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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Cidades Mais Inteligentes

A era digital que vivemos é pródiga em siglas, slogans e termos que acabam caindo no uso popular (e.g. bits e bytes). Um dos mais recentes é o conceito de cidade inteligente (Smart City).  Não seria difícil obter o consenso de que uma cidade inteligente deve ser sustentável, segura, inclusiva, fácil de se locomover, propensa à criatividade e à inovação, enfim, facetas que, de uma forma ou de outra, caracterizam um local bom para se viver.

Qualquer que seja a faceta a ser considerada, um nutriente fundamental para alimentar uma cidade inteligente é informação de qualidade.  Cotidianamente, uma avalanche de dados é coletada e armazenada digitalmente, em especial pelos governos. Explorar esses dados para produzir informação útil  é, no entanto, tarefa de toda uma sociedade e não exclusivamente de governos. Para isso há uma mudança cultural que precisa ser implantada, pois ainda prevalece nos governos a prática de guardar dados e monopolizar seu uso.  

Uma política de dados abertos governamental com ênfase na transparência dos dados é infraestrutura para o desenvolvimento de uma cidade mais inteligente. Cidades inteligentes usam, por exemplo, informações sobre tráfego de veículos para auxiliar os cidadãos sobre que rota ou que meio de transporte tomar e assim serem mais racionais no uso do recurso escasso não renovável. Para que isso seja possível as informações sobre tráfego devem estar disponíveis de forma que empresas, jornalistas, autônomos, cientistas, estudantes, enfim, empreendedores de uma forma geral possam criar serviços a serem usados por todos.

A decisão da Prefeitura de Fortaleza de lançar em breve um portal de dados abertos da cidade visa colocar Fortaleza nesse diapasão. O portal irá inicialmente apresentar dados digitalizados da cartografia da cidade e de suas diferentes camadas de informações como pontos de coleta de lixo, iluminação pública, rotas de ônibus e semáforos. Um caminho que somente começa a ser trilhado, deve envolver todos os órgãos que fazem a administração municipal, mas que precisa ser pavimentado com o apoio da sociedade para que seja um caminho sem volta.

*artigo publicado no Jornal O Povo de terça-feira 29/10


terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A Saga da Geléia da TAM

Não é difícil encontrar situações que exponham nossas deficiências de prestação de serviço, tanto público quanto privado. Encontrei uma situação emblemática ao viajar pela TAM de Fortaleza à Brasília. O serviço de bordo constava de torradas que vinham acompanhadas de uma geléia de marca MU–MU (que criatividade eih?!). Pois bem. Essa geléia estava em um recipiente que era extremamente difícil de ser aberto. Todos os que estavam ao meu redor estavam “apanhando” da geléia (eu inclusive, lógico). Normalmente esses recipientes contêm uma pequena aba que deve ser quebrada para permitir puxar o invólucro. Não era o caso desta. Causou-me logo espanto o fato de que o produto continha um MADE IN BRAZIL bem visível até porque o tipo da geléia também estava traduzido (grape jelly – geléia de uva). Certamente, com essa qualidade, o produto vai sofrer para concorrer no mercado internacional. Os franceses, por exemplo, que adoram geléias, as produzem em suas mais diversas formas e sempre que as degustei nunca tive tamanha dificuldade de manuseio. Por que será que as deficiências como a da geléia acontecem? Alguém será que já reclamou disso para a Empresa ou mesmo para a TAM? Quando perguntei para a aeromoça de onde vinha a geléia ela de pronto me disse “é difícil de abrir, né!”. Claro que não era novidade. Talvez até já tenha dito a um superior que a geléia era osso duro de roer. Apressou-se a me fornecer um cupom de reclamação da TAM, chamado fale com o presidente, em que o cliente tem a possibilidade de demonstrar sua insatisfação ou fazer qualquer comentário de outra natureza. Não sei se muitos o usam. Creio que a qualidade do serviço está diretamente ligada a exigência do cliente. Mas a estória da geléia da TAM não morre aqui. Decidi tentar decifrar o que estava escrito nas minúsculas letras impressas na capa do invólucro da geléia. Dificílima tarefa. Pude constatar, no entanto, a existência de um 0800 para que o cliente consultasse o valor nutricional do produto. Que beleza! Parece-me que o objetivo de fornecer a informação nutricional é subsidiar o cliente para que ele decida se quer ou não ingerir o alimento. Como vou consultar o 0800 dentro do avião? Estou supondo que ela deveria ser comida no avião, não? Aqui entra também a deficiência do serviço público. Não deveriam agir os órgãos de fiscalização? Pareceu-me mais um jogo de faz de conta. Continuando a saga da geléia, decidi ligar para o número 0800(0800517542). Estava curioso para saber se ele funcionava. Funciona. Fui bem recebido, mas a informação que tive foi de que eles não têm solução para a abertura da geléia. Estão estudando. A Empresa é gaúcha e não faz exportação. Não me souberam responder o porque dos nomes em inglês. Por fim, disseram que os nutrientes não são colocados porque não há espaço. Enfim, a norma é inviável. Bem típico do Brasil. A odisséia da geléia tem o seguinte final: enviei a MU-MU e a TAM o texto desse blog. Espero tê-los ajudado a melhorar seu produto e serviços respectivamente. Fui dormir pensando sobre como o blog me leva a ser um cidadão mais ativo. Afinal, pegando emprestado o slogan da TAM que se orgulha de ser brasileira. Eu também quero me orgulhar (da TAM e da MU-MU).

