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domingo, 30 de junho de 2013

A Beleza de Fortaleza


Em Maio de 2007, recém-chegado do pós-doutorado em que passei pouco mais de um ano na Califórnia, escrevi sobre a Beira-mar.
Na época descrevi meu sentimento quando passeei pelas calçadas e percebi todo o calor humano e diversidade lá presentes. Aqui decido voltar sobre a questão, porque vi alguns comentários de turistas que vieram a Fortaleza e disseram não achar a cidade bela. Diziam não ter visto nada de especial.

Lembrei-me de quando cheguei em Marseille na França, cidade que morei por quatro anos. A primeira impressão quando lá cheguei foi a de achar a cidade feia. Era minha primeira ida a Europa e esperava aquelas coisinhas lindas bem ajeitada, tipo Suíça. Marseille não tinha(e não tem nada disso). É um caos só. Multiarquitetura, multicultural, multilépoca J).  Só compreendi a beleza da cidade depois de algum tempo. E vi que a França não tem tantas cidades como Marseille.

Acho que Fortaleza, embora muito diferente de Marseille, é uma cidade dessas que não dá para perceber a beleza em um primeiro momento como Rio, Paris e outras onde as beleza natural aflora. Ela tem que ser vivida e sentida. E a Beira-mar (incluindo a Praia de Iracema) é para mim o local a se sentir.

Sempre que lá passeio, vejo uma representação de classes, de culturas e de valores incríveis. Difícil encontrar um espaço amplo, cheio de atrações, como muita gente e eclético como a Beira-mar. A proximidade com a zona hoteleira e restaurantes é riquíssima. Durante a Copa das Confederações adorei ainda mais passear na Beira-mar. A mistura de gente tornou-se ainda mais eclética.

Lembro que tudo isso é ainda temperado pelo cearense com seu condimento especial: o bom humor.  Há sempre um vendedor exótico fazendo alguma graça (com a própria desgraça ou zombando da cara do próprio comprador (pode algo ser mais politicamente incorreto)).

Seria muito pobre reduzir a beleza de Fortaleza à noite da Beira-mar? Talvez, mas se os turistas a vivenciarem  vão começar a perceber uma  beleza que vale o ticket. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Brasil x México: Uma Odisseia no Sol


Fomos ao jogo, Beth e eu, depois de ter tentado em vão transferir o ingresso dela. Depois do show do Paul, era compreensível que não ela não quisesse ir mais ao Castelão. Ainda por cima para assistir futebol, o que decididamente não a encanta tanto.

Não consegui transferir o ingresso o que serviu para indignar-me mais ainda com a FIFA. Estou a procurar um exemplo do tão propalado padrão FIFA. Filas na entrega dos ingressos, site cheio de bugs, com péssima usabilidade e ainda com a impossibilidade de escolher o local onde se quer sentar mostram que, antes de exigir das autoridades brasileiras, a FIFA tem que fazer seu dever de casa. Sugiro umas aulinhas particulares com a NBA.

O dia do jogo não começou muito bem para mim. Fui jogar basquete e machuquei o joelho (coisa de atleta Master L ). Ao voltar para casa de bicicleta, como habitualmente (nem tanto, pois o joelho acusava), identifiquei um ponto de parada de ônibus, que supostamente deveria coletar torcedores da região da Beira-mar para levar diretamente ao Castelão. Ficava a poucos metros de nossa casa e por isso decidimos ir de ônibus. Começava minha Odisseia.

13:30 chegamos ao ponto de ônibus. A fila de torcedores, em sol a pino, já estava formada e, embora não muito grande, foi suficiente para apresentar-me ao que me esperava. Detalhe: o suor começou a descer e o joelho começou a incomodar.

14:10 O ônibus chega enfim! Lota rápido. Eu e Beth quase não conseguíamos entrar. Sempre cabe mais um com jeitinho. Deu até nostalgia do tempo em que ia ao Náutico nos domingos. Ressalto, nostalgia, mas não foram saudades.

