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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Mapa da Descontinuidade: Isso sim, seria inovação

Semana passada li uma notícia no jornal O Povo que me causou espanto. Nela dizia-se que a Secretaria de Segurança ia criar um mapa da criminalidade. Havia depoimentos de que se usavam planilhas e que agora iriam usar um software com mapas digitais. Leia a matéria aqui.

A surpresa que tive deve-se ao fato de que as ferramentas para criar mapas desse tipo, inclusive com a possibilidade de colocá-los à disposição do cidadão foram feitos há cerca de dez anos. Desde a implantação do CIOPS em 1998, softwares de geoprocessamento foram feitos para indicar os locais mais perigosos e subsidiar o planejamento das ações de policiamento ostensivo e repressivo.

Lembro-me que foi desenvolvido um site, inovador na época, chamado de estatísticas mapeadas que era disponibilizado pela intranet da Secretaria para que todos os comandantes de companhia e delegados pudessem fazer consultas nesses mapas.

Se tivessem pelo menos anunciado que iriam reativar ou melhorar o que existe, teria ficado menos surpreso. Estou pensando em criar um WikiMapp para mapear colaborativamente as iniciativas que são descontinuadas no serviço público.  Será que isso já existe?

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Mensagens criptografadas e Sigilosas na Policia

Surpreendeu-me fortemente uma matéria do Jornal O Povo desta semana que discorria sobre mudanças no sistema de rádio-comunicação da Policia Federal. Nessa matéria, o jornalista descreve o novo sistema digital de transmissão digital e que permite enviar mensagens criptografadas.

Para os menos habitués com os termos técnicos, a criptografia é a técnica de confundir uma mensagem de forma que a mesma não possa ser inteligível por outro que não o(s) receptor(es) visados pelo destinatário. A técnica de criptografia é muito usada em meios militares, pois mensagens sigilosas capturadas pelos inimigos podem causar um grande estrago. O cinema é rico de filmes em que a temática foi tratada.

Mas o que mesmo me surpreendeu? O fato de que a Secretaria de Segurança, segundo o secretário-executivo da SSPDS, estar querendo comprar um sistema similar, que seja digital e permita criptografia. Na verdade, não é o interesse de adquirir um novo sistema que me surpreende, mas o fato de que a cúpula da Secretaria de Segurança não sabe que o sistema que eles têm hoje já é digital e que permite inclusive a comunicação com mensagens criptografadas. Vejam o que é dito na matéria:

Joel Brasil(secretário-executico da SSPDS) avalia a tecnologia Tetrapol ID como “muito boa”. De acordo com ele, o modelo é seguro por trabalhar de forma digital. O sistema de hoje é analógico.

O sistema de rádio da SSPDS foi comprado há cerca de dez anos, é digital e já na época comportava a possibilidade de enviar mensagens criptografadas. Esse mesmo sistema fornece um conjunto de ferramentas para evitar interceptação de mensagens. Olhe que não dá nem para dizer que o pessoal que hoje está na SSPDS não sabe disso, pois o atual diretor do CIOPS foi um dos que participou do processo de implantação do sistema.

Além dessa falta de informação preocupante, devo dizer ainda que na minha passagem pela SSPDC (antiga SSPDS), percebi que dentre as vulnerabilidades que permitem vazamento de informação sigilosa, a arapongagem da escuta de ondas de rádio é uma das menos adotadas pelos bandidos. Há outras alternativas bem mais simples e menos onerosa que vão desde comprar informações diretamente de policiais e funcionários como usar o próprio rádio do policial por um certo momento. Todas essas formas estão ligadas ao elo fraco na cadeia de Segurança: gente. Evitar que esses vazamentos ocorram com acompanhamento, gestão, fiscalização e capacitação é um desafio bem mais complexo do que comprar equipamentos.

Por fim, vale a pena mencionar a fragilidade da matéria. Frente a informação governamental, cabia pelo menos procurar entender um pouco mais sobre o sistema de comunicação hoje existente. O título da matéria "Estado adotará Comunicação Segura” deixa dúvidas se essa comunicação hoje é insegura. Caso seja, não vejo indícios de que é por limitações técnicas do sistema de comunicação atual.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