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Cultura Cidadã e Ordenamento Urbano

Mais do que feliz os comentários produzidos na coluna política do Jornal OPovo pelo jornalista Fábio Campos em 15 de Novembro de 2007. Ele descreve o quão fácil é encontrar irregularidades na ocupação dos espaços urbanos na cidade e de como o poder público convive inerte a essas irregularidades. Seus comentários foram ainda mais felizes por ter relacionado a incapacidade administrativa com o aspecto da cultura cidadã. São exatamente esses dois aspectos que devem ser os pilares de qualquer um que se proponha a fazer administração pública. Como já tenho enfatizado em textos anteriores (digite cultura cidadã no canto esquerdo superior onde tem um espaço para texto e tecle PESQUISAR BLOG e veja todos os textos que já escrevi sobre o tema). Considero a cultura cidadã um aspecto transversal a todas as outras ações a serem empreendidas. Mas enfatizo que não se trata aqui de um discurso meramente retórico. Concomitantemente, com a cultura cidadão, e também de uma forma transversal, vislumbro um sistema de gestão moderno, profissional (baseado em servidores públicos com competência) e imune às ingerências politiqueiras. Desta forma, se pode efetivamente realizar ações que transformem a cidade. Essa transformação significa mudar o espaço físico (usando o termo cada vez mais popular da informática, o hardware) bem como a mentalidade, a cultura de nosso povo (o peopleware).

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Carteira de Identidade: Será Mais Uma Idéia Estragada?