14:20 Ônibus lotado, muito grito e vaias. Aquele grito e vaia típico de cearense. Bem moleque. Beth se divertia. O joelho inchava. O motorista ainda tenta parar em outra parada. Muita gritaria. Não cabe mais ninguém! Ele continua e dobra na Desembargador Moreira em direção ao Castelão.

14:30 Percebo algo errado. Estávamos indo em um caminho que levava diretamente à passeata. Grito para o motorista: “É esse caminho mesmo?”. Ele nem responde. Peço permissão a alguns e chego do lado dele. Pergunto-lhe se ele não sabe que está havendo uma enorme manifestação bem à frente. Ele disse que sim. Insisto. “Qual é sua rota?” – “É essa mesmo Doutor.”. Pegou um papelzinho do bolso, leu em voz alta: “vá na Abolição, dobre na Virgílio Távora e siga em frente”. Ops! Falha. Alertei-lhe, não sem uma certa irritação, que ele não tinha dobrado na Virgílio Távora, mas na Desembargador Moreira.

14:35 Viro copiloto do ônibus. Começando com um balão nada fácil de ser feito na Raul Barbosa, começamos a voltar para pegar a rota do Iguatemi e Rogaciano Leite. Sorte nossa que o engarrafamento foi pequeno. Quando na Rogaciano Leite, o motorista me disse: “É por aqui mesmo Doutor. Agora estou lembrando do caminho”. Aha!

14:45 Chegamos na Oliveira Paiva. Tudo parado. Olhei no Google Maps. Estávamos a 4,3 km do Castelão. Comecei a me preparar para andar. Era só o que podíamos fazer. A Polícia havia bloqueado a entrada dos ônibus, pois os manifestantes estavam planejando mudar de local. Recebemos o alerta: “Desçam e corram” (só faltou o “negrada”). Correr como? O joelho tinha inchado muito e até andar estava difícil. Detalhe novamente: não há como esquecer que estamos na Terra do Sol.

15:10 Momento mais tenso. Vi-nos andando (não conseguia correr) em direção ao Batalhão de choque e à frente da passeata. Gritos de ordem dos dois lados. Alguns começaram a dizer “tão atirando!”. Até tenho simpatia pelos movimentos populares, mas confesso que não era exatamente daquele que tinha planejado participar. Se tivessem tirado uma foto desse momento, tenho certeza que pareceríamos líderes à frente da multidão. Começamos a rir. Tinha outra coisa a fazer?

15:20 Estávamos no meio da multidão. Como não conseguia correr, a passeata nos envolveu. Chegando à linha de frente, uns organizadores da passeata disseram para abrir espaço para os que queriam assistir o jogo. Até que enfim uma voz de bom senso no meio de um coro eclético de jovens já com máscaras e óculos para se proteger dos gases e sprays que pareciam ter certeza de que viriam.

15:25 Passamos da cavalaria com alguns outros retardatários mostrando os ingressos.

15:40 Chegamos ao estádio. Nosso assento era bem na frente daquele que havia nos acompanhado durante toda essa jornada: o sol.

16:00 Cantamos, ou melhor, gritamos o hino. O melhor momento de todos. Hoje, indo de táxi para o aeroporto em São Paulo, ouvi do taxista o quanto ele tinha se emocionado com a forma como cantamos: “Vocês, lá em Fortaleza, emocionaram a gente com aquele hino”. Ele disse que havia gravado na Internet e escutava de vez em quando com os filhos. Só então percebi o impacto nos outros que não estavam lá. Não falarei do jogo. Dele vocês já sabem tudo.

16:10 Beth olha pra mim e diz rindo: “Você está derretendo como picolé”. Sem comentários.

16:30 O sol nos deu ciao. Não lamentei nem um pouquinho.