10 Anos de CIOPS: Ainda Pouca Compreensão

Semana passada, recebi uma singela, mas muito gratificante homenagem do CIOPS de Fortaleza. Na verdade, agora deve ser dito a CIOPS, pois se tornou Coordenação Integrada Operacional de Segurança. Fui homenageado pelos serviços prestados e por ter sido idealizador do projeto. Difícil esquecer o sentimento de desafio que foi a implantação do projeto. No dia 22 de Janeiro de 1999, quando ”viramos a chave” foram alguns meses de adrenalina pura. O termo virar a chave vem do fato de que os links da TELEMAR tinham que ser desviados para os telefones antigos do COPOM da Polícia Militar para os do CIOPS (então Centro e não Coordenação). A população não podia ficar nem um segundo sem atendimento e a mudança tinha que ser feita de forma totalmente transparente. Detalhe: após a virada de chave não tinha mais volta. Embora tenhamos tido intensamente planejado aquele momento, era impossível antever tudo, daquilo que era um projeto pioneiro no Brasil. Foram algumas noites sem dormir com uma equipe aguerrida dentre os quais menciono Coronel Gondim (PM), Major Sólon(BM) e Delegado Róscio além da Amiga e analista de sistemas da ETICE Lúcia Pompeu. Chegada a estabilidade, tornou-se uma referência e visitantes de quase todos os Estados vieram visitar a experiência e copiá-la. Hoje a maioria deles possui um CIOPS nos mesmos moldes. De fato, o modelo CIOPS, embora novo no Brasil, já vinha sendo adotado nos países desenvolvidos há algum tempo. Lamento muito que durante esses dez anos o CIOPS tenha ainda enfrentado tanta desinformação da mídia e mesmo de algumas autoridades. Ainda na semana passada o editorial do Diário do Nordeste deu crédito a consultoria de Bratton pela criação do CIOPS !

A Ciops é fruto do único diagnóstico de qualidade, realizado por consultoria norte-americana, contratada para sugerir a modernização da Segurança Pública no Ceará.

Creio que a carência do sistema de Segurança Pública na época (que era bem maior do que hoje) fez criar o sentimento de que o CIOPS seria o remédio para todos os males. Isso não é verdade, mas um programa persistente de redução da violência em áreas urbanas não pode existir sem uma central de atendimento de emergência eficiente. Antes da existência do CIOPS não havia nenhum sistema de coletas das ocorrências criminais. O telefone 190 estava constantemente ocupado e o atendimento era lento e impossível de ser gerenciado. Repito aqui o que já disse em outros textos em que falei sobre o CIOPS: a existência de um completo sistema de informação com registro de todas as etapas do atendimento é o ponto alto do projeto. Pauta-se assim pela transparência no atendimento, capacidade de planejamento e acompanhamento e medição de produtividade. Evidente que tudo isso de per si não é suficiente para dizer que a qualidade do atendimento é de alto nível. A questão gerencial, qualificação de pessoal e, sobretudo, a estrutura operacional de atendimento na rua da Polícia serão sempre desafios a serem vencidos e darão pano para críticas. É importante, no entanto, compreender o papel do CIOPS para poder criticá-lo de forma a não cometer injustiças com aqueles que nele trabalham, mas principalmente com a Instituição.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Dados Criminais e “Furos” Jornalísticos