A carteira de identidade é o documento mais importante do cidadão. A premissa básica da sua existência é de que ele serve para garantir a unicidade de uma pessoa. Ou seja, de que o cidadão é ele mesmo e que não há ninguém mais com aquelas características físicas. A verificação dessa unicidade é feita através da checagem da impressão digital pelos técnicos do Instituto de Identificação. Esse técnico, chamado de papiloscopista, desvenda as características das impressões digitais para que uma pessoa não possa retirar uma carteira duplicada ou com outro nome. O grande problema de boa parte dos Institutos de Identificação no Brasil é que, com o crescimento populacional, o volume de impressões digitais cresceu muito e a verificação técnica manual, em fichas impressas, ficou cada vez mais demorada. A entrega de uma carteira em alguns locais do país chega a demorar mais de um mês. Nossos governantes no afã de dar uma resposta ao cidadão decidiram promover o acesso a carteira com mutirões de serviço público e com a criação de centrais de atendimento tipo casas do cidadão. Exigiram agilidade na entrega de forma que a carteira fosse entregue, se possível, imediatamente. Essa agilidade acabou vindo, mas com um ônus bem precioso: a perca de confiabilidade da carteira. Para que as carteiras fossem entregues imediatamente, em muitos locais do Brasil, praticamente se extinguiu a verificação da impressão digital. De uma forma geral, a população não sentiu o problema, muito pelo contrário, por desconhecimento, aprovou as medidas de agilidade do atendimento. Os sistemas informatizados de impressão digital começaram a surgir no mercado e vieram trazer um novo alento para que a carteira pudesse novamente ser tirada com confiabilidade e em prazo aceitável. Foi seguindo essa direção que o Instituto de Identificação do Estado do Ceará implantou recentemente um novo sistema de emissão de carteiras de identidade. Ele traz algumas melhorias como o fato do cidadão não precisar mais pagar a foto, pois a mesma é tirada diretamente pelos computadores do Instituto, e o fato de que as impressões digitais e as assinaturas serem coletadas por equipamentos eletrônicos o que permite a digitalização e o tratamento dessas informações pelo computador. Mesmo como essas melhorias a entrega da carteira, durante um bom tempo, não poderá ser feita imediatamente. Enquanto todo o banco de dados de impressão digital não estiver no sistema novo, a entrega de uma carteira confiável deve exigir pelo menos cinco dias úteis. Creio que esse tempo é aceitável, desde que, evidentemente, a população estivesse informada do porque da espera e dos benefícios de tê-la. Aqui começam os problemas. Não houve nenhum trabalho de comunicação com o cidadão na mídia de forma que se compreendesse a nova sistemática. Além disso, a quantidade de atendentes do Instituto de Identificação é bem menor do que a necessária para atender a todos os pedidos e, por isso, filas enormes se formam diariamente. O número de papiloscopistas também não é suficiente e o prazo de cinco dias não vem podendo ser cumprido. Presenciei a implantação do novo sistema no Instituto de Identificação e verifiquei que urge um investimento nesses setores e também uma reformulação nos processos de atendimento permitindo a realização de marcação de atendimentos e a realização de procedimentos pela Internet. Como essas coisas não acontecem rapidamente, vemos, de mais em mais, opiniões de que o sistema de identificação é ruim e que outro precisa ser adquirido. Nem se passaram seis meses de implantação e já se corre o risco de mais uma boa idéia ser estragada.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Gestão, Prática e Treinamento

