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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Projetos de Inovação: Leia Antes de Submeter

Já escrevi sobre a dificuldade de se caracterizar uma inovação. Tenho percebido que empreendedores têm muita dificuldade de preparar um projeto consistente e convincente. Resolvi escrever algumas sugestões com base na minha experiência na FUNCAP (Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e na UNIFOR.

Sou frequentemente consultado sobre a questão e achei que expor publicamente minhas sugestões é uma forma de contribuir transparentemente. Não se tratam de sugestões extraordinárias, mas simplesmente de algo que vale a pena ler antes de submeter um projeto. 

É importante sempre lembrar que, embora inovação implique em risco, cabe ao avaliador buscar se cercar de argumentos que justifiquem o investimento  e minimizem o risco de insucesso. Os avaliadores são sempre instruídos a pensar que o dinheiro público da subvenção deve ser tratado como se fosse o próprio dinheiro dele, avaliador. Assim, seja convincente.

Minha experiência tem mostrado que muitos projetos são enviados sem uma clara percepção do que visa o programa de subvenção. Para começar, sugiro logo considerar se o projeto a ser submetido se encaixa claramente no rol daqueles que NÃO se caracterizam como uma inovação elegível à subvenção. Os três casos abaixo são exemplos disso:
i) Projetos de pesquisa científica. Embora a ideia descrita no projeto possa se apresentar como fronteira do conhecimento e bem posicionada perante ao estado da arte, a subvenção deve estar ligada à capacidade de gerar riqueza, dar resultado e agregar valor a curto prazo (no máximo médio prazo). Pesquisas são financiadas por outros mecanismos.
ii)  Projetos que visam desenvolver atividades rotineiras e que a empresa já realiza. Trata-se aqui do caso típico em que empréstimos são os mecanismos de fomento mais adequado. Recorrer ao Banco do Nordeste ou BNDES é uma boa alternativa. Lembre-se ainda que a subvenção não pode ser encarada como uma forma fácil de aumentar o capital de giro da empresa.
iii) Projetos de governo. Projetos governamentais devem ser financiados pelo próprio governo através de ações previstas no orçamento. Inovações sociais até podem envolver órgãos governamentais, mas os atores potencializadores dessa inovação devem ser do terceiro setor.

Algumas variáveis importantes que impreterivelmente são consideradas pelos avaliadores e que seu projeto deve responder são as seguintes:  

a) Por mais que um projeto seja inovador, há sempre formas de encontrar competidores que realizam algo pelo menos parecido. Comparações com soluções existentes no mercado e/ou com a academia   fortalece o argumento de a proposta é inovadora além de dar segurança ao avaliador de que o proponente conhece o negócio,  identifica os obstáculos e vislumbra como vencê-los.
b) O projeto deve apresentar um plano de negócio ou pelo menos uma análise dos competidores, desafios e oportunidades. Como, quando e quanto de dinheiro espera-se que a inovação gere?
c) A cooperação com a universidade é consistente? Esse é um item fundamental. Muitas vezes percebe-se que a equipe é composta de pesquisadores doutores que nem são ativos na área em que o projeto está inserido. Os avaliadores chamam isso de “doutor de aluguel”. Muitas vezes participam do projeto só por favor. Há cooperações anteriores que demonstrem a solidez da parceria?  Recomenda-se que o projeto seja maturado em conjunto. Um avaliador experiente percebe facilmente quando isso não é o caso.
d) A empresa tem uma estrutura mínima de desenvolvimento da inovação? Há equipe que internalize a inovação ou vai ficar somente com os parceiros na academia? Capítulo à parte na avaliação desse item são as Startups. Elas muitas vezes não tem estrutura mínima,  mas a composição de uma equipe com know how diferenciado para desenvolver uma boa ideia pode indicar que vale a pena o investimento de risco.
e) O projeto é de empresa que já foi contemplada com subvenção? Se a subvenção está em andamento, avalia-se rigorosamente se a empresa tem capacidade para abrir inovações em mais de uma frente. Não sugiro a pequenas empresas, submeter um pedido de subvenção quando uma já está em andamento. Caso a subvenção tenha terminado. É desejável que o financiamento de uma segunda subvenção seja uma aposta em algo que deu certo e que pode melhorar mais ainda. Ou seja, mostre que teve bons resultados com uma primeira subvenção e então solicite extensões do que foi feito.

Essa lista não é completa, nem quero dizer que se todos esses aspectos forem contemplados o projeto será aceito. Mas creio que ela cobre pontos relevantes e que, se um projeto não as contempla, já começa em desvantagem. 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desafios da Inovação

Volto ao tema da inovação que já foi objeto de algumas reflexões aqui e aqui. Lembro, primeiramente, que a FUNCAP (Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico do Estado do Ceará) está com três editais de subvenção econômica para empresas em aberto.