17:40 Decidimos sair. O jogo estava 1 a 0. Meu joelho era uma bola, só não tão grande quanto a que o Neymar estava jogando. Não sabia como conseguiria andar, entrar no ônibus, enfim, fazer o trajeto de volta.

18:00 Na caminhada, encontrei com velhos amigos que nos acompanharam e que me ajudaram a esquecer do joelho. Vimos o cenário de destruição oriundo da batalha entre manifestantes e polícia. Soubemos que tinha sido antes mesmo do jogo ter iniciado. Ou seja, logo após nossa passagem.

18:15 Encontro um táxi parado no meio do nada (nem sei como ele conseguiu entrar naquela região). Proponho, sem muita esperança, uma corrida. Ele aceita. O salvador da pátria. Tinha marcado para pegar um grupo que já tinha lhe pago.

19:00 Chegamos em casa.  O taxista havia acabado de receber um telefonema do grupo. Eles o esperavam. Vai dar tempo de voltar. A corrida foi R$ 40,00. Ainda tive fôlego para brincar com ele e dizer-lhe que não pagaria isso. Dei-lhe, na verdade, tudo que tinha na carteira cerca de R$ 70,00. Estava morto.

Agora lhes pergunto: “dá pra colocar culpa na idade?”. Só sei que Ariano Suassuna tem razão quando diz (me foi contado por Luis Eduardo Menezes) “o que é ruim de viver, é bom de contar”. 

domingo, 16 de junho de 2013

Jornalismo de porta de delegacia

Esse video do excelente grupo Porta dos Fundos é uma caricatura super divertida do jornalismo policial que, embora com alta popularidade, tem efeitos claramente maléficos no contexto já tão conturbado da Segurança Pública. O sotaque nordestino/pernambucano é um toque a mais de humor.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Até Logo

Hoje escrevi artigo no O Povo descrevendo as razões pelas quais decidi parar momentaneamente de escrever naquele cotidiano. Segue o artigo abaixo.

Há cerca de um ano fui convidado para escrever nesse espaço livre e democrático. Era uma novidade para mim e que se mostrou extremamente prazerosa. Já exercitava a expressão de minhas reflexões no Blog que entretenho, mas a audiência de um jornal/portal de grande circulação deu-me mais oportunidade de sentir a reação dos leitores. 
 Neste trajeto, encontrei muita gente que me abordava e dizia  “li seu artigo, era o que eu queria dizer”. É algo muito agradável sentir-se porta-voz de outros. Embora nem sempre os comentários sejam de felicitações, elas prevaleceram. Parece-me que quem não gosta do que você fala prefere não polemizar. 
 Recentemente, fui convidado a fazer parte da equipe da Prefeitura de Fortaleza, como Coordenador Adjunto da recém-criada pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação, liderada pelo Prof. Tarcísio Pequeno e que tem a sugestiva sigla de CITINOVA. Aceitei o desafio.
 
Está me sendo dada a oportunidade de, não só contribuir com minhas ideias, mas sobretudo de agir. Nossa missão na CITINOVA é de promover a inovação para a cidade por meio da ciência e da tecnologia. Um desafio que não deve se restringir a uma área específica e com possibilidades de aplicações em toda a cidade.  Apaixonante, não? Não tinha como declinar.
 
 A nova aventura requer fazer algumas escolhas. Deixar de escrever neste espaço é uma das que estou me impondo. Creio que minhas reflexões, se forem críticas, devem ser expostas internamente para a administração municipal. Se não forem críticas, vira bajulação. Enfim, melhor calar momentaneamente. Obrigado aos leitores e meu “até mais ver”.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Fui pra balada


Para quem duvida do poder de aproximação das redes sociais, vai aqui breve depoimento. Um fim de semana desses, em que fui abandonado por minhas mulheres (L), decidi ir a balada.

