de raciocínio vicioso que temos que quebrar. Ele embute o sentimento de querer levar vantagem em tudo e de não acreditar que um comportamento coletivo correto pode emergir de uma ação individual. Outros mais céticos poderiam dizer: mas furto a carro é algo sem importância. Não resolve o problema da violência em geral. Isso é verdade em parte, mas lembremos-nos daqueles que morreram em latrocínios que ocorreram em situações ridiculamente sem sentido, como em uma simples tentativa de furto da capa de toca-cd em que o dono do carro surpreendeu o criminoso. Acredito muito que ações individuais e a propagação das mesmas em uma rede podem fazer a grande diferença. Trata-se de fazer algo e divulgar para o amigo que faça o mesmo. É incrível como o efeito corrente pode fazer a diferença. O exemplo do furto em veiculo é emblemático, mas serve para muitas outras coisas como o tráfico de drogas, de cargas comerciais roubadas, etc. Alimentamos um sistema que estimula o crime e fazemos isso muitas vezes sem perceber que estamos errando ou por não perceber as conseqüências de nossos atos. Pensemos nisso e acima de tudo, comecemos a agir.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Fórum Nacional de Segurança Pública

Estou participando com grande satisfação do Fórum Nacional de Segurança Pública. Um grupo eclético e com muitas competências de todo o País. Minha experiência de oito anos em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias para Segurança Pública levou-me a ser convidado a participar e apresentar opiniões em um assunto tão complexo. Recentemente estive trocando emails com membros do fórum sobre o quanto algumas polícias no Brasil têm avançado em um aspecto importante para a melhoria de suas atividades: o desenvolvimento gerencial. Trata-se de uma verdadeira mudança cultural que está se buscando colocar em prática nas organizações policiais. Busca-se realizar atividades de forma mais planejada, com definição de indicadores e acompanhamento dos mesmos. Em minhas mensagens, relatei como a tecnologia da informação é agente importante neste processo de mudança cultural e de como isso foi e está sendo usado no Ceará. Enfatizo que a tecnologia por ela mesma não é suficiente. Não se trata de se ter computadores mais modernos e sofisticados. Há que se ter a visão de que o fundamental é a gestão da informação e de como isto pode ajudar a atingir os objetivos de controlar a criminalidade. A qualificação de pessoal em gestão dentro das academias de polícia já está em andamento em alguns estados. Creio que essa iniciativa poderia ser seguida por mais instituições públicas. Afinal todos nós precisamos do propalado choque de gestão. Em breve estarei divulgando o site do Fórum que está em construção.