Continuando o tema da gestão que iniciei no recente texto sobre gestão pública, queria relatar um equívoco que tenho observado em grande parte das iniciativas de capacitação de pessoal em Empresas públicas e mesmos nas privadas. Há uma idéia de que qualificação de pessoas é uma mera volta aos bancos escolares. De certo que o ensino tradicional é um dos meios para aumentar a qualificação profissional, mas não pode ser considerada como o único. É importante lembrar que a qualificação (ou re-qualificação) normalmente envolve mudança comportamental e cultural. Quando um gestor decide capacitar para mudar uma cultura organizacional, ele não pode acreditar que a simples participação dos funcionários na sala da aula vai ser capaz disso. O plano de capacitação deve envolver a integração do teórico das salas de aulas com a praxe cotidiana e, principalmente, deve estabelecer mecanismos gerenciais de acompanhamento do desenvolvimento do funcionário. Deixe-me exemplificar o que quero dizer. Suponha que se deseje que uma secretária passe a fazer ofícios por computador usando um processador de textos no lugar da sua forma habitual através de uma máquina datilográfica. Ela pode e deve participar de um treinamento convencional onde teoria e prática lhes seriam mostradas, mas concomitantemente ela deveria ser induzida a realizar uma mudança comportamental que poderia começar com a alteração em seu ambiente de trabalho. O gestor poderia definir que gradativamente vai exigir ofícios feitos por computador até uma data previamente negociada, quando então a máquina seria retirada totalmente. Ele deveria ainda definir métricas de acompanhamento da qualidade dos textos produzidos pela secretaria como agilidade e/ou custo do ofício digitado. Desta forma poderá verificar o quão útil e efetivo o treinamento foi para a organização. Esta conversa parece muito óbvia e simples de ser feita, não? Infelizmente, muitas situações não se apresentam assim de forma tão simplória. A mudança do contexto de trabalho do funcionário, por exemplo, pode ser bem mais complexa do que no exemplo da secretária. Tomemos o contexto da segurança pública para exemplificar. Ao colocarmos um policial para fazer um curso de direitos humanos, que tipo de mudança contextual seria desejável para que o treinamento fosse efetivo. Exigiria ainda a mudança da postura dos outros colegas que não fizeram o curso ou que já não se lembram de quando o fizeram. Exigiria ainda fornecer recursos para o policial para que ele trabalhasse dentro dos conceitos da nova doutrina que ele aprendeu na teoria (armas não letais, por exemplo). Por outro lado, seria recomendável um sistema gerencial de acompanhamento dos resultados do policial sob o prisma do novo treinamento ministrado (diminuição de violência, de arbitrariedades, de denúncias de abuso, etc.). O pior de tudo é que ele ainda terá que conviver com um contexto social desfavorável, pois muitas vezes é a própria sociedade(quando lhe convem) que lhe impõe uma postura anit-direitos humanosFazer isso não é fácil. Eu diria que colocar o policial na sala de aula é a tarefa mais fácil de todas. Não me surpreende que tanto curso seja dado e tão pouca efetividade tenha se conseguido com os mesmos. Volto assim à questão original da qualidade gerencial. Considero que a qualificação de pessoas requer uma visão ampla voltada a criação de mecanismos que facilitem a internalização dos conceitos obtidos nos treinamentos. Isso não é fácil. Requer abandonar a idéia simplória de simplesmente mandar o “pessoal” para o curso e substituí-la por uma visão estratégica e sistêmica dos objetivos da instituição para que com criatividade se consiga realmente mudar comportamento. Por fim, quero dizer que reconheço que o raciocínio que acabei de elaborar nesse texto não se aplica a todo e qualquer tipo de qualificação. A formação acadêmica, por exemplo, nem sempre se presta a uma aplicação imediata, mas é vetor importantíssimo no desenvolvimento pessoal. Ela permite a formação de opinião crítica além de incremento na capacidade de aprendizagem da pessoa. De qualquer forma, acredito que, em via de regra, concretização de conceitos no cotidiano e acompanhamento gerencial do desenvolvimento pessoal são atividades fundamentais para a efetividade dos programas de treinamento.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A Difícil Tarefa de Gestão no Serviço Público