Antes que minha mulher saiba por outros e me veja em apuros, exponho logo aqui o tipo de balada a qual me refiro: em casa, tomando um drink, só e acompanhado por amigos no mundo virtual. Um momento incrível, nostálgico e plural. Converso com muitos amigos de diferentes épocas. Alguns mais próximos, outros nem tanto. Pitacos aqui e acolá, vai o tempo passando e uma sensação incrível de que, só na sala, com gente tão eclética como David Guilmour, Amy, Andreas Wollenweider, Burt Bacharach e muito rock and roll, não estou só. Muito pelo contrário. Estou muito bem acompanhado.

Essa é a magia das redes sociais. Permite uma conexão instantânea entre pessoas de diferentes gerações ou não, de amigos ou não, de próximos fisicamente ou não, enfim, uma balada movimentadíssima. Abaixo um exemplo do que escutava e que me tocou vindo de Loló, um amigo roqueiro, que hoje viaja ao Rio para sambar na Sapucaí J

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sir Paul, Generoso


Estive no Castelão. Poderia contar sobre a odisseia de lá chegar e sair, do calor sufocante, mas tudo isso me parece menor comparado à figura única de Paul McCartney.

Sempre fui admirador de sua obra, mas o show aqui em Fortaleza, trouxe-me um algo mais que não costumo sentir por artistas ou celebridades quaisquer que sejam. A relação entre artistas e seus fãs é simbiótica. Não existem um sem outro. Artistas precisam de audiência, afinal, obtê-la é razão de sobrevivência. Ocorre que nos dias atuais a indústria da celebridade trabalha forte para criar ídolos que, pelo artificialismo de sua criação, são cada vez mais efêmeros. 

Paul não tem nada de efêmero.  Com os garotos de Liverpool ou em carreira “solo”, Paul sempre criou e encantou. Sua postura sem exotismos, também já me era conhecida. Aqui em Fortaleza mostrou-se detentor de um carisma que me tocou.  Talvez estive esperando que ele agisse de acordo com o que sua fama lhe daria o direito (a tirar pelo comportamento esnobe de grande partida dos famosos de hoje em dia). Ao contrário, Paul foi de um profissionalismo, uma simplicidade e uma classe sem tamanho.

Paul se preparou para compartilhar seu palco. Senti seu prazer em fazer sua audiência alegre com sua música. Seu interesse em se conectar com os cearenses foi tocante. Claro que era tudo programado. As “pescas” escritas em português e cearês que usava demonstrava isso. Mas porque aquilo tudo não soava falso? Porque era dito por Paul. Porque ele não precisava daquilo. Se fizesse um show tecnicamente correto todos iriam adorar. Quis ir além. E foi. Havia uma generosidade no ar. Ele tinha mais a nos dar do que nós a ele. O mais incrível é que no final, creio que ele ficou feliz. É a plenitude da relação simbiótica. A realização do astro pela emoção dos fãs. Astro. Essa palavra está muito bem aplicada a Paul. Ele não é desse planeta.

* Artigo publicado na coluna Opinião do O Povo de hoje

domingo, 5 de maio de 2013

Chez André

O restaurante Chez André na Dom Joaquim (perto da Monsenho Tabosa) me foi uma surpresa agradável ontem a noite. Como apreciador da cozinha francesa, estava um pouco cansado de ir a restaurantes que propõem pratos típicos franceses, mas que são na verdade adaptações. Não que não veja valor nessas adaptações, pelo contrário, elas normalmente agregam temperos regionais e produzem sabores inusitados. Mas estava com saudades do tempero genuinamente francês.

No Chez André pude comer um excelente filé com Morilles (um cogumelo que não havia ainda encontrado em restaurantes brasileiros) que deu um gosto maravilhoso ao molho de manteiga. Batatas sautés com tomates provençal acompanhavam com perfeição.

Além da boa comida, o ambiente é bem pitoresco. Uma pequena casa, comprida mas estreita, sem muito requinte e circundada de casas com moradores na calçada (alguns comendo um churrasquinho) forneceu um ar bem peculiar ao local. Bem diferente dos restaurantes requintados da cidade. Para ter uma ideia, para ir ao banheiro é necessário cruzar a cozinha onde o maitre francês André  está com ajudantes a preparar os pratos. Curioso.