Participei, semana passada, de várias reuniões em que empresários cearenses expuseram suas dúvidas, queixas e dificuldades para fazer inovação. Algumas dúvidas e problemas foram mencionados e que achei merecerem reflexões.  

Outro questionamento comum é sobre a necessidade de se ter um pesquisador na equipe técnica. Não é obrigatório contar com  um pesquisador na equipe, mas é salutar que isso ocorra. Pesquisadores normalmente tem o perfil para responder a uma das perguntas que mais atormenta o empresário: “Essa ideia é inovadora?”. Como pesquisadores são obrigados a estarem na fronteira do conhecimento, eles têm naturalmente a visão do que pode se constituir uma inovação. Evidente que isso não exime o feeling que os empresários têm sobre se a ideia dá dinheiro.

Quase todos se queixam que é muito pouco tempo par fazer um projeto e mesmo para achar colaboradores. Se a postura das empresas for a de reação à editais de fomento, essa queixa vai continuar a ocorrer. Muitas vezes algumas empresas pedem-me indicações de colegas pesquisadores para assinar projetos que já estão preparados. Querem doutores de aluguel! Impossível isso acabar bem. Inovar é um processo que deve estar internalizado nas organizações e a cooperação com a academia deve ocorrer independentemente de um edital específico. Os pesquisadores devem conhecer as potencialidades da empresa e os problemas que as impedem de crescer. Só assim conseguirão vislumbrar oportunidades. Quem ainda não começou a se preparar já está atrasado. O Brasil acordou para a inovação e não há nada que indique que isso vai se acabar logo.

Outros dois aspectos mais pontuais e que se referem à feitura dos projetos são os seguintes. Algumas empresas apresentam projetos de inovação com pouca ou nenhuma relação com o que ela tem expertise ou experiência. É preciso lembrar que os avaliadores vão buscar verificar se a Empresa tem condição de desenvolver o projeto. A experiência demonstrada na área que se propõe o projeto é determinante para ser bem avaliado.

Muitos projetos apresentam valores para aquisição de equipamento e insumos muito elevados e sofrem cortes bruscos. É preciso compreender que a subvenção visa subsidiar o processo de inovação e não o processo de produção. É comum a apresentação de propostas em que os equipamentos e muitas vezes os insumos são em volume injustificáveis para a inovação. Por exemplo, se para desenvolver a inovação é preciso comprar um insumo, espera-se que o volume necessário para isso seja somente em escala para uso em laboratório. Depois da inovação feita, cabe ao empresário buscar outros recursos para comprar os insumos em volume em escala industrial. 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Almoço da Inovação

Fiquei muito entusiasmado após ter participado ontem de um almoço na Federação da Indústria do Estado do Ceará – FIEC. O almoço foi promovido pela FUNCAP e FIEC com o intuito de lançar os editais de subvenção econômica que totalizam R$ 28 milhões de reais a ser fornecido às empresas cearenses. O Presidente da FUNCAP, Tarcísio Pequeno, fez um breve histórico das iniciativas daquela agencia de fomento desde 2007. A lei de inovação está evidentemente no centro de tudo. Outra iniciativa digna de menção foi a regulamentação e implementação do Fundo de Inovação Tecnológica (FIT) que está permitindo o financiamento continuado da inovação no Estado. Escutando o que já foi feito, dá para perceber que esses últimos anos são um marco na história dos investimentos em C&T no Ceará. Em especial, no tocante à inovação, os investimentos que vêem sendo feitos tanto pelo governo federal como pelo governo estadual não tiveram precedente. 

Há de se perguntar, porque só agora isso está ocorrendo? Creio ser daquelas coisas que precisa haver o momentum. E esse momentum é agora. Inovação é a palavra da vez no País e não poderia deixar de ser no Estado. Vivemos, há não muito tempo, um dilema falso de que a geração de riqueza era dissociada e mesmo incompatível com o desenvolvimento científico. Indústria e academia viviam em dois mundos sem interseção. Os cearenses, que adoram uma piada, ainda costumam brincar que alguém não ficou rico porque decidiu estudar. Reflexo subconsciente? Talvez. O fato é que, agora que inovação virou moda, fica claro que o conhecimento científico é fundamental para a geração de riqueza. As cooperações ocorrem naturalmente.

Desde a semana passada, as empresas cearenses estão sendo chamadas a participar de editais que visam ampliar seus índices de inovação. São três editais abertos atualmente. Há um edital específico para a área de Tecnologia da Informação com orçamento de R$ 3 milhões com recursos provenientes do Fundo de Inovação Tecnológica (FIT). As pequenas empresas de outras áreas podem submeter proposta ao edital do FIT. São R$ 10 milhões destinados a esse fim. Por fim, o edital de apoio às micro e pequenas empresas (PAPPE) com recursos do tesouro e da FINEP no valor de R$ 15 milhões. Teremos demanda qualificada para tanto dinheiro? Logo saberemos, as propostas devem ser enviadas até dia18/10.