Muito tem se dito que é preciso melhorar a gestão pública de uma forma geral. Para começar digo claramente que não estou disposto a lançar mais uma receita dentre as tantas já existentes. Prefiro concentrar minhas reflexões sobre alguns fatores que fazem a gestão pública algo particular. Acho que para compreendermos melhor as razões dessa particularidade temos que olhar o problema sob pelo menos os seguintes aspectos (não exaustivos): i) a qualificação das pessoas; ii) o legal; iii) o político. Para começar, digo que independentemente da teoria ou fórmula gerencial que se queira adotar, a qualidade de uma organização depende fortemente da qualidade e da motivação das pessoas que fazem essa organização. É aqui o primeiro indicador de particularidade da gestão pública. Muitos servidores públicos acabam por se desmotivar em suas funções e por terem pouca reciclagem tendem, com o tempo, a ficarem defasados em sua qualificação. Ou seja, em geral, tem-se um alto índice de desmotivação e de desqualificação, que pode variar para mais ou menos, dependendo do índice de renovação dos funcionários. Por outro lado, alguns instrumentos gerenciais para estimulá-los como incremento salarial, promoção vertical ou qualquer outra forma de reconhecimento por méritos bem como os instrumentos para pressioná-los como a demissão, quase nunca podem ser usados pelos gestores. Aliado a isso a própria qualificação dos gestores é deficiente, dentre outras razões em função de uma alta rotatividade dos gestores (veja que aqui há uma relação com o aspecto político). O aspecto legal nos leva a identificar outro grande inimigo de uma boa gestão: a burocracia legalizada. A legislação brasileira, em particular a lei de licitação, parte do princípio que todos são ladrões e engessa fortemente o serviço público. Qualquer processo de aquisição de serviço ou produto demanda tanta energia do gestor e tanto tempo para ser finalizado que faz com que projetos, um pouco mais complexos, sejam intermináveis. Da mesma forma, a punição de empresas que descumprem cláusulas contratuais é tão demorada e difícil de ser obtida (em função de incontáveis recursos judiciais com prazos longos) que os gestores acabam por optar por acordos que minimizem a perda dos recursos já investidos. Por fim, há o aspecto político que talvez seja um dos mais impactantes. Os gestores públicos são escolhidos por critérios os mais diversos, sendo que qualificação, experiência e capacidade de responder ao interesse público, nem sempre fazem parte desse rol. As diretrizes políticas são mutantes o que resulta em pouca continuidade de ações (clique aqui para ler o que escrevi sobre a questão da continuidade). Isso gera descrédito junto aos servidores e conseqüentemente desgastes nos níveis gerenciais. As mudanças governamentais fazem com que o que era certo passe a errado e vice versa. Evidentemente que isso não se faz sem prejuízo de credibilidade, motivação e respeito aos gestores. O diagnóstico de que a gestão no serviço público precisa de melhoria não é novidade e, hoje em dia, temos visto muitos governantes dizerem que atacar isso é uma de suas prioridades. No entanto, a linha de ação que vem sendo adotada por boa parte dos governantes é, no meu entender, equivocada. Tratam de contratar consultorias para redesenho de processos, mudanças na estrutura organizacional, e implantação de outras “pseudo-teorias” de gurus (normalmente norte-americanos e ricos!) que de muito pouco adiantam dado todo esse contexto que relacionei. Qualquer governante que tiver a real intenção de melhorar a prestação do serviço público tem por obrigação atacar de frente problemas como esses supramencionados. A começar pelos problemas oriundos de distorções devidas ao aspecto político. Essas sim são as mudanças de base que permitirão, no futuro, a assimilação de quaisquer idéias mais elaboradas (ou não).

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Inimigo Cearense Número Um: Petrobrás. Você Acredita?