O Jornal O Povo ofereceu em sua primeira página de ontem em letras garrafais a seguinte manchete “Homicidios: Estado usa números errados. 33% de mortes a mais”. O fio condutor da matéria foi a descrição de um estudo de um sociólogo, que “descobriu” que o número de homicídios registrados pelo CIOPS e o número registrado pelo IML não batiam. Fiquei estarrecido pela forma como essa matéria foi realizada. Primeiro, porque não é novidade para ninguém que entende um pouco de como funciona o sistema de coleta e registros de dados das Secretarias de Segurança Pública no Brasil de que os CIOPSs não têm o número mais preciso de registros de homicídios. Também não é novidade de que o dado do IML juntamente com o dos inquéritos da Polícia Civil é mais confiável no que se refere a homicídios (muitas vezes o dado da Secretaria de Saúde também pode ser usado). Segundo, surpreende-me dizer que o Estado usa o número errado. Ora, o outro número usado na reportagem é do próprio Estado, aliás da mesma Secretaria. Historicamente, o dado usado pelas Secretarias é uma consolidação das fontes que já mencionei. Os próprios dados enviados ao Ministério da Justiça não são os dados do CIOPS. Na matéria, a resposta da Secretaria de Segurança, tenta esclarecer, mas passa-se a impressão de que era algo errado e que passará a ser feito correto. Quero crer que os responsáveis que entendem de tudo isso que estou dizendo não tiveram espaço para esclarecer a situação. É preciso antes de tudo compreender o que é o CIOPS, qual sua finalidade e que dados ele congrega. O CIOPS é uma central de atendimento de emergência. Centrais de emergência não se destinam a coletar dados muito detalhados dos envolvidos . Devem coletar dados que permitam um rápido atendimento ao cidadão que pede socorro. É muito comum acontecerem chamadas que são registradas no CIOPS como lesões e que posteriormente, com a morte da vítima, torna-se um homicídio. Somente com a abertura do inquérito e com as informações periciais é que se pode precisar que este tipo de ocorrência se caracteriza como um homicídio. Um cadáver encontrado em via pública é outro exemplo. Só se pode confirmar que houve um homicídio após análises periciais. No CIOPS o registro fica somente como encontro de cadáver. Esses exemplos servem para mostrar que o trabalho de consolidação dos dados para a contagem de homicídios é tarefa necessária de ser realizada. Normalmente, para realizar essa consolidação tem-se uma central de tratamento de informações que toma nomes diversos nas Secretarias de Segurança do País. Esse é o dado oficial e é ele que é usado pelas Secretarias. Não tenho razões para crer que a gestão atual da SSPDS mudou esta prática. Vale ressaltar que não estou dizendo que os CIOPSs não possuem estatísticas úteis. Claro que as tem. Mas são de outra natureza. As estatísticas do CIOPS servem primeiramente para identificar zonas perigosas a partir de chamados do cidadão. É o dado mais importante para a realização de policiamento preventivo. Trata-se de informação geoprocessada e que dá um enorme subsídio às policias para, por exemplo, um programa tipo ronda do quarteirão. Agora, quando se fala de estatística qualitativa, com dados desagregados e para subsidiar investigações o dado mais adequado é o da Polícia Judiciária (aqui se insere os Institutos Científicos). De qualquer forma, com uma coisa dita na matéria concordo plenamente: há subnotificações de crimes. Aqui e em qualquer lugar do mundo. Por isso (e por outras) estou propondo WikiCrimes. Acho que ele merece muito mais barulho do que esse falso debate dos números de homicídios.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Estrago de Boas Idéias

Já tinha mencionado nossa incapacidade de implementar boas idéias no contexto da tecnologia da informação na segurança pública (clique aqui para acessar o texto) . Na verdade acredito que temos, enquanto país, uma baixa capacidade de realização que chega a ser traumática. Somos uma sociedade que privilegia fortemente a concepção de idéias, mas pouco a realização destas. A conseqüência disso é um constante estado do que chamo de “estrago de idéias”. Ou seja, idéias que são boas, mas por não serem corretamente implementadas acabam sendo estigmatizadas. No contexto da Segurança Pública do Ceará, presenciei em alguns momentos essa situação. A mais marcante delas se refere ao CIOPS (Centro Integrado de Operações de Segurança). Fui o idealizador e coordenador do projeto CIOPS no Ceará. Um dos pioneiros no Brasil, até hoje ele é referencia nacional, pois contempla uma série de ferramentas que trazem qualidade e transparência à gestão. O CIOPS grava todas as ligações de pedido de socorro feitas pelo cidadão. Pode-se verificar imediatamente se o atendimento foi correto ou não. Um moderno sistema de computador registra o tempo de atendimento em um alto e variado nível de detalhe. Sabe-se claramente quanto tempo se levou para chegar na ocorrência. As viaturas de patrulha também são monitoradas por satélite e acompanhadas em um mapa digital dentro do microcomputador de cada policial que realiza o despacho e coordenação das viaturas na rua. Antes da implantação do CIOPS era muito comum o cidadão ligar para o 190 e este número estar ocupado. Com o CIOPS a capacidade de atendimento aumentou significativamente. Poderia descrever muito mais. Quase todos os Estados da federação vieram conhecer o modelo do CIOPS do Ceará e nele se inspiraram para a criação de seus centros. Era de se esperar que fossemos orgulhosos de nossa criação, não? Infelizmente, esse não é sempre o caso. Freqüentemente, escuto críticas a atendimentos realizados (ou deixados de serem realizados) pelo CIOPS. Não me parece que se esteja utilizando todo o potencial que o CIOPS tem e muito menos estejam sendo dados os recursos necessários para tal. Há claramente uma situação de “estrago da idéia”, pois os problemas apontados são sempre de operacionalização da polícia em si. Por exemplo, em um final de semana cerca de 30% das chamadas de atendimento não são atendidas por falta de viaturas. Impossível manter uma boa idéia com tamanha deficiência. A idéia-mor do CIOPS é a de um completo sistema gerencial que dá apoio às ações policiais. No entanto, ele não substitui o trabalho da polícia. Mágica não dá para fazer.