O preço é salgado. No mesmo patamar dos restaurantes caros da cidade. Talvez o fato de ter poucas mesas tenha levado o proprietário a optar por atingir um público seleto. Uma aposta ousada. Deverei voltar. Aconselho conhecer.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Conectado

Minha entrevista a Arenusa Goulart esta semana na TV O Povo. Um papo leve e descontraído.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Um Sonho de País


Há vinte anos desembarcava com a família na França para cursar meu doutorado. Uma oportunidade única que me foi dada pelos meus empregadores (Governo do Estado e Fundação Edson Queiroz), oportunidade essa que não me canso de agradecer e, por isso mesmo, torno público neste introito.
 Os quatro anos que lá vivi, foram-me de profundo ensinamento, não somente pelo aspecto acadêmico, mas acima de tudo por ter-me permitido conhecer bem o primeiro mundo. Numa época em que a Internet engatinhava, o mundo ainda não era tão pequeno como hoje e viagens deste porte eram raras.
A Europa, em particular a França, foram-me (e ainda me são) fascinantes. Poderia relacionar os vários aspectos que me atraíram e que hoje, vejo atraírem os brasileiros que, de mais em mais, viajam para lá, como limpeza, transporte urbano e segurança. Mas havia algo mais que permeava todos esses aspectos: a igualdade social. A classe média era a grande maioria e com representantes em todas as profissões.
Talvez nada tenha sido mais emblemático para mim, do que quando, no primeiro dia de trabalho da empregada doméstica que havia contratado, a vi chegar em seu próprio carro, logo após ter deixado seu filho na escola. Ela tinha uma rotina de trabalho tão comum quanto à minha. Este episódio me veio várias vezes à cabeça, não somente ao acompanhar o noticiário sobre a nova lei dos empregados domésticos, mas sobretudo por ter ainda ouvido lamentações aqui e acolá de que “a nova legislação dificultará mais ainda a contratação e legalização de empregadas”, “minha vida ficará mais difícil”, etc.
É fato de que a vida poderá ficar um pouco mais difícil para uns que se acostumaram com uma cultura que encarnava a desigualdade de forma tão natural que não podia ser percebida. Ainda há muito disso em nossa sociedade. Mas havemos mesmo é de festejar mais um passo do Brasil para sermos um país de classe média: um sonho que temos não somente o direito, mas sobretudo o dever de compartilhar. Um sonho que se tornarmos realidade vai naturalmente reduzir todos os males que hoje nos afligem.

* Esse artigo foi publicado na coluna Opinião do O Povo em 16/04/2012

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Match Point para Lacoste

Adorei a escolha de Guga Kuerten como novo garoto propaganda da Lacoste. Acho que tem tudo a ver. Não só pela natural ligação da marca do jacaré com o tênis (Henri "jacaré" Lacoste havia sido importante tenista), mas sobretudo pelo fato de Guga ser uma personalidade simpática, simples e muito autêntica. Valores tão importantes e tão pouco valorizados nessa época de belos modelos depilados e metrosexuais. Decididamente, uma escolha feliz !

terça-feira, 2 de abril de 2013

Crise de Identidade do Basquete Master


Esse fim de semana fui a Natal para jogar o campeonato N/NE Master como, aliás, tenho feito nos últimos anos. Uma programação maravilhosa onde se convive com a curriola do basquete, com a família e com colegas adversários de longas datas. Embora marcado por esse ótimo momento de lazer, no campeonato deparei-me com uma novidade que me parece um sintoma de uma crise de identidade desse tipo de evento.

Os campeonatos Master de basquete são divididos em categorias que representam as faixas etárias dos jogadores. Normalmente cada categoria é segmentada em intervalos de cinco anos. No caso do N/NE a segmentação é maior, de pelo menos sete anos. Isso se deve ao fato de que havia poucos praticantes e uma faixa maior facilitaria a formação das equipes.