Desde quando estava nos EUA ano passado tentei me inteirar sobre o engodo da criação de uma Siderúrgica no Ceará. Por diversas vezes pensei em escrever algo, mas percebi que não tinha informação suficiente sobre o assunto que me permitisse formar uma opinião. Achava muito estranho essa unanimidade de que o problema era uma “má vontade” da Petrobrás com o Estado do Ceará. Essa má vontade passou a ser considerada, de forma cada vez menos velada, conseqüência de um lobby de empresas brasileiras do setor do aço contra a nova siderúrgica. Tenho um hábito que, admito ser negativo em algumas circunstâncias, de desconfiar de unanimidades. O que, aliás, aflorou facilmente nesta situação. Decidi esperar minha volta para colher mais informações antes de me posicionar. Passados dois meses de meu retorno, percebo que não conseguirei me abastecer com mais alguma informação útil, pois o debate racional foi para o espaço e mesmo alguns setores da imprensa mais questionadores perderam a capacidade de refletir sem emoção. Sendo assim vou tentar sintetizar minha compreensão do problema e sobre qual que deveria ser o ponto focal da discussão. Primeiramente, queria enfatizar que não tenho informações técnicas detalhadas sobre o assunto e assim vou tentar refletir sobre o tema de forma genérica. Minha compreensão é que para que a siderúrgica aconteça no Ceará, a Petrobrás terá que ter um prejuízo a título de subsídio ao empreendimento (vou me abstrair do valor do prejuízo). Esse subsídio se dá no preço do gás que terá que ser usado pela siderúrgica. Não tenho como discutir se os resultados esperados com o empreendimento justificam o investimento e os subsídios. Vou assumir que isto é verdade. O que considero a essência do problema e assim queria concentrar a discussão é o seguinte: é função de uma empresa estatal de capital aberto com ações negociadas em bolsa de valores e que deve resposta a seus acionistas bancar um prejuízo em um empreendimento específico de um Estado? Minha opinião é de que há argumentos prós e contras suficientemente convincentes para qualquer que sejam as respostas escolhidas. Trata-se claramente de um caso em que os prós e contras dependem da ideologia e da política que um governo considera qual deva ser o papel das empresas públicas e da administração pública em geral. Governos mais nacionalistas normalmente consideram que essa é sim uma missão de uma estatal, mesmo que um prejuízo financeiro pudesse impactar em suas ações na bolsa. Governos mais liberais (em termos econômicos) normalmente não considerariam essa missão como sendo prioritária para uma estatal com capital aberto. O primeiro grande problema nessa estória toda é que não sabemos muito bem qual a ideologia reinante atualmente no Brasil (e nem se há alguma). O segundo problema, que me parece mais relevante, é que o País não tem uma política de desenvolvimento regional. É exatamente ela que está faltando no caso em questão. Trata-se de uma situação em que o governo federal, em concordando com o empreendimento (como as declarações do Presidente parecem indicar), poderia criar mecanismos externos a Petrobrás para fornecer o subsídio. Da mesma forma que o governo do Estado criou mecanismos para fornecer os subsídios o governo federal poderia fazê-lo. Na falta dessas políticas, elegeu-se a Petrobrás como a responsável por executá-las. Não creio que esse aspecto seja de desconhecimento da classe política. No entanto, me parece que eleger o governo federal como o grande vilão da estória não lhes é estrategicamente interessante. Há sempre a esperança de que o governo venha em socorro. Além disso, alguns políticos não consideram conveniente escolher como inimigo um alvo tão poderoso e decidem assim escolher outro alvo. Isto tem um lado por demais negativo que é o de criar esse sentimento de rejeição da população cearense a uma Empresa que representa todos os brasileiros. Enfim, o retrato atual é de um governo federal que teria por obrigação apresentar propostas para essas questões e que age como se não fosse um problema de sua responsabilidade e ainda pode aparecer como o salvador da pátria.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Limpeza Urbana e Cultura Cidadã

