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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Como Reduzir a Taxa de Homicídios?

Essa foi a pergunta que uma jornalista do O Povo me fez semana passada. Ela fazia uma matéria sobre o crescimento da taxa de homicídios no Estado a partir da pesquisa do IBGE. Vale ressaltar que a princípio comentei-lhe que a pesquisa do IBGE mostrava dados de 2007 que já estão bem defasados. Embora ela estivesse surpresa que em 2007 a taxa de homicídios fosse maior em cerca de 50% a de 1997, dei-lhe uma notícia ainda pior: em 2010, somente três anos depois, a taxa de homicídio já era cerca de 40% maior do que 2007.

Bem, voltando à pergunta que é título desse post. Minha resposta foi breve: não sei. Sugeri que perguntasse ao Secretário de Segurança. Percebi sua  surpresa. Afinal, ligou-me por que acha que sou especialista. Não esperava tal resposta.

Fui gradativamente esclarecendo porque tinha respondido daquela forma. Qualquer resposta a essa pergunta exige conhecimento dos dados. E é exatamente este ponto que considero crítico. Onde estão os dados? De que tipo de homicídio estamos falando? Quais as causas dos mesmos? Violência policial? Pistolagem? Crime Passional? Latrocínio? Briga de Gangues? Grupos de extermínio? Enfim, expliquei-lhe que só há como definir uma política repressiva ou preventiva se se compreende detalhadamente os homicídios. Não basta saber que são os jovens homens os mais vitimados. É preciso ir além. Conhecer os mínimos detalhes, as motivações, as circunstâncias, o local.  E isso não se faz sem muita investigação e organização dos dados. A Secretaria de Segurança tem isso? Sugeri que a jornalista buscasse descobrir. Ousei dizer que se ela perguntasse isso ao Secretário a resposta seria: a culpa é das drogas. Incrível, como tudo que acontece hoje é causado pelas drogas. Não creio que isso seja o único diagnóstico aceitável. Tornou-se muito genérico e não é suficiente para compreender as razões reais e definir uma política consistente de redução da taxa de homicídio.

Deixem-me exemplificar o que digo. Um jovem envolvido com drogas faz um assalto em uma loja. Justiceiros contratados pelo lojista realizam “investigação particular” e acabam por matar o jovem (semelhança com a realidade ou mera ficção?). Qual a causa da morte? Drogas? Se quiserem dizer que sim, quem vai contestar? Mas combater as drogas nesse caso, reduzirá a taxa de homicídio? Evidente que não. Afinal, os justiceiros não vão parar de “zelar” pela segurança de seus clientes. E o próximo réu pode ser você por ter discutido com o lojista porque achou que o produto dele era de baixa qualidade.

Conclusão. Os especialistas não podem fazer muito porque os dados para o mais simples diagnóstico não estão disponíveis (talvez nem estejam organizados a ponto de serem acessados). Para finalizar. Digam-me se não tenho razões para crer que há mesmo um grande problema. Vejam a resposta que o Secretário deu à jornalista.

O secretário da Segurança Pública, Roberto Monteiro, aponta o aumento do tráfico de drogas, sobretudo o crack, como principal motivador. “Creio que a maioria é de pessoas que tenham antecedentes relacionado às drogas”, supõe.

terça-feira, 17 de março de 2009

Dados Oficiais e WikiCrimes

Uma das perguntas mais freqüentes que me fazem sobre WikiCrimes é se acredito que poderemos um dia ter uma base de dados com mais registros que as bases oficiais. Minha resposta é “não é isso que visa o projeto”. Não se trata de termos comparações em termos quantitativos. É claro que o cidadão se sente muito mais impelido a realizar um chamado ou queixa na própria Polícia do que em WikiCrimes. É ela quem deve tomar providências quanto ao fato, enquanto que WikiCrimes não vai poder resolver imediatamente seu problema. Lembro que por detrás do projeto há a idéia de solidariedade, pois a informação de que uma região é perigosa não é novidade àquele que denuncia, mas o é a outros que desconheciam essa informação. Por mais que sejamos altruístas, solidariedade não conseguirá competir com interesses individuais, né!? De qualquer forma, uma análise da validade das informações de WikiCrimes pode e deve ser feita por uma perspectiva qualitativa. Aí sim, diversas informações úteis, inclusive para as autoridades, podem ser extraídas. Por exemplo, este final de semana estive fazendo uma análise comparativa entre os dados oficiais de homicídio do CIOPS e os dados de WikiCrimes para a cidade de Fortaleza. Esse trabalho é parte de um projeto de pesquisa que desenvolvo na UNIFOR financiado pela FUNCAP. Para o ano de 2008, o CIOPS registrou cerca de 800 homicidios, mas destes somente 337 tinham o endereço georeferenciado. Endereço georeferenciado é quando o local está ligado a uma coordenada geográfica e assim pode ser marcado precisamente no mapa. Em WikiCrimes, em 2008 foram 572 homicídios registrados e obviamente todos eles são automaticamente georeferenciados (pois na hora do registro o usuário já faz o registro apontando o local no mapa). A conseqüência disso é que observar o mapa de homicídios a partir de WikiCrimes é mais informativo do que um mapa feito com as informações exclusivas do CIOPS. Vejam abaixo o mapa de manchas com homicídios acontecidos em Fortaleza em 2008. Somente esse fato já é um resultado significativo de WikiCrimes para a sociedade. Não me contento só com isso. Outras coisas virão.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Belchior

Depois do choque da notícia da morte de Belchior em uma tentativa de roubo deu-se uma terrível sensação de impotência frente à trágica situação que vivemos. Para mim em particular que tenho voltado meus esforços profissionais para contribuir com a Segurança Pública, tratou-se de uma enorme ducha de água fria. Só agora me sinto em condições de escrever algumas palavras. O que dizer de uma pessoa que tinha uma expressão tão singela? Em todos os momentos que convivemos ele sempre me ofereceu um olhar fraterno e cordial. Sabia defender suas posições com uma indescritível ternura que o fazia firme e reputado. Tratava-se daquele tipo de pessoa que você pode confortavelmente encher de elogios que nunca vai parecer exagerado. Mas nada como a humildade com que sabia viver a despeito da qualificação que possuía. E olhe que se tratava de qualificação com reconhecimento nacional e internacional. Para nós, professores e pesquisadores, o bem mais precioso é o conhecimento. E não é difícil nos embevecermos pela vaidade de saber, de dominar os assuntos, de se sentir inteligente. Numa época em que somos facilmente escravizados pela constante necessidade de sermos reconhecidos, Belchior era um exemplo de que esse reconhecimento pode se fazer calma e mansamente da mesma forma como ele falava. Sem arroubos, sem exageros. E o que é melhor: em concomitância com a aquisição do bem querer e do respeito. O carinho que seus alunos sempre lhe demonstraram comprova isso. Tenho constantemente em meu pensamento sua família, Fátima, Arnaldinho e, em particular Mairon, que faz parte de nosso grupo de pesquisa. E em função disso escrevo aqui. Não posso me furtar de dar o depoimento de que Belchior foi uma pessoa de quem eles podem e devem se orgulhar. Nós, como amigos, temos obrigação de lembrar isto sempre.