Desde quando comecei a participar desses campeonatos (cerca de dez anos atrás) tinha em mente que o evento visava promover o congraçamento dos atletas (ex-atletas talvez seja mais justo dizer) motiva-los a continuar a praticar o esporte em seu Estado e, evidentemente, reviver o sentimento de competição que é caro a todos aqueles que praticaram esporte de alto nível.

Posso dizer que a iniciativa é um case de sucesso. Ano após ano o número de competidores aumenta, mas esse crescimento não veio sem seus efeitos deletérios. Alguns passaram a considerar as vitórias nas competições algo tão importante que uma espécie de profissionalização e, no meu entender, deturpação dos objetivos iniciais passou a ocorrer.

Normalmente as regras dos campeonatos Master de Basquete estipulam que somente dois jogadores, ditos “estrangeiros”, podem participar por cada Estado. Como a definição de “estrangeiro” refere-se à naturalidade do jogador, abriu-se a possibilidade de contratar jogadores profissionais que por serem natural de algum estado do N ou NE não seriam considerados “estrangeiros”.  Assim um jogador como Rato que ainda há pouco jogava na NBB e que teve sua carreira toda baseada no Estado de São Paulo, por ser natural da Bahia, pode “legalmente” ser inscrito pelo Rio Grande do Norte sem ser considerado estrangeiro.

Na semifinal que disputamos com os rio-grandenses do norte encontramos uma equipe que tinha pelo menos cinco jogadores nessa situação. Não faziam parte da comunidade de praticantes de basquete do RN, mas foram contratados para conseguir o título. Um exemplo ainda pior foi dada pela liga dissente da Associação de Veteranos Amigos do Basquete do Ceará(AVAB-CE) que fez uma outra equipe para representar o Estado do Ceará na categoria 50+. Nela havia um grupo de nove jogadores, onde nada mais nada menos que oito deles não praticam basquete no Ceará. 

Eis nosso jeitinho brasileiro aqui em prática, ao vivo e a cores. Um jeitinho que visa levar vantagem. Urge uma revisão nos regulamentos da competição de forma que o espírito inicial possa ser recuperado. Caso contrário, ha risco grande de esfacelamento das competição e das associações.

terça-feira, 26 de março de 2013

Cura de miopia. Antes tarde do que nunca


A questão da Segurança Pública é tão complexa que a própria percepção das pessoas parece ser afetada. Tenho lido muitas opiniões sobre a questão, de especialistas a jornalistas, passando pela sociedade civil que via de regra busca as redes sociais para se indignar. O fato é de que atualmente a moda é criticar a atual política de segurança.

Todos parecem ter repentinamente acordado para o que estava acontecendo há seis anos. Poderia até dizer que esse tempo é bem maior, mas acho apropriado delimitar o início do governo Cid Gomes, pois coincide com o começo do Ronda Quarteirão.

É impossível discordar de que vivemos uma crise. Agora o que me surpreende é a forma desse despertar. Via de regra se insiste na tese do “Ronda Corrompido”, para explicar que o programa era bom e se perdeu com o tempo. Desde o início do programa, apontei, não sem apoio de colegas especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, de que o Ronda do Quarteirão não poderia ser caracterizado como um programa de polícia comunitária (como exemplo, veja o que escrevi em 2008 e 2009 sobre os limites do Ronda )  Aliás, o Secretário de outrora, que gozava de credibilidade de parte da mídia e parte da academia, havia inclusive usado o termo “polícia de proximidade” numa clara tentativa de criar um slogan para uma proposta ad hoc, sui generis e que não tinha similar em parte nenhuma do mundo.

Foi preciso seis anos para perceber que policial militar com Hilux com ar, santinho divulgando telefone e treinado em três meses não tinha como ser  confundido com polícia comunitária ?  E mais ainda, mesmo que fosse possível isso ser considerado como tal, desde quando isso poderia ser o alicerce de uma política de segurança?

Minha impressão é de que algumas escolhas feitas pelo Governo Cid se mostraram mais importantes para mostrar as deficiências dessa política do que outras. E foram as escolhas das pessoas as mais marcantes. Ao trocar de Secretário e depois ao trocar de Diretor da Academia de Polícia, o governo parece ter ajudado a iluminar os que antes não viam (ou não queriam ver).

Lembro-me que quando o atual secretário assumiu fui perguntado por uma jornalista sobre o que achava que aconteceria com a Segurança. Queria minha opinião sobre o debate que acabara de ser criado: “Pé-de-boi” contra “gravatinha”. Lembro-me também de minha resposta de que achava aquilo irrelevante no momento, pois já não concordava com a política em vigor.

Creio que vale a pena nos perguntarmos se não há algo de errado nisso tudo. Não estaríamos dando excesso de relevância às pessoas e menos às políticas? De qualquer forma, felizmente o governo Cid fez essas trocas que evidenciaram um equívoco. Antes tarde do que nunca. Agora parece que todos nós percebemos que estamos no caminho errado. Será que bastará mais uma mudança de nome para nos iludirmos novamente? 

quarta-feira, 20 de março de 2013

Onde estão os criminologistas?


Como a (in)segurança pública nunca sai de pauta no Brasil,  vejo  com frequência a mídia em busca de especialistas, para opinar sobre temas relacionados. Instado por uma repórter a definir qual seria o perfil do especialista que poderia apropriadamente falar sobre uma pergunta relacionada à dinâmica do crime na cidade de Fortaleza, vi-me nesta reflexão que aqui compartilho com o leitor.

Embora ainda com certa timidez, a Academia participa hoje do debate sobre Segurança Pública no Brasil. A faceta multidisciplinar do problema requer uma visão ampla que envolve fatores ligados à violência (sociologia/psicologia), à legislação(direito), à concentração de renda (economia), à ética(filosofia), à estrutura urbana (arquitetura e urbanismo) e ao tratamento da informação (informática), para exemplificar alguns. Temos vários grupos de pesquisa que estudam a Segurança Pública por esses e outros vieses Brasil afora, que somados aos Policiais Militares com formação específica nas suas academias, podem muito bem serem considerados especialistas.

A despeito da riqueza que é a produção de conhecimento advindo de todas essas áreas, creio que carecemos de uma formação específica presente na maioria dos países desenvolvidos: a de criminologista. Esses países possuem tanto graduação como mestrado e até doutorado em criminologia.  

Ouso ir além nesta reflexão: não é somente na produção de conhecimento que criminologistas nos fazem falta.  O mercado de trabalho também precisa deles. Creio haver muito espaço nas Polícias Civis para empregá-los. Afinal, se estamos de acordo que precisamos de uma polícia que faz mais investigação e usa  mais inteligência, não seria esse o perfil desejado para um delegado, por exemplo ? A formação exclusivamente legalista é a ideal para a polícia investigativa que precisamos?

Essas perguntas nos levam a refletir sobre a própria forma de atuação das Polícias Civis, submersas em atividades cartoriais como emissão de boletins de ocorrência e feitura de inquéritos intermináveis, os quais são,  geralmente, refeitos na Justiça. Este sim me parece um debate importante. Com a palavra: os especialistas !

* Artigo publicado no O Povo ontem na coluna Opinião

quinta-feira, 14 de março de 2013

Efeitos colaterais de remédios descobertos via Big Data


Alguns colegas pesquisadores em computação têm explorado os dados do Tweeter para capturar ou "sentir o pulso" do que acontece no mundo em um certo momento. Monitorar redes sociais de uma forma geral é um novo campo de atuação que atrai pesquisadores em áreas diversas motivados pela exploração de dados on line e volumosos (chamado de “Big Data”). Todos querem extrair dessa enorme montanha de dados algum conhecimento inovador.

Dentro dessa mesma linha, li recentemente sobre um trabalho desenvolvido por pesquisadores de Stanford e da Microsoft digno de menção e por isso mesmo reportado pelo New York Times  Ao invés de explorar dados vindos de rede sociais, os pesquisadores exploraram consultas feitas pelas pessoas no buscador Bing da Microsoft (concorrente do Google). 

Foram mineradas cerca de 82 milhões de consultas efetuadas sobre nomes de drogas e sintomas. Conseguiram descobrir efeitos colaterais em substâncias presentes em remédios somente a partir da análise dessas consultas. O estudo indicou que havia uma correlação entre buscas feitas com o nome das substâncias paroxetine e pravastatin e que estavam fortemente associadas a hiperglicemia. A correlação foi depois confirmada por médicos surpresos por essa nova forma de pesquisar sobre efeitos colaterais de drogas.

Tradicionalmente a FDA (Food and Drug Admnistration), agência americana responsável por analisar efeitos de medicamentos, desenvolve seus estudos com base em relatórios de médicos. Eles preenchem formulários  com base no que escutam e verificam em pacientes. Tal metodologia sempre sofreu críticas pela vulnerabilidade, visto que depende demais dos médicos. Explorar os dados de consulta ao buscador é muito mais rápido confiável e principalmente escalável. Há uma variedade imensa de interações de drogas que são desconhecidas e que ferramentas como a usada no estudo podem descobrir. Jovens pesquisadores: corram atrás de Big Data!

terça-feira, 5 de março de 2013

Fortaleza NÃO é a 13a cidade mais violenta do mundo




“Estatísticas não mentem jamais. Já os estatísticos ...”

Antes que estatísticos sintam-se ofendidos, deixem-me dizer que o subtítulo deste artigo não visa, atingi-los, nem critica-los. Trata-se de uma alusão anedótica à, complexa e cheia de armadilhas, tarefa de analisar e interpretar estatísticas. 

Semana passada o jornal O Povo fez uma matéria baseada em um estudo feito por uma ONG mexicana que classificou Fortaleza como a 13a cidade mais violenta do mundo. Mesmo reconhecendo a trágica situação que vivemos no campo da Segurança Pública, a classificação apresentada, de pronto, me soou equivocada. Números que uso frequentemente em meus estudos nunca haviam mostrado tal ranking. Pus-me então a investigar fontes alternativas e os números e metodologia usada por tal ONG.

No mapa da violência 2012 lançado pelo Instituto Sangari, Fortaleza não figura nem em entre as cinquenta cidades brasileiras mais violentas. Entre as capitais nordestinas,  Maceió, Recife e João Pessoa sim, fazem parte da lista.  Por que então essa divergência?

O ranking gerado pela ONG mexicana foi obtido a partir de uma metodologia sui generis. Escolheram somente algumas cidades com mais de trezentos mil habitantes e a partir delas fizeram uma classificação. Serra no Espirito Santo, por exemplo, uma das mais violentas do Brasil, não foi nem escolhida no estudo. O critério de escolha das cidades e o corte em trezentos mil habitantes não é claro. O fato é que proclamar que Fortaleza é a 13a mais violenta do mundo com base nesse estudo é simplesmente incorreto.

Ainda mais surpreendente é que após a matéria, os jornalistas do O Povo continuaram a repercuti-la e o Governo do Estado até hoje não se pronunciou. Quem cala consente, não? Fatos como esse só me deixam cada vez mais convicto de que a abertura de dados, tal como propus com WikiCrimes (http://www.wikicrimes.org) é a melhor política para dar transparência e publicidade ao que ocorre. Não seria preciso ir buscar tão longe dados sobre o que acontece aqui por essas bandas. Se é para interpretar erroneamente os dados, que sejam pelos menos dados únicos compartilhados.