Quando vamos a países mais desenvolvidos como os Europeus e Norte-americanos uma das primeiras coisas que mais notamos e comentamos é sobre a limpeza das cidades. A limpeza de uma cidade reflete o grau de civilização da sociedade além da qualidade do serviço público que ali é prestado. Todos nós cidadãos sonhamos em viver numa cidade limpa. Fortaleza Bela, por exemplo, implica em Fortaleza limpa. Quando pergunto a alguém porque a cidade é suja, sempre recebo como primeira resposta que o serviço de limpeza é ruim. Tenho procurado em meus textos não enfatizar somente a responsabilidade de governos, não que ache que eles não a tenha, mas acredito que as mudanças podem advir por intermédio de nosso próprio comportamento. É fácil perceber que uma das razões da sujeira de uma cidade vem do fato de que os próprios cidadãos a sujam impiedosamente. Desde aqueles que lançam objetos de seus carros na rua até a mais simples folha de papel que é jogada nas calçadas, todos contribuem indiscriminadamente para gerar sujeira. A solução óbvia é educação, não é mesmo? Mas não acho que devamos pensar que se trata unicamente de uma questão de educação escolar (embora ela também deva existir). É fácil perceber que um mesmo cidadão deseducado de um local, torna-se super educado quando se muda para um local onde as pessoas zelam pela limpeza. Isso decorre de uma inconsciente regulação social visto que, se todos respeitam o local não o sujando, os outros se sentem incomodados de fazê-lo. Por isso, o que vislumbro como processo educativo de comportamento é algo mais prático. Trata-se de criar um sentimento de comprometimento do cidadão com a coisa pública através de um processo de contágio social. O papel dos governos nesse processo, aí sim, é fundamental. Para começar a prefeitura deveria instalar latas de lixo em todo canto da cidade. Juntamente com isso deveria usar de criatividade para educar os cidadãos em pontos em que a sujeira é mais visível. Por exemplo, qualquer sinal de trânsito onde há distribuição de panfletos, há sujeira. As pessoas recebem os panfletos, os lêem (nem sempre!) e jogam na rua. Que ótimo lugar para começar um processo educativo com a instalação de latas de lixo, cartazes educativos, palestras aos distribuidores de panfletos, contratação de artistas tipo malabaristas (que já abundam em cada semáforo) para apontar quando estamos sujando, publicidade televisiva, etc. E nós faríamos o que (alem de não sujar é claro)? Evidentemente que não poderíamos ficar só esperando pelo governo. Colocaríamos uma lixeira pequena a vista na nossa calçada para que qualquer transeunte tivesse a possibilidade de usá-la. Se conseguirmos gerar o efeito contágio, teremos naturalmente uma cidade mais limpa, e, sobretudo, estaríamos nos educando na cultura cidadã.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

(Des)Aparelhagem do Serviço Público: Precisamos de um Outro Roberto Jefferson?

Tenho mencionado em textos anteriores que uma das razões da crise de Segurança Pública é o descaso com o qual as Instituições policiais foram tratadas tempos atrás. Infelizmente, o fenômeno da desaparelhagem do Serviço Público não se restringe aos setores ligados a Segurança. Uma das causas desse processo de deteriorização está na forma como os governantes têm indicado ocupantes de cargos de direção em órgãos públicos. O loteamento descarado de cargos de Empresas Públicas da forma como vem sendo praticado é um acinte a nossa Inteligência. Esta sempre foi uma situação deplorável, embora usual em muitos locais. No entanto, vejo que no momento atual o contexto é ainda mais inaceitável. Há não muito tempo, vivenciamos durante a CPI do mensalão, as declarações do Deputado Roberto Jefferson que confessou que o interesse de partidos políticos por cargos visava à obtenção de vantagens e favores, inclusive financeiros para apoio a campanhas. Nunca ninguém tinha sido tão explicito em algo que se sabia, mas não se dizia. Era de se esperar que logo depois dos depoimentos de Roberto Jefferson essa prática refreasse. Não está sendo o caso. Estamos vendo proliferar casos de indicações de pessoas sem o menor histórico de comprometimento com a coisa pública, sem a menor competência nos assuntos que o cargo exige, inexistentes conhecimentos técnicos e mesmo gerenciais e que se configuram claramente como um jogo de toma lá dá cá. Não causará surpresas se provocar novos escândalos de corrupção e, pior, o processo de corrosão do serviço público continuar. Trata-se de um espetáculo triste e extremamente prejudicial à sociedade. Serve ainda para aumentar fortemente o grau de descrença da população em nossos governantes. É essencial que os políticos que se prezam e que têm verdadeiramente amor a causa pública passem a defender uma nova postura dos governantes para as nomeações aos cargos públicos. A nós eleitores, cabe-nos mostrar nossa insatisfação nas urnas. Chega